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← Blog·peptideos27 de junho de 2026· 13 min de leitura

Antiplaquetários — AAS, clopidogrel, ticagrelor e prasugrel: mecanismos P2Y12 e COX-1, dupla antiagregação e inibidores de GPIIb/IIIa em síndromes coronarianas

AAS inibe irreversivelmente COX-1 → sem TXA2 → sem ativação plaquetária; clopidogrel é pró-fármaco CYP2C19 que inibe P2Y12 de forma irreversível; ticagrelor inibe P2Y12 diretamente e de forma reversível (superior ao clopidogrel em PLATO trial). Dupla antiagregação plaquetária (DAPT) = AAS + P2Y12 é o padrão em SCA e stents coronarianos. GPIIb/IIIa antagonistas (abciximabe/eptifibatida/tirofibana) para SCA de alto risco em angioplastia.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Fisiologia da hemostasia plaquetária — alvos dos antiplaquetários

Hemostasia primária (plaquetas) vs Hemostasia secundária (coagulação/fibrina): anticoagulantes atuam na hemostasia secundária (cascata); antiplaquetários atuam na hemostasia primária.

Ativação plaquetária — sequência de eventos:

  1. Adesão: plaquetas circulantes aderem ao colágeno subendotelial exposto na lesão vascular via receptor GVI + vWF (fator de von Willebrand) + GPIb (glicoproteína Ib da superfície plaquetária)
  2. Ativação: colágeno e trombina formada localmente ativam plaquetas → receptores de ativação: (a) Receptor de tromboxano A2 (TP) — TXA2 é produzido pela própria plaqueta via COX-1 + TXA-sintase → ativação autocrina e amplificação; (b) Receptor P2Y12 — receptor de ADP acoplado a Gi → inibe adenilato ciclase → reduz cAMP → ativação e agregação; ADP é liberado pelos grânulos densos plaquetários; também há P2Y1 (Gq); (c) Receptor PAR-1 e PAR-4 — receptores de trombina (Protease-Activated Receptor); (d) Receptor de colágeno GVI
  3. Mudança conformacional de GPIIb/IIIa: de forma inativa (baixa afinidade) para forma ativa (alta afinidade para fibrinogênio/vWF) — mediada por ativação intracelular
  4. Agregação: fibrinogênio (e vWF) liga duas plaquetas via GPIIb/IIIa → plaquetas se conectam em rede → tampão plaquetário
  5. Secreção: grânulos α (fibrinogênio, vWF, fator V, P-selectina) e grânulos densos (ADP, serotonina, cálcio) são liberados → amplificação da ativação

Por que antiplaquetários e anticoagulantes são usados juntos em síndromes coronarianas agudas (SCA): na ruptura de placa aterosclerótica, o trombo coronariano é predominantemente plaquetário (artéria = alto fluxo e shear stress = trombo branco rico em plaquetas); porém fibrina também contribui → DAPT bloqueia ativação plaquetária + anticoagulante controla a geração de fibrina/trombina → cobertura completa

Alvos terapêuticos dos antiplaquetários existentes:

  • COX-1: AAS (aspirina)
  • P2Y12: clopidogrel, prasugrel, ticagrelor, cangrelor
  • GPIIb/IIIa: abciximabe, eptifibatida, tirofibana
  • PAR-1 (receptor de trombina): vorapaxar (Zontivity® — aprovado EUA para redução de eventos em pacientes com infarto prévio, sem revascularização cerebrovascular)
  • TXA2 sintase: não há fármaco aprovado isolado (estudos de tromboxano sintase foram substituídos pelo AAS)
  • Receptor de tromboxano TP: não aprovado isolado no Brasil

AAS (aspirina) — inibição irreversível de COX-1 e uso cardiovascular

Ácido Acetilsalicílico — AAS (Aspirina® — Bayer; genérico): o antiplaquetário mais antigo e mais prescrito do mundo.

Mecanismo de ação como antiplaquetário:

