A família VEGF e neoangiogênese tumoral
Angiogênese tumoral — "switch angiogênico" (Folkman 1971): tumores >1-2 mm necessitam neovascularização para nutrição e oxigenação:
VEGF family (5 membros em humanos):
- VEGF-A (VEGF): principal fator pró-angiogênico; isoformas por splicing (VEGF-A121, 165, 189, 206) — VEGF-A165 é a predominante biologicamente ativa e farmacologicamente relevante
- VEGF-B: angiogênese cardíaca; menos relevante em oncologia
- VEGF-C e VEGF-D: angiogênese linfática e angiogênese de vasos sanguíneos in tumores; VEGFR-3 → linfangiogênese → metástase linfonodal
- PlGF (Placenta Growth Factor): modula VEGF-A, neovascularização inflamatória
VEGFR (receptores de VEGF) — RTKs tipo III:
- VEGFR-1 (FLT-1): alta afinidade por VEGF-A, PlGF, VEGF-B; função mainly em angiogênese inflamatória e hematopoiese; pode ser decoy (sequestrar VEGF sem sinalizar)
- VEGFR-2 (KDR/FLK-1): principal receptor de angiogênese → VEGF-A → autofosforilação → PI3K/AKT (sobrevivência, permeabilidade), MAPK/ERK (proliferação), PLC-γ/PKC → eNOS → NO (vasodilatação, permeabilidade)
- VEGFR-3 (FLT-4): linfangiogênese; VEGF-C e D
Hipóxia e HIF-1α → VEGF-A:
- Em tumores: crescimento rápido → hipóxia central → HIF-1α (Hypoxia-Inducible Factor 1α) não é degradado por VHL (Von Hippel-Lindau) → transativa gene VEGF-A → mais VEGF-A secretado → mais VEGFR-2 em endotélio → angiogênese
- VHL (supressor tumoral): ubiquitina HIF-1α para degradação quando O₂ normal; mutação/perda de VHL → HIF-1α constitutivamente ativo → VEGF elevado → CCR (carcinoma de células renais de células claras) — VHL mutado em ~90% de CCR
Tumores mais angiodependentes / VEGF alto:
- CCR (carcinoma de células renais) — VHL
- Glioblastoma (GBM) — HIF-1α ativo
- Câncer de ovário, colo de útero, cólon, mama, hepatocelular, neuroblastoma
Bevacizumabe e ramucirumabe: anticorpos anti-VEGF e anti-VEGFR
Bevacizumabe (Avastin® — Roche/Genentech) — anticorpo monoclonal IgG1 humanizado anti-VEGF-A:
Mecanismo: captura VEGF-A circulante e VEGF-A ligado à superfície tumoral → VEGF-A não pode ligar VEGFR-2 → menos angiogênese → "fome" do tumor
Indicações aprovadas (oncologia):
- Cólon metastático (CRC): Hurwitz et al. NEJM 2004 — bevacizumabe + IFL → OS 20.3 vs 15.6 meses; 1ª aprovação FDA 2004 — mudou o tratamento de CRC metastático
- NSCLC (câncer de pulmão não-pequenas células — não-escamoso, não-hemoptise): 1ª ou 2ª linha com carboplatina+paclitaxel
- Glioblastoma (GBM) recorrente: aprovado (2009) mas sem melhora de sobrevida global em 1ª linha (AVAglio e RTOG 0825 → negativos para OS)
- Câncer de mama metastático (HER2-): aprovado retido (CBER 2011 retirou aprovação de câncer de mama mas mantido em outros países)
- Carcinoma de células renais (CCR): bevacizumabe + interferon-α2a vs IFN → AVOREN trial; hoje superado por TKI-VEGFR e ICI
- Ovário (1ª linha com platina/taxano e manutenção): GOG-0218 trial → melhora PFS
- Colo de útero: GOG 0240 — bevacizumabe + quimioterapia → OS 17 vs 13 meses
Efeitos adversos do bevacizumabe:
- Hipertensão (VEGF mantém NO endotelial — sem VEGF → menos NO → HAS): 25-35% grau 1-2, 5-10% grau 3; requer anti-hipertensivo
