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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 11 min de leitura

Aldosterona, receptor MR e antagonistas mineralocorticoides: espironolactona, eplerenona e finerenona em IC e renal

Aldosterona ativa o receptor mineralocorticoide (MR) no rim e coração, retendo sódio e causando fibrose. Espironolactona, eplerenona e finerenona bloqueiam MR — reduzindo mortalidade na IC com FE reduzida e nefropatia diabética.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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RAAS e a síntese de aldosterona

Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (RAAS) — eixo hormonal central na regulação da pressão arterial e homeostasia de sódio/potássio:

Cascata RAAS:

  1. Renina: liberada pelo aparelho justaglomerular renal em resposta a ↓ perfusão renal, ↓ [Na⁺] no canalículo distal (macular densa), ativação simpática β1 — cliva angiotensinogênio (fígado) → Angiotensina I (Ang I)
  2. ECA (Enzima Conversora de Angiotensina): Ang I → Angiotensina II (Ang II) — ECA expressa em endotélio pulmonar e outros tecidos
  3. Angiotensina II (Ang II) age via AT1 receptores (Gq) → vasoconstrição, ↑ liberação de aldosterona, ↑ reabsorção renal de Na/H₂O, ↑ PA, hipertrofia cardíaca e vascular; via AT2 → vasodilatação, apoptose (efeito oposto — ativado por IECA/BRA)
  4. Aldosterona: produzida na zona glomerulosa do córtex adrenal — estimulada principalmente por Ang II e hipercalemia (K⁺ alto); também por ACTH

Síntese de aldosterona (via enzimas esteroidogênicas):

  • Colesterol → Pregnenolona → Progesterona → Desoxicorticosterona → Corticosterona → Aldosterona (via CYP11B2 / aldosterona sintase)
  • CYP11B2 expressão é específica da zona glomerulosa; diferente de CYP11B1 (cortisol) na zona fasciculada

Receptor Mineralocorticoide (MR / NR3C2):

  • Membro da superfamília de receptores nucleares (Classe I — homodímero)
  • Tecidos-alvo: túbulo coletor renal (principal), cólon, glândulas salivares, músculo esquelético, coração, vasos, SNC
  • Ligantes: aldosterona (específico) + cortisol (ativa MR renal mas normalmente bloqueado por conversão local de cortisol → cortisona via 11β-HSD2)
  • Ligação ao MR → núcleo → ativa ENaC (Epithelial Sodium Channel) e Na⁺/K⁺-ATPase → reabsorção de Na⁺ e água + excreção de K⁺ e H⁺

Aldosterona no coração: fibrose cardíaca e progressão da IC

Aldosterona além do rim — efeitos cardiovasculares diretos:

MR no coração:

  • Fibroblastos cardíacos e cardiomiócitos expressam MR
  • Aldosterona via MR cardíaco → ativa NF-κB, TGF-β, PAI-1 → síntese de colágeno tipo I e III → fibrose intersticial e perivascular
  • Fibrose reduz complacência diastólica, reduz condução elétrica (substrato para arritmias), impede função sistólica

Aldosterona e IC:

  • Em IC, SRAA ativado → mais Ang II → mais aldosterona → mais Na⁺/H₂O → sobrecarga de volume (piora da IC)
  • Aldosterona "escape": mesmo com IECA/BRA, aldosterona pode ser produzida diretamente por outros estímulos → progressão da doença
  • Aldosterona ↑ expressão de AT1 (sensibiliza para Ang II) e reduz expressão de AT2 (menos efeitos protetores)

Ensaios clínicos definidores:

  • RALES (1999): espironolactona 25 mg/dia + terapia padrão em IC grave (FE <35%, NYHA III-IV) → redução de mortalidade 30% e de hospitalização 35% vs. placebo
  • EPHESUS (2003): eplerenona pós-IAM com IC (FE <40%) → redução de mortalidade 15% e morte súbita 21%
  • EMPHASIS-HF (2011): eplerenona em IC moderada (NYHA II, FE <35%) → redução de mortalidade CV 37% e hospitalização 42%
  • FIDELIO-DKD (2020) e FIGARO-DKD (2021): finerenona em DRC + DM2 → redução de progressão renal (FIDELIO) e redução de MACE (FIGARO)

