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← Blog·peptideos22 de junho de 2026· 13 min de leitura

Anestésicos gerais (propofol, cetamina, sevoflurano, desflurano) e bloqueadores neuromusculares (rocurônio, succinilcolina, sugammadex)

Propofol modula GABA-A. Cetamina antagoniza NMDA (anestesia dissociativa). Sevoflurano e desflurano são voláteis halogenados. Rocurônio e succinilcolina bloqueiam a placa motora. Sugammadex reverte rocurônio seletivamente. Componentes da tríade anestésica: hipnose, analgesia e bloqueio neuromuscular.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Tríade anestésica e componentes da anestesia geral

Anestesia Geral — estado reversível de: hipnose (inconsciência), analgesia (abolição da dor), amnésia e bloqueio neuromuscular (quando indicado). A "tríade anestésica" (Woodbridge, 1957) descreve os componentes que devem ser individualmente manejados:

  1. Hipnose/Sedação (inconsciência): propofol, barbituratos, benzodiazepínicos, etomidato, anestésicos voláteis (sevoflurano, desflurano, isoflurano)
  2. Analgesia (controle da dor): opioides (fentanila, sufentanila, remifentanila, morfina), cetamina (N-methyl-D-aspartate = NMDA antagonista), AINEs/paracetamol (analgesia multimodal), anestésicos locais (bloqueios regionais)
  3. Bloqueio Neuromuscular (BNM) (imobilidade/relaxamento muscular — quando necessário): succinilcolina (despolarizante), rocurônio, vecurônio, cisatracúrio (não-despolarizantes)

Monitoramento durante anestesia geral:

  • Padrão: ECG, SpO2, ETCO2 (capnografia — OBRIGATÓRIA em ventilação mecânica), PA não-invasiva, temperatura
  • Profundidade da anestesia: BIS (Bispectral Index) — EEG processado; valor 40-60 = anestesia adequada; >60 = despertar, <40 = anestesia excessiva
  • Bloqueio neuromuscular: TOF (Train of Four) — 4 estímulos elétricos ao nervo ulnar → 4 conttrações no músculo adutor do polegar; T4/T1 (TOF ratio) <0.9 = BNM residual

Farmacodinâmica cerebral — mecanismos gerais da hipnose:

  • Potenciação de GABA-A (canal Cl- → hiperpolarização): propofol, benzodiazepínicos, barbituratos, etomidato, anestésicos voláteis (parcialmente)
  • Bloqueio de NMDA (receptor de glutamato/cálcio): cetamina, óxido nitroso (N2O)
  • Bloqueio de canais TREK-1 e HCN: anestésicos voláteis (parcialmente)
  • MAC (Minimum Alveolar Concentration): para voláteis, a concentração alveolar que previne movimento em 50% dos pacientes em resposta a incisão cirúrgica; sevoflurano MAC = 2.05%; desflurano = 6%; isoflurano = 1.15%

Agentes intravenosos: propofol, cetamina, etomidato e midazolam

Propofol (Diprivan® — Fresenius Kabi / AstraZeneca; genérico) — anestésico/sedativo IV mais usado no mundo:

  • Mecanismo: potencializa GABA-A → aumento da condutância ao Cl- → hiperpolarização → depressão do SNC; pode bloquear canais AMPA e NMDA parcialmente; reduz metabolismo cerebral de glicose (CMRO2) e fluxo sanguíneo cerebral → neuroprotetor modesto
  • Formulação: emulsão lipídica 1% (10 mg/mL) em óleo de soja + glicerol + lecitina de ovo → NÃO usar em alérgicos a ovo/soja (anafilaxia possível, embora rara — alergia ao ovo é frequentemente ao albumo, não à lecitina da gema; mas cautela); alto teor calórico (1.1 kcal/mL) → considerar no cálculo nutricional em UTI
  • Indução: 1-2.5 mg/kg IV (0.5-1 mg/kg em idosos, anemia, instabilidade hemodinâmica)
  • Manutenção: 4-12 mg/kg/h IV em infusão contínua (TIVA — Total Intravenous Anesthesia) ou 25-75 mcg/kg/min; infusão alvo-controlada (TCI = Target-Controlled Infusion) com modelos farmacocinéticos (Marsh, Schnider) define concentração-alvo plasmática
  • Sedação em UTI: 0.3-4 mg/kg/h; evitar infusões >4 mg/kg/h por >48h → risco de PRIS
  • Farmacocinética: Vd enorme (600 L/70 kg = muito lipofílico); clearance hepático alto (CL = 1.5-2 L/min) + extra-hepático (pulmões, rins); redistribuição rápida (início de ação: 30-60s; duração dose única: 5-10 min)
  • Vantagens: início e recuperação MUITO rápidos (crispy recovery — sem ressaca), antiemético (reduz NVPO), broncodilatador leve, menor excitabilidade neuronal (bom em epilepsia)
  • Efeitos adversos:

- Hipotensão (principal — reduz RVS e contratilidade, depressão do tônus simpático): manejo com fluidos e vasopressores; mais grave em pacientes hipovolêmicos, idosos, com disfunção ventricular - Apneia na indução → ventilação obrigatória imediata - Dor na injeção IV: muito comum (70-80% em veia periférica do dorso da mão); atenuar com lidocaína 40 mg IV ou ketamina 0.5 mg/kg IV prévia; usar veia cubital - PRIS (Propofol Infusion Syndrome): raro mas potencialmente fatal em sedação prolongada (>48h) ou alta dose (>4 mg/kg/h) → acidose metabólica (HAGMA), rhabdomiolise, insuficiência renal, hiperlipidemia, bradiarritmias, IC; monitor TG, CK, pH em sedação prolongada; suspender se sinais - Hipertrigliceridemia: propofol em emulsão lipídica → monitorar TG em sedação prolongada; pode limitar nutrição lipídica enteral - Inibe plaquetas in vitro (clinicamente relevante em altas doses) - Contaminação bacteriana: sem conservante → preparar em condições assépticas, usar em até 12h; surtos de infecção associados a propofol relatados

Cetamina (Ketalar® — Pfizer / genérico):

  • Mecanismo: antagonista não-competitivo dos receptores NMDA (bloqueia o canal na configuração aberta → "open channel blocker"); os receptores NMDA são ionotrópicos ativados por glutamato e glicina → a cetamina bloqueia o influxo de Ca2+ e Na+ → depressão cortical de forma dissociativa
  • Anestesia dissociativa: estado de transe com olhos abertos, nistagmo, movimentos involuntários, desconexão do ambiente (cortical "dissociada" do subcortical/límbico); o paciente não responde a dor mas parece "acordado"
  • Formulações: 10, 50, 500 mg/mL (atenção às concentrações!)
  • Indução: 1-2 mg/kg IV (3-4 mg/kg IM em crianças sem acesso venoso — 1ª escolha pediátrica para sedação procedural em PS)
  • Subanestésica (analgesia/dissociação mínima): 0.2-0.5 mg/kg IV; infusão 0.1-0.2 mg/kg/h
  • Analgesia: cetamina em dose subanestésica (pré-operatório ou intraoperatório 0.5 mg/kg + infusão 0.1-0.2 mg/kg/h) → reduz consumo de opioides no pós-operatório 30-40% (opioid-sparing); útil em dor crônica refratária, dor por câncer, fibromialgia (off-label)
  • Vantagens únicas:

- Mantém tônus simpático → aumenta PA e FC (ao contrário do propofol) → ideal em pacientes em choque, trauma, instabilidade hemodinâmica - Mantém reflexos de vias aéreas superiores melhor que outros anestésicos (ainda que cuidado — não elimina o risco de broncoaspiração em urgência) - Broncodilatador potente: aumenta tônus simpático → estimula liberação de catecolaminas → relaxa musculatura brônquica; indicado em broncoespasmo grave/asma refratária - Amnésia profunda; analgesia; sedação procedural em crianças (menor risco de depressão respiratória que opioides) - Esketamina intranasal (Spravato® — Janssen): S-enantiômero da cetamina; aprovado FDA/ANVISA para depressão resistente ao tratamento e ideação suicida aguda; mecanismo antidepressivo rápido (horas) via NMDA e possivelmente AMPA

