Dopamina, receptores e mecanismo de ação dos antipsicóticos
Esquizofrenia — transtorno psicótico grave com: (1) sintomas positivos (alucinações, delírios, pensamento desorganizado, comportamento bizarro — mais responsivos a antipsicóticos); (2) sintomas negativos (embotamento afetivo, alogia, abulia, avolição, anedonia — menos responsivos); (3) déficits cognitivos (funções executivas, memória de trabalho, atenção — pouco responsivos a antipsicóticos). Prevalência: ~1% da população global; início em adultos jovens (18-25 anos em homens, 25-35 em mulheres).
Hipótese dopaminérgica da esquizofrenia:
- Excesso de transmissão dopaminérgica mesolímbica (via VTA → nucleus accumbens, córtex límbico) → sintomas positivos
- Hipofunção dopaminérgica mesocortical (via VTA → córtex pré-frontal) → sintomas negativos e cognitivos
- Hipofunção de glutamato/NMDA em interneurônios GABAérgicos → desinibição de dopamina mesolímbica → fundamenta o papel do glutamato na esquizofrenia
Vias dopaminérgicas e bloqueio D2:
- Via mesolímbica (VTA → límbico): excesso de D2 → psicose; bloqueio D2 = efeito antipsicótico
- Via mesocortical (VTA → PFC): hipofunção D2 já na esquizofrenia; bloqueio D2 adicional → piora sintomas negativos e cognitivos
- Via nigroestriatal (SN → estriado/putâmen): bloqueio D2 → sintomas extrapiramidais (SEP): parkinsonismo, acatisia, distonia aguda, discinesia tardia
- Via tuberoinfundibular (hipotálamo → hipófise): bloqueio D2 → inibição da inibição de prolactina → hiperprolactinemia → ginecomastia, galactorreia, amenorreia, disfunção sexual, osteoporose
Receptores-alvo dos antipsicóticos (além de D2):
- 5-HT2A (serotonina): bloqueio → reduz SEP (desinibição de dopamina na via nigroestriatal), melhora sintomas negativos e cognitivos marginalmente → mecanismo diferenciador dos AAPs
- H1 (histamina): bloqueio → sedação, ganho de peso, aumento do apetite
- α1 (noradrenérgico): bloqueio → hipotensão ortostática, tontura
- M1 (muscarínico): bloqueio → constipação, boca seca, retenção urinária, confusão em idosos, cicloplegia
- D3, D4: papel nos efeitos cognitivos e negativos; alvos de novas drogas
Antipsicóticos de 1ª Geração (APG1/FGAs — "típicos"):
- Haloperidol, clorpromazina, flufenazina, pimozida, trifluoperazina
- Alta afinidade D2, pouca ação em 5-HT2A → alta eficácia em sintomas positivos mas alto risco de SEP e hiperprolactinemia
- Potência de bloqueio D2 correlaciona com risco de SEP: haloperidol (alta potência) → mais SEP; clorpromazina (baixa potência) → menos SEP mas mais sedação/anticolinérgico
Antipsicóticos de 2ª Geração (AAPs/SGAs — "atípicos"):
- Clozapina, olanzapina, quetiapina, risperidona, paliperidona, aripiprazol, ziprasidona, asenapina, lurasidona, cariprazina, brexpiprazol
- D2 + 5-HT2A antagonismo ("5-HT2A > D2" ratio = chave do "atipicismo") → menos SEP, menos hiperprolactinemia (relativa); mais síndrome metabólica
- Clozapina e quetiapina: D2 "loose binding" (desacopla rapidamente) + alta afinidade 5-HT2A → praticamente zero SEP
Antipsicóticos de 2ª geração: clozapina, olanzapina, quetiapina, risperidona, aripiprazol e lurasidona
Clozapina (Leponex® — Novartis / genérico) — o "ouro" dos antipsicóticos:
- Mecanismo único: D1, D2 (baixa afinidade, dissociação rápida), D4, 5-HT2A/2C, H1, α1/2, M1-4, σ — perfil de ligação excepcionalmente amplo; D2 ocupação baixa (~60% vs 80-90% de outros AAPs)
- Indicações aprovadas:
1. Esquizofrenia refratária (falha a ≥2 antipsicóticos de dose adequada): Kane trial (1988) — clozapina superior ao clorpromazina em 30% de casos "refratários"; única droga com eficácia comprovada em refratários 2. Redução de risco suicida em esquizofrenia e TAB (único fármaco psiquiátrico com essa indicação; InterSePT trial)
