Fisiologia da hemostasia plaquetária — alvos dos antiplaquetários
Hemostasia primária (plaquetas) vs Hemostasia secundária (coagulação/fibrina): anticoagulantes atuam na hemostasia secundária (cascata); antiplaquetários atuam na hemostasia primária.
Ativação plaquetária — sequência de eventos:
- Adesão: plaquetas circulantes aderem ao colágeno subendotelial exposto na lesão vascular via receptor GVI + vWF (fator de von Willebrand) + GPIb (glicoproteína Ib da superfície plaquetária)
- Ativação: colágeno e trombina formada localmente ativam plaquetas → receptores de ativação: (a) Receptor de tromboxano A2 (TP) — TXA2 é produzido pela própria plaqueta via COX-1 + TXA-sintase → ativação autocrina e amplificação; (b) Receptor P2Y12 — receptor de ADP acoplado a Gi → inibe adenilato ciclase → reduz cAMP → ativação e agregação; ADP é liberado pelos grânulos densos plaquetários; também há P2Y1 (Gq); (c) Receptor PAR-1 e PAR-4 — receptores de trombina (Protease-Activated Receptor); (d) Receptor de colágeno GVI
- Mudança conformacional de GPIIb/IIIa: de forma inativa (baixa afinidade) para forma ativa (alta afinidade para fibrinogênio/vWF) — mediada por ativação intracelular
- Agregação: fibrinogênio (e vWF) liga duas plaquetas via GPIIb/IIIa → plaquetas se conectam em rede → tampão plaquetário
- Secreção: grânulos α (fibrinogênio, vWF, fator V, P-selectina) e grânulos densos (ADP, serotonina, cálcio) são liberados → amplificação da ativação
Por que antiplaquetários e anticoagulantes são usados juntos em síndromes coronarianas agudas (SCA): na ruptura de placa aterosclerótica, o trombo coronariano é predominantemente plaquetário (artéria = alto fluxo e shear stress = trombo branco rico em plaquetas); porém fibrina também contribui → DAPT bloqueia ativação plaquetária + anticoagulante controla a geração de fibrina/trombina → cobertura completa
Alvos terapêuticos dos antiplaquetários existentes:
- COX-1: AAS (aspirina)
- P2Y12: clopidogrel, prasugrel, ticagrelor, cangrelor
- GPIIb/IIIa: abciximabe, eptifibatida, tirofibana
- PAR-1 (receptor de trombina): vorapaxar (Zontivity® — aprovado EUA para redução de eventos em pacientes com infarto prévio, sem revascularização cerebrovascular)
- TXA2 sintase: não há fármaco aprovado isolado (estudos de tromboxano sintase foram substituídos pelo AAS)
- Receptor de tromboxano TP: não aprovado isolado no Brasil
AAS (aspirina) — inibição irreversível de COX-1 e uso cardiovascular
Ácido Acetilsalicílico — AAS (Aspirina® — Bayer; genérico): o antiplaquetário mais antigo e mais prescrito do mundo.
