Hepatite C, genótipos e revolução dos DAAs
Hepatite C (VHC) — Hepacivirus C, RNA de fita simples positiva; família Flaviviridae:
- 71 milhões de infectados globalmente; 1-2 milhões de novas infecções/ano; 400.000 mortes/ano por cirrose e CHC (carcinoma hepatocelular)
- Brasil: ~1,5 milhões de pessoas com VHC (prevalência 0.7%); transmissão: principalmente parenteral (UDI, transfusão pré-1992, compartilhamento de agulhas)
- 75-85% evoluem para infecção crônica; 15-20% desenvolvem cirrose em 20-30 anos; 1-5%/ano com cirrose evoluem para CHC
7 genótipos de VHC (GT1-GT7):
- GT1 (1a e 1b): mais prevalente globalmente (46%) e no Brasil (subst. dos casos); 1a = América do Norte/Sul, Europa; 1b = Europa, Ásia
- GT2: 9% global; Brasil; resposta histórica boa ao interferon
- GT3: 22% global (Ásia do Sul, Europa Oriental); mais fibrogênico; resistência a alguns DAAs
- GT4: 13% (Oriente Médio, África central/norte)
- GT5, GT6, GT7: raros (< 5% cada; GT5 África do Sul, GT6 Ásia Oriental)
- Identificar o genótipo era CRÍTICO no tratamento baseado em interferon; com os pangenotypic DAAs (sofosbuvir + velpatasvir; glecaprevir/pibrentasvir), o genótipo não precisa mais ser determinado para tratar
Proteínas-alvo do VHC para DAAs:
- NS3/4A (protease serina): cliva a poliproteína viral → proteínas NS4A, NS4B, NS5A, NS5B; inibida por: simeprevir, paritaprevir, grazoprevir, glecaprevir, voxilaprevir — terminados em "-previr"
- NS5A (proteína de replicação viral): sem atividade enzimática conhecida, mas essencial para formação do complexo de replicação e produção de RNA; inibida por: ledipasvir, daclatasvir, elbasvir, velpatasvir, pibrentasvir — terminados em "-asvir"
- NS5B (RNA polimerase RNA-dependente, RdRp): copia o genoma de RNA do VHC; inibida por: sofosbuvir (análogo de nucleotídeo/pró-fármaco) e dasabuvir (não-nucleosídeo)
A revolução dos DAAs (2013-2016):
- Antes: interferon-alfa peguilado (Peg-IFN) + ribavirina × 24-48 semanas → resposta virológica sustentada (RVS) 40-80% dependendo do genótipo; múltiplos efeitos adversos (anemia, neutropenia, depressão, síndrome gripal, disfunção tireoidiana); muitos não toleravam
- Depois dos DAAs: RVS > 95% em todos os genótipos; 8-12 semanas de tratamento oral; mínimos efeitos adversos; sem interferon; cura funcional (RNA indetectável 12 semanas após terminar — RVS12 = cura)
Sofosbuvir, velpatasvir, ledipasvir e glecaprevir/pibrentasvir: os DAAs em uso
Sofosbuvir (SOF — Sovaldi® — Gilead):
- NS5B polymerase inhibitor (nucleotídeo): pró-fármaco (fosfamidato) de 2'-fluoro-2'-C-metil-uridina monofostato → ativado intracelularmente (trifosfato) → incorporado pelo NS5B como análogo de UTP → terminação de cadeia do RNA viral
- Por ser análogo de nucleotídeo, a barreira de resistência é MUITO ALTA (NS5B precisaria de mutação S282T → quase sem replicação viral; muito raro na prática)
- Amplo espectro: ativo em GT1-GT6 (sem atividade para GT3 reduzida com NS5A-i acompanhante menos ativo)
- Oral 400 mg/dia; excreção renal → contraindicado em DRC grave (eGFR <30 sem dado de segurança → usar glecaprevir/pibrentasvir em DRC)
Esquemas baseados em sofosbuvir:
SOF + Velpatasvir (NS5A-i) = Epclusa® (Gilead) — pangenotypic:
- 400/100 mg 1x/dia × 12 semanas → RVS12 >97% em GT1-6 (ASTRAL-1/2/3/4/5 trials)
