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← Blog·peptideos22 de junho de 2026· 14 min de leitura

Antipsicóticos (haloperidol, clozapina, quetiapina, risperidona, aripiprazol, lurasidona) — mecanismos, primeira vs segunda geração e usos em esquizofrenia e TAB

Antipsicóticos de 1ª geração (haloperidol) bloqueiam D2 — eficazes para psicose mas com muito SEP. 2ª geração (clozapina, quetiapina, risperidona, aripiprazol, lurasidona) combinam antagonismo D2 + 5-HT2A — menos SEP, mais síndrome metabólica. Clozapina é o único aprovado para esquizofrenia refratária e ideação suicida.

B
BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Dopamina, receptores e mecanismo de ação dos antipsicóticos

Esquizofrenia — transtorno psicótico grave com: (1) sintomas positivos (alucinações, delírios, pensamento desorganizado, comportamento bizarro — mais responsivos a antipsicóticos); (2) sintomas negativos (embotamento afetivo, alogia, abulia, avolição, anedonia — menos responsivos); (3) déficits cognitivos (funções executivas, memória de trabalho, atenção — pouco responsivos a antipsicóticos). Prevalência: ~1% da população global; início em adultos jovens (18-25 anos em homens, 25-35 em mulheres).

Hipótese dopaminérgica da esquizofrenia:

  • Excesso de transmissão dopaminérgica mesolímbica (via VTA → nucleus accumbens, córtex límbico) → sintomas positivos
  • Hipofunção dopaminérgica mesocortical (via VTA → córtex pré-frontal) → sintomas negativos e cognitivos
  • Hipofunção de glutamato/NMDA em interneurônios GABAérgicos → desinibição de dopamina mesolímbica → fundamenta o papel do glutamato na esquizofrenia

Vias dopaminérgicas e bloqueio D2:

  • Via mesolímbica (VTA → límbico): excesso de D2 → psicose; bloqueio D2 = efeito antipsicótico
  • Via mesocortical (VTA → PFC): hipofunção D2 já na esquizofrenia; bloqueio D2 adicional → piora sintomas negativos e cognitivos
  • Via nigroestriatal (SN → estriado/putâmen): bloqueio D2 → sintomas extrapiramidais (SEP): parkinsonismo, acatisia, distonia aguda, discinesia tardia
  • Via tuberoinfundibular (hipotálamo → hipófise): bloqueio D2 → inibição da inibição de prolactina → hiperprolactinemia → ginecomastia, galactorreia, amenorreia, disfunção sexual, osteoporose

Receptores-alvo dos antipsicóticos (além de D2):

  • 5-HT2A (serotonina): bloqueio → reduz SEP (desinibição de dopamina na via nigroestriatal), melhora sintomas negativos e cognitivos marginalmente → mecanismo diferenciador dos AAPs
  • H1 (histamina): bloqueio → sedação, ganho de peso, aumento do apetite
  • α1 (noradrenérgico): bloqueio → hipotensão ortostática, tontura
  • M1 (muscarínico): bloqueio → constipação, boca seca, retenção urinária, confusão em idosos, cicloplegia
  • D3, D4: papel nos efeitos cognitivos e negativos; alvos de novas drogas

Antipsicóticos de 1ª Geração (APG1/FGAs — "típicos"):

  • Haloperidol, clorpromazina, flufenazina, pimozida, trifluoperazina
  • Alta afinidade D2, pouca ação em 5-HT2A → alta eficácia em sintomas positivos mas alto risco de SEP e hiperprolactinemia
  • Potência de bloqueio D2 correlaciona com risco de SEP: haloperidol (alta potência) → mais SEP; clorpromazina (baixa potência) → menos SEP mas mais sedação/anticolinérgico

Antipsicóticos de 2ª Geração (AAPs/SGAs — "atípicos"):

  • Clozapina, olanzapina, quetiapina, risperidona, paliperidona, aripiprazol, ziprasidona, asenapina, lurasidona, cariprazina, brexpiprazol
  • D2 + 5-HT2A antagonismo ("5-HT2A > D2" ratio = chave do "atipicismo") → menos SEP, menos hiperprolactinemia (relativa); mais síndrome metabólica
  • Clozapina e quetiapina: D2 "loose binding" (desacopla rapidamente) + alta afinidade 5-HT2A → praticamente zero SEP

