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← Blog·peptideos14 de julho de 2026· 13 min de leitura

Antiarrítmicos — amiodarona, flecainida, sotalol e adenosina: classificação Vaughan-Williams, canais iônicos, prolongamento do QT e indicações clínicas

Antiarrítmicos bloqueiam canais iônicos cardíacos específicos para suprimir arritmias. Amiodarona (classe III — bloqueia K⁺, Na⁺, Ca²⁺ e β) é o mais potente mas com toxicidade multiorgânica. Flecainida (classe IC — bloqueia Na⁺) contraindicada pós-IAM (CAST trial). Sotalol (classe III + betabloqueador) prolonga QT e pode causar torsades. Adenosina (bólus IV) termina taquicardias supraventriculares por reentrada nodal. Digoxina controla frequência em FA.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Fisiologia do potencial de ação cardíaco e classificação de antiarrítmicos Vaughan-Williams

POTENCIAL DE AÇÃO CARDÍACO — fases e canais iônicos:

Células do músculo ventricular (potencial de ação longo — 250-400 ms, planalto característico):

  • Fase 0 (despolarização rápida): abertura dos canais de Na⁺ rápidos voltagem-dependentes (Nav1.5) → influxo rápido de Na⁺ → voltagem de -90 mV vai para +30 mV em ms; gera a velocidade de condução (Vmax) que determina a velocidade de propagação do impulso pelo miocárdio
  • Fase 1 (repolarização precoce rápida): fechamento dos canais Nav + ativação de canais Ito (transitório de saída de K⁺) → ligeira queda
  • Fase 2 (planalto / plateau): equilíbrio entre entrada de Ca²⁺ pelos canais L (ICaL) e saída de K⁺ pelos canais IKr (hERG) e IKs → manutenção de voltagem plateau; o Ca²⁺ que entra durante o planalto dispara a liberação de Ca²⁺ do retículo sarcoplasmático (CICR — calcium-induced calcium release) → contração muscular
  • Fase 3 (repolarização rápida): saída predominante de K⁺ pelos canais IKr e IKs → voltagem cai de volta a -90 mV
  • Fase 4 (potencial de repouso): -90 mV estável; bomba Na⁺/K⁺-ATPase mantém gradientes

Células do nó sinoatrial (SA) e nó atrioventricular (AV) — potencial de ação lento:

  • Não têm canais Nav1.5 rápidos; dependem de canais lentos de Ca²⁺ (ICaL e ICaT) para a despolarização
  • Fase 4 com despolarização espontânea (automatismo): corrente If ("funny current" — HCN — ativada na hiperpolarização → influxo de Na⁺/K⁺ → despolarização lenta até o limiar) → automatismo do nó SA (60-100 bpm), AV (40-60 bpm de backup)
  • Período refratário efetivo (ERP): os canais Nav1.5 e Ca2+ ficam inativos por um tempo após despolarização → o coração não pode ser reativado → proteção contra reentrada; antiarrítmicos que prolongam o ERP → suprimem circuitos de reentrada

MECANISMOS DAS ARRITMIAS:

  1. Reentrada (mais comum): um impulso elétrico encontra bloqueio unidirecional em uma região de tecido lento/lesado → circula pelo tecido vizinho mais rápido → retorna ao local de bloqueio (que já se recuperou) → reexcita → circuito contínuo; base de fibrilação atrial, flutter atrial, taquicardias supraventriculares, TV/FV; requer: circuito anatômico ou funcional + bloqueio unidirecional + condução lenta suficiente para o tecido se repolarizar
  2. Automatismo anormal: células não-marcapassos adquirem automatismo (post-MI, hipocalemia, digoxina tóxica, isquemia) → extrassístoles, ritmos ectópicos
  3. Pós-potenciais (afterdepolarizations): EAD (early afterdepolarizations — durante fase 2-3, em bradicardia e QT longo) → dispara torsades de pointes; DAD (delayed afterdepolarizations — após repolarização completa, em sobrecarga de Ca²⁺ — digoxina) → dispara arritmias em digitálicos

CLASSIFICAÇÃO DE VAUGHAN-WILLIAMS (modificada):

  • Classe I (bloqueadores de canal de Na⁺ — reduzem Vmax — velocidade de condução):

