Antimetabólitos: mecanismo geral e classificação por alvo metabólico
Antimetabólitos — estruturalmente similares a metabólitos essenciais para síntese de DNA e RNA → incorporam-se nas vias metabólicas e as bloqueiam:
Princípio farmacológico: As células em divisão (especialmente tumorais) necessitam de grandes quantidades de precursores para replicar o DNA. Antimetabólitos são análogos que:
- Inibem enzimas essenciais da biossíntese de nucleotídeos → sem substrato para DNA/RNA
- Incorporam-se ao DNA/RNA em construção → cadeia defeituosa → parada de síntese → apoptose
Classificação por alvo metabólico: | Classe | Alvo | Exemplos | |---|---|---| | Análogos de pirimidina | Timidilato sintase, DNA pol, RNA pol | 5-FU, capecitabina, UFT, tegafur, gencitabina, citarabina, decitabina, azacitidina | | Análogos de purina | Adenosina deaminase, ribonucleotídeo redutase, DNA | 6-mercaptopurina, 6-tioguanina, cladribina, fludarabina, pentostatina | | Antagonistas de folato | DHFR (metotrexato), timidilato sintase + outras (pemetrexede) | Metotrexato, pemetrexede, pralatrexato |
Dependência de fase S: antimetabólitos são específicos de fase S (síntese de DNA) → mais eficazes em tumores com alto índice mitótico → esquemas de infusão contínua de 5-FU (46h) maximizam a exposição de células em fase S durante o ciclo
5-FU, capecitabina e análogos de fluoropirimidina — timidilato sintase
5-Fluorouracil (5-FU — Efudex® topical / IV genérico):
- Análogo de uracila com flúor em C-5; descoberto 1957 por Charles Heidelberger
- Ativação intracelular → 3 metabólitos ativos:
1. FdUMP (fluoro-desoxiuridina monofosfato): inibe timidilato sintase (TS) de forma irreversível → sem dTMP → sem timidina → sem síntese de DNA (efeito principal do 5-FU na maioria dos tumores) 2. FUTP: incorporado ao RNA → RNA defeituoso → inibição de processamento de RNA e função ribossomal 3. FdUTP: incorporado ao DNA → quebra e instabilidade do DNA
- Leucovorina (ácido folínico, LV): estabiliza o complexo FdUMP-TS-CH₂-THF (folato ternário) → aumenta inibição da TS → potencializa 5-FU; por isso 5-FU sempre vem com leucovorina nos regimes (FOLFOX, FOLFIRI, LV5FU2)
- Regimes de 5-FU:
- Bolus vs Infusão Contínua: Bolus IV (400 mg/m² — push) → pico alto → mais hematotóxico (leucopenia, mucosite); Infusão Contínua (CI, 2400-3000 mg/m²/46h) → maior exposição de células em S → mais eficaz, menos hemato, mais diarréia, mais síndrome mão-pé - FOLFOX: Leucovorina + 5-FU bolus + 5-FU CI + Oxaliplatina q2 semanas → CCR metastático e adjuvante (estágio III) - FOLFIRI: Leucovorina + 5-FU bolus + 5-FU CI + Irinotecano → CCR metastático (1ª e 2ª linha alternando com FOLFOX) - FOLFIRINOX: LV + 5-FU + Irinotecano + Oxaliplatina → pâncreas metastático PS 0-1 - LV5FU2: leucovorina + 5-FU CI × 2 dias → esôfago, gástrico
- Efeitos adversos do 5-FU:
- Mucosite oral (estomatite): dolorosa; escala WHO/CTCAE; criogênica (gelo na boca durante bolus) reduz mucosite - Diarreia: CI > bolus - Mielossupressão: bolus > CI - Síndrome mão-pé (PPE — Palmar-Plantar Erythrodysesthesia): eritema, descamação, dor em palmas/plantas; CI > bolus; tratamento: hidratante (ureia ou vaselina), suspensão/redução de dose; vitamina B6 sem eficácia comprovada - Cardiotoxicidade: vasoespasmo coronariano durante infusão (angina, IAM, arritmias) — raro (1-3%) mas grave; mais com CI; mecanismo: não completamente esclarecido (talvez endotelite por FdUMP); suspender imediatamente se dor torácica; contraindicado em doença coronariana ativa; tratar com nitroglicerina - Toxicidade por deficiência de DPD (diidropirimidina desidrogenase): DPD metaboliza 80% do 5-FU; deficiência de DPD (variante DPYD*2A, c.2846A>T, HapB3 — 3-8% da população) → acúmulo tóxico de 5-FU → mucosite grave, neutropenia, encefalopalia; teste farmacogenômico (DPYD genotyping) recomendado antes do 5-FU na Europa (EMA) e crescentemente nos EUA
Capecitabina (Xeloda® — Roche):
- Pró-fármaco oral de 5-FU; absorção GI completa → hepático (carboxilesterase) → intermediário 5'-DFCR → intestinal (citidina deaminase) → 5'-DFUR → preferentemente em células tumorais (timidina fosforilase sobreexpressa) → 5-FU no tumor