Antipsicóticos de 2ª geração: clozapina, olanzapina, quetiapina, risperidona, aripiprazol e lurasidona

Clozapina (Leponex® — Novartis / genérico) — o "ouro" dos antipsicóticos:

  • Mecanismo único: D1, D2 (baixa afinidade, dissociação rápida), D4, 5-HT2A/2C, H1, α1/2, M1-4, σ — perfil de ligação excepcionalmente amplo; D2 ocupação baixa (~60% vs 80-90% de outros AAPs)
  • Indicações aprovadas:

1. Esquizofrenia refratária (falha a ≥2 antipsicóticos de dose adequada): Kane trial (1988) — clozapina superior ao clorpromazina em 30% de casos "refratários"; única droga com eficácia comprovada em refratários 2. Redução de risco suicida em esquizofrenia e TAB (único fármaco psiquiátrico com essa indicação; InterSePT trial)

  • Dose: 12.5-25 mg/noite → aumentar 25-50 mg a cada 3-7 dias → 300-450 mg/dia (nível sérico alvo: 350-600 ng/mL); clearance muito variável (CYP1A2 extensamente — FUMO induz CYP1A2 → fumantes precisam de doses maiores; se parar de fumar → nível de clozapina sobe → toxicidade; cafeína inibe CYP1A2)
  • Eficácia: superior a todos os outros antipsicóticos em sintomas positivos refratários; modesta melhora de negativos e cognitivos; reduz taxa de hospitalização e suicídio
  • Efeitos adversos — LIMITAÇÕES CRÍTICAS:

- AGRANULOCITOSE (0.8% de incidência cumulativa em 1 ano; pico nas primeiras 18 semanas; mortalidade se não detectada precocemente): monitoramento hematológico OBRIGATÓRIO — hemograma semanal nas primeiras 26 semanas → quinzenal nas semanas 26-52 → mensal depois; NÃO dispensar clozapina sem confirmação do hemograma normal; ANC <1000/mm³ = agranulocitose → parar imediatamente e jamais reintroduzir; ANC 1000-1500 = neutropenia → parar temporariamente e monitorar diário - Miocardite e cardiomiopatia: risco de 1-2% nas primeiras 2-8 semanas → rastrear com troponina e CRP nas primeiras 4 semanas; palpitações/dispneia = alarme - Síncope e hipotensão ortostática: frequente (especialmente no início — α1 bloqueio) - Sedação excessiva (H1 alto) - Ganho de peso enorme (o pior entre os antipsicóticos: 4-6 kg nos primeiros meses) - Sialorreia (hipersalivação noturna — por agonismo M4 paradoxal e antagonismo α2): tratar com atropina gotas orais (1-2 gotas debaixo da língua à noite), pirenzepina - Crises epilépticas dose-dependentes (>600 mg/dia aumenta muito o risco): profilaxia com valproato se >600 mg/dia - Hiperglicemia, DM tipo 2 (independente do ganho de peso) - Constipação grave → íleo paralítico (M1 bloqueio) → morte reportada; laxativos profiláticos recomendados - Sem SEP clínico significativo (< 1% de discinesia tardia), sem elevação de prolactina clinicamente significativa — as 2 VANTAGENS

Olanzapina (Zyprexa® — Lilly / genérico):

  • D2, 5-HT2A, H1, M1, α1 — perfil similar à clozapina mas sem risco de agranulocitose e sem monitoramento de hemograma necessário
  • Eficaz em: esquizofrenia (equivalente a risperidona em eficácia global; CATIE trial — olanzapina ligeiramente superior em tempo até descontinuação), mania aguda (TAB tipo I — 1ª linha), manutenção bipolar, adjuvante em depressão bipolar (Symbyax® = olanzapina + fluoxetina)
  • Dose: 5-20 mg/dia; IM para agitação psicótica aguda (10 mg IM — não combinar com benzodiazepínicos IM → risco de depressão respiratória)
  • Síndrome metabólica (o pior entre os AAPs depois da clozapina): ganho de peso (5-9 kg em 1 ano), dislipidemia, DM tipo 2; monitorar glicemia, TG, circunferência abdominal; estratégia: iniciar metformina + dieta/exercício ao iniciar olanzapina
  • Hiperprolactinemia menor que risperidona