Mecanismo de ação como antiplaquetário:
- AAS acetila irreversivelmente a serina 530 da COX-1 (ciclo-oxigenase 1) → inativação permanente da enzima
- COX-1 nas plaquetas: as plaquetas NÃO têm núcleo → NÃO sintetizam novas proteínas → a COX-1 inativada NÃO é substituída → a plaqueta fica sem COX-1 funcional pelo resto de sua vida útil (7-10 dias)
- Sem COX-1 → sem conversão de ácido araquidônico (AA) em PGG₂/PGH₂ → sem tromboxano A₂ (TXA₂) → sem ativação plaquetária mediada por TXA₂ e sem vasoconstrição
- Por que dose baixa é suficiente (75-100 mg/dia — muito menos que dose anti-inflamatória de 600-1200 mg): plaquetas são desprovidas de núcleo e não regeneram COX-1; basta inativar as COX-1 das plaquetas circulantes; novas plaquetas (que saem da medula) regeneram o pool de TXA₂ progressivamente → por isso AAS em dose baixa é tomado 1x/dia (efeito cumulativo irreversível nas plaquetas; 10-15% das plaquetas são renovadas a cada dia — após 7 dias de AAS diário, toda a pool está inativada)
- COX-2 e efeito anti-inflamatório: AAS em doses baixas inibe predominantemente COX-1; COX-2 nas células endoteliais (que TÊM núcleo e regeneram COX-2) → produz prostaciclina (PGI₂) que é vasodilatadora e antiagregante; por isso, ironicamente, altas doses de AAS (que inibem COX-2 endotelial mais) perdem parte do benefício cardiovascular (menos PGI₂ protetora); doses baixas preferidas
Indicações cardiovasculares do AAS:
- Prevenção secundária (paciente com evento cardiovascular prévio): IAM, AVC isquêmico prévio, revascularização, DAP (doença arterial periférica), endarterectomia carotídea — AAS 75-100 mg/dia; benefício muito claro e consistente
- SCA (Síndrome Coronariana Aguda): dose de ataque 300-500 mg mastigada → efeito rápido (anti-agrega em 30 min); manutenção 75-100 mg/dia
- Prevenção primária (paciente SEM evento cardiovascular): indicação muito mais restrita e controversa; AAS modestamente reduz IAM mas aumenta sangramentos (GI, intracraniano) em indivíduos de baixo-médio risco; ARRIVE, ASPREE, ASCEND trials (2018) mudaram os guidelines: AAS na prevenção primária APENAS em pacientes de risco cardiovascular muito alto (pacientes com DM ≥50 anos + fator de risco adicional, segundo ADA 2019) e de baixo risco de sangramento
Resistência ao AAS: 5-25% dos pacientes têm resposta diminuída ao AAS, medida por função plaquetária ex vivo; causas: não adesão (causa mais comum), interações (ibuprofeno tomado antes do AAS compete pelo sítio da COX-1 e bloqueia o acesso do AAS), variabilidade genética em COX-1 e metabolismo de AA; relevância clínica da "resistência laboratorial" ainda controversa
Toxicidade do AAS:
- Erosão/úlcera gastrointestinal: inibição de prostaglandinas citoprotetoras da mucosa gástrica (PGE₂/PGI₂ via COX-1 gástrica) + efeito tópico irritante; AAS entérico (revestimento entérico) não reduz úlcera GI (a inibição é sistêmica, não tópica); proteção com IBP (omeprazol/pantoprazol) em pacientes de risco (idosos, H. pylori, histórico de úlcera)
- Síndrome de Reye: AAS em crianças com infecção viral (varicela, influenza) → encefalopatia + disfunção hepática; contraindicado em < 16 anos com doenças virais (usar paracetamol/dipirona)
- Hipersensibilidade ao AAS/AINE: urticária, angioedema, broncoespasmo (aspirina-exacerbated respiratory disease — AERD / tríade de Samter: asma + polipose nasal + hipersensibilidade ao AAS); mecanismo: não-imunológico, por desvio de AA para via da lipoxigenase (mais leucotrienos) quando COX é inibida