Antagonistas mineralocorticoides: espironolactona, eplerenona e finerenona

Espironolactona (Aldactone):

  • Antagonista competitivo não-seletivo do MR (bloqueia MR + receptores androgênicos AR + receptores progestogênicos PR)
  • Aprovada para: IC com FE reduzida (NYHA II-IV), hiperaldosteronismo primário, edema refratário, HAS resistente, SOP (off-label via anti-androgenic effects)
  • Efeitos anti-androgênicos: ginecomastia em homens (30-40%), irregularidades menstruais em mulheres, disfunção erétil — limitam adesão
  • Hipercalemia: efeito de classe — K⁺ deve ser monitorado (não usar com K >5.0 mEq/L ou TFG <30)
  • Metabolismo complexo: pró-droga que forma vários metabólitos ativos (canrenona, 7α-thiomethylspironolactone)

Eplerenona (Inspra® — Pfizer):

  • Antagonista MR mais seletivo — menor afinidade para AR/PR (menos ginecomastia/disfunção erétil)
  • Potência ~50-60% da espironolactona — dose habitual 50 mg (vs 25-50 mg da espiro)
  • Metabolismo: CYP3A4 — interações com inibidores fortes
  • Uso: IC pós-IAM (EPHESUS), IC com FE reduzida

Finerenona (Kerendia® — Bayer):

  • Antagonista MR de nova geração — não-esteroidal; mais seletivo que espironolactona; sem metabólitos ativos
  • Distribuição: ocupa mais MR no coração e vasculatura (alta proporção vs. rim) vs. espiro/eple (mais renal)
  • Aprovações: DRC + DM2 (redução de progressão renal e eventos CV) — FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD
  • Menor risco de hipercalemia que espironolactona em dose equivalente
  • Aprovada pela ANVISA para DRC em DM2

Hiperaldosteronismo Primário (Doença de Conn):

  • Síndrome de hipersecreção autonômica de aldosterona: adenoma adrenal unilateral (70%) ou hiperplasia bilateral (30%)
  • Prevalente em HAS resistente (10-20% dos casos)
  • Manifestações: HAS + hipocalemia (muitas vezes assintomática), alcalose metabólica
  • Diagnóstico: relação aldosterona:renina (ARR) > 30-40 com aldosterona absoluta > 15 ng/dL
  • Tratamento: cirurgia (adenoma unilateral) ou espironolactona (hiperplasia bilateral ou cirurgia não possível)

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Angiotensina II, IECA, BRA e sacubitril/valsartana

Sistema RAAS como alvo terapêutico — classes:

IECA (Inibidores da ECA):

  • Bloqueiam ECA → menos Ang II + mais bradicinina (ECA degrada bradicinina)
  • Benefícios: vasodilatação, menos aldosterona, proteção renal, remodelamento cardíaco reverso
  • Captoprila, enalapril, ramipril, lisinopril, perindopril
  • Efeitos adversos: tosse seca (acúmulo de bradicinina/substância P em pulmão — 15-20% dos pacientes; mais comum em asiáticos 30-40%), angioedema (raro, 0.1-0.5% — acúmulo de bradicinina — NUNCA tolerar), hipercalemia, piora de função renal
  • Contraindicados em gravidez (fetotóxico — malformação renal fetal, oligohidrâmnio)

BRA (Bloqueadores do Receptor de Angiotensina — Sartanas):

  • Bloqueiam AT1 → menos vasoconstrição, menos aldosterona; não afetam ECA → sem acúmulo de bradicinina
  • Valsartana, losartana, candesartana, irbesartana, olmesartana, telmisartana, azilsartana
  • Indicações: HAS, IC, nefropatia diabética (losartana/irbesartana — RENAAL, IDNT trials), pós-IAM (valsartana — VALIANT)
  • Efeito adverso: hipercalemia (menos tosse), angioedema raro (mas não trocar por IECA se angioedema com IECA — mecanismo diferente mas pode ocorrer também)

ARNI (Angiotensin Receptor-Neprilysin Inhibitor):