Quetiapina (Seroquel® — AstraZeneca / genérico):

  • D2 (baixa afinidade), 5-HT2A, H1, α1, α2, M1 (baixa); D2 "loose binding" → muito baixo SEP; muito baixa elevação de prolactina (quase zero)
  • Formulação IR (2x/dia) e XR (1x/dia)
  • Dose esquizofrenia: 150-750 mg/dia; mania: 400-800 mg/dia; depressão bipolar: 50-300 mg/dia; ansiedade/insônia (off-label, muito comum): 25-100 mg à noite — ATENÇÃO: uso off-label muito prevalente e controverso por sedação H1
  • Único aprovado para DEPRESSÃO BIPOLAR (Seroquel® nas doses 50-300 mg — BOLDER I e II trials): eficaz como monoterapia para episódio depressivo bipolar (reduz MADRS em mais de 50%)
  • Adjuvante em depressão unipolar resistente (off-label mas amplamente usado: 50-150 mg/noite adicionado ao antidepressivo)
  • Efeitos adversos: sedação (muito marcante, especialmente nas doses baixas — por isso tantas prescrições off-label para insônia), ganho de peso (moderado), hipotensão ortostática, dislipidemia; CATARATA (monitoramento anual — lesão do cristalino de animais → rastreio oftalmológico recomendado); praticamente sem SEP e sem hiperprolactinemia (diferencial importante)

Risperidona (Risperdal® — Janssen / genérico) e Paliperidona (Invega® — Janssen):

  • D2 (alta afinidade) + 5-HT2A + α1/2; paliperidona = 9-OH-risperidona (metabólito ativo da risperidona)
  • SEP dose-dependente: abaixo de 6 mg/dia, SEP é menos que haloperidol; acima → SEP significativo
  • HIPERPROLACTINEMIA: o pior entre os AAPs — bloqueia D2 tuberoinfundibular potentemente → prolactina muito elevada → amenorreia, galactorreia, ginecomastia, disfunção sexual, osteoporose a longo prazo; avisar pacientes e monitorar prolactina
  • Formulação LA injetável: Risperdal Consta® IM q2 semanas; Invega Sustenna® (paliperidona palmitato) IM q4 semanas; Invega Trinza® q12 semanas → ADERÊNCIA: as formulações de longa ação (LAIs) são fundamentais para pacientes com baixa adesão (common em esquizofrenia)
  • Dose: 2-8 mg/dia; crianças (autismo e irritabilidade pediátrica): 0.5-3 mg/dia (única indicação pediátrica aprovada no Brasil para AAP)

Aripiprazol (Abilify® — Otsuka/BMS / genérico):

  • Mecanismo único: agonista parcial D2 (não antagonista puro!) + agonista parcial 5-HT1A + antagonista 5-HT2A; agonismo parcial D2 = atua como agonista quando há hipodopaminergia (córtex prefrontal) e como antagonista funcional quando há hiperdopaminergia (mesolímbico) → "estabilizador dopaminérgico"
  • Sem bloqueio M1, sem bloqueio H1 significativo → sem sedação, sem ganho de peso significativo, sem hiperprolactinemia (pode até normalizar hiperprolactinemia de outro AAP quando adicionado)
  • Efeitos adversos: acatisia (inquietação motora — efeito adverso mais comum, 8-20%; beta-bloqueador propranolol 20-80 mg/dia reduz); náusea, insônia (ativação — ao contrário da maioria dos AAPs que sedam); cefaleia
  • Usos: esquizofrenia, mania aguda (TAB), manutenção bipolar, adjuvante em depressão unipolar resistente (2.5-15 mg/dia adicionado ao ISRS/ISRSN — aprovado FDA), autismo com irritabilidade, síndrome de Tourette, agitação aguda (IM 9.75 mg)
  • LAI: Abilify Maintena® IM q4 semanas; Aristada® (aripiprazol lauroxil) IM q4-8 semanas

Lurasidona (Latuda® — Sumitomo/Sunovion):

