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← Blog·peptideos22 de junho de 2026· 14 min de leitura

Antiepilépticos (levetiracetam, lamotrigina, valproato, carbamazepina, lacosamida, perampanel) — mecanismos, indicações e efeitos adversos

Antiepilépticos (DEAs/ASMs) controlam crises epilépticas por múltiplos mecanismos. Levetiracetam (SV2A), lamotrigina (bloqueio de Na+), valproato (múltiplos), carbamazepina (Na+ voltage-gated), lacosamida (inativação lenta de Na+), perampanel (antagonista AMPA). Escolha é guiada pelo tipo de crise, síndrome epiléptica, sexo e comorbidades.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Mecanismos de crise epiléptica e alvos dos antiepilépticos

Epilepsia — definição ILAE 2014: (1) ≥2 crises espontâneas com intervalo >24h; ou (2) 1 crise com probabilidade de recorrência ≥60% nos próximos 10 anos (ex.: lesão cerebral estrutural); ou (3) diagnóstico de síndrome epiléptica. Afeta ~65 milhões de pessoas mundialmente.

Mecanismos de crise epiléptica:

  • Hiperexcitabilidade neuronal: excesso de atividade glutamatérgica (AMPA, NMDA, kainato) e/ou redução de inibição GABAérgica
  • Canais de sódio voltagem-dependentes (Nav): abertura excessiva → Na+ entra → despolarização → disparo excessivo; bloqueio desses canais = alvo principal de DEAs clássicos
  • Canais de cálcio voltagem-dependentes (Cav): Cav3 (T-type) em tálamo → papel em crises de ausência; Cav2 (P/Q, N-type) → liberação pré-sináptica de neurotransmissores
  • Receptores GABA-A: canal Cl- ligante-ativado → hiperpolarização → inibição; benzodiazepinasd → potencializam GABA-A; barbituratos → prolongam abertura do canal Cl-
  • Proteína SV2A (synaptic vesicle glycoprotein 2A): reguladora da exocitose de vesículas sinápticas; alvo do levetiracetam
  • HCN channels (If — funny current): canal Ih em neurônios hipocampais; papel em ritmo de disparo; alvo da ivabradina e parcialmente do ácido valpróico

Classificação de crises (ILAE 2017):

  • Focais (origem em rede neuronal limitada a um hemisfério): com/sem comprometimento da consciência; motoras ou não-motoras; focal → bilateral tônico-clônica (antes: "generalização secundária")
  • Generalizadas (origem em redes bihemisféricas): tônico-clônicas (GTCs, "grande mal"), de ausência (absence), mioclônicas, tônicas, clônicas, atônicas
  • Desconhecido (início incerto)
  • Espasmos epilépticos (síndrome de West, hipsarritmia)

Síndromes epilépticas importantes:

  • Epilepsia da infância com ausências (CAE): crises de ausência típicas; início 4-10 anos; etossuximida ou valproato (meninas → preferir etossuximida por risco de teratogenicidade do valproato)
  • Epilepsia mioclônica juvenil (EMJ/JME): mioclonias matinais + GTCs; início 12-18 anos; valproato (1ª linha em homens) ou levetiracetam (1ª linha em mulheres por teratogenicidade do valproato); PERSISTÊNCIA DO DIAGNÓSTICO é fundamental: carbamazepina e lamotigrina PIORAM crises mioclônicas/ausência na JME — erro frequente!
  • Epilepsia focal do lobo temporal (TLE): crise mais comum em adultos; origem no hipocampo/amígdala; esclerose hipocampal é a lesão mais comum; carbamazepina, oxcarbazepina, levetiracetam, lacosamida
  • Síndrome de Dravet: SCN1A pathogenic variant → canal Nav1.1 disfuncional; início <1 ano; crises febris prolongadas; EVITAR bloqueadores de Na+ (carbamazepina, lamotrigina, fenitoína — PIORAM); valproato + clobazam; canabidiol (Epidiolex®) aprovado; fenfluramine (Fintepla®) aprovado; stiripentol
  • Síndrome de Lennox-Gastaut: crises múltiplas tipos + declínio cognitivo; início 2-7 anos; valproato, rufinamida, clobazam, felbamate, topiramato, canabidiol

Antiepilépticos de amplo espectro: levetiracetam, valproato e lamotrigina

Levetiracetam (Keppra® — UCB / genérico amplamente disponível):