  • Sacubitril/Valsartana (Entresto® — Novartis): sacubitril inibe neprilisina → ↑ peptídeos natriuréticos (ANP, BNP) → vasodilatação + natriurese; valsartana bloqueia AT1
  • PARADIGM-HF trial (2014): IC com FE reduzida — sacubitril/valsartana > enalapril: redução de 20% em mortalidade CV/hospitalização
  • Substituiu IECA como padrão de tratamento em IC com FE ≤40% que toleram
  • Não combinar com IECA (washout de 36h) — risco aumentado de angioedema (ambos aumentam bradicinina)

Aliskiren (Tekturna® / Rasilez):

  • Inibidor direto de renina — bloqueia a 1ª etapa do RAAS
  • Aprovado para HAS; combinação com IECA ou BRA contraindicada em DM2 e DRC (risco de hipercalemia e eventos adversos — ALTITUDE trial)
  • Uso limitado, não 1ª linha

Perguntas frequentes sobre aldosterona e RAAS

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Espironolactona pode ser usada para SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos)?+

Sim — off-label mas amplamente usada, especialmente para manifestações androgênicas da SOP: hirsutismo, acne e queda de cabelo (padrão androgênico). O efeito anti-androgênico vem do bloqueio de AR (receptor androgênico) e da redução de aldosterona que eleva K+ e pode reduzir testosterona indiretamente. Doses de 50-200 mg/dia são usadas. É necessário contracepção confiável (risco de feminilização de feto masculino). Alternativas anti-androgênicas aprovadas para SOP: flutamida, acetato de ciproterona.

Finerenona pode substituir espironolactona na insuficiência cardíaca?+

Não diretamente — finerenona foi aprovada especificamente para DRC + DM2 com base nos estudos FIDELIO e FIGARO, não para IC com FE reduzida (os estudos de IC foram feitos com espironolactona e eplerenona). A finerenona tem perfil de distribuição diferente (mais coração/vasos, proporcionalmente menos renal) e menores estudos em IC. Ensaios de finerenona em IC com FE preservada (ICFEp) e IC com FE levemente reduzida (ICFElr) estão em andamento (FINEARTS-HF) — resultados esperados 2025.

Por que IECA e BRA são contraindicados em gestação?+

Ang II é essencial para o desenvolvimento renal fetal — estimula diferenciação glomerular e desenvolvimento de néfrons. IECA e BRA bloqueiam Ang II → comprometem neprogênese → síndrome fetopática renal: oligohidrâmnio (por oligúria fetal), hipoplasia pulmonar (por compressão por oligoidrâmnio), anúria neonatal, malformações renais. O risco é especialmente alto no segundo e terceiro trimestres, mas evidência de risco no primeiro trimestre também existe. Descoberta de gravidez em usuária de IECA/BRA = suspender imediatamente e trocar por metildopa ou nifedipino (seguros na gestação).

O que é hiperaldosteronismo primário e como é diagnosticado?+

Hiperaldosteronismo primário (Doença de Conn) é a causa mais comum de HAS secundária — mais de 10% dos hipertensos resistentes. O aldosterona é produzida em excesso autonomamente (adenoma unilateral em ~70% ou hiperplasia bilateral). O diagnóstico começa com a Razão Aldosterona:Renina (ARR): se >30 com aldosterona >15 ng/dL, é suspeita. Confirmação: teste de supressão com salina ou fludrocortisona. Localização: TC adrenal + cateterismo de veias adrenais (padrão ouro para distinguir uni vs bilateral). Tratamento: adrenalectomia laparoscópica (adenoma) ou espironolactona (bilateral).

Referências Científicas

  1. Zannad F, McMurray JJ, Krum H, et al. Eplerenone in patients with systolic heart failure and mild symptoms (EMPHASIS-HF). N Engl J Med, 2011.
  2. McMurray JJ, Packer M, Desai AS, et al. Angiotensin-neprilysin inhibition versus enalapril in heart failure (PARADIGM-HF). N Engl J Med, 2014.
  3. Bakris GL, Agarwal R, Anker SD, et al. Effect of finerenone on chronic kidney disease outcomes in type 2 diabetes (FIDELIO-DKD). N Engl J Med, 2020.
  4. Funder JW Aldosterone and mineralocorticoid receptors in the cardiovascular system. Prog Cardiovasc Dis, 2010.
  5. Mulatero P, Stowasser M, Loh KC, et al. Increased diagnosis of primary aldosteronism, including surgically correctable forms, in centers from five continents. J Clin Endocrinol Metab, 2004.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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