  • Efeitos adversos:

- Fenômenos emergentes (emergence phenomena): alucinações, delirium, pesadelos durante recuperação — em 10-30% de adultos; muito menos em crianças; prevenir/tratar com benzodiazepínico (midazolam 0.05 mg/kg IV) adjunto - Hipertensão e taquicardia (efeito simpaticomimético — CONTRAINDICADO em HAS grave não controlada, cardiopatia isquêmica, hipertireoidismo, aneurisma aórtico) - Hipersecreção salivar e brônquica (atropina 0.01 mg/kg pode reduzir; geralmente autolimitada) - Aumento de pressão intracraniana (PIC): tradicionalmente contraindicada em trauma cranioencefálico — evidência mais recente questiona isso (pode ser neutramente inócua ou até protetora via NMDA em TCE grave), mas sair dessa contraindicação requer evidências mais sólidas - Cystitis cetamínica: em uso recreativo crônico de altas doses → cistite intersticial grave → bexiga hipercontraída ("ketamine bladder syndrome")

Etomidato (Hypnomidate® / Amidate®):

  • Potencializa GABA-A (similar ao propofol mas estruturalmente diferente — derivado imidazólico)
  • Hemodinamicamente NEUTRO: mínima depressão cardiovascular → indicado especialmente para indução em pacientes instáveis, trauma, sepse, cardiopatia grave
  • Dose de indução: 0.2-0.4 mg/kg IV
  • Desvantagem importante: inibe 11β-hidroxilase adrenal → supressão adrenal → redução aguda de cortisol e aldosterona (dose única → supressão por 6-24h); em UTI com infusão prolongada → insuficiência adrenal clínica significativa → NÃO usar em infusão contínua (somente dose única de indução)
  • Mioclonias na indução (movimentos involuntários em 20-40%); náusea/vômito no pós-operatório

Midazolam (Dormicum® / genérico):

  • Benzodiazepínico de ação rápida; potencializa GABA-A (aumenta frequência de abertura do canal Cl-)
  • Pré-medicação anestésica (0.02-0.05 mg/kg IV/IM), sedação procedural consciente, sedação em UTI (mas propofol e dexmedetomidina superiores em SICU), adjuvante para emergência pós-cetamina
  • Reversível com flumazenil (0.2 mg IV, repetir a cada 60s, máx 1 mg) — porém meia-vida do flumazenil é curta (<1h); risco de ressedação em benzodiazepínico de longa ação

Dexmedetomidina (Precedex® — Pfizer / Dexdomitor®):

  • α2-agonista seletivo (via locus coeruleus → inibição de noradrenalina) → sedação com manutenção de estado despertável ("cooperative sedation") e analgesia; NÃO deprime respiração significativamente → único sedativo que pode ser usado em ventilação não-invasiva (VNI) e em pacientes espontaneamente ventilando; reduz delirium em UTI (MENDS2, PRODEX trials); bradicardia e hipotensão são efeitos adversos principais

Anestésicos voláteis halogenados e bloqueadores neuromusculares + reversão

Anestésicos Voláteis Halogenados (AVH):

Sevoflurano (Ultane® — AbbVie / Sevorane® — Abbott / Sojourn®):