  • Mecanismo: liga-se à SV2A (synaptic vesicle glycoprotein 2A) na membrana das vesículas sinápticas → reduz exocitose de neurotransmissores (glutamato principalmente); mecanismo único, sem ação em GABA-A ou Na+
  • Espectro: amplo — eficaz em crises focais COM E SEM generalização, GTCs e crises mioclônicas (JME)
  • Apresentações: comprimido 250/500/1000 mg; solução oral 100 mg/mL; IV (Keppra IV) para status epilepticus hospitalar
  • Dose: 500 mg 2x/dia → aumentar a cada 2 semanas → 1000-3000 mg/dia em 2 doses; dose máxima 3000 mg/dia
  • Farmacocinética: biodisponibilidade oral >95%; praticamente sem ligação proteica (<10%); eliminação renal (66% inalterado via rins) → ajustar dose em IRenal (ClCr <80 mL/min: reduzir); sem metabolismo hepático significativo → sem indução/inibição de CYP → virtualmente sem interações medicamentosas significativas
  • Vantagens clínicas: sem interações com outros DEAs, sem necessidade de monitoramento de nível sérico de rotina, sem ajuste em hepatopatia, inicia rápido (pode subir dose em 2 semanas), IV disponível para urgência, eficaz em múltiplos tipos de crise, sem teratogenicidade confirmada (categoria C — dados limitados mas menos preocupante que valproato e carbamazepina)
  • Efeitos adversos — NOTA IMPORTANTE: comportamentais/psiquiátricos em 10-20%: irritabilidade, agressividade, agitação, labilidade emocional, depressão, psicose ("efeito Keppra rage"); pior em pacientes com distúrbios psiquiátricos prévios; mitigar com introdução lenta ou adição de vitamina B6 (piridoxina 100-200 mg/dia pode reduzir irritabilidade, mecanismo incerto mas usado clinicamente); sonolência (transitória), astenia, cefaleia; raramente leucopenia
  • Monitoramento: nível sérico não obrigatório de rotina; útil em gravidez, não-adesão, suspeita de toxicidade — nível terapêutico 12-46 μg/mL (referência variável)

Ácido Valpróico / Valproato de sódio (Depakote® — AbbVie / Depakene® / Epilim® / genérico):

  • Mecanismo múltiplo (o mais amplo de todos os DEAs): (1) Bloqueia canais Na+ voltagem-dependentes (inativação prolongada, similar a fenitoína mas menos potente); (2) Aumenta GABA cerebral (inibe GABA transaminase → menos degradação de GABA); (3) Bloqueia canais Cav3 (T-type — ação antiausência); (4) Inibe HDAC (histone deacetylase) → efeitos epigenéticos → parte do mecanismo neuromodulador e psicotrópico
  • Espectro: o MAIS amplo de todos — crises focais, GTCs, ausências, mioclônicas, tônicas, atônicas, síndromes epilépticas (JME = 1ª linha em homens); também indicado em Lennox-Gastaut
  • Usos além da epilepsia: (1) Transtorno Bipolar: humor stabilizer (mania aguda e manutenção — Depakote ER); (2) Profilaxia de migrânea (250-1000 mg/dia); (3) Neuropatia/dor
  • Formulações: comprimido regular, ER (extended release — melhor tolerabilidade GI), injetável (Depacon® IV para status)
  • Dose epilepsia: 10-60 mg/kg/dia em 2-3 tomadas (ER: 1-2 tomadas); nível sérico terapêutico: 50-100 μg/mL (100-125 para controle de mania)
  • Efeitos adversos:

- Comuns: náusea/dispepsia (melhorar com formulação ER, tomar com alimento), aumento de peso (muito frequente — estimula apetite, reduz β-oxidação), tremor (dose-dependente — responsivo a propranolol), alopecia (queda difusa, geralmente reversível; suplementar zinco e selênio pode ajudar), sedação - TERATOGENICIDADE — CLASSE D/X: MAIOR risco teratogênico entre todos os DEAs! Defeitos do tubo neural (espinha bífida: 1-2%, vs 0.06% população geral), cardiopatia, lábio leporino, atraso de desenvolvimento cognitivo (QI 7-10 pontos menor que controles em filhos expostos — NEAD study), autismo aumentado; CONTRAINDICADO em gravidez para epilepsia se alternativa disponível; VALPROATE AWARENESS: regulação da ANVISA e EMA — requer termo de esclarecimento em mulheres em idade fértil; folato 5 mg/dia se uso inevitável na gravidez - Hepatotoxicidade: rara mas grave; principalmente em crianças <2 anos com politerapia (fatal em síndrome de Alpers — POLG mutation); monitorar TFH no início - Pancreatite aguda: rara mas potencialmente grave - Hiperamonemia (sem alteração de TFH): especialmente em uso de carbapenemas concomitantes (ertapenem/meropenem reduzem valproato em 50-90% em 24h e causam hiperamonemia → evitar essa combinação ou substituir carbapenema se possível); tratar com lactulose e L-carnitina - Trombocitopenia (dose-dependente)

