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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 12 min de leitura

VEGF, VEGFR e angiogênese tumoral: bevacizumabe, sunitinibe, axitinibe e inibidores de TKI-VEGFR

VEGF-A (Vascular Endothelial Growth Factor) liga VEGFR-2 em células endoteliais → PI3K/AKT/NO → proliferação e migração endotelial → neoangiogênese tumoral. Bevacizumabe captura VEGF-A. Sorafenibe, sunitinibe e axitinibe inibem tirosina-quinase VEGFR1/2/3 + PDGFR + KIT.

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A família VEGF e neoangiogênese tumoral

Angiogênese tumoral — "switch angiogênico" (Folkman 1971): tumores >1-2 mm necessitam neovascularização para nutrição e oxigenação:

VEGF family (5 membros em humanos):

  • VEGF-A (VEGF): principal fator pró-angiogênico; isoformas por splicing (VEGF-A121, 165, 189, 206) — VEGF-A165 é a predominante biologicamente ativa e farmacologicamente relevante
  • VEGF-B: angiogênese cardíaca; menos relevante em oncologia
  • VEGF-C e VEGF-D: angiogênese linfática e angiogênese de vasos sanguíneos in tumores; VEGFR-3 → linfangiogênese → metástase linfonodal
  • PlGF (Placenta Growth Factor): modula VEGF-A, neovascularização inflamatória

VEGFR (receptores de VEGF) — RTKs tipo III:

  • VEGFR-1 (FLT-1): alta afinidade por VEGF-A, PlGF, VEGF-B; função mainly em angiogênese inflamatória e hematopoiese; pode ser decoy (sequestrar VEGF sem sinalizar)
  • VEGFR-2 (KDR/FLK-1): principal receptor de angiogênese → VEGF-A → autofosforilação → PI3K/AKT (sobrevivência, permeabilidade), MAPK/ERK (proliferação), PLC-γ/PKC → eNOS → NO (vasodilatação, permeabilidade)
  • VEGFR-3 (FLT-4): linfangiogênese; VEGF-C e D

Hipóxia e HIF-1α → VEGF-A:

  • Em tumores: crescimento rápido → hipóxia central → HIF-1α (Hypoxia-Inducible Factor 1α) não é degradado por VHL (Von Hippel-Lindau) → transativa gene VEGF-A → mais VEGF-A secretado → mais VEGFR-2 em endotélio → angiogênese
  • VHL (supressor tumoral): ubiquitina HIF-1α para degradação quando O₂ normal; mutação/perda de VHL → HIF-1α constitutivamente ativo → VEGF elevado → CCR (carcinoma de células renais de células claras) — VHL mutado em ~90% de CCR

Tumores mais angiodependentes / VEGF alto:

  • CCR (carcinoma de células renais) — VHL
  • Glioblastoma (GBM) — HIF-1α ativo
  • Câncer de ovário, colo de útero, cólon, mama, hepatocelular, neuroblastoma

Bevacizumabe e ramucirumabe: anticorpos anti-VEGF e anti-VEGFR

Bevacizumabe (Avastin® — Roche/Genentech) — anticorpo monoclonal IgG1 humanizado anti-VEGF-A:

Mecanismo: captura VEGF-A circulante e VEGF-A ligado à superfície tumoral → VEGF-A não pode ligar VEGFR-2 → menos angiogênese → "fome" do tumor

Indicações aprovadas (oncologia):

  • Cólon metastático (CRC): Hurwitz et al. NEJM 2004 — bevacizumabe + IFL → OS 20.3 vs 15.6 meses; 1ª aprovação FDA 2004 — mudou o tratamento de CRC metastático
  • NSCLC (câncer de pulmão não-pequenas células — não-escamoso, não-hemoptise): 1ª ou 2ª linha com carboplatina+paclitaxel
  • Glioblastoma (GBM) recorrente: aprovado (2009) mas sem melhora de sobrevida global em 1ª linha (AVAglio e RTOG 0825 → negativos para OS)
  • Câncer de mama metastático (HER2-): aprovado retido (CBER 2011 retirou aprovação de câncer de mama mas mantido em outros países)
  • Carcinoma de células renais (CCR): bevacizumabe + interferon-α2a vs IFN → AVOREN trial; hoje superado por TKI-VEGFR e ICI
  • Ovário (1ª linha com platina/taxano e manutenção): GOG-0218 trial → melhora PFS
  • Colo de útero: GOG 0240 — bevacizumabe + quimioterapia → OS 17 vs 13 meses