- IA (quinidina, procainamida, disopiramida): bloqueia Na⁺ moderadamente + K⁺ (IKr) → prolonga QTc - IB (lidocaína IV, mexiletina): bloqueia Na⁺ seletivamente em tecidos rápidos e despolarizados (taquicardia/isquemia); encurta o plateau (encurta QT); afinidade seletiva por canais inativados (tecido isquêmico) - IC (flecainida, propafenona): bloqueio de Na⁺ mais potente; prolonga PR e QRS; NÃO prolonga significativamente o QT

  • Classe II (betabloqueadores): bloqueia receptores β1 → diminui automatismo do nó SA (bradicardia sinusal), aumenta período refratário no nó AV (bloqueia a condução AV → controla resposta ventricular na FA), reduz pós-potenciais mediados por catecolaminas
  • Classe III (bloqueadores de canal de K⁺ — amiodarona, sotalol, dofetilida, ibutilida): bloqueia IKr (hERG) e outros canais K⁺ → prolonga a fase 3 → prolonga ERP e QTc → suprime circuitos de reentrada que dependem de tecido com ERP curto
  • Classe IV (bloqueadores de canal de Ca²⁺ — verapamil, diltiazem): bloqueia ICaL no nó SA e AV → bradicardia sinusal, aumento do período refratário nodal AV → controla frequência ventricular na FA/flutter, termina TSV nodal

Amiodarona, flecainida, sotalol, adenosina e digoxina — farmacologia e aplicações

AMIODARONA (Ancoron® — Sanofi; Atlansil® — Cristália; genérico): o antiarrítmico mais potente e mais complexo

Mecanismo multi-canal — a amiodarona é um benzofurano iodado que bloqueia MÚLTIPLOS canais cardíacos:

  • Classe III PRINCIPAL: bloqueia IKr (hERG) e IKs → prolonga ERP e QTc
  • Também bloqueia canais de Na⁺ (Classe I): efeito em canais inativados (semelhante à lidocaína — útil em taquiarritmias)
  • Também bloqueia canais de Ca²⁺ (Classe IV): lentifica o nó AV
  • Também bloqueia receptores β (Classe II)
  • Resultado: o antiarrítmico de espectro mais amplo; eficaz em praticamente todas as arritmias (FA, flutter, TSV, TV, FV)

Farmacocinética excepcionalmente complexa:

  • Meia-vida MUITO longa: 40-55 dias (após uso crônico, pode levar meses para o efeito desaparecer após suspensão)
  • Altamente lipofílica → acumula em tecidos (pulmão, fígado, pele, tireóide, cornea) → volume de distribuição imenso (>5000 L)
  • Metabolismo hepático → desetilamiodarona (metabólito ativo; meia-vida ainda mais longa)
  • Início de ação LENTO por VO (dias a semanas); IV é mais rápido
  • NÃO EXCRETADA pelos rins → segura na insuficiência renal

Indicações (diretrizes ACC/AHA/ESC):

  • Fibrilação atrial (FA): cardioversão farmacológica de FA persistente e manutenção do ritmo sinusal; menos eficaz para conversão aguda que ibutilida/flecainida; mais eficaz para manutenção crônica, especialmente em pacientes com doença estrutural cardíaca (disfunção ventricular, DAC) onde outras opções são mais arriscadas
  • TV sustentada e FV (primeiro na parada cardiorrespiratória após desfibrilação — ACLS/BLS): 300 mg IV bolus em PCR com FV/TV sem pulso refratária à desfibrilação
  • TV recorrente (não sustentada, sustentada) em pacientes com miocardiopatia dilatada, doença de Chagas, ou sobreviventes de PCR; reduz TV/FV em pacientes com CDI (desfibrilador implantável)

Toxicidade — multiorgânica, relacionada ao iodo e ao acúmulo tecidual:

  • Tireoide (25-30% dos pacientes ao longo do tempo): pode causar tanto hipotireoidismo (mais comum no mundo — os iodos do fármaco saturar o tireócito — Efeito Wolff-Chaikoff) quanto hipertireoidismo (em pacientes com nódulo tireoidiano pré-existente ou doença de Graves subclínica); TSH obrigatório a cada 6 meses
  • Pulmão (toxicidade pulmonar por amiodarona — TPA, 5-15%): pneumonite intersticial difusa, tosse, dispneia, febre, infiltrados bilaterais em TC; potencialmente fatal; biópsia não necessária se quadro clínico típico; tratar com suspensão + corticoide sistêmico; pode ser difícil distinguir de pneumonia nos immunossuprimidos
  • Fígado: elevação de transaminases (frequente, geralmente leve); raramente cirrose com uso prolongado; hepatite tóxica; funções hepáticas a cada 6 meses
  • Olhos: microdepósitos de lipofuscina na córnea (quase universal no uso crônico — visíveis na lâmpada de fenda; raramente causam sintomas — halos ao redor de luzes); neuropatia óptica anterior isquêmica (rara mas grave → perda de visão → suspender)
  • Pele: fotossensibilidade (protetor solar obrigatório); com uso muito longo → depósitos cutâneos de lipofuscina → coloração acinzentado-azulada da pele (irresível)
  • Neurológico: tremor, ataxia, neuropatia periférica, insônia
  • Interações: potente inibidor de CYP2C9 (aumenta nível de varfarina → reduzir dose de varfarina 30-50%); inibidor de CYP3A4; P-gp; aumenta digoxina, estatinas, imunossupressores

FLECAINIDA (Tambocor® — 3M Pharma; Flecainida Accord®; genérico): Classe IC

Mecanismo: bloqueio POTENTE de canais de Na⁺ → redução marcada do Vmax (condução mais lenta) → prolonga PR e QRS; sem efeito no QTc

O CAST Trial (Cardiac Arrhythmia Suppression Trial — NEJM 1989) — um marco histórico:

  • Hipótese: suprimir extrassístoles ventriculares (ESVs) pós-IAM com antiarrítmicos Classe IC (flecainida, encainida, moricizina) deveria reduzir mortalidade
  • Resultado: AUMENTO de mortalidade no grupo flecainida/encainida vs placebo (pró-arritmia: flecainida causava TV/FV fatal em miocárdio lesado/isquêmico)
  • Mecanismo do pró-arritmia: bloquear conduçao em tecido isquêmico heterogêneo → facilitar reentrada → TV/FV
  • LIÇÃO DO CAST: Classe IC CONTRAINDICADA em: pós-IAM, doença arterial coronariana, disfunção ventricular esquerda com FEVE < 35-40%

Uso atual da flecainida — APENAS em coração estruturalmente normal:

  • FA em coração normal (FA lone): cardioversão farmacológica e/ou manutenção de ritmo sinusal em pacientes sem cardiopatia estrutural; dose de 200-400 mg oral para cardioversão (pill-in-pocket: o paciente toma uma dose maior em casa ao sentir palpitações, e converte sozinho — válido em FA paroxística com coração normal previamente testado)
  • TSV (taquicardias supraventriculares) em ausência de cardiopatia: previne recorrências em pacientes com SVPT (síndrome de Wolf-Parkinson-White sem delta negativo em V1) ou TSV nodal

SOTALOL (Sotalol® — genérico; Sotacor® — Bristol):

  • Classe III + Classe II (betabloqueador): bloqueia IKr (hERG) — prolongamento do QT e ERP — MAIS betabloqueio não-seletivo (β1 + β2); único betabloqueador com ação antiarrítmica classe III
  • Metabolizado/excretado POR VIA RENAL → reduzir dose (ou contraindicar) em insuficiência renal
  • Risco de torsades de pointes: prolonga o QTc (> 500 ms → risco alto); risco maior com: dose alta, hipocalemia, hipomagnesemia, bradicardia, insuficiência renal, QTc basal longo; início em hospital com ECG e eletrólitos; monitorar QTc após cada ajuste de dose
  • Indicações: FA com cardiopatia leve (FEVE > 35%); TV de células de Purkinje sensível a catecol (especialmente sotalol é eficaz); prevenção de recorrência de TV em pacientes com CDI
  • CONTRAINDICADO em: FEVE < 35%, asma brônquica (betabloqueio β2), QTc basal > 450 ms, hipocalemia não corrigida, síndrome de QT longo congênito

ADENOSINA (Adenocard® — Pfizer; Adenocor® — Sanofi; Adenosina® — genérico):

Mecanismo: nucleosídeo endógeno → ativa receptores de adenosina A1 (acoplados a Gi) no nó AV → abre canais de K⁺ (IKACh) → hiperpolarização → bloqueio transitório da condução no nó AV por 10-15 segundos