  • Interações: inibidor forte de CYP2C9, UGT; aumenta lamotrigina (dobra o nível: reduzir dose de lamotrigina pela metade quando combinada com valproato); reduzido por carbamazepina, fenitoína, fenobarbital (indutores)

Lamotrigina (Lamictal® — GSK / genérico):

  • Mecanismo: bloqueia canais Nav (Na+ voltage-gated) de forma uso-dependente (inativação lenta); também bloqueia canais Cav2 (N e P/Q) → reduz liberação pré-sináptica de glutamato (e aspartato)
  • Espectro: amplo — crises focais, GTCs, ausências (menor eficácia que etossuximida e valproato), síndrome de Lennox-Gastaut (crise de queda); CUIDADO em JME (pode piorar mioclonias em alguns pacientes)
  • Usos não-epilépticos: Transtorno Bipolar (Lamictal® é aprovado para manutenção bipolar — prevenção de episódios depressivos; menos eficaz para mania aguda)
  • Titulação obrigatoriamente LENTA: iniciar com 25 mg/dia (12.5 mg se com valproato) → aumentar a cada 2 semanas → dose alvo 100-400 mg/dia (50-200 mg/dia se com valproato pois valproato inibe UGT e dobra o nível de lamotrigina); se titulação rápida → risco muito aumentado de rash grave
  • Efeitos adversos:

- Rash cutâneo — ALERTA: eritema maculopapular em 5-10% (geralmente benigno); 0.1-1% de casos graves: Síndrome de Stevens-Johnson (SJS) / DRESS / Necrólise Epidérmica Tóxica (NET) — médico-legal! Risco maior com: titulação rápida, uso concomitante de valproato (que aumenta nível de lamotrigina), crianças, e variante HLA-B*1502 (maior em asiáticos — rash grave com bloqueadores de Na+); suspender imediatamente se rash grave, sistêmico ou nas mucosas - Tontura, diplopia, ataxia (dose-dependentes → reduzir dose) - Insônia, cefaleia; agitação em alguns pacientes - Comparativamente: melhor perfil cognitivo e de peso que valproato; boa tolerabilidade geral com titulação lenta - Gravidez: menor risco teratogênico que valproato (mas não zero); nível de lamotrigina cai drasticamente durante gestação (clearance aumenta por UGT1A4 induzida por estrógeno → pode precisar dobrar ou triplicar a dose na gravidez e reduzir no pós-parto para evitar toxicidade)

  • Monitoramento: nível sérico disponível (2-20 μg/mL); obrigatório na gravidez; útil se toxicidade ou dúvida de adesão

Antiepilépticos focais-clássicos e de nova geração: carbamazepina, lacosamida, perampanel, etossuximida

Carbamazepina (Tegretol® — Novartis / genérico) e Oxcarbazepina (Trileptal® / genérico), Eslicarbazepina (Zebinix®):

Carbamazepina:

  • Mecanismo: bloqueio de canais Nav (inativação frequência-dependente = mais ativo em neurônios que disparam em alta frequência)
  • Espectro restrito — CRISES FOCAIS (padrão de referência histórico para epilepsia focal, especialmente TLE — lobo temporal); GTCs; NÃO usar em: ausências, mioclonias, JME (PIORA essas síndromes)
  • Usos além da epilepsia: neuralgia do trigêmeo (1ª linha — 100-400 mg 3x/dia), transtorno bipolar (humor stabilizer para mania aguda — menos usado que valproato/lítio), neuropatia diabética (off-label)
  • Autoindutor de CYP3A4: CBZ induz seu próprio metabolismo (autoindução completada em 3-5 semanas → queda de 25-50% no nível plasmático após autoindução → necessário aumentar dose) e de muitos outros fármacos
  • Dose: 200 mg 2x/dia → titular lentamente → 600-1200 mg/dia; nível terapêutico 4-12 μg/mL
  • Efeitos adversos:

- Diplopia, tontura, ataxia, sedação (dose-dependentes — clássicos de bloqueadores de Na+) - SIADH (síndrome de secreção inapropriada de ADH) → hiponatremia sintomática → monitorar Na+ especialmente em idosos; oxcarbazepina causa MAIS hiponatremia que CBZ - Rash: 5-10%; SJS/NET mais frequente em portadores de **HLA-B*1502** (asiáticos — chineses, tailandeses, coreanos, malaios: ~8% de portadores) → testar HLA-B*1502 em pacientes de ascendência asiática ANTES de iniciar CBZ/OXC/ESL/lamotrigina - Agranulocitose e aplasia de medula: rara mas grave; monitorar hemograma no início - Hepatotoxicidade (elevação leve de TFH é comum, geralmente benigna; rara hepatite grave) - Osteoporose (indutor de CYP3A4 → degradação rápida de vitamina D → hiperparatireoidismo secundário → perda óssea); suplementar vitamina D - Teratogenicidade: espinha bífida (~0.5%), cardiopatia, hipospádia; monitorar com folato 5 mg/dia se inevitável na gestação

  • Oxcarbazepina (OXC): pró-fármaco (10-monohydroxy derivative = MHD é o ativo); sem autoindução; menos indução de CYP do que CBZ → menos interações; mas MAIS hiponatremia; perfil similar de eficácia
  • Eslicarbazepina: 1 dose/dia (s-enantiômero do MHD da oxcarbazepina); ainda menos indutor; boa tolerabilidade

Fenitoína (Dilantin® / Hidantal® — genérico) e Fosfenitoína:

  • Antiepiléptico mais antigo (1938); bloqueio Nav (uso-dependente); espectro: crises focais e GTCs; NÃO para ausências/mioclonias
  • Farmacologicamente problemática: cinética saturável não-linear (zero-order acima de ~10 μg/mL → pequenos aumentos de dose causam aumentos desproporcional de nível sérico → toxicidade súbita imprevisível → monitoramento de nível obrigatório: 10-20 μg/mL)
  • Efeitos adversos: nistagmo, ataxia, diplopia (níveis >20); gengivalplasia (hiperplasia gengival — problema cosmético especialmente em jovens), hipertricose, embrutecimento facial (cosmético — importante razão de troca especialmente em mulheres jovens), hiperglicemia; cardiotoxicidade IV (bradicardia, hipotensão — fosfenitoína IV mais segura); osteoporose (indutor de CYP = vitamina D ↓); carcinogênese: teratogênica (síndrome fetal da hidantoína — fenda palatina, cardiopatia, hipoplasia digital)
  • Atualmente: muitas guidelines preferem levetiracetam, valproato ou lacosamida em vez de fenitoína para status epilepticus e epilepsia crônica, dada a farmacocinética mais difícil e perfil de efeitos adversos

Lacosamida (Vimpat® — UCB):

  • Mecanismo único: seleciona e estabiliza a inativação lenta dos canais Nav (Nav1.1, Nav1.3, Nav1.7) → mecanismo diferente de CBZ/fenitoína que atuam na inativação RÁPIDA; também interage com CRMP-2 (collapsin response mediator protein — envolvida em sinalização axonal)
  • Espectro: crises focais (com ou sem generalização bilateral); aprovado como monoterapia e terapia adjuvante
  • Dose: 100 mg 2x/dia → 200-400 mg/dia; IV para status: 200-400 mg IV em 30-60 min (mais segura que fenitoína IV — sem hipotensão/bradicardia na dose habitual)
  • Vantagens: sem indução enzimática, sem interações clinicamente relevantes, pode usar em combinação com qualquer outro DEA; boa tolerabilidade geral; disponível IV
  • Efeitos adversos: tontura e diplopia (dose-dependentes — comuns 20-30%, geralmente toleráveis), cefaleia; prolongamento de PR no ECG (cuidado em bloqueio AV de 2º-3º grau, uso de outros fármacos que prolongam PR)

Perampanel (Fycompa® — Eisai):