  • D2, 5-HT2A, 5-HT7 (antagonista, papel no cognição), 5-HT1A (agonista parcial), α2C
  • Deve ser tomada com refeição ≥350 kcal (absorção aumenta 3x com alimento graxo — comer sem alimento = fração muito baixa de absorção → ineficácia ou necessidade de doses maiores)
  • Aprovada para depressão bipolar (TAB tipo I e II, episódio depressivo) como monoterapia e adjuvante ao lítio/valproato
  • Perfil metabólico favorável: mínimo ganho de peso, sem dislipidemia, sem hiperglicemia → preferida em pacientes com síndrome metabólica ou obesidade
  • Melhora de cognição (antagonismo 5-HT7 melhora memória e aprendizado em modelos animais e alguns estudos clínicos)
  • Efeitos adversos: acatisia (similar ao aripiprazol), sonolência, SEP leve (dose-dependente), náusea

Cariprazina (Vraylar® — AbbVie): agonista parcial D3/D2 (maior afinidade por D3 que aripiprazol) + agonista parcial 5-HT1A + antagonista 5-HT2A/2B; D3 no estriado ventral → papel nos sintomas negativos e cognitivos (estudos mostram melhora de negativos superior ao outros AAPs — RCT 2021, Nemeth 2017); aprovada nos EUA para esquizofrenia, mania/misto e depressão bipolar

Efeitos adversos de classe (AAPs em geral):

  • Síndrome Metabólica (hierarquia de risco): clozapina = olanzapina > quetiapina > risperidona > asenapina > aripiprazol ≈ ziprasidona ≈ lurasidona; monitoramento obrigatório: peso/IMC, glicemia, TG, HDL, PA na baseline e aos 3, 6, 12 meses
  • Síndrome neuroléptica maligna (SNM): emergência psiquiátrica — hiperpirexia, rigidez muscular "em cano de chumbo", instabilidade autonômica (taquicardia, PA lábil), rebaixamento do nível de consciência, CPK muito elevada (>1000); tratamento: suspender antipsicótico IMEDIATAMENTE, bromocriptina (2.5-5 mg 3x/dia — agonista dopaminérgico), dantrolene (relaxante muscular), suporte; mortalidade 5-20% se não tratada
  • Discinesia tardia (TD): movimentos involuntários repetitivos (especialmente orofaciais — língua, lábios, face; também membros, tronco) após uso crônico de bloqueadores de D2 → upregulation de receptores D2 → hipersensibilidade dopaminérgica; risco cumulativo: 20-30% com APG1 após 5 anos; menor com AAPs; tratamento: valbenazina (Ingrezza®) e deutetrabenazina (Austedo®) — inibidores de VMAT2, aprovados especificamente para TD

Haloperidol e antipsicóticos de 1ª geração — usos contemporâneos e SEP

Haloperidol (Haldol® — Janssen / genérico):

  • Butirofenona; bloqueio D2 muito potente (Ki ~1 nM) com pouco antagonismo 5-HT2A → "típico" clássico
  • Dose oral: 2-20 mg/dia; IM: 5-10 mg (agitação aguda); IV hospitalar (off-label mas comum em UTI para delirium)
  • LAI: Haldol Decanoato® IM q4 semanas (100-300 mg) → indicado para manutenção em pacientes com baixa adesão
  • SEP alto: parkinsonismo (rigidez, tremor de repouso, bradicinesia, hipomimia — manejo: biperideno/trihexifenidil ou redução de dose), acatisia (15-40% — o mais angustiante; tratar com propranolol 20-80 mg/dia ou benzodiazepínico de curto prazo), distonia aguda (contrações involuntárias musculares, espasmo oculogírico — tratar com biperideno IM/IV 5 mg)
  • Usos contemporâneos onde haloperidol ainda tem lugar:

1. Agitação aguda grave em urgência/PS (IM ou IV) 2. Delirium em UTI (IV em baixas doses — 0.5-2 mg; sem forte evidência de superiordiade sobre AAPs mas muito usado e familial) 3. Náusea e vômito (D2 na zona quimiorreceptora do gatilho = CTZ) — dose muito baixa: 0.5-1 mg IV/IM 4. Soluço intratável 5. Coreia de Huntington (D2 no estriado) 6. Tourette (quando aripiprazol/clonidina insuficientes) 7. Delirium pós-operatório prevenção (evidência limitada; HOPE trial 2018 — não superior ao placebo para prevenção de delirium em UCO)