- Retinopatia e ototoxicidade: em doses muito altas (intoxicação/salicilismo); zumbido é sinal precoce de intoxicação
Clopidogrel, ticagrelor, prasugrel — inibidores de P2Y12 e DAPT
P2Y12 — o receptor central da amplificação plaquetária: quando ADP (liberado pelos grânulos densos das plaquetas ativadas) liga-se ao P2Y12 (acoplado a Gi) → inibe adenilato ciclase → reduz cAMP → reduz PKA → ativa GPIIb/IIIa (pela via RhoA-ROCK) → agregação plaquetária; P2Y12 é o principal alvo de amplificação sustentada da agregação; sem P2Y12 → plaquetas são ativadas mas não sustentam a agregação em nível suficiente para trombose
Clopidogrel (Plavix® — Bristol-Myers Squibb/Sanofi; genérico):
- Tienopiridina; pró-fármaco que requer ativação hepática em 2 passos por CYP2C19 (principal) + CYP3A4, CYP2B6 → metabólito tiol ativo → liga-se covalentemente ao resíduo de cisteína 336 do P2Y12 → inibição irreversível do P2Y12 (plaqueta bloqueada por toda a sua vida de 7-10 dias)
- Dose: ataque 300-600 mg (um comprimido de 75 mg habitual vs bolus de 4-8 comprimidos no SCA); manutenção 75 mg/dia
- Polimorfismo de CYP2C19 — a grande limitação do clopidogrel: metabolizadores lentos (LoF = loss-of-function alleles CYP2C19*2, *3 — frequência 15-30% em europeus, até 50-60% em asiáticos) → menos metabólito ativo → menor inibição de P2Y12 → maior risco de eventos cardiovasculares em stent (TRITON-TIMI 38, PLATO trials demonstraram piores outcomes em LoF + clopidogrel); FDA adicionou black box warning: testar CYP2C19 e evitar clopidogrel em metabolizadores lentos; alternativa: ticagrelor (não depende de CYP2C19)
- Interação com IBP: omeprazol inibe CYP2C19 → reduz ativação de clopidogrel → estudos observacionais sugeriram aumento de eventos; revisão Cochrane: sem prova de dano com IBP em estudos prospectivos; pantoprazol (menor inibição de CYP2C19) preferido se IBP necessário
- Indicações: DAPT após SCA (com ou sem supra-ST) + stent coronariano; AVC isquêmico agudo (início em 24h + AAS por 21 dias — POINT, CHANCE trials: superior a AAS isolado em AIT/AVC menor)
Ticagrelor (Brilinta® — AstraZeneca):
- Ciclopentiltriazolpirimidina; não é pró-fármaco (ativo diretamente, sem necessidade de ativação por CYP); inibe P2Y12 de forma reversível (ligação não-covalente — P2Y12 recupera função após eliminação do fármaco; meia-vida 7-9h → recuperação plaquetária em 3-5 dias após suspensão vs 7-10 dias para clopidogrel/prasugrel)
- PLATO trial (2009 — N Engl J Med): 18.624 pacientes com SCA (com e sem supra-ST) → ticagrelor vs clopidogrel; ticagrelor reduziu morte cardiovascular (4.0% vs 5.1%, p=0.001), IAM e AVC (16% vs 12%, p<0.001) sem aumento de sangramento maior total; mortalidade por qualquer causa também reduzida → ticagrelor SUPERIOR ao clopidogrel em SCA, especialmente nos primeiros 30 dias
- Dose: 180 mg ataque → 90 mg 2x/dia (DAPT com AAS 75-100 mg/dia por 12 meses após SCA); após 12 meses: continuação com 60 mg 2x/dia se risco isquêmico persiste (PEGASUS trial)
- Efeitos adversos específicos do ticagrelor: (1) Dispnéia transitória (13-21%): mecanismo — adenosina: ticagrelor inibe ENT-1 (equilibrative nucleoside transporter 1) → reduz recaptação de adenosina → mais adenosina circulante → ativa receptores de adenosina na vasculatura pulmonar → broncoconstrição/dispneia; geralmente leve e autolimitada (não piorou outcomes respiratórios em asmáticos no PLATO — mas monitorar); (2) Pausas ventriculares assintomáticas em ECG Holter (adenosina): geralmente sem repercussão clínica; (3) Aumento de creatinina (modesto, reversível); (4) Aumento de ácido úrico (adenosina → xantina oxidase)