Efeitos adversos do bevacizumabe:

  • Hipertensão (VEGF mantém NO endotelial — sem VEGF → menos NO → HAS): 25-35% grau 1-2, 5-10% grau 3; requer anti-hipertensivo
  • Sangramento: protease-peptídeos de estroma tumoral facilitam; hemoptise em tumores pulmonares (contraindicado em câncer de pulmão de células escamosas)
  • Tromboembolismo arterial (IAM, AVC): 1-4%; risco em idosos e com doença CV prévia
  • Perfuração gastrointestinal: 1-2% em CRC (diverticulose prévia, tumor no sítio)
  • Deiscência de ferida: prejudica cicatrização (VEGF é angiogênico → necessário para reparação); suspender 4-8 semanas antes e após cirurgia
  • Proteinúria (monitorar urina de 24h se >2+)

Ramucirumabe (Cyramza® — Eli Lilly):

  • Anticorpo IgG1 anti-VEGFR-2 (não anti-VEGF-A) — bloqueia receptor
  • CCR 2ª linha, gástrico/GEJ 2ª linha (RAINBOW trial: docetaxel + ramucirumabe → melhor OS), NSCLC 2ª linha (docetaxel), CRC 2ª linha

TKIs anti-VEGFR: sorafenibe, sunitinibe, axitinibe, cabozantinibe

TKIs anti-VEGFR orais (Multi-target) — moléculas pequenas que inibem o domínio quinase intracelular dos VEGFRs (e outros alvos como PDGFR, KIT, RET):

Sorafenibe (Nexavar® — Bayer) — 1ª TKI aprovada para sólidos:

  • Multi-quinase: VEGFR-2, VEGFR-3, PDGFR-β, KIT, FLT-3, RET, RAF (BRAF/CRAF — anti-proliferativo adicional)
  • Carcinoma Hepatocelular (HCC) 1ª linha: SHARP trial (OS 10.7 vs 7.9 meses) — até então sem tratamento sistêmico eficaz; 1ª aprovação 2007
  • CCR (carcinoma de células renais): 2ª linha pós-IFN-α; substituído por sunitinibe/axitinibe + ICI
  • Câncer de tireoide (diferenciado refratário a RAI)
  • Toxicidade: Hand-foot syndrome (HFS — eritrodisestesia palmo-plantar): bolhas e descamação palmar/plantar; HAS, diarreia, fadiga, alopecia

Sunitinibe (Sutent® — Pfizer) — anti-VEGFR-1/2/3, PDGFR-α/β, KIT, FLT-3, CSF-1R, RET:

  • CCR de células claras 1ª linha (MOTZER trial NEJM 2007: OS 26.4 vs 21.8 meses vs IFN); hoje combinado com ICI
  • Tumores neuroendócrinos pancreáticos (pNETs): aprovado
  • GIST resistente/intolerante a imatinibe: aprovado
  • Dose: 50 mg/dia 4 semanas on / 2 weeks off (esquema 4/2) ou 37.5 mg/dia contínuo
  • Toxicidade: HAS, HFS, fadiga, hipotireoidismo (50% — monitorar TSH; tratar com levotiroxina), hepatotoxicidade, mielossupressão, QTc prolongado

Axitinibe (Inlyta® — Pfizer) — anti-VEGFR-1/2/3 mais seletivo (menor off-target):

  • CCR (2ª linha pós-sunitinibe: AXIS trial); hoje 1ª linha em combinação com pembrolizumabe (KEYNOTE-426) ou avelumabe (JAVELIN-101) → ICI+TKI como padrão
  • HAS mais comum (mais seletivo para VEGFR-2 → mais pressão); dose ajustada por PA

Cabozantinibe (Cabometyx® / Cometriq®) — Exelixis:

  • VEGFR-2/3, MET, AXL, KIT, RET — espectro interessante em tumores dependentes de MET/AXL (que escapam de TKI-VEGFR)
  • CCR 1ª e 2ª linha (METEOR trial: cabozantinibe > everolimus em 2ª linha; CheckMate 9ER: nivolumabe+cabozantinibe > sunitinibe 1ª linha)
  • Hepatocelular 2ª linha: CELESTIAL trial → OS 10.2 vs 8.0 meses vs placebo
  • Medular e câncer diferenciado de tireoide refratário
  • Câncer de próstata metastático (Cometriq 140 mg)

