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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 12 min de leitura

Antiagregantes plaquetários: aspirina, clopidogrel, ticagrelor e inibidores de GP IIb/IIIa no IAM e AVC

Plaquetas são cruciais na hemostasia primária e trombose arterial. Aspirina inibe COX-1/TXA₂ irreversivelmente. Clopidogrel e ticagrelor bloqueiam P2Y12 (ADP). Inibidores de GP IIb/IIIa (abciximab, tirofiban) bloqueiam a via final da agregação. Dupla antiagregação é padrão pós-SCA e stent.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Fisiologia plaquetária e hemostasia primária

Plaquetas — fragmentos celulares anucleados (150.000-400.000/μL), derivados de megacariócitos na medula óssea; meia-vida ~10 dias:

Ativação plaquetária — sequência após lesão vascular:

  1. Adesão: colágeno subendotelial exposto → vWF (Fator de von Willebrand) media adesão via GPIb-IX-V → GPIa/IIa; GPIb é o receptor de vWF → mutação = Síndrome de Bernard-Soulier
  2. Ativação (inside-out signaling): colágeno → GPVI → PLCγ → DAG+IP3 → PKC + Ca²⁺ → grânulos α (fator de vWF, fibrinogênio, FV) e densos (ADP, serotonina, Ca²⁺) → exocitose
  3. Amplificação: ADP liberado → receptor P2Y₁ (Gq, transiente) e P2Y₁₂ (Gi, sustentado — ↓ cAMP) → ativação plena; Trombina → PAR-1 e PAR-4 → Gq → ativação; TXA₂ (via COX-1) → TP receptor → Gq → amplificação
  4. Agregação: ativação inside-out → conformação de GPIIb/IIIa (αIIbβ3 integrina) → ligação de fibrinogênio (bivalente) → ponte entre plaquetas → tampão plaquetário; GPIIb/IIIa = via final comum de agregação
  5. Coagulação (hemostasia secundária): superfície plaquetária ativada (fosfolípides com PS negativos externalizados) catalisa complexos de coagulação (tenase, protrombinase) → trombina local → fibrina → coágulo estável

Regulação anti-trombótica endotelial:

  • PGI₂ (Prostaciclina): endotélio → COX-1/2 → TXA₂ sintetase é inferior; PGI₂ sintase → PGI₂ → IP receptor nas plaquetas → Gs → ↑ cAMP → PKA → inibe ativação plaquetária
  • NO: eNOS → NO → GC → cGMP → PKG → inibe ativação plaquetária
  • CD39/ATPDase: endotélio → degrada ADP (pró-plaquetário) → AMP (inativo)

Trombopoetina (TPO):

  • Hormônio hepático que regula a produção de plaquetas → receptor MPL em megacariócitos
  • Agonistas de TPO: Romiplostim (Nplate®) e Eltrombopag (Revolade®) → tratamento de PTI (purpura trombocitopênica imune) refratária

Aspirina: inibidor irreversível de COX-1 e TXA₂

Aspirina (Ácido Acetilsalicílico — AAS) — o antiagregante mais usado no mundo:

Mecanismo antiplaquetário:

  • Acetila irreversivelmente o resíduo Ser530 da COX-1 (e COX-2 em menor grau) → bloqueia síntese de TXA₂ (via COX-1/TXA₂ sintase em plaquetas) → menos TP receptor ativado → menos amplificação da agregação
  • Irreversível em plaquetas (anucleadas — não sintetizam nova COX) → duração do efeito = vida útil da plaqueta (~7-10 dias)
  • Recuperação da função plaquetária: 10% de novas plaquetas/dia → 3-5 dias para recuperação parcial hemostática

Dosagem para antiagregação:

  • 75-100 mg/dia (baixa dose): inibe COX-1 plaquetária ≥95% com mínimo efeito na PGI₂ endotelial (endotélio repõe COX-2 rapidamente)
  • Doses >325 mg: inibem também COX-2 endotelial → menos PGI₂ → potencialmente menos proteção cardiovascular + mais GI
  • Carga: 162-325 mg mastigada no IAM (absorção rápida)

Indicações baseadas em evidência:

  • Prevenção secundária de eventos CV (pós-IAM, pós-AVC isquêmico, pós-SCA, DAC estabelecida): redução de ~25% de MACE
  • Síndrome coronariana aguda (SCA): associada ao P2Y12
  • Prevenção de pré-eclâmpsia: AAS 150 mg/dia 12-16 semanas → 24-28 semanas em alto risco
  • Prevenção primária: NÃO recomendada rotineiramente (benefício marginal = risco de sangramento GI em quem não tem DCV estabelecida) — exceção: DM tipo 1 com risco alto

Resistência à aspirina:

  • 5-45% (heterogênea na definição) — adesão incorreta, interação com ibuprofeno (ibuprofeno bloqueia reversivamente COX-1 mas compete com AAS pelo sítio de acetilação → se tomado antes da AAS, pode impedir a acetilação), polimorfismos de COX-1/TXA₂ sintase, vias alternativas de TXA₂ (via COX-2 em plaquetas jovens recrutadas)