  • AAS acetila irreversivelmente a serina 530 da COX-1 (ciclo-oxigenase 1) → inativação permanente da enzima
  • COX-1 nas plaquetas: as plaquetas NÃO têm núcleo → NÃO sintetizam novas proteínas → a COX-1 inativada NÃO é substituída → a plaqueta fica sem COX-1 funcional pelo resto de sua vida útil (7-10 dias)
  • Sem COX-1 → sem conversão de ácido araquidônico (AA) em PGG₂/PGH₂ → sem tromboxano A₂ (TXA₂) → sem ativação plaquetária mediada por TXA₂ e sem vasoconstrição
  • Por que dose baixa é suficiente (75-100 mg/dia — muito menos que dose anti-inflamatória de 600-1200 mg): plaquetas são desprovidas de núcleo e não regeneram COX-1; basta inativar as COX-1 das plaquetas circulantes; novas plaquetas (que saem da medula) regeneram o pool de TXA₂ progressivamente → por isso AAS em dose baixa é tomado 1x/dia (efeito cumulativo irreversível nas plaquetas; 10-15% das plaquetas são renovadas a cada dia — após 7 dias de AAS diário, toda a pool está inativada)
  • COX-2 e efeito anti-inflamatório: AAS em doses baixas inibe predominantemente COX-1; COX-2 nas células endoteliais (que TÊM núcleo e regeneram COX-2) → produz prostaciclina (PGI₂) que é vasodilatadora e antiagregante; por isso, ironicamente, altas doses de AAS (que inibem COX-2 endotelial mais) perdem parte do benefício cardiovascular (menos PGI₂ protetora); doses baixas preferidas

Indicações cardiovasculares do AAS:

  • Prevenção secundária (paciente com evento cardiovascular prévio): IAM, AVC isquêmico prévio, revascularização, DAP (doença arterial periférica), endarterectomia carotídea — AAS 75-100 mg/dia; benefício muito claro e consistente
  • SCA (Síndrome Coronariana Aguda): dose de ataque 300-500 mg mastigada → efeito rápido (anti-agrega em 30 min); manutenção 75-100 mg/dia
  • Prevenção primária (paciente SEM evento cardiovascular): indicação muito mais restrita e controversa; AAS modestamente reduz IAM mas aumenta sangramentos (GI, intracraniano) em indivíduos de baixo-médio risco; ARRIVE, ASPREE, ASCEND trials (2018) mudaram os guidelines: AAS na prevenção primária APENAS em pacientes de risco cardiovascular muito alto (pacientes com DM ≥50 anos + fator de risco adicional, segundo ADA 2019) e de baixo risco de sangramento

Resistência ao AAS: 5-25% dos pacientes têm resposta diminuída ao AAS, medida por função plaquetária ex vivo; causas: não adesão (causa mais comum), interações (ibuprofeno tomado antes do AAS compete pelo sítio da COX-1 e bloqueia o acesso do AAS), variabilidade genética em COX-1 e metabolismo de AA; relevância clínica da "resistência laboratorial" ainda controversa

Toxicidade do AAS:

  • Erosão/úlcera gastrointestinal: inibição de prostaglandinas citoprotetoras da mucosa gástrica (PGE₂/PGI₂ via COX-1 gástrica) + efeito tópico irritante; AAS entérico (revestimento entérico) não reduz úlcera GI (a inibição é sistêmica, não tópica); proteção com IBP (omeprazol/pantoprazol) em pacientes de risco (idosos, H. pylori, histórico de úlcera)
  • Síndrome de Reye: AAS em crianças com infecção viral (varicela, influenza) → encefalopatia + disfunção hepática; contraindicado em < 16 anos com doenças virais (usar paracetamol/dipirona)
  • Hipersensibilidade ao AAS/AINE: urticária, angioedema, broncoespasmo (aspirina-exacerbated respiratory disease — AERD / tríade de Samter: asma + polipose nasal + hipersensibilidade ao AAS); mecanismo: não-imunológico, por desvio de AA para via da lipoxigenase (mais leucotrienos) quando COX é inibida
  • Retinopatia e ototoxicidade: em doses muito altas (intoxicação/salicilismo); zumbido é sinal precoce de intoxicação

Clopidogrel, ticagrelor, prasugrel — inibidores de P2Y12 e DAPT

P2Y12 — o receptor central da amplificação plaquetária: quando ADP (liberado pelos grânulos densos das plaquetas ativadas) liga-se ao P2Y12 (acoplado a Gi) → inibe adenilato ciclase → reduz cAMP → reduz PKA → ativa GPIIb/IIIa (pela via RhoA-ROCK) → agregação plaquetária; P2Y12 é o principal alvo de amplificação sustentada da agregação; sem P2Y12 → plaquetas são ativadas mas não sustentam a agregação em nível suficiente para trombose

Clopidogrel (Plavix® — Bristol-Myers Squibb/Sanofi; genérico):