  • Prolongamento de QT: haloperidol prolonga QT (especialmente IV em altas doses) → risco de Torsades de Pointes; monitorar ECG e QTc; evitar combinação com outros QT-prolongadores

Síndrome extrapiramidal (SEP) — algoritmo de manejo:

  1. Parkinsonismo induzido por antipsicótico: reduzir dose ou trocar para AAP com menor risco (quetiapina, clozapina); adicionar anticolinérgico (biperideno 2 mg 2-3x/dia ou trihexifenidil 2-5 mg 2-3x/dia — atenção: anticolinérgicos pioram memória, constipação, glaucoma; não são a solução ideal a longo prazo)
  2. Acatisia: diagnóstico diferencial com agitação e ansiedade (crucial — "aumentar" o antipsicótico pioraria a acatisia); reduzir dose; propranolol 20-40 mg 2x/dia (melhor evidência); benzodiazepínico (clonazepam) curto prazo; mirtazapina 15 mg (bloqueio 5-HT2A = reduz acatisia); cyproheptadina
  3. Distonia aguda: mais comum em jovens, sexo masculino, primeiras doses de APG1; biperideno 5 mg IM/IV (alívio em 20 min); profilaxia: biperideno oral nas primeiras semanas de APG1 em grupos de risco
  4. Discinesia tardia: prevenção (usar menor dose eficaz, preferir AAPs, monitorar anualmente); tratamento: valbenazina ou deutetrabenazina (KINECT 3, ARM-TD trials); clonazepam, vitamina E (débil); clozapina pode melhorar TD

Perguntas frequentes sobre antipsicóticos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Antipsicótico deixa a pessoa 'dopada' para sempre? Causa danos cerebrais?+

O medo de 'ficar dopado' é uma das maiores barreiras à adesão ao tratamento antipsicótico — e é compreensível, pois sedação é um efeito adverso real (especialmente com quetiapina, olanzapina e clozapina). Porém, nem todos os antipsicóticos sedatam igualmente: aripiprazol e lurasidona são ativadores (podem causar insônia e agitação, o oposto de sedação); ziprasidona e cariprazina têm perfil intermediário. A sedação geralmente diminui após as primeiras semanas à medida que o organismo se adapta. Sobre 'danos cerebrais': a evidência mostra o oposto — a esquizofrenia não tratada está associada a perda volumétrica de substância cinzenta cerebral e piora funcional progressiva; os antipsicóticos, ao controlarem a psicose ativa, provavelmente preservam a função cerebral. Estudos de neuroimagem (meta-análises de Ho 2011 e Vita 2015) mostram que há alguma redução de volume de substância cinzenta em usuários crônicos de antipsicóticos, mas os estudos não controlam para severidade da doença e outros fatores — e a psicose ativa em si causa atrofia. O risco de não tratar (hospitalizações repetidas, violência, suicídio, desemprego, isolamento social) supera em muito os riscos dos antipsicóticos modernos utilizados nas doses adequadas.

Por que a clozapina não é usada como primeiro antipsicótico se é o mais eficaz?+

A clozapina é o antipsicótico mais eficaz para esquizofrenia refratária, mas seu perfil de segurança torna seu uso de 1ª linha injustificável para a maioria dos pacientes. O principal risco é agranulocitose (0.8% de incidência cumulativa no 1º ano) — potencialmente fatal se não detectada a tempo. Por isso, a clozapina exige monitoramento semanal/quinzenal de hemograma (protocolo de farmacovigilância obrigatório), o que impõe carga logística e financeira ao paciente e ao sistema de saúde, e limita o uso em locais com acesso irregular a laboratório. Além disso: ganho de peso extremo (4-6 kg nos primeiros meses), miocardite (1-2%), sialorreia, crises epilépticas em doses altas, hipotensão, constipação grave com risco de íleo — tornam necessário monitoramento intensivo. A recomendação atual (APA, NICE) é que todo paciente com esquizofrenia que não responde a 2 antipsicóticos adequados (dose/duração suficiente) DEVE ser avaliado para clozapina — o atraso médio para início de clozapina é de 4-7 anos após diagnóstico, o que representa uma lacuna de tratamento importante.