Indicação MUITO específica: terminar taquicardias supraventriculares paroxísticas (TSVP) que dependem do nó AV para o circuito de reentrada:

  • TSVP por reentrada nodal AV (AVNRT — a mais comum, 60%): o circuito usa a dupla via nodal (fast e slow pathway) no próprio nó AV → adenosina bloqueia o nó AV transitoriamente → interrompe o circuito → converte para sinusal
  • TSVP por via acessória (AVRT em Wolf-Parkinson-White — WPW): o circuito usa a via acessória anterógrada e o nó AV retrogrademente (AVRT ortodrômica, mais comum) ou vice-versa → adenosina bloqueia o nó AV → termina
  • NÃO converte FA nem flutter atrial (são mecanismos atriais, não dependem do nó AV para o circuito), mas adenosina pode revelar ondas de flutter ao bloquear temporariamente o nó AV (uso diagnóstico)

Dosagem: 6 mg IV bólus RÁPIDO (em 1-2 segundos) em veia antecubital, seguido de flush de 20 mL SF → se sem reversão em 1-2 min: 12 mg IV bólus → repetir 12 mg uma vez

  • Veia central ou veia do antebraço distal: podem requerer doses menores
  • Via de acesso central ou femorais: dose menor

Efeitos adversos (transitórios — meia-vida de 10-15 segundos):

  • Rubor facial, dispneia, opressão no peito, náusea: muito comuns e alarmantes para o paciente (avisá-lo antes) — duram apenas 15-30 segundos
  • Broncoespasmo: CONTRAINDICADA em asma brônquica ativa/grave
  • Bradicardia sinusal ou pausa sinusal transitória após conversão (normal — o nó SA se recupera em segundos)

Interações: dipiridamol (antiagregante plaquetário) POTENCIALIZA a adenosina (inibe a recaptação da adenosina endógena/exógena) → usar metade da dose ou evitar adenosina em pacientes que usam dipiridamol; cafeína e teofilina ANTAGONIZAM a adenosina (são antagonistas dos receptores A1/A2) → podem necessitar de dose maior para efeito

DIGOXINA (Digoxina® — Cristália/Aspen; genérico):

  • Glicosídeo cardíaco (digital): inibe a bomba Na⁺/K⁺-ATPase → acúmulo intracelular de Na⁺ → diminui a saída de Ca²⁺ pelo trocador Na⁺/Ca²⁺ → mais Ca²⁺ intracelular → efeito inotrópico positivo (aumento da contratilidade)
  • Controle de frequência ventricular na FA: via efeito vagotônico (estimula o nervo vago → deprime a condução no nó AV) + modesto efeito direto; menos eficaz que betabloqueadores/verapamil em atividade física (efeito autonômico, não direto no nó AV); útil em FA + IC com disfunção sistólica
  • Intervalo terapêutico estreito: nível sérico alvo: 0.5-0.9 ng/mL (doses que atingem > 1.2-1.5 ng/mL aumentam mortalidade — dados do DIG trial); monitorar nível, eletrólitos (hipocalemia e hipomagnesemia potencializam toxicidade)
  • Toxicidade por digitálicos: náusea, vômito (precoce), alterações visuais (halos amarelo-verdes), arritmias paradoxais (DADs → extrassístoles ventriculares bigeminadas, TV bidirecional — patognomônico), bloqueio AV; antídoto: anticorpo anti-digoxina (Digifab® — imunoglobulina específica para intoxicação grave)

Perguntas frequentes sobre antiarrítmicos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Torsades de pointes — o que é e quando devo me preocupar com o QT longo?+