- Dose: 12.5-25 mg/noite → aumentar 25-50 mg a cada 3-7 dias → 300-450 mg/dia (nível sérico alvo: 350-600 ng/mL); clearance muito variável (CYP1A2 extensamente — FUMO induz CYP1A2 → fumantes precisam de doses maiores; se parar de fumar → nível de clozapina sobe → toxicidade; cafeína inibe CYP1A2)
- Eficácia: superior a todos os outros antipsicóticos em sintomas positivos refratários; modesta melhora de negativos e cognitivos; reduz taxa de hospitalização e suicídio
- Efeitos adversos — LIMITAÇÕES CRÍTICAS:
- AGRANULOCITOSE (0.8% de incidência cumulativa em 1 ano; pico nas primeiras 18 semanas; mortalidade se não detectada precocemente): monitoramento hematológico OBRIGATÓRIO — hemograma semanal nas primeiras 26 semanas → quinzenal nas semanas 26-52 → mensal depois; NÃO dispensar clozapina sem confirmação do hemograma normal; ANC <1000/mm³ = agranulocitose → parar imediatamente e jamais reintroduzir; ANC 1000-1500 = neutropenia → parar temporariamente e monitorar diário - Miocardite e cardiomiopatia: risco de 1-2% nas primeiras 2-8 semanas → rastrear com troponina e CRP nas primeiras 4 semanas; palpitações/dispneia = alarme - Síncope e hipotensão ortostática: frequente (especialmente no início — α1 bloqueio) - Sedação excessiva (H1 alto) - Ganho de peso enorme (o pior entre os antipsicóticos: 4-6 kg nos primeiros meses) - Sialorreia (hipersalivação noturna — por agonismo M4 paradoxal e antagonismo α2): tratar com atropina gotas orais (1-2 gotas debaixo da língua à noite), pirenzepina - Crises epilépticas dose-dependentes (>600 mg/dia aumenta muito o risco): profilaxia com valproato se >600 mg/dia - Hiperglicemia, DM tipo 2 (independente do ganho de peso) - Constipação grave → íleo paralítico (M1 bloqueio) → morte reportada; laxativos profiláticos recomendados - Sem SEP clínico significativo (< 1% de discinesia tardia), sem elevação de prolactina clinicamente significativa — as 2 VANTAGENS
Olanzapina (Zyprexa® — Lilly / genérico):
- D2, 5-HT2A, H1, M1, α1 — perfil similar à clozapina mas sem risco de agranulocitose e sem monitoramento de hemograma necessário
- Eficaz em: esquizofrenia (equivalente a risperidona em eficácia global; CATIE trial — olanzapina ligeiramente superior em tempo até descontinuação), mania aguda (TAB tipo I — 1ª linha), manutenção bipolar, adjuvante em depressão bipolar (Symbyax® = olanzapina + fluoxetina)
- Dose: 5-20 mg/dia; IM para agitação psicótica aguda (10 mg IM — não combinar com benzodiazepínicos IM → risco de depressão respiratória)
- Síndrome metabólica (o pior entre os AAPs depois da clozapina): ganho de peso (5-9 kg em 1 ano), dislipidemia, DM tipo 2; monitorar glicemia, TG, circunferência abdominal; estratégia: iniciar metformina + dieta/exercício ao iniciar olanzapina
- Hiperprolactinemia menor que risperidona
Quetiapina (Seroquel® — AstraZeneca / genérico):
- D2 (baixa afinidade), 5-HT2A, H1, α1, α2, M1 (baixa); D2 "loose binding" → muito baixo SEP; muito baixa elevação de prolactina (quase zero)
- Formulação IR (2x/dia) e XR (1x/dia)
- Dose esquizofrenia: 150-750 mg/dia; mania: 400-800 mg/dia; depressão bipolar: 50-300 mg/dia; ansiedade/insônia (off-label, muito comum): 25-100 mg à noite — ATENÇÃO: uso off-label muito prevalente e controverso por sedação H1
- Único aprovado para DEPRESSÃO BIPOLAR (Seroquel® nas doses 50-300 mg — BOLDER I e II trials): eficaz como monoterapia para episódio depressivo bipolar (reduz MADRS em mais de 50%)
- Adjuvante em depressão unipolar resistente (off-label mas amplamente usado: 50-150 mg/noite adicionado ao antidepressivo)