  • Éter fluorado; líquido volátil administrado por vaporizador no circuito de anestesia
  • MAC = 2.05% (adulto); 3.3% (criança <1 ano)
  • Indução inalatória: tolera indução suave (odor agradável, não irritativo) → único volátil que pode induzir anestesia por inalação (induction by mask) sem causar tosse/laringoespasmo → excelente em crianças (em quem acesso venoso é desconfortável) e adultos temerosos de agulha
  • Mecanismo: múltiplos: (1) GABA-A potenciação; (2) bloqueio de canais Nav; (3) ativação de canais K+ (TREK-1); (4) bloqueio de receptores NMDA e nAChR; (5) inibição de canais Ih (HCN); ação exata ainda em debate (meyer-overton lipid theory vs protein binding theory)
  • Farmacocinética favorável: baixo coeficiente de partição sangue/gás (0.65) → rápida indução e recuperação; baixo metabolismo hepático (~3% → fluoreto inorgânico, mas concentrações raramente nefrotóxicas em uso clínico normal)
  • Vantagens: indução suave, recuperação rápida, broncodilatador (útil em asma), cardioproteção por preconditioning isquêmico; amplamente disponível
  • Desvantagens: Composto A (produto de degradação com absorvente de CO2 em baixo fluxo) → nefrotóxica em ratos; clinicamente não-relevante com fluxo de gás >2 L/min ou absorvente moderno; fluoreto inorgânico < 50 μmol/L na maioria dos casos
  • Epileptogenicidade: EEG spike-and-wave em altas concentrações (>2 MAC), especialmente com hiperventilação → evitar em epilépticos se doses altas; sevoflurano LOW-MAC + isoflurano são preferíveis nesses casos

Desflurano (Suprane® — Baxter):

  • Éter fluorado de baixíssima solubilidade (coeficiente sangue/gás 0.42 — o menor entre os voláteis) → recuperação MAIS RÁPIDA de todos (despertar em 5-8 min vs 10-15 min para sevoflurano)
  • MAC = 6% (adulto); 9.9% (neonato)
  • NÃO pode ser usado para indução inalatória (muito irritativo → tosse, laringoespasmo, taquicardia → usar propofol para indução e manter com desflurano)
  • Exige vaporizador aquecido e pressurizado (pB baixa = 88°F → necessita aquecimento ativo para vaporização controlada → vaporizador Tec6 específico)
  • Vantagem clínica: recuperação mais rápida → útil em cirurgias longas (neurocirurgia, ortopedia de grande porte) onde recuperação rápida importa (testes neurológicos precoces, extubação rápida)
  • Desvantagem ambiental: desflurano tem fator de aquecimento global 2500x maior que CO2 e desflurano é o volátil mais prejudicial ao meio ambiente dentre os halogenados → muitos hospitais europeus eliminaram desflurano por preocupações ambientais; tendência global de uso reduzido
  • Desvantagem cardiovascular: estimulação simpática transitória se concentração aumentada abruptamente → taquicardia e HAS (janela de titulação)

Isoflurano (Forane® — AbbVie / genérico): o mais antigo dos modernos; MAC 1.15%; odor pungente; não para indução; coeficiente de partição 1.4 (mais lento que sevo/des); barato; ainda muito usado em países em desenvolvimento; mínimo metabolismo hepático (~0.2%)

N2O (Óxido Nitroso / gás hilariante):

  • MAC = 104% (não pode ser usado em concentrações suficientes em normobárica sem causar hipóxia); usado como adjuvante (mistura 50% N2O + 50% O2 ou 70%/30%)
  • Mecanismo: antagonismo de NMDA (analgesia significativa — similar à cetamina), potenciação de GABA-A, ativação de vias opioídeas endógenas
  • Vantagens: analgesia excelente, rápido onset/offset, reduz concentração necessária de outros voláteis (reduz MAC em ~60%)
  • Desvantagens: expansão de espaços fechados (intestino, ouvido médio, pneumotórax, bolha de ar em cirurgia ocular — CONTRAINDICADO nessas situações); NVPO aumentado (um dos maiores fatores de risco); inativa vitamina B12 (metionina sintase) → evitar em cirurgias longas e em deficiência de B12; impacto ambiental moderado; hipóxia por difusão ao final (dar O2 100% ao acordar)

Bloqueadores Neuromusculares (BNM) — atuam na junção neuromuscular (placa motora):

Succinilcolina (Anectine® — Sandoz / genérico):