Torsades de pointes (TdP — em francês, literalmente "torção das pontas") é um tipo específico de taquicardia ventricular polimórfica que ocorre no contexto de QT longo, com a aparência característica no ECG de os complexos QRS que parecem girar em torno da linha de base. A TdP pode se auto-terminar (causando síncope) ou degenerar em fibrilação ventricular (morte súbita). O intervalo QT no ECG representa a duração total da repolarização ventricular (despolarização + repolarização). Quando prolongado, o ventrículo leva mais tempo para repolarizar — durante esse período estendido, as fases 2-3 estão prolongadas e o miocárdio fica vulnerável a pós-potenciais precoces (EADs), especialmente em condições que aumentam o cálcio intracelular ou bradicardia — que podem desencadear TdP. QTc (corrigido pela frequência cardíaca pela fórmula de Bazett ou Fridericia): < 450 ms (homens) e < 460-470 ms (mulheres) = normal; > 500 ms = risco alto de TdP. Quando se preocupar: qualquer medicação com risco de prolongar QT (lista extensa disponível em crediblemeds.org) COMBINADA com fatores de risco aumenta dramaticamente o risco: hipocalemia (< 3.5 mEq/L — o mais importante fator modificável: repor potássio alvo K+ > 4 mEq/L), hipomagnesemia, bradicardia, QTc basal já longo (congênito ou adquirido), combinação de múltiplos QT-prolongers. Medicações com alto risco de QT: antiarrítmicos classe IA e III (quinidina, sotalol, amiodarona — menos pois é complexo), antibióticos (fluoroquinolonas, azitromicina, claritromicina), antifúngicos azólicos sistêmicos, antipsicóticos (haloperidol, quetiapina, ziprasidona), antidepressivos tricíclicos, metadona, ondansetrona IV em doses altas. Manejo de TdP: desfibrilação elétrica se hemodinamicamente instável; magnésio sulfato IV 2-4g é o tratamento específico (estabiliza a membrana e suprime EADs mesmo sem hipomagnesemia); correção de hipocalemia; retirar o QT-prolonger causador; overdrive elétrico (aumento de FC por marcapasso temporário ou isoproterenol) encurta o QT.

Amiodarona está me causando alteração na tireoide — o que fazer?+

A toxicidade tireoidiana é uma das complicações mais comuns e clinicamente relevantes da amiodarona em uso crônico, afetando 25-30% dos pacientes ao longo dos anos. A amiodarona contém 37% de iodo por peso (uma dose diária de 200 mg fornece ~75 mg de iodo livre — a ingestão dietética normal é ~200 μg/dia), além de interferir no metabolismo dos hormônios tireoidianos. Hipotireoidismo induzido por amiodarona (HIA): mais comum em áreas com suficiência de iodo (como o Brasil). A sobrecarga de iodo bloqueia a síntese de T4/T3 (Efeito Wolff-Chaikoff). TSH elevado + T4L baixo. Tratamento: levotiroxina (doses geralmente maiores que a reposição habitual — titular pelo TSH); NÃO é necessário parar a amiodarona se ela está controlando arritmia grave. Hipertireoidismo induzido por amiodarona (HTA): mais comum em áreas com deficiência de iodo ou em pacientes com nódulo tireoidiano ou doença de Graves subclínica. Dois tipos: Tipo 1 (tireoidite jodada — síntese aumentada de T4/T3 por glândula com patologia prévia; tratar com tionamida — metimazol/propiltiouracil + perclorato de potássio); Tipo 2 (tireoidite destrutiva por amiodarona — liberação de T4 armazenado de tireócitos destruídos; tratar com glicocorticoides — prednisona 40 mg/dia); pode ser misto (tratar os dois). O hipertireoidismo em uso de amiodarona é mais grave e difícil de tratar que o hipotireoidismo; pode exacerbar a arritmia de base. Em hipertireoidismo grave refratário: tireoidectomia total pode ser necessária. Monitoramento preventivo: TSH, T4L e T3L antes de iniciar amiodarona e a cada 6 meses durante o uso. Se alteração detectada precocemente, é mais fácil de manejar.

Referências Científicas

  1. Echt DS, Liebson PR, Mitchell LB, et al. (CAST Investigators — cardiac arrhythmia suppression trial) Mortality and morbidity in patients receiving encainide, flecainide, or placebo. The Cardiac Arrhythmia Suppression Trial. N Engl J Med, 1991.
  2. Connolly SJ. (Amiodarone in atrial fibrillation — meta-analysis and clinical evidence review) Evidence-based analysis of amiodarone efficacy and safety. Circulation, 1999.
  3. Cordarone (amiodarone) package insert — Wyeth/Pfizer; Bogun F, Crawford T. (Ventricular tachycardia antiarrhythmic therapy — clinical review) Drug therapy of ventricular arrhythmias. Prog Cardiovasc Dis, 2019.
  4. DiMarco JP. (Adenosine in supraventricular tachycardia — clinical trials, N Engl J Med review) Adenosine for paroxysmal supraventricular tachycardia: dose ranging and comparison with verapamil. Ann Intern Med, 1990.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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