  • Tienopiridina; pró-fármaco que requer ativação hepática em 2 passos por CYP2C19 (principal) + CYP3A4, CYP2B6 → metabólito tiol ativo → liga-se covalentemente ao resíduo de cisteína 336 do P2Y12 → inibição irreversível do P2Y12 (plaqueta bloqueada por toda a sua vida de 7-10 dias)
  • Dose: ataque 300-600 mg (um comprimido de 75 mg habitual vs bolus de 4-8 comprimidos no SCA); manutenção 75 mg/dia
  • Polimorfismo de CYP2C19 — a grande limitação do clopidogrel: metabolizadores lentos (LoF = loss-of-function alleles CYP2C19*2, *3 — frequência 15-30% em europeus, até 50-60% em asiáticos) → menos metabólito ativo → menor inibição de P2Y12 → maior risco de eventos cardiovasculares em stent (TRITON-TIMI 38, PLATO trials demonstraram piores outcomes em LoF + clopidogrel); FDA adicionou black box warning: testar CYP2C19 e evitar clopidogrel em metabolizadores lentos; alternativa: ticagrelor (não depende de CYP2C19)
  • Interação com IBP: omeprazol inibe CYP2C19 → reduz ativação de clopidogrel → estudos observacionais sugeriram aumento de eventos; revisão Cochrane: sem prova de dano com IBP em estudos prospectivos; pantoprazol (menor inibição de CYP2C19) preferido se IBP necessário
  • Indicações: DAPT após SCA (com ou sem supra-ST) + stent coronariano; AVC isquêmico agudo (início em 24h + AAS por 21 dias — POINT, CHANCE trials: superior a AAS isolado em AIT/AVC menor)

Ticagrelor (Brilinta® — AstraZeneca):

  • Ciclopentiltriazolpirimidina; não é pró-fármaco (ativo diretamente, sem necessidade de ativação por CYP); inibe P2Y12 de forma reversível (ligação não-covalente — P2Y12 recupera função após eliminação do fármaco; meia-vida 7-9h → recuperação plaquetária em 3-5 dias após suspensão vs 7-10 dias para clopidogrel/prasugrel)
  • PLATO trial (2009 — N Engl J Med): 18.624 pacientes com SCA (com e sem supra-ST) → ticagrelor vs clopidogrel; ticagrelor reduziu morte cardiovascular (4.0% vs 5.1%, p=0.001), IAM e AVC (16% vs 12%, p<0.001) sem aumento de sangramento maior total; mortalidade por qualquer causa também reduzida → ticagrelor SUPERIOR ao clopidogrel em SCA, especialmente nos primeiros 30 dias
  • Dose: 180 mg ataque → 90 mg 2x/dia (DAPT com AAS 75-100 mg/dia por 12 meses após SCA); após 12 meses: continuação com 60 mg 2x/dia se risco isquêmico persiste (PEGASUS trial)
  • Efeitos adversos específicos do ticagrelor: (1) Dispnéia transitória (13-21%): mecanismo — adenosina: ticagrelor inibe ENT-1 (equilibrative nucleoside transporter 1) → reduz recaptação de adenosina → mais adenosina circulante → ativa receptores de adenosina na vasculatura pulmonar → broncoconstrição/dispneia; geralmente leve e autolimitada (não piorou outcomes respiratórios em asmáticos no PLATO — mas monitorar); (2) Pausas ventriculares assintomáticas em ECG Holter (adenosina): geralmente sem repercussão clínica; (3) Aumento de creatinina (modesto, reversível); (4) Aumento de ácido úrico (adenosina → xantina oxidase)
  • Contraindicações: hemorragia intracraniana prévia; sangramento ativo; AAS em dose alta (>100 mg/dia reduz eficácia do ticagrelor — FDA black box: manter AAS 75-100 mg com ticagrelor)

Prasugrel (Efient® — Eli Lilly/Daiichi Sankyo):

  • Tienopiridina de 3ª geração; pró-fármaco (1 passo de ativação via esterases → CYP3A4/CYP2B6) → menos dependente de CYP2C19 → menor variabilidade que clopidogrel
  • Inibição de P2Y12 irreversível (covalente, como clopidogrel), mas mais potente e consistente
  • TRITON-TIMI 38 (2007): SCA submetidos a angioplastia → prasugrel vs clopidogrel → prasugrel reduziu endpoints isquêmicos (morte cardiovascular, IAM, AVC: 9.9% vs 12.1%) MAS aumentou sangramento maior (2.4% vs 1.8%), incluindo sangramento fatal e sangramento CABG
  • Contraindicações ao prasugrel: AVC/AIT prévio (risco aumentado de sangramento intracraniano = NÃO usar); ≥75 anos (risco/benefício desfavorável); < 60 kg (usar 5 mg/dia vs 10 mg/dia padrão)
  • Preferido: angioplastia primária em IAM com supra-ST em pacientes < 75 anos, sem AVC prévio e ≥60 kg