Nintedanibe (Ofev® / Vargatef® — Boehringer Ingelheim):

  • VEGFR-1/2/3 + PDGFR + FGFR — aprovado para Fibrose Pulmonar Idiopática (FPI) (inibe fibroblastos) e câncer de pulmão (LUME-Lung 1 com docetaxel)

Lenvatinibe (Lenvima® — Eisai/MSD):

  • VEGFR-1/2/3, FGFR-1-4, PDGFR-α, KIT, RET → câncer de tireoide (SELECT trial), HCC 1ª linha (REFLECT trial vs sorafenibe) — não-inferior em OS; RCC 1ª linha (lenvatinibe + everolimus ou + pembrolizumabe: KEYNOTE-581)

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Papel dos peptídeos endógenos na regulação da angiogênese

Controle endógeno da angiogênese — equilíbrio entre fatores pró e anti-angiogênicos:

Fatores anti-angiogênicos endógenos (fragmentos peptídicos):

  • Angiostatina (fragmento de plasminogênio, kringle 1-4): inibe proliferação endotelial e induz apoptose via α-enolase
  • Endostatina (fragmento C-terminal do colágeno XVIII): inibe migração endotelial via integrina α5β1, aumenta TSP-1; endostatina recombinante (Endostar®) aprovada na China para NSCLC
  • Trombospondina-1 (TSP-1): glicoproteína matricial — inibe VEGF via CD36 → apoptose endotelial; p53 ativa TSP-1; perda de p53 → menos TSP-1 → mais angiogênese
  • Vasostatina (fragmento de calreticulina): anti-angiogênica

Peptídeos endógenos pró-angiogênicos além do VEGF:

  • Angiopoietinas (Ang-1, Ang-2): Ang-1 via Tie2 → estabilização vascular (maturação); Ang-2 → desestabilização, sensibilização ao VEGF → angiogênese tumoral; Faricimab (anticorpo dual anti-VEGF-A+Ang-2 — aprovado para DMI e RDP) → melhor que ranibizumabe
  • PDGF-B: PDGFR-β nos pericitos → maturação dos vasos → sem pericitos, vasos são frágeis e "leaky"
  • FGF-2 (bFGF): receptor FGFR-1/2 em endotélio → proliferação, migração; via de escape quando VEGF é inibido → justifica TKIs multi-alvo que incluem FGFR (nintedanibe)
  • SDF-1 (CXCL12)/CXCR4: recruta progenitores endoteliais da medula → neovascularização

BPC-157 e angiogênese:

  • BPC-157 demonstra efeitos pró-angiogênicos em modelos de isquemia e cicatrização — mecanismo: VEGF-A upregulation localizado, EGF-R e FAK (Focal Adhesion Kinase) ativação
  • Paradoxalmente, não demonstra promoção de crescimento tumoral em modelos animais existentes — possível seletividade para tecido isquêmico/danificado vs tumoral; dados insuficientes em humanos
  • Potencial terapêutico: cicatrização de úlceras, isquemia muscular, fístulas — onde angiogênese reparadora é desejável

Ranibizumabe, bevacizumabe intraocular e aflibercept (para doenças retinianas):

  • DMI (Degeneração Macular por Idade) neovascular e RDP (Retinopatia Diabética Proliferativa): neovascularização patológica na retina via VEGF-A
  • Ranibizumabe (Lucentis®): fragmento Fab anti-VEGF-A — injeção intraocular; aprovado 2006; ANCHOR e MARINA trials
  • Bevacizumabe intravítreo (off-label): muito usado por custo (100x menor) — CATT trial: similar em eficácia ao ranibizumabe
  • Aflibercept (Eylea®): proteína de fusão VEGFR-1/2:Fc → captura VEGF-A, VEGF-B e PlGF — alta afinidade; VIEW 1 e 2 trials → não-inferior ao ranibizumabe com menos injeções
  • Faricimab (Vabysmo®): anticorpo bispecífico anti-VEGF-A + anti-Ang-2 → mais durável (até 4 meses entre injeções); TENAYA e LUCERNE trials
  • Ranibizumabe port-delivery implant (Susvimo®): refill a cada 6 meses vs injeção mensal