- Contraindicações: hemorragia intracraniana prévia; sangramento ativo; AAS em dose alta (>100 mg/dia reduz eficácia do ticagrelor — FDA black box: manter AAS 75-100 mg com ticagrelor)
Prasugrel (Efient® — Eli Lilly/Daiichi Sankyo):
- Tienopiridina de 3ª geração; pró-fármaco (1 passo de ativação via esterases → CYP3A4/CYP2B6) → menos dependente de CYP2C19 → menor variabilidade que clopidogrel
- Inibição de P2Y12 irreversível (covalente, como clopidogrel), mas mais potente e consistente
- TRITON-TIMI 38 (2007): SCA submetidos a angioplastia → prasugrel vs clopidogrel → prasugrel reduziu endpoints isquêmicos (morte cardiovascular, IAM, AVC: 9.9% vs 12.1%) MAS aumentou sangramento maior (2.4% vs 1.8%), incluindo sangramento fatal e sangramento CABG
- Contraindicações ao prasugrel: AVC/AIT prévio (risco aumentado de sangramento intracraniano = NÃO usar); ≥75 anos (risco/benefício desfavorável); < 60 kg (usar 5 mg/dia vs 10 mg/dia padrão)
- Preferido: angioplastia primária em IAM com supra-ST em pacientes < 75 anos, sem AVC prévio e ≥60 kg
Cangrelor (Kengreal® — Chiesi):
- Análogo do ATP; inibidor reversível de P2Y12 administrado IV (infusão contínua); meia-vida 3-6 min → plaquetas se recuperam em 60 min após suspensão
- Indicação: durante angioplastia (ICP) em pacientes que NÃO fizeram P2Y12 oral pré-procedimento (CHAMPION PHOENIX trial: cangrelor IV reduziu oclusão de stent/IAM vs clopidogrel oral no momento da ICP)
DAPT — Dupla Antiagregação Plaquetária:
- Padrão em SCA e após implante de stent coronariano: AAS 75-100 mg + inibidor P2Y12 (ticagrelor preferido em SCA; clopidogrel alternativo; prasugrel em angioplastia primária selecionada)
- Duração após stent: stent farmacológico (DES): 6-12 meses DAPT (em geral); stent metálico (BMS): 1-3 meses; SCA: 12 meses DAPT após IAM (e extensão com ticagrelor 60 mg se alto risco isquêmico)
- Teste de P2Y12 (VerifyNow® ou agregometria): guia a DAPT em populações de risco (metabolizadores lentos CYP2C19, sobrepeso, DM2 — maior resistência); mas uso de rotina não recomendado universalmente
Antagonistas de GPIIb/IIIa (inibidores da integrina αIIbβ3):
- Abciximabe (ReoPro® — Eli Lilly/Centocor): fragmento Fab de anticorpo monoclonal quimérico anti-GPIIb/IIIa; liga-se irreversivelmente; meia-vida plaquetária 12-24h (plaquetas transfundidas capturam o abciximabe → plaqueta livre pode ser obtida por transfusão)
- Eptifibatida (Integrilin® — Schering-Plough): peptídeo cíclico KGD (mimético de fibrinogênio); reversível (t½ 2.5h); excreção renal
- Tirofibana (Aggrastat® — Medicure): não-peptídico; reversível (t½ 2h); excreção renal + hepática
- Mecanismo: bloqueiam a integrina GPIIb/IIIa em sua forma ativa → fibrinogênio e vWF não conseguem ligar → sem ponte entre plaquetas → inibição profunda da agregação (90%+)
- Indicações: SCA de alto risco (NSTE-ACS: troponina elevada, ECG com ST dinâmico) submetidos a angioplastia imediata ou urgente; adjunção à heparina/DAPT; evidência de benefício modesta vs risco de sangramento → uso em declínio com a disponibilidade de ticagrelor/prasugrel potentes
- Reversão de emergência: sem antídoto específico; transfusão de plaquetas (abciximabe — desliga das plaquetas do paciente e liga nas transfundidas, liberando as plaquetas do paciente); aguardar eliminação (eptifibatida/tirofibana — reversíveis em horas)