Cangrelor (Kengreal® — Chiesi):

  • Análogo do ATP; inibidor reversível de P2Y12 administrado IV (infusão contínua); meia-vida 3-6 min → plaquetas se recuperam em 60 min após suspensão
  • Indicação: durante angioplastia (ICP) em pacientes que NÃO fizeram P2Y12 oral pré-procedimento (CHAMPION PHOENIX trial: cangrelor IV reduziu oclusão de stent/IAM vs clopidogrel oral no momento da ICP)

DAPT — Dupla Antiagregação Plaquetária:

  • Padrão em SCA e após implante de stent coronariano: AAS 75-100 mg + inibidor P2Y12 (ticagrelor preferido em SCA; clopidogrel alternativo; prasugrel em angioplastia primária selecionada)
  • Duração após stent: stent farmacológico (DES): 6-12 meses DAPT (em geral); stent metálico (BMS): 1-3 meses; SCA: 12 meses DAPT após IAM (e extensão com ticagrelor 60 mg se alto risco isquêmico)
  • Teste de P2Y12 (VerifyNow® ou agregometria): guia a DAPT em populações de risco (metabolizadores lentos CYP2C19, sobrepeso, DM2 — maior resistência); mas uso de rotina não recomendado universalmente

Antagonistas de GPIIb/IIIa (inibidores da integrina αIIbβ3):

  • Abciximabe (ReoPro® — Eli Lilly/Centocor): fragmento Fab de anticorpo monoclonal quimérico anti-GPIIb/IIIa; liga-se irreversivelmente; meia-vida plaquetária 12-24h (plaquetas transfundidas capturam o abciximabe → plaqueta livre pode ser obtida por transfusão)
  • Eptifibatida (Integrilin® — Schering-Plough): peptídeo cíclico KGD (mimético de fibrinogênio); reversível (t½ 2.5h); excreção renal
  • Tirofibana (Aggrastat® — Medicure): não-peptídico; reversível (t½ 2h); excreção renal + hepática
  • Mecanismo: bloqueiam a integrina GPIIb/IIIa em sua forma ativa → fibrinogênio e vWF não conseguem ligar → sem ponte entre plaquetas → inibição profunda da agregação (90%+)
  • Indicações: SCA de alto risco (NSTE-ACS: troponina elevada, ECG com ST dinâmico) submetidos a angioplastia imediata ou urgente; adjunção à heparina/DAPT; evidência de benefício modesta vs risco de sangramento → uso em declínio com a disponibilidade de ticagrelor/prasugrel potentes
  • Reversão de emergência: sem antídoto específico; transfusão de plaquetas (abciximabe — desliga das plaquetas do paciente e liga nas transfundidas, liberando as plaquetas do paciente); aguardar eliminação (eptifibatida/tirofibana — reversíveis em horas)

Perguntas frequentes sobre antiplaquetários

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por que é importante manter a dupla antiagregação (DAPT) após stent coronariano?+

A dupla antiagregação plaquetária (DAPT = AAS + inibidor de P2Y12) após implante de stent coronariano é crítica para prevenir a trombose de stent — uma complicação rara mas potencialmente fatal. O stent metálico ou farmacológico implantado na artéria coronária expõe uma superfície artificial ao fluxo sanguíneo, que é altamente trombogênica antes de ser completamente endotelizada (coberta pelo endotélio vascular). Stents farmacológicos (DES — drug-eluting stents) liberam agentes antiproliferativos (sirolimo, everolimo, paclitaxel) que retardam a reendotelização para prevenir reestenose — mas isso prolonga o período de vulnerabilidade à trombose. Trombose de stent é uma das emergências mais dramáticas em cardiologia: ocorre mais frequentemente nos primeiros 30 dias (subaguda) ou até 1 ano (tardia) e se manifesta como IAM maciço por oclusão abrupta da coronária. Mortalidade de 20-45%. DAPT previne isso ao bloquear dois caminhos independentes de ativação plaquetária (TXA2 pelo AAS + P2Y12 pelo clopidogrel/ticagrelor). Quando o paciente para de tomar o P2Y12 abruptamente (sem autorização médica): risco de trombose de stent aumenta dramaticamente. A duração recomendada varia: stent farmacológico após SCA = 12 meses; após síndrome coronariana estável = 6 meses (pode ser estendida). Nunca suspender DAPT sem consultar o cardiologista, mesmo que seja necessário procedimento cirúrgico — nesses casos, coordena-se a suspensão criteriosa com o planejamento cirúrgico.