Perguntas frequentes sobre VEGF e angiogênese

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Anti-VEGF causa cicatrização prejudicada — quando retomar após cirurgia?+

Bevacizumabe interfere na cicatrização (VEGF essencial para angiogênese de reparo e proliferação de fibroblastos). Risco maior de deiscência de ferida e fístulas. Guias recomendam: suspender bevacizumabe 4-8 semanas ANTES de cirurgias eletivas de grande porte; aguardar 4 semanas (bevacizumabe meia-vida ~20 dias) após cirurgia antes de reintroduzir. Em cirurgias urgentes: risco é assumido. Para TKI-VEGFR orais (sorafenibe, sunitinibe): suspender 1-2 semanas antes de cirurgia e retomar após cicatrização completa da ferida.

Sunitinibe pode causar hipotireoidismo?+

Sim — em 40-60% dos pacientes, o hipotireoidismo é um efeito adverso muito frequente de sunitinibe (e outros TKI-VEGFR). Mecanismo proposto: depleção de c-Kit e VEGFR na tireoide → atrofia folicular; também inibição de NIS e TPO. O hipotireoidismo evolui após meses de tratamento. Monitoramento: TSH a cada ciclo (4-8 semanas); se TSH elevado → levotiroxina. Paradoxalmente, alguns estudos sugerem que desenvolvimento de hipotireoidismo durante sunitinibe se associa a melhor resposta tumoral (como marcador farmacodinâmico de boa inibição de VEGFR).

O que é a combinação ICI + TKI-VEGFR e por que é superior ao TKI sozinho no CCR?+

Inibidores de ponto de checagem imune (ICI — pembrolizumabe, nivolumabe, avelumabe) com TKI-VEGFR (axitinibe, cabozantinibe, lenvatinibe) criaram combinações sinérgicas no CCR: o TKI inibe angiogênese → hipóxia tumoral + 'normalização' dos vasos → melhor infiltração de linfócitos T; o ICI (anti-PD-1/PD-L1) desbloqueia esses TILs (linfócitos infiltrantes tumorais). Além disso, VEGF suprime diretamente células T e NK — bevacizumabe/TKI liberam essa supressão → mais imunidade. KEYNOTE-426 (pembrolizumabe+axitinibe), CheckMate 9ER (nivolumabe+cabozantinibe), CLEAR (lenvatinibe+pembrolizumabe) — todos superiores ao sunitinibe em 1ª linha de CCR.

Bevacizumabe intravítreo para olho é o mesmo do oncológico?+

É a mesma molécula (bevacizumabe/Avastin), mas em apresentação diferente. O bevacizumabe oncológico vem em frascos de 100 mg/4 mL ou 400 mg/16 mL para infusão IV. Quando usado intravítreo (off-label): farmácias de manipulação/hospitalares diluem e reembalaam em seringas de 0.1 mL (~1.25 mg dose) para injeção intraocular. O uso intravítreo é off-label mas amplamente praticado por razões de custo (custo de 1 dose de ranibizumabe ≈ custo de 100 doses de bevacizumabe). O CATT trial (NIH) demonstrou não-inferioridade. Risco: contaminação na reembalagem — maior que em produtos aprovados intravítreos; surtos de endoftalmite foram reportados com produtos de compounding inadequados.

Referências Científicas

  1. Hurwitz H, Fehrenbacher L, Novotny W, et al. Bevacizumab plus irinotecan, fluorouracil, and leucovorin for metastatic colorectal cancer. N Engl J Med, 2004.
  2. Motzer RJ, Hutson TE, Tomczak P, et al. Sunitinib versus interferon alfa in metastatic renal-cell carcinoma. N Engl J Med, 2007.
  3. Choueiri TK, Powles T, Burotto M, et al. (CheckMate 9ER) Nivolumab plus cabozantinib versus sunitinib for advanced renal-cell carcinoma (CheckMate 9ER). N Engl J Med, 2021.
  4. Folkman J Tumor angiogenesis: therapeutic implications. N Engl J Med, 1971.
  5. Martin DF, Maguire MG, Ying GS, et al. (Comparison of Age-Related Macular Degeneration Treatments Trials — CATT Research Group) Ranibizumab and bevacizumab for neovascular age-related macular degeneration (CATT). N Engl J Med, 2011.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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