  • Bloqueador despolarizante: mimetiza acetilcolina → liga aos receptores nicotínicos (nAChR) da placa motora → despolarização prolongada → fasciculações → bloqueio (placa mantida despolarizada = incapaz de repolarizar = imobilidade)
  • Dose: 1-1.5 mg/kg IV (com 2 mg/kg em obesos ou quando resgate de via aérea difícil é crítico)
  • Início ultra-rápido: 45-60s; duração CURTA: 8-12 min (hidrólise por pseudocolinesterase plasmática = butirilcolinesterase → succinato + colina)
  • Indicação principal: intubação de sequência rápida (RSI — Rapid Sequence Intubation) quando via aérea de emergência é necessária E há risco de broncoaspiração (estômago cheio, urgência) E risco de "impossível intubar + impossível ventilar" (onde duração curta seria vantajosa se intubação falha)
  • Contraindicações — CRÍTICAS:

- Hiperpotassemia ou risco aumentado de hiperpotassemia: a despolarização da placa motora → abertura de canais iônicos → saída de K+ → elevação de K+ sérico de 0.5-1 mEq/L (normal/aceitável) → porém em estados com upregulation de nAChR extrajoncionais (burns, imobilização prolongada >72h, lesão raquimedular subaguda, UMN lesion, desnervação, sepse prolongada, encefalopatia, grandes queimaduras, trauma muscular) → exagerada saída de K+ → parada cardíaca por hiperpotassemia (K+ pode subir para 10-12 mEq/L) → FATAL! - Miopatias (Duchenne, Becker): lise muscular com hiperpotassemia e rabdomiolise - Deficiência de pseudocolinesterase (genética: ~1:2500 pessoas têm variante atípica → bloqueio prolongado de horas = "scoline apnea" — tratar suportando ventilação até resolução) - Hipertermia maligna (succinilcolina é um dos 2 gatilhos = succinilcolina + halogenados) - Glaucoma de ângulo fechado (contração dos músculos extraoculares aumenta PIO) - Lesão penetrante de olho

Rocurônio (Zemuron® / Esmeron® — Organon / genérico):

  • Bloqueador não-despolarizante aminoesteroidal: compete com acetilcolina nos nAChR da placa motora → sem ativação → sem despolarização → sem contração
  • Dose intubação: 0.6 mg/kg (0.9-1.2 mg/kg para RSI de alta dose, equivalente à succinilcolina em tempo de intubação)
  • Em dose alta (1.2 mg/kg): início em 60s → alternativa à succinilcolina na RSI (especialmente quando succinilcolina é contraindicada)
  • Duração (0.6 mg/kg): 30-60 min; (1.2 mg/kg): 60-90 min
  • VANTAGEM CRÍTICA: 100% reversível com sugammadex (vide abaixo)
  • Sem liberação de histamina (ao contrário de atracúrio/mivacúrio); metabolismo hepático e excreção biliar; ajustar em hepatopatia grave; excreção renal modesta

Vecurônio (Norcuron® — Organon / genérico): aminoesteroidal de duração intermediária (25-40 min); sem efeitos cardiovasculares; metabolismo hepático; reversível com sugammadex

Cisatracúrio (Nimbex® — AbbVie): benzilisoquinolinol; eliminação de Hofmann (degradação espontânea por pH/temperatura em plasma e tecidos independente de órgãos) + hidrólise por esterases plasmáticas → não depende de rim/fígado → preferido em insuficiência renal e hepática grave, UTI (sem acúmulo); libera laudanosina (metabólito, potencialmente proconvulsivante em doses muito altas e renais — clinicamente raro)

Reversão do bloqueio neuromuscular:

Sugammadex (Bridion® — Merck/MSD):