- Efeitos adversos: sedação (muito marcante, especialmente nas doses baixas — por isso tantas prescrições off-label para insônia), ganho de peso (moderado), hipotensão ortostática, dislipidemia; CATARATA (monitoramento anual — lesão do cristalino de animais → rastreio oftalmológico recomendado); praticamente sem SEP e sem hiperprolactinemia (diferencial importante)
Risperidona (Risperdal® — Janssen / genérico) e Paliperidona (Invega® — Janssen):
- D2 (alta afinidade) + 5-HT2A + α1/2; paliperidona = 9-OH-risperidona (metabólito ativo da risperidona)
- SEP dose-dependente: abaixo de 6 mg/dia, SEP é menos que haloperidol; acima → SEP significativo
- HIPERPROLACTINEMIA: o pior entre os AAPs — bloqueia D2 tuberoinfundibular potentemente → prolactina muito elevada → amenorreia, galactorreia, ginecomastia, disfunção sexual, osteoporose a longo prazo; avisar pacientes e monitorar prolactina
- Formulação LA injetável: Risperdal Consta® IM q2 semanas; Invega Sustenna® (paliperidona palmitato) IM q4 semanas; Invega Trinza® q12 semanas → ADERÊNCIA: as formulações de longa ação (LAIs) são fundamentais para pacientes com baixa adesão (common em esquizofrenia)
- Dose: 2-8 mg/dia; crianças (autismo e irritabilidade pediátrica): 0.5-3 mg/dia (única indicação pediátrica aprovada no Brasil para AAP)
Aripiprazol (Abilify® — Otsuka/BMS / genérico):
- Mecanismo único: agonista parcial D2 (não antagonista puro!) + agonista parcial 5-HT1A + antagonista 5-HT2A; agonismo parcial D2 = atua como agonista quando há hipodopaminergia (córtex prefrontal) e como antagonista funcional quando há hiperdopaminergia (mesolímbico) → "estabilizador dopaminérgico"
- Sem bloqueio M1, sem bloqueio H1 significativo → sem sedação, sem ganho de peso significativo, sem hiperprolactinemia (pode até normalizar hiperprolactinemia de outro AAP quando adicionado)
- Efeitos adversos: acatisia (inquietação motora — efeito adverso mais comum, 8-20%; beta-bloqueador propranolol 20-80 mg/dia reduz); náusea, insônia (ativação — ao contrário da maioria dos AAPs que sedam); cefaleia
- Usos: esquizofrenia, mania aguda (TAB), manutenção bipolar, adjuvante em depressão unipolar resistente (2.5-15 mg/dia adicionado ao ISRS/ISRSN — aprovado FDA), autismo com irritabilidade, síndrome de Tourette, agitação aguda (IM 9.75 mg)
- LAI: Abilify Maintena® IM q4 semanas; Aristada® (aripiprazol lauroxil) IM q4-8 semanas
Lurasidona (Latuda® — Sumitomo/Sunovion):
- D2, 5-HT2A, 5-HT7 (antagonista, papel no cognição), 5-HT1A (agonista parcial), α2C
- Deve ser tomada com refeição ≥350 kcal (absorção aumenta 3x com alimento graxo — comer sem alimento = fração muito baixa de absorção → ineficácia ou necessidade de doses maiores)
- Aprovada para depressão bipolar (TAB tipo I e II, episódio depressivo) como monoterapia e adjuvante ao lítio/valproato
- Perfil metabólico favorável: mínimo ganho de peso, sem dislipidemia, sem hiperglicemia → preferida em pacientes com síndrome metabólica ou obesidade
- Melhora de cognição (antagonismo 5-HT7 melhora memória e aprendizado em modelos animais e alguns estudos clínicos)
- Efeitos adversos: acatisia (similar ao aripiprazol), sonolência, SEP leve (dose-dependente), náusea
Cariprazina (Vraylar® — AbbVie): agonista parcial D3/D2 (maior afinidade por D3 que aripiprazol) + agonista parcial 5-HT1A + antagonista 5-HT2A/2B; D3 no estriado ventral → papel nos sintomas negativos e cognitivos (estudos mostram melhora de negativos superior ao outros AAPs — RCT 2021, Nemeth 2017); aprovada nos EUA para esquizofrenia, mania/misto e depressão bipolar
Efeitos adversos de classe (AAPs em geral):