- GT3 + cirrose ou falha prévia: adicionar ribavirina ou 24 semanas
- Pangenotypic: não precisa identificar genótipo antes de tratar
- Co-infectados HIV/HCV: mesmo esquema (cuidado com interações com alguns ARVs via P-gp/BCRP)
SOF + Velpatasvir + Voxilaprevir (NS3/4A-i) = Vosevi® (Gilead):
- Tripla combinação pangenotypic; 400/100/100 mg 1x/dia × 12 semanas
- Indicado para: falha prévia a DAA (incluindo falha de NS5A-i — adicionar inibidor de protease amplifica cobertura de mutações de resistência); GT3 com cirrose; GT1a com cirrose sem opção prévia
- RVS > 95% mesmo em falha de NS5A
SOF + Ledipasvir (NS5A-i) = Harvoni® (Gilead):
- GT1 (o genótipo mais comum nos EUA/Europa) e GT4, GT5, GT6; 90/400 mg 1x/dia × 8-12 semanas
- GT1 naive sem cirrose: 8 semanas suficientes (ION-3 trial: 8 sem = 12 sem em RVS, se CV < 6 milhões UI/mL)
- Não pangenotypic (GT2 e GT3: não indicado como 1ª escolha)
SOF + Daclatasvir (NS5A-i) = Sofosbuvir + Daklinza®:
- Combinação usada globalmente mas necessita de 2 comprimidos separados; disponível no SUS brasileiro; GT1-3; 400 mg SOF + 60 mg DAC 1x/dia × 12 semanas; daclatasvir tem mais interações que velpatasvir
Glecaprevir/Pibrentasvir (GLE/PIB — Mavyret® — AbbVie) — pangenotypic:
- NS3/4A (glecaprevir) + NS5A (pibrentasvir); 300/120 mg 1x/dia com alimento
- GT1-6, 8 semanas em naive sem cirrose (a mais curta APROVADA; ENDURANCE trials e EXPEDITION: 8 sem RVS 97-99%)
- GT1-6 com cirrose compensada: 12 semanas; falha de IFN (sem NS5A prévio): 8 semanas
- Cirrose descompensada: CONTRAINDICADO (metabolismo hepático de glecaprevir)
- Vantagem crítica: SEM excreção renal significativa → aprovado e seguro em DRC incluindo hemodiálise (sofosbuvir contraindicado em DRC → GLE/PIB = alternativa)
- Interações: inibidor de P-gp/BCRP → eleva outros substratos; rifampicina contraindicada (induz metabolismo de GLE); estatinas contraindicadas (atorvastatina, lovastatina, sinvastatina — risco de miopatia) → rosuvastatina em dose reduzida
Grazoprevir/Elbasvir = Zepatier® (Merck) — GT1 e GT4 somente; 100/50 mg 1x/dia × 12-16 semanas; seguro em DRC
RVS (Resposta Virológica Sustentada) = CURA:
- RVS12 (RNA indetectável 12 semanas após fim do tratamento): sinônimo funcional de cura
- O vírus não integra ao DNA humano (diferente do HIV) → eliminação do RNA replicante = erradicação viral real
- Após RVS: fibrose e cirrose podem regredir parcialmente; CHC: risco cai 71-75% mas persiste (cirróticos precisam screening semestral com ultrassom/AFP mesmo após cura)
- Re-infecção: cura não confere imunidade duradoura → re-exposição parenteral/sexual pode re-infectar
Tratamento no SUS brasileiro:
- Protocolo PCDT HCV (Ministério da Saúde 2023): SOF+VEL ou SOF+DCV financiados pelo SUS; GLE/PIB disponível para DRC e casos específicos
- Gratuidade: HCV é de notificação compulsória + tratamento gratuito no Brasil desde 2015 (DAAs integrados ao SUS)
- Meta: eliminação do HCV como problema de saúde pública até 2030 (OMS) — Brasil comprometido
Ribavirina (RBV) — análogo de nucleosídeo de guanosina; mecanismo complexo (depleta GTP intracelular + mutagênese do RNA viral); AINDA USADA em alguns casos com DAAs: GT3 + cirrose com SOF/VEL, falhas de DAA; principais efeitos: anemia hemolítica (dose-dependente), teratogênica, teratogênica (contracepção 6 meses pós-término)