Inibidores de P2Y12: clopidogrel, ticagrelor e prasugrel

Receptor P2Y12 — receptor de ADP acoplado a Gi nas plaquetas → inibe adenilil ciclase → ↓ cAMP → amplifica ativação e agregação; bloqueio = reduz amplificação de agregação

Tienopiridinas (inibidores irreversíveis de P2Y12):

Clopidogrel (Plavix® — Sanofi/BMS):

  • Pró-droga → CYP2C19 (e CYP1A2, 3A4) → tiol-metabolito ativo → alquila irreversivelmente C6 do P2Y12
  • Pico de inibição: ~6h após dose de carga 600 mg (padrão de pré-PCI) ou 300 mg
  • Variabilidade: polimorfismo CYP2C19 *2, *3 → metabolizadores lentos (~25-30% da população) → menos metabolito ativo → menor inibição plaquetária → maior risco de eventos pós-stent (FDA Black Box 2010)
  • CYP2C19 *17: metabolizadores ultrarrápidos → mais sangramento
  • Interações: inibidores de CYP2C19 (omeprazol, lansoprazol, fluconazol) → reduzem ativação → usar pantoprazol ou rabeprazol quando precisa de IBP com clopidogrel

Prasugrel (Effient® — Eli Lilly/Daiichi Sankyo):

  • Tienopiridina de 3ª geração — ativação mais eficiente e menos dependente de CYP2C19 → maior inibição plaquetária mais consistente
  • 60 mg de carga + 10 mg/dia; TRITON-TIMI 38: prasugrel > clopidogrel em SCA + PCI (menos IAM recorrente, menos trombose de stent) mas mais sangramento fatal/maior
  • Contraindicado: AVC/AIT prévio (risco elevado de hemorragia intracraniana), >75 anos (exceto diabéticos/infartados recentes), <60 kg (dose 5 mg)

Inibidores reversíveis de P2Y12:

Ticagrelor (Brilinta® / Brilique® — AstraZeneca):

  • Ciclopentiltriazolopirimidina — inibidor direto, não necessita ativação metabólica
  • Liga-se ao P2Y12 reversível (mas dissociação lenta → meia-vida ~12h → 2x/dia)
  • PLATO trial: ticagrelor 90 mg 2x/dia > clopidogrel em SCA (redução de mortalidade CV, IAM, AVC) SEM aumento de sangramento maior total (mas mais sangramento não-CABG)
  • Efeitos adversos: dispneia (20% — mecanismo: acúmulo de adenosina via inibição de ENT-1 + bloqueio de P2Y12 em células não-plaquetárias) — autolimitada, sem alteração de função pulmonar; bradicardia sinusal (via adenosina)
  • Cangrelor: inibidor IV de P2Y12 (meia-vida ~3-5 min) → para uso periprocedural em PCI quando transição oral não possível

DAPT — Dupla Antiagregação Plaquetária:

  • AAS + P2Y12 inibidor: padrão em SCA (pelo menos 12 meses) e pós-stent (pelo menos 6-12 meses de stent farmacológico)
  • Risco de sangramento vs. benefício trombótico → calibrar pela escala PRECISE-DAPT e outros

Inibidores de GP IIb/IIIa e outros antiagregantes

GP IIb/IIIa (αIIbβ3 integrina) — via final comum de agregação plaquetária; bloquear = máxima antiagregação:

Abciximab (ReoPro® — Eli Lilly): anticorpo monoclonal quimérico anti-GPIIb/IIIa; bloqueia também αvβ3 (receptores de vitronectina em células endoteliais e musculares lisas) e Mac-1 (macrófagos); ligação muito alta afinidade → efeito até ~48h após dose única; pré-PCI em SCA de alto risco

Eptifibatida (Integrilin® — GSK/Millennium): peptídeo cíclico (baseado no veneno de cobra Sisyphus genus) — imita sequência RGD de fibrinogênio → bloqueia GP IIb/IIIa; meia-vida curta (~2.5h) → infusão contínua; revertível mais rapidamente

Tirofiban (Aggrastat® — Medicure): não-peptídeo de baixo peso molecular; cinética similar à eptifibatida; menor custo

Uso clínico dos inibidores de GPIIb/IIIa:

  • Era pré-DAPT potente (ticagrelor/prasugrel): amplamente usados em SCA + PCI
  • Era atual: uso diminuiu com DAPT moderna; reservados para situações de alto risco (trombose de stent, lesão no stent, trombo angiográfico visível)
  • Efeitos adversos: trombocitopenia (queda abrupta de plaquetas <100.000 em 0.5-5% — pseudotrombocitopenia com EDTA vs real — monitorar 2-4h após início); sangramento

Dipiridamol:

  • Inibe fosfodiesterase → ↑ cAMP (plaquetas) + inibe recaptação de adenosina → Gs → ↑ cAMP
  • Fraco antiagregante isolado; combinação dipiridamol ER + AAS (Aggrenox®) — comparável ao clopidogrel em prevenção secundária de AVC (ESPS-2 e PRoFESS trials)

Cilostazol:

  • Inibidor seletivo de PDE-3 (fosfodiesterase III) → ↑ cAMP → inibe agregação; também vasodilatador (artérias periféricas)
  • Aprovado para claudicação intermitente (doença arterial periférica); melhora distância de caminhada
  • Contraindicado em IC (PDE-3 inibidores ↑ mortalidade em IC de ratos; milrinona — inibidor de PDE-3 IV — aumentou mortalidade em IC)

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Perguntas frequentes sobre antiagregantes plaquetários

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Devo parar o clopidogrel antes de uma cirurgia?+

Depende do tipo de cirurgia e do risco trombótico do paciente. Em stent coronariano recente (<1 mês em stent de metal nu, <6-12 meses em stent farmacológico): parar o P2Y12 é perigoso (risco de trombose de stent com mortalidade alta) — cirurgia eletiva deve ser adiada. Após o período mínimo: suspender clopidogrel 5 dias antes e prasugrel 7 dias, ticagrelor 5 dias. Para cirurgias de emergência: continuar P2Y12 se possível; se necessário suspender, usar tirofiban/eptifibatida IV de ponte (bridging). Manter AAS na maioria das cirurgias (exceto neurocirurgia e cirurgia ocular). A decisão é multidisciplinar (cardiologista + cirurgião).

Por que o ticagrelor causa falta de ar?+

A dispneia pelo ticagrelor ocorre em ~15-22% dos pacientes — mecanismo: ticagrelor inibe o transportador ENT-1 (Equilibrative Nucleoside Transporter) que normalmente recapta adenosina → adenosina acumula localmente → ativa receptores A1 no nó sinoatrial (bradicardia) e receptores em terminações vagais pulmonares e fibras C → sensação de dispneia sem broncoespasmo ou alteração espirométrica. Geralmente leve, ocorre nos primeiros dias/semanas e tende a melhorar; raramente exige suspensão. É diferente de broncoespasmo ou IC — não progride com o tempo.

Aspirina funciona para prevenir AVC em pessoas sem doenças cardíacas?+

Não — as diretrizes atuais (ACC/AHA 2019, ESC 2021) não recomendam AAS para prevenção primária de eventos cardiovasculares em adultos sem DCV estabelecida, especialmente acima de 60 anos. O benefício absoluto (pequena redução de IAM) é contrabalançado pelo risco de sangramento gastrointestinal e possivelmente intracraniano. Em pessoas <40 anos com DM e múltiplos fatores de risco pode ser considerado. A prevenção primária eficaz é: controle de PA, colesterol (estatinas), glicemia, cessação de tabagismo — não aspirina profilática.

Qual a diferença entre antiagregante e anticoagulante?+

Antiagregantes (aspirina, clopidogrel, ticagrelor) agem nas plaquetas — hemostasia primária; anticoagulantes (warfarina, DOACs, heparina) agem nos fatores de coagulação — hemostasia secundária (coágulo de fibrina). Trombose arterial (IAM, AVC isquêmico por ateromatose) é predominantemente rica em plaquetas (ambiente de alto fluxo/shear) → antiagregantes são o pilar. Trombose venosa (TVP, TEP) é predominantemente rica em fibrina (ambiente de baixo fluxo) → anticoagulantes são o pilar. FA (fibrilação atrial) gera trombos tanto plaquetários quanto de fibrina, mas os ensaios mostram clara superioridade de anticoagulantes sobre antiagregantes para prevenção de AVC embólico em FA.

Referências Científicas

  1. Wallentin L, Becker RC, Budaj A, et al. (PLATO investigators) Ticagrelor versus clopidogrel in patients with acute coronary syndromes (PLATO). N Engl J Med, 2009.
  2. Wiviott SD, Braunwald E, McCabe CH, et al. (TRITON-TIMI 38 investigators) Prasugrel versus clopidogrel in patients with acute coronary syndromes (TRITON-TIMI 38). N Engl J Med, 2007.
  3. Bhatt DL, Scheiman J, Abraham NS, et al. ACCF/ACG/AHA 2008 expert consensus document on reducing the gastrointestinal risks of antiplatelet therapy and NSAID use. Circulation, 2008.
  4. Antithrombotic Trialists' Collaboration Collaborative meta-analysis of randomised trials of antiplatelet therapy for prevention of death, myocardial infarction, and stroke in high risk patients. BMJ, 2002.
  5. McNeil JJ, Wolfe R, Woods RL, et al. (ASPREE Investigator Group) Effect of aspirin on cardiovascular events and bleeding in the healthy elderly (ASPREE). N Engl J Med, 2018.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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