- Sangramento: protease-peptídeos de estroma tumoral facilitam; hemoptise em tumores pulmonares (contraindicado em câncer de pulmão de células escamosas)
- Tromboembolismo arterial (IAM, AVC): 1-4%; risco em idosos e com doença CV prévia
- Perfuração gastrointestinal: 1-2% em CRC (diverticulose prévia, tumor no sítio)
- Deiscência de ferida: prejudica cicatrização (VEGF é angiogênico → necessário para reparação); suspender 4-8 semanas antes e após cirurgia
- Proteinúria (monitorar urina de 24h se >2+)
Ramucirumabe (Cyramza® — Eli Lilly):
- Anticorpo IgG1 anti-VEGFR-2 (não anti-VEGF-A) — bloqueia receptor
- CCR 2ª linha, gástrico/GEJ 2ª linha (RAINBOW trial: docetaxel + ramucirumabe → melhor OS), NSCLC 2ª linha (docetaxel), CRC 2ª linha
TKIs anti-VEGFR: sorafenibe, sunitinibe, axitinibe, cabozantinibe
TKIs anti-VEGFR orais (Multi-target) — moléculas pequenas que inibem o domínio quinase intracelular dos VEGFRs (e outros alvos como PDGFR, KIT, RET):
Sorafenibe (Nexavar® — Bayer) — 1ª TKI aprovada para sólidos:
- Multi-quinase: VEGFR-2, VEGFR-3, PDGFR-β, KIT, FLT-3, RET, RAF (BRAF/CRAF — anti-proliferativo adicional)
- Carcinoma Hepatocelular (HCC) 1ª linha: SHARP trial (OS 10.7 vs 7.9 meses) — até então sem tratamento sistêmico eficaz; 1ª aprovação 2007
- CCR (carcinoma de células renais): 2ª linha pós-IFN-α; substituído por sunitinibe/axitinibe + ICI
- Câncer de tireoide (diferenciado refratário a RAI)
- Toxicidade: Hand-foot syndrome (HFS — eritrodisestesia palmo-plantar): bolhas e descamação palmar/plantar; HAS, diarreia, fadiga, alopecia
Sunitinibe (Sutent® — Pfizer) — anti-VEGFR-1/2/3, PDGFR-α/β, KIT, FLT-3, CSF-1R, RET:
- CCR de células claras 1ª linha (MOTZER trial NEJM 2007: OS 26.4 vs 21.8 meses vs IFN); hoje combinado com ICI
- Tumores neuroendócrinos pancreáticos (pNETs): aprovado
- GIST resistente/intolerante a imatinibe: aprovado
- Dose: 50 mg/dia 4 semanas on / 2 weeks off (esquema 4/2) ou 37.5 mg/dia contínuo
- Toxicidade: HAS, HFS, fadiga, hipotireoidismo (50% — monitorar TSH; tratar com levotiroxina), hepatotoxicidade, mielossupressão, QTc prolongado
Axitinibe (Inlyta® — Pfizer) — anti-VEGFR-1/2/3 mais seletivo (menor off-target):
- CCR (2ª linha pós-sunitinibe: AXIS trial); hoje 1ª linha em combinação com pembrolizumabe (KEYNOTE-426) ou avelumabe (JAVELIN-101) → ICI+TKI como padrão
- HAS mais comum (mais seletivo para VEGFR-2 → mais pressão); dose ajustada por PA
Cabozantinibe (Cabometyx® / Cometriq®) — Exelixis:
- VEGFR-2/3, MET, AXL, KIT, RET — espectro interessante em tumores dependentes de MET/AXL (que escapam de TKI-VEGFR)
- CCR 1ª e 2ª linha (METEOR trial: cabozantinibe > everolimus em 2ª linha; CheckMate 9ER: nivolumabe+cabozantinibe > sunitinibe 1ª linha)
- Hepatocelular 2ª linha: CELESTIAL trial → OS 10.2 vs 8.0 meses vs placebo
- Medular e câncer diferenciado de tireoide refratário
- Câncer de próstata metastático (Cometriq 140 mg)
Nintedanibe (Ofev® / Vargatef® — Boehringer Ingelheim):
- VEGFR-1/2/3 + PDGFR + FGFR — aprovado para Fibrose Pulmonar Idiopática (FPI) (inibe fibroblastos) e câncer de pulmão (LUME-Lung 1 com docetaxel)