  • Mecanismo único entre DEAs: antagonista seletivo não-competitivo dos receptores AMPA (α-amino-3-hydroxy-5-methyl-4-isoxazolepropionic acid) de glutamato → bloqueia o principal receptor ionotrópico excitatório pós-sináptico → reduz excitabilidade neuronal de forma diferente de todos os outros DEAs
  • Espectro: crises focais (com ou sem generalização) — adjuvante; GTCs em epilepsia generalizada — adjuvante; também JME (crises mioclônicas e GTCs)
  • Dose: 2 mg à noite (para reduzir efeito sedativo) → aumentar 2 mg a cada 2 semanas → 4-12 mg/dia (8 mg mais usada); dose ÚNICA NOTURNA é a vantagem de adesão
  • Meia-vida: 70-110h → dose única diária possível
  • Efeitos adversos — ATENÇÃO comportamental (Black Box nos EUA): irritabilidade, agressividade, comportamento hostil, raiva, ideação suicida — pode ser grave; mais comum em doenças psiquiátricas preexistentes; informar o paciente e cuidadores; tontura e sedação (muito comuns, relacionados à dose → por isso iniciar à noite); ataxia; ganho de peso modesto
  • Interações: carbamazepina reduz nível de perampanel em 50-67% → aumentar dose de perampanel se coadministrado

Etossuximida (Zarontin® — Pfizer / genérico):

  • Mecanismo: bloqueio de canais Cav3 (T-type, "tálamo-cortical") no tálamo → reduz os ritmos tálamo-corticais de 3 Hz das crises de ausência
  • Indicação específica: APENAS crises de ausência típica (epilepsia da infância com ausências, epilepsia de ausência juvenil); SEM EFICÁCIA em crises focais ou GTCs → NÃO usar se há GTCs (preferir valproato que cobre ambos)
  • 1ª linha de crises de ausência sem GTCs (ESPECIALMENTE em crianças e MULHERES EM IDADE FÉRTIL pois sem teratogenicidade conhecida — alternativa ao valproato)
  • Dose: 250 mg 2x/dia → 750-1500 mg/dia; nível terapêutico 40-100 μg/mL
  • Efeitos adversos: náusea, vômito (tomada com alimento), anorexia, cefaleia, soluço; raramente: psicose, lúpus-like, SJS, aplasia

Princípios gerais da seleção de DEA:

  • Iniciar com 1 fármaco (monoterapia), dose baixa, escalonamento lento
  • Se falha: tentar 2ª monoterapia (DEA de mecanismo diferente) antes de politerapia
  • 65-70% dos pacientes ficam livres de crises com os primeiros 2 DEAs; 30-35% = epilepsia refratária → cirurgia/estimulação vagal/dieta cetogênica a considerar
  • Mulheres em idade fértil: evitar valproato se possível; preferir lamotrigina, levetiracetam, oxcarbazepina; contracepção (COC pode reduzir nível de lamotrigina e oxcarbazepina!)
  • Idosos: iniciar com doses menores (PK alterada); evitar carbamazepina (hiponatremia); fenobarbital (sedação, colunosidade); preferir lamotrigina, levetiracetam, lacosamida

Perguntas frequentes sobre antiepilépticos e epilepsia

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por quanto tempo devo tomar o antiepiléptico? Posso parar se ficar 2 anos sem crises?+

A decisão de suspender o antiepiléptico após período livre de crises é complexa e deve ser feita com o neurologista — não tente suspender sozinho. Regra geral: após 2-5 anos sem crises (dependendo da síndrome epiléptica e do risco individual), é possível tentar retirada gradual em alguns pacientes. Fatores que AUMENTAM o risco de recidiva e aconselham manter o tratamento: síndrome epiléptica de alta recorrência (JME — taxas de recidiva após retirada chegam a 80-90%; manter por décadas); EEG ainda com atividade anormal; ressonância magnética com lesão epileptogênica; história de múltiplos tipos de crise; início tardio de controle de crises; adolescentes e adultos jovens com JME têm recidiva praticamente certa se suspenderem. Fatores que DIMINUEM o risco: crise única (provocada ou não-provocada); epilepsia benigna da infância (BECTS — remissão quase certa na puberdade); EEG normalizado; RMN normal; criança com determinadas síndromes autolimitadas. Se a decisão de suspender for tomada: redução gradual ao longo de 3-6+ meses (jamais suspensão abrupta — risco de status epilepticus). A carteira de motorista: no Brasil, quem tem epilepsia não pode dirigir durante a fase instável e deve aguardar 1-2 anos sem crises para reavaliação médica — a suspensão do DEA deve considerar esse impacto.