  • Mecanismo único: ciclodextrina gama modificada → encapsula seletivamente moléculas de rocurônio e vecurônio (e em menor grau pancurônio) → complexo inativo → dissociação da placa motora → reversão RÁPIDA E COMPLETA (TOF ratio ≥0.9 em 3-5 min)
  • Doses: reversão de BNM profundo (1 twich TOF = T1 apenas): 16 mg/kg IV; moderado (2-3 twitches): 4 mg/kg IV; superficial (TOF ≥0.9): 2 mg/kg IV
  • Emergência de via aérea difícil "Can't intubate, Can't oxygenate" (CICO): se rocurônio usado em altas doses → sugammadex 16 mg/kg → reversão em ~3 min → permite acordar o paciente
  • Vantagem vs neostigmina: sugammadex não causa bradicardia, não require atropina/glicopirrolato, reversão mais completa e previsível, funciona em qualquer profundidade de BNM (neostigmina só funciona em BNM residual superficial e precisa de T2+)
  • Efeitos adversos: gosto metálico, náusea, bradicardia (raro), reações de hipersensibilidade (0.3% — raras); INTERAGE com contracepção oral (pode reduzir eficácia do contraceptivo no dia da cirurgia — recomendar método de barreira adicional por 7 dias; mecanismo: sugammadex capta progesterona exógena)

Neostigmina: inibidor de colinesterase → aumenta acetilcolina na placa → competição com bloqueador não-despolarizante → reversão parcial; SEMPRE administrar com antimuscarínico (atropina 0.02 mg/kg ou glicopirrolato 0.01 mg/kg) para prevenir bradicardia/hipersalivação/broncoespasmo

Monitoramento TOF (Train of Four):

  • 4 estímulos de 2 Hz por 2s ao nervo ulnar (ou facial ou tibial)
  • T4/T1 ratio: meta de extubação = TOF ≥0.9 (ou contagem de 4 twitches iguais por aceleromiografia)
  • BNM residual (TOF <0.9) = causa frequente de hipóxia pós-operatória precoce → sempre confirmar reversão objetivamente antes de extubação

Perguntas frequentes sobre anestesia geral

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Acordar durante a cirurgia é possível? O que é 'awareness anestésico'?+

Awareness anestésico (despertar intraoperatório) é um evento real, raro mas documentado. Incidência: 1-2 casos por 1000 anestesias gerais (0.1-0.2%); mais comum em casos de alto risco: cirurgia cardíaca, cesárea emergencial, trauma com instabilidade hemodinâmica (onde o anestesista reduz doses para não 'matar' o paciente com hipotensão). O paciente pode ter consciência com paralisia muscular (bloqueador neuromuscular em uso = não consegue se mover) → experiência extremamente angustiante e pode causar PTSD. Medidas para prevenir: BIS (Bispectral Index, monitor de profundidade anestésica por EEG) — alvo 40-60 durante cirurgia; uso de ETAG (End Tidal Anesthetic Gas) monitoramento da concentração expirada do volátil (manter ≥0.7 MAC); evitar suspender hipnótico sem aviso; TIVA (propofol) + BIS. A maioria dos casos de awareness tem causa identificável: bomba de propofol desconectada, vaporiza desligado, equipamento falho. O B-Aware trial (Myles 2004) mostrou que BIS reduz taxa de awareness em ~80%. Se suspeitar de awareness após cirurgia, o paciente deve ser encaminhado para suporte psicológico e avaliação de PTSD.

Propofol causa dependência? Por que celebridades morrem com propofol?+

Propofol causa dependência psicológica em profissionais de saúde com acesso (anestesiologistas, enfermeiros de anestesia, médicos de UTI) — é um risco ocupacional documentado. O propofol produz efeitos euforizantes/dissociativos/sedativos quando usado recreativamente, levando a auto-administração. O caso mais notório foi Michael Jackson (2009): uso crônico de propofol para insônia (propofol 'o fez dormir' sem a REM e os estágios normais do sono) → tolerância crescente + auto-administração sem monitoramento + sem controle de via aérea = apneia sem detecção → morte. O propofol NÃO é um hipnótico para insônia — produz sedação anestésica, não sono fisiológico; é uso para insônia é potencialmente fatal sem controle de via aérea (monitoramento de SpO2 e ventilação). O propofol tem janela terapêutica estreita entre sedação adequada e apneia — é usada em ambiente hospitalar por esse motivo. O propofol não é um opioide nem um benzodiazepínico, portanto não tem os mesmos padrões de dependência física (sem síndrome de abstinência clássica), mas a dependência psicológica em profissionais de saúde é um problema de saúde pública na anestesiologia.