Lenvatinibe (Lenvima® — Eisai/MSD):
- VEGFR-1/2/3, FGFR-1-4, PDGFR-α, KIT, RET → câncer de tireoide (SELECT trial), HCC 1ª linha (REFLECT trial vs sorafenibe) — não-inferior em OS; RCC 1ª linha (lenvatinibe + everolimus ou + pembrolizumabe: KEYNOTE-581)
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Papel dos peptídeos endógenos na regulação da angiogênese
Controle endógeno da angiogênese — equilíbrio entre fatores pró e anti-angiogênicos:
Fatores anti-angiogênicos endógenos (fragmentos peptídicos):
- Angiostatina (fragmento de plasminogênio, kringle 1-4): inibe proliferação endotelial e induz apoptose via α-enolase
- Endostatina (fragmento C-terminal do colágeno XVIII): inibe migração endotelial via integrina α5β1, aumenta TSP-1; endostatina recombinante (Endostar®) aprovada na China para NSCLC
- Trombospondina-1 (TSP-1): glicoproteína matricial — inibe VEGF via CD36 → apoptose endotelial; p53 ativa TSP-1; perda de p53 → menos TSP-1 → mais angiogênese
- Vasostatina (fragmento de calreticulina): anti-angiogênica
Peptídeos endógenos pró-angiogênicos além do VEGF:
- Angiopoietinas (Ang-1, Ang-2): Ang-1 via Tie2 → estabilização vascular (maturação); Ang-2 → desestabilização, sensibilização ao VEGF → angiogênese tumoral; Faricimab (anticorpo dual anti-VEGF-A+Ang-2 — aprovado para DMI e RDP) → melhor que ranibizumabe
- PDGF-B: PDGFR-β nos pericitos → maturação dos vasos → sem pericitos, vasos são frágeis e "leaky"
- FGF-2 (bFGF): receptor FGFR-1/2 em endotélio → proliferação, migração; via de escape quando VEGF é inibido → justifica TKIs multi-alvo que incluem FGFR (nintedanibe)
- SDF-1 (CXCL12)/CXCR4: recruta progenitores endoteliais da medula → neovascularização
BPC-157 e angiogênese:
- BPC-157 demonstra efeitos pró-angiogênicos em modelos de isquemia e cicatrização — mecanismo: VEGF-A upregulation localizado, EGF-R e FAK (Focal Adhesion Kinase) ativação
- Paradoxalmente, não demonstra promoção de crescimento tumoral em modelos animais existentes — possível seletividade para tecido isquêmico/danificado vs tumoral; dados insuficientes em humanos
- Potencial terapêutico: cicatrização de úlceras, isquemia muscular, fístulas — onde angiogênese reparadora é desejável
Ranibizumabe, bevacizumabe intraocular e aflibercept (para doenças retinianas):
- DMI (Degeneração Macular por Idade) neovascular e RDP (Retinopatia Diabética Proliferativa): neovascularização patológica na retina via VEGF-A
- Ranibizumabe (Lucentis®): fragmento Fab anti-VEGF-A — injeção intraocular; aprovado 2006; ANCHOR e MARINA trials
- Bevacizumabe intravítreo (off-label): muito usado por custo (100x menor) — CATT trial: similar em eficácia ao ranibizumabe
- Aflibercept (Eylea®): proteína de fusão VEGFR-1/2:Fc → captura VEGF-A, VEGF-B e PlGF — alta afinidade; VIEW 1 e 2 trials → não-inferior ao ranibizumabe com menos injeções
- Faricimab (Vabysmo®): anticorpo bispecífico anti-VEGF-A + anti-Ang-2 → mais durável (até 4 meses entre injeções); TENAYA e LUCERNE trials
- Ranibizumabe port-delivery implant (Susvimo®): refill a cada 6 meses vs injeção mensal