Mulher grávida com epilepsia — preciso parar o antiepiléptico?+

NÃO suspenda antiepiléptico na gravidez sem consultar o neurologista e o obstetra especializado — crises epilépticas durante a gestação têm riscos maiores que os da maioria dos DEAs (trauma fetal, anóxia, parto prematuro, até morte fetal em status epilepticus). A gestação é um período de ALTA PRIORIDADE de controle de crises. O que fazer: (1) Se planeja engravidar, avise o neurologista com antecedência para otimizar o regime pré-gestação (trocar valproato por alternativa mais segura se possível, ajustar dose, iniciar folato 5 mg/dia pelo menos 3 meses antes); (2) Evitar valproato se alternativa eficaz disponível — maior teratogênico; lamotrigina e levetiracetam são relativamente mais seguros; (3) Monoterapia na menor dose eficaz é o objetivo; (4) Níveis séricos devem ser monitorados durante a gestação: lamotrigina tem seu nível reduzido em 40-65% na gravidez (clearance aumenta); levetiracetam também cai; pode precisar aumentar dose; (5) Suplementar folato 5 mg/dia (não 0.4 mg — dose padrão é insuficiente para mulheres em DEAs); (6) Vitamina K 10 mg/dia no último mês da gestação se em DEA indutor de CYP (CBZ, fenitoína, fenobarbital) para prevenir hemorragia neonatal. Registro de gestações com epilepsia: EURAP, NAAPR, ENTIS coletam dados reais — pacientes podem se registrar.

O levetiracetam realmente causa irritabilidade e agressividade?+

Sim — é um efeito adverso real e documentado, não um mito. A 'Keppra rage' é coloquialmente conhecida entre neurologistas e pacientes. Prevalência: irritabilidade, agressividade, hostilidade, labilidade emocional afetam 10-20% dos pacientes; depressão e ansiedade também são relatadas. Mecanismo: incerto, mas acredita-se que a modulação de SV2A altera a liberação de neurotransmissores em circuitos de regulação emocional além dos epilépticos. Fatores de risco: história prévia de distúrbio psiquiátrico (depressão, ansiedade, TDAH), personalidade borderline, crianças pequenas, escalada rápida de dose. O que ajuda: (1) Titulação mais lenta; (2) Piridoxina (vitamina B6) 100-200 mg/dia — evidência anedótica/clínica de redução de irritabilidade, mecanismo não totalmente esclarecido mas amplamente usada por neurologistas; (3) Se persistir, trocar para brivaracetam (Briviact® — análogo de 2ª geração com afinidade maior por SV2A mas com menor risco de irritabilidade — estudos sugerem melhor perfil comportamental); (4) Considerar troca para lacosamida em epilepsia focal.

Carbamazepina e a pílula anticoncepcional são incompatíveis?+

Sim — carbamazepina é um indutor potente de CYP3A4 e pode REDUZIR o nível de etinilestradiol e das progestinas dos contraceptivos orais em 50-70%, causando FALHA CONTRACEPTIVA. Além de carbamazepina, outros antiepilépticos indutores que reduzem eficácia dos COCs: fenitoína, fenobarbital, primidona, oxcarbazepina (parcialmente), topiramato (em doses ≥200 mg/dia), rufinamida, eslicarbazepina. O que fazer: (1) DEAs NÃO-indutores: levetiracetam, lamotrigina, lacosamida, valproato, etossuximida, perampanel, zonisamida, gabapentina, pregabalina — NÃO interferem com anticoncepcionais (exceto que os COC AUMENTAM clearance da lamotrigina, reduzindo seu nível em 40-65% — monitorar crises após iniciar/parar COC com lamotrigina); (2) Se precisar usar indutor + contracepção: DIU de levonorgestrel (Mirena® — hormônio local, sem passagem pelo CYP hepático → não afetado por indutores); DIU de cobre (não-hormonal); medroxiprogesterona injetável (Depo-Provera — menos afetada); implante subdérmico de levonorgestrel (Implanon® — risco de falha com indutores, mas menos que pílula); se COC for a única opção → usar EE de dose mais alta (50 μg, mas limitação de disponibilidade) e método de barreira adicional.

Referências Científicas

  1. Perucca E, Tomson T. The pharmacological treatment of epilepsy in adults (review). Lancet Neurol, 2011.
  2. Kwan P, Brodie MJ. Early identification of refractory epilepsy (key landmark study). N Engl J Med, 2000.
  3. French JA, Staley BA. AAN/AES New Antiepileptic Drug Guidelines: What Are They Telling Us and Do They Need to Be Revised?. Epilepsy Currents, 2012.
  4. Veroniki AA, Cogo E, Rios P, et al. Comparative safety of anti-epileptic drugs during pregnancy: a systematic review and network meta-analysis of congenital malformations and prenatal outcomes. BMC Med, 2017.
  5. Potschka H, Trinka E. Perampanel: Does it have broad-spectrum potential? (AMPA antagonist review). Epilepsia, 2019.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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