Ticagrelor é realmente melhor que clopidogrel? Por que um médico ainda prescreveria clopidogrel?+

O PLATO trial (2009) foi um estudo robusto que demonstrou superioridade do ticagrelor vs clopidogrel em SCA em endpoints isquêmicos e mortalidade, sem aumento de sangramento maior global. As diretrizes atuais (ACC/AHA, ESC) preferem ticagrelor ao clopidogrel em SCA. Porém, há situações onde clopidogrel ainda é escolhido: (1) Custo: ticagrelor é significativamente mais caro que clopidogrel genérico — em sistemas com restrições de acesso ou quando o paciente não tem cobertura, clopidogrel permanece uma alternativa adequada; (2) Dispneia: ticagrelor causa dispneia transitória em 13-21% (mecanismo via adenosina) — em pacientes com asma grave, DPOC severo ou que já têm dispneia significativa, clopidogrel pode ser preferido para evitar nova sintomatologia; (3) Posologia: clopidogrel 1x/dia vs ticagrelor 2x/dia — em pacientes com baixa adesão, 1 comprimido ao dia tem vantagem prática; (4) Interação com AAS em dose alta: ticagrelor exige AAS em dose baixa (≤100 mg) — se paciente necessita de AAS em dose alta por outra indicação (raro), clopidogrel é preferível; (5) Necessidade de cirurgia próxima: ticagrelor leva 3-5 dias para reverter (vs 7-10 para clopidogrel) — mas em emergências ambos são problemáticos. Na prática: ticagrelor para SCA de forma geral; clopidogrel para prevenção secundária de AVC, doença coronariana estável, e quando o custo ou intolerância ao ticagrelor são barreiras.

Como gerenciar o sangramento em paciente usando antiplaquetários?+

O manejo depende da gravidade do sangramento e do tipo de antiplaquetário. Não existe antídoto específico para nenhum antiplaquetário disponível clinicamente para uso geral. Sangramento leve (epistaxe, equimose pequena): comprimir localmente; geralmente não requer suspensão do antiplaquetário; avaliar se a causa é corrigível (hipertensão, epistaxe recorrente = cauterização). Sangramento moderado (hematúria persistente, melena leve, sangramento pós-procedimento controlado): considera-se pular a próxima dose, porém em pacientes com stent recente (< 1 mês) isso é muito perigoso — decidir junto com cardiologista; ibuprofeno e AINEs agravam o sangramento GI — evitar; proteção gástrica com IBP em uso de AAS crônico. Sangramento grave/com risco de vida: (1) Suspender antiplaquetário imediatamente; (2) Transfusão de plaquetas (a forma mais efetiva de reverter antiplaquetários — fornece plaquetas sem droga); dose: 1 pool de plaquetas ou 1 unidade de aférese; para abciximabe (irreversível): plaquetas transfundidas absorvem o anticorpo livre, mas o abciximabe nas plaquetas do paciente não é removido — ainda assim, transfusão dilui o efeito; para AAS/clopidogrel/ticagrelor (reversíveis a curto-médio prazo): transfusão de plaquetas é a principal intervenção; (3) Desmopressina (DDAVP) 0.3 μg/kg IV: libera vWF do endotélio → algum benefício em sangramentos urêmicos e quando há disfunção plaquetária associada. Em cirurgia de emergência em usuário de DAPT: plaquetas + AAS/ticagrelor suspensos; aguardar 3-5 dias do ticagrelor ou usar transfusão se urgente.

Referências Científicas

  1. Wallentin L, Becker RC, Budaj A, et al. (PLATO trial — ticagrelor vs clopidogrel in ACS) Ticagrelor versus Clopidogrel in Patients with Acute Coronary Syndromes (PLATO). N Engl J Med, 2009.
  2. Wiviott SD, Braunwald E, McCabe CH, et al. (TRITON-TIMI 38 — prasugrel vs clopidogrel) Prasugrel versus Clopidogrel in Patients with Acute Coronary Syndromes (TRITON-TIMI 38). N Engl J Med, 2007.
  3. Wang Y, Wang Y, Zhao X, et al. (CHANCE trial — clopidogrel + AAS for minor stroke or TIA) Clopidogrel with Aspirin in Acute Minor Stroke or Transient Ischemic Attack (CHANCE). N Engl J Med, 2013.
  4. Mega JL, Close SL, Wiviott SD, et al. (CYP2C19 genetic variants and clopidogrel response) Cytochrome P-450 Polymorphisms and Response to Clopidogrel. N Engl J Med, 2009.
  5. Patrono C, Baigent C. (Low-dose aspirin for cardiovascular disease — current concepts review) Role of aspirin in primary prevention of cardiovascular disease. Nat Rev Cardiol, 2019.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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