- Seletividade tumoral relativa: timidina fosforilase 3-10x mais ativa em tumores vs tecido normal
- 1250 mg/m² 2x/dia × 14 dias q3 semanas; ou 850 mg/m² 2x/dia em combinação com oxaliplatina (XELOX = capecitabina + oxaliplatina = CAPOX) ou com docetaxel (XT)
- Síndrome mão-pé mais frequente que com 5-FU IV (pois é contínua)
- Interação com varfarina (inibe CYP2C9) → ↑ INR → monitorar INR semanalmente
- Indicações: CCR (XELOX = capecitabina + oxaliplatina = alternativa ao FOLFOX — XELOX não-inferior em estudo NO16966), mama metastático (capecitabina + lapatinibe para HER2+; capecitabina monoterapia para triplo negativo), gástrico (CAPOX/EOF/EOX), pâncreas
Gemcitabina (Gemzar® — Eli Lilly / genérico):
- Análogo da citidina (2',2'-difluorodeoxicitidina); incorporada no DNA durante a replicação
- Mecanismo duplo:
1. Ribonucleotídeo redutase (RNR) inibição: gemcitabina-DP inibe RNR → depleção de pool de desoxinucleotídeos → menos competidores → mais incorporação de gemcitabina-TP no DNA 2. Incorporação terminal no DNA: gemcitabina-TP incorpora no DNA → terminação de cadeia (oculta — a célula continua adicionando um nucleotídeo após a gemcitabina → "ocultamento" → reparo difícil) → mais persistente que citarabina
- Especificidade de fase S; efeito autopotenciação (a inibição de RNR amplifica sua própria ação)
- Indicações: Pâncreas (gemcitabina 1ª linha para pâncreas metastático desde 1997 — CONKO-001; nab-paclitaxel + gemcitabina = MPACT superior em metastático; gemcitabina adjuvante pós-ressecção — CONKO-001 e ESPAC-3); ovário (platinorresistente: gemcitabina monoterapia ou gem+carboplatina em 1ª platino-sensível recorrente — AGO-OVAR 2.5); CPNPC (gemcitabina + cisplatina = padrão pré-imunoterapia); bexiga (GC = gemcitabina + cisplatina = padrão 1ª linha metastático urothelial, não-inferior ao MVAC com menos toxicidade); linfomas, tumores germinativos (GEM esquemas de salvamento)
- Efeitos adversos: mielossupressão (neutropenia e trombocitopenia — nadir dia 14); febre/calafrios durante infusão; pneumonite intersticial (rara mas grave); síndrome hemolítica urêmica (SHU) com doses altas ou cumulativas altas; retenção hídrica/edema; enzimas hepáticas transitórias
Pemetrexede (Alimta® — Eli Lilly):
- "Multi-targeted antifolate": inibe 3 enzimas folatodependentes:
1. Timidilato sintase (TS) — principal 2. DHFR (di-hidrofolato redutase) 3. GARFT (glicinamidaribonucleotídeo formiltransferase) → síntese de purinas
- Suplementação obrigatória: ácido fólico 400-1000 μg/dia (iniciado 7 dias antes e continuado) + vitamina B12 1000 μg IM q9 semanas → reduzem dramaticamente mucosite e hematotoxicidade (sem perder eficácia antitumoral); dexametasona no dia anterior e posterior → reduz rash
- CPNPC não-escamoso (histologia importante — pemetrexede funciona mal em escamoso por alta expressão de TS): cisplatina + pemetrexede = 1ª linha não-escamoso (JMDB trial: não-inferior ao gemcitabina + cisplatina com menos hematotoxicidade); pemetrexede manutenção (após 4 ciclos de platina + pemetrexede → continuar pemetrexede = switch-maintenance ou continuation maintenance — PARAMOUNT/JMEN trials: PFS e OS melhores)
- Mesotelioma maligno: cisplatina + pemetrexede → OS 12.1 vs 9.3 meses (pemetrexede + cisplatina vs cisplatina — EMPHACIS trial); 1ª linha padrão
Citarabina (Ara-C — Cytosar® / genérico):
- Análogo da citidina; ativado intracelularmente por desoxicitidina quinase → ara-CTP; incorporado na cadeia nascente de DNA → DNA pol inibida (terminação de cadeia); também inibe DNA pol α diretamente
- Alta dose de Ara-C (HDAC): 1-3 g/m²/dose × 3-6 doses; ativa em LMA/LA; efeitos adversos dose-específicos: cerebelar/SNC (ataxia, disartria, cerebelit — risco maior em IdADE >60 e DRC; testar com nistagmo de olhar lateral, disdiadococinesia); conjuntivite (colírio de prednisolona 1% profilático)
- Indicações: LMA (7+3 de citarabina padrão + daunorrubicina/idarrubicina), LLA, consolidação de LMA (HDAC × 3-4 ciclos), linfomas de SNC, linfomatose meníngea (intratecal Ara-C)
- Citarabina de depósito (DepoCyt®): formulação lipossomal intratecal — liberação prolongada → q2 semanas em vez de semanais para meningite neoplásica