- Síndrome Metabólica (hierarquia de risco): clozapina = olanzapina > quetiapina > risperidona > asenapina > aripiprazol ≈ ziprasidona ≈ lurasidona; monitoramento obrigatório: peso/IMC, glicemia, TG, HDL, PA na baseline e aos 3, 6, 12 meses
- Síndrome neuroléptica maligna (SNM): emergência psiquiátrica — hiperpirexia, rigidez muscular "em cano de chumbo", instabilidade autonômica (taquicardia, PA lábil), rebaixamento do nível de consciência, CPK muito elevada (>1000); tratamento: suspender antipsicótico IMEDIATAMENTE, bromocriptina (2.5-5 mg 3x/dia — agonista dopaminérgico), dantrolene (relaxante muscular), suporte; mortalidade 5-20% se não tratada
- Discinesia tardia (TD): movimentos involuntários repetitivos (especialmente orofaciais — língua, lábios, face; também membros, tronco) após uso crônico de bloqueadores de D2 → upregulation de receptores D2 → hipersensibilidade dopaminérgica; risco cumulativo: 20-30% com APG1 após 5 anos; menor com AAPs; tratamento: valbenazina (Ingrezza®) e deutetrabenazina (Austedo®) — inibidores de VMAT2, aprovados especificamente para TD
Haloperidol e antipsicóticos de 1ª geração — usos contemporâneos e SEP
Haloperidol (Haldol® — Janssen / genérico):
- Butirofenona; bloqueio D2 muito potente (Ki ~1 nM) com pouco antagonismo 5-HT2A → "típico" clássico
- Dose oral: 2-20 mg/dia; IM: 5-10 mg (agitação aguda); IV hospitalar (off-label mas comum em UTI para delirium)
- LAI: Haldol Decanoato® IM q4 semanas (100-300 mg) → indicado para manutenção em pacientes com baixa adesão
- SEP alto: parkinsonismo (rigidez, tremor de repouso, bradicinesia, hipomimia — manejo: biperideno/trihexifenidil ou redução de dose), acatisia (15-40% — o mais angustiante; tratar com propranolol 20-80 mg/dia ou benzodiazepínico de curto prazo), distonia aguda (contrações involuntárias musculares, espasmo oculogírico — tratar com biperideno IM/IV 5 mg)
- Usos contemporâneos onde haloperidol ainda tem lugar:
1. Agitação aguda grave em urgência/PS (IM ou IV) 2. Delirium em UTI (IV em baixas doses — 0.5-2 mg; sem forte evidência de superiordiade sobre AAPs mas muito usado e familial) 3. Náusea e vômito (D2 na zona quimiorreceptora do gatilho = CTZ) — dose muito baixa: 0.5-1 mg IV/IM 4. Soluço intratável 5. Coreia de Huntington (D2 no estriado) 6. Tourette (quando aripiprazol/clonidina insuficientes) 7. Delirium pós-operatório prevenção (evidência limitada; HOPE trial 2018 — não superior ao placebo para prevenção de delirium em UCO)
- Prolongamento de QT: haloperidol prolonga QT (especialmente IV em altas doses) → risco de Torsades de Pointes; monitorar ECG e QTc; evitar combinação com outros QT-prolongadores
Síndrome extrapiramidal (SEP) — algoritmo de manejo:
- Parkinsonismo induzido por antipsicótico: reduzir dose ou trocar para AAP com menor risco (quetiapina, clozapina); adicionar anticolinérgico (biperideno 2 mg 2-3x/dia ou trihexifenidil 2-5 mg 2-3x/dia — atenção: anticolinérgicos pioram memória, constipação, glaucoma; não são a solução ideal a longo prazo)
- Acatisia: diagnóstico diferencial com agitação e ansiedade (crucial — "aumentar" o antipsicótico pioraria a acatisia); reduzir dose; propranolol 20-40 mg 2x/dia (melhor evidência); benzodiazepínico (clonazepam) curto prazo; mirtazapina 15 mg (bloqueio 5-HT2A = reduz acatisia); cyproheptadina
- Distonia aguda: mais comum em jovens, sexo masculino, primeiras doses de APG1; biperideno 5 mg IM/IV (alívio em 20 min); profilaxia: biperideno oral nas primeiras semanas de APG1 em grupos de risco
- Discinesia tardia: prevenção (usar menor dose eficaz, preferir AAPs, monitorar anualmente); tratamento: valbenazina ou deutetrabenazina (KINECT 3, ARM-TD trials); clonazepam, vitamina E (débil); clozapina pode melhorar TD