Para que serve o sugammadex e por que ele é tão caro?+

Sugammadex (Bridion®) é uma cyclodextrina modificada que funciona como uma 'armadilha molecular' para rocurônio e vecurônio — moléculas de blockeador neuromuscular. Ele encapsula os bloqueadores no plasma, criando um complexo inativo; o rocurônio 'sai' da junção neuromuscular para o plasma (equilíbrio gradiente de concentração) e é encapsulado pelo sugammadex → reversão completa do bloqueio em 3-5 minutos. A importância clínica: (1) Reversão de qualquer profundidade de BNM (incluindo bloqueio profundo) — a neostigmina clássica só reverte BNM superficial residual, não profundo; (2) Reversão de emergência em 'Can't intubate, Can't oxygenate' (CICO): 16 mg/kg IV de sugammadex após rocurônio em altas doses → paciente recupera tônus muscular em ~3 min → pode ser acordado, salvo; (3) Sem efeitos muscarínicos (sem atropina necessária); (4) Permite uso mais confortável de bloqueio profundo prolongado intraoperatório (neurocirurgia, laparoscopia retroperitoneal) com certeza de reversão completa. Custo: alto porque é uma molécula de ciclodextrina sinteticamente modificada, protegiada por patente até recentemente (patente Organon expirou), produção complexa, e a dose única de 200 mg (≈4 mg/kg) custa R$ 300-800 em hospitais brasileiros. Sugammadex é custo-efetivo quando se considera a redução de complicações pós-operatórias por BNM residual.

Cetamina pode realmente tratar depressão resistente?+

Sim — esketamina intranasal (Spravato® — Janssen) é aprovada pela FDA (2019) e pela ANVISA para depressão resistente ao tratamento (TRD) e para depressão com ideação suicida aguda. A esketamina é o S-enantiômero da cetamina racêmica, com maior afinidade pelo receptor NMDA. Mecanismo antidepressivo (diferente dos antidepressivos clássicos que levam semanas): bloqueio NMDA → desinibição de AMPA → burst de glutamato → ativação de BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor) e mTORC1 → rápida sinaptoneurogênese → restauração de sinapses dendríticas em circuitos emocionais (especialmente no córtex pré-frontal) → antidepressão em horas a dias. Estudos TRANSFORM (TRD) e ASPIRE (ideação suicida) documentaram: redução significativa de escores de depressão (MADRS) em 24-48h vs placebo nasal; resposta em 40-70% dos pacientes. Limitações: custo muito alto (R$ 1000-3000+/administração no Brasil); administrado apenas supervisionado em clínica (por risco de dissociação, abuso, PA); efeito pode não ser duradouro (sessões repetidas necessárias: 2x/semana × 4 semanas, depois semanal/mensal); efeitos dissociativos temporários durante administração; risco de cistite em uso repetido de longo prazo (como encontrado em uso recreativo — menos provável em uso terapêutico supervisionado mas monitorar).

Referências Científicas

  1. Myles PS, Leslie K, McNeil J, et al. (B-Aware trial — BIS and awareness) Bispectral index monitoring to prevent awareness during anaesthesia: the B-Aware randomised controlled trial. Lancet, 2004.
  2. Sugammadex FDA Advisory Committee (Organon submission — reversal agent review) Sugammadex sodium (Bridion) for reversal of neuromuscular blockade. FDA Drug Approval Package, 2015.
  3. Dworkin RH, O'Connor AB, Backonja M, et al. (ketamine analgesia context) Pharmacologic management of neuropathic pain: evidence-based recommendations. Pain, 2007.
  4. Esketamine (Spravato®) — FDA Approval Documents (TRANSFORM, ASPIRE trials) Intranasal Esketamine for Treatment-Resistant Depression (TRANSFORM-1, TRANSFORM-2, ASPIRE trials — Phase III). J Clin Psychiatry / NEJM Evidence, 2019.
  5. Gan TJ, et al. (PONV and anesthetic management — consensus guidelines 2020) Fourth Consensus Guidelines for the Management of Postoperative Nausea and Vomiting. Anesthesia & Analgesia, 2020.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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