O que é acatisia e por que é tão difícil de reconhecer?+

Acatisia é um dos efeitos adversos mais incapacitantes dos antipsicóticos e é cronicamente subdiagnosticada. É uma sensação de inquietação interna insuportável — compulsão de ficar em movimento, incapacidade de sentar quieto, necessidade de caminhar ou mexer as pernas. Prevalência: 15-40% com APG1 (haloperidol alto); 5-15% com AAPs. O diagnóstico difícil ocorre porque: (1) O paciente pode não conseguir verbalizar ('sinto que quero sair da pele', 'estou com ansiedade muito intensa'); (2) Médico confunde com piora da ansiedade ou da agitação psicótica → aumenta a dose do antipsicótico → PIORA a acatisia (erro médico frequente); (3) Confusão com síndrome das pernas inquietas; (4) Em pacientes pouco comunicativos (psicose, demência), manifesta-se como agitação comportamental. Consequências: a acatisia grave é apontada como fator contribuinte para violência (raramente), suicídio (mais frequentemente) e abandono do tratamento. Tratamento: propranolol 20-40 mg 2x/dia (melhor evidência); benzodiazepínico curto prazo; mirtazapina 15 mg; redução de dose ou troca para AAP com menor risco (quetiapina, clozapina). A escala de Barnes (BARS) é o instrumento padronizado para avaliar acatisia.

Posso usar quetiapina para dormir? Por que médicos prescrevem isso?+

Quetiapina em baixas doses (25-100 mg à noite) é um dos fármacos mais prescritos off-label para insônia — especialmente em psiquiatria (insônia associada a ansiedade, depressão, PTSD, abstinência de substâncias). O mecanismo é o bloqueio H1 (histamina) + α1 em doses baixas — sedação marcante sem a atividade antipsicótica significativa (D2 ocupação é baixa em 25-50 mg). A questão é: funciona para induzir o sono, mas há problemas: (1) Síndrome metabólica em uso crônico — mesmo doses baixas podem contribuir para ganho de peso; (2) Sedação residual diária (ressaca); (3) Hipotensão ortostática em idosos = risco de quedas; (4) Sem evidência de qualidade para insônia primária (os estudos de quetiapina para insônia são em pacientes com comorbidade psiquiátrica); (5) Risco de discinesia tardia com uso crônico mesmo em doses baixas (raro mas documentado); (6) Custo (antes do genérico, era extremamente caro). A prescrição de quetiapina para insônia é compreensível como manobra de curto prazo em contextos específicos, mas não deve ser a solução de longo prazo. Alternativas baseadas em evidência para insônia: terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I = gold standard), melatonina, lemborexant/suvorexant (antagonistas orexina — aprovados para insônia), doxepina baixa dose (3-6 mg).

Referências Científicas

  1. Lieberman JA, Stroup TS, McEvoy JP, et al. (CATIE trial — comparative effectiveness) Effectiveness of Antipsychotic Drugs in Patients with Chronic Schizophrenia (CATIE). N Engl J Med, 2005.
  2. Kane J, Honigfeld G, Singer J, Meltzer H. (clozapine in refractory schizophrenia) Clozapine for the treatment-resistant schizophrenic: a double-blind comparison with chlorpromazine. Arch Gen Psychiatry, 1988.
  3. Citrome L. (lurasidona review — efficacy and metabolic profile) Lurasidone in schizophrenia: new information about dosage and place in therapy. Adv Ther, 2012.
  4. Correll CU, Leucht S, Kane JM. (Lower risk for tardive dyskinesia — SGA meta-analysis) Lower risk for tardive dyskinesia associated with second-generation antipsychotics: a systematic review of 1-year studies. Am J Psychiatry, 2004.
  5. Leucht S, Cipriani A, Spineli L, et al. (meta-analysis — comparative efficacy antipsychotics) Comparative efficacy and tolerability of 15 antipsychotic drugs in schizophrenia: a multiple-treatments meta-analysis. Lancet, 2013.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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