Eixo GH-IGF-1 e síntese de IGF-1
Eixo Somatotrófico (GH-IGF-1) — regulação de crescimento e metabolismo:
Hierarquia hormonal:
- GHRH (Growth Hormone-Releasing Hormone): hipotálamo → pituitária anterior → estimula liberação de GH
- Somatostatina (SST): hipotálamo → pituitária → inibe GH
- Grelina: estômago + hipotálamo → GHSR-1a (receptor secretagogo de GH) → estimula GH
- GH (Growth Hormone / Somatotropina): glicoproteína 22 kDa, 191 aa; secretado pela pituitária anterior em pulsos (pico noturno, 1ª hora de sono profundo) → fígado + outros tecidos
- IGF-1 (Insulin-like Growth Factor 1 / Somatomedina C): produzido pelo fígado em resposta ao GH → circulação → tecidos → feedback negativo sobre hipotálamo e pituitária
GH direto vs. IGF-1 mediado:
- Alguns efeitos do GH são diretos (via receptor de GH — JAK2/STAT5): lipolítico (↑ lipólise), diabetogênico (↑ resistência à insulina), imunológico
- Efeitos anabólicos/crescimento: mediados principalmente via IGF-1 hepático e local
Síntese de IGF-1:
- Hepático (endócrino): GH → receptor GHR (JAK2/STAT5) → transcrição de IGF-1 → secretado na circulação (75-85% do IGF-1 plasmático)
- Local/parácrino: músculo, osso, cartilagem, SNC sintetizam IGF-1 localmente — ação autócrina/parácrina em resposta a GH local e outros estímulos (exercício, nutrição)
Valores e variações:
- IGF-1 plasmático: pico na puberdade (~400-800 ng/mL no pico de crescimento), declina com a idade; referências por idade e sexo
- Adultos 25-40 anos: ~180-250 ng/mL (varia por laboratório)
- Adultos >60 anos: ~80-150 ng/mL (declínio fisiológico)
- Deficiência de GH: IGF-1 baixo + baixa estatura na infância; em adultos → sarcopenia, fadiga, dislipidemia
- Acromegalia: IGF-1 muito elevado (>3-4x LSN) → diagnóstico
IGF-2:
- Expressão predominante na vida fetal (crescimento placentário, desenvolvimento)
- Imprimido (imprinting): expresso apenas pelo alelo paterno (via IGF2/H19 DMR)
- Síndrome de Beckwith-Wiedemann: bi-alélica de IGF-2 → macrossomia, organomegalia, tumor de Wilms
IGFBPs: moduladores da ação do IGF-1
IGFBPs (Insulin-like Growth Factor Binding Proteins) — família de 6 proteínas de alta afinidade para IGF-1 e IGF-2:
IGFBP-3 (predominante no plasma):
- Liga ~80% do IGF-1 circulante em complexo ternário: IGFBP-3 + ALS (Acid-Labile Subunit) + IGF-1 → 150 kDa
- Prolonga meia-vida do IGF-1 de <10 min para ~16h
- Regulada por GH, insulina, nutrição
- IGFBP-3 proteolisada (por PSA, calicreínas) → libera IGF-1 nos tecidos
IGFBP-1:
- Marcador inverso de insulina (insulina suprime IGFBP-1 → RI → IGFBP-1 baixo → mais IGF livre → crescimento)
- Eleva-se no jejum e hipoglicemia
IGFBP-2: expressão fetal elevada; correlação inversa com obesidade e RI; pode ter funções anti-tumoral
IGFBPs ações independentes de IGF:
- Receptores nucleares para IGFBPs (IGFBP-3 entra no núcleo → liga RXR-α → ações anti-proliferativas independentes)
- IGFBP-5: pró-sobrevivência em algumas células
Modulação terapêutica do eixo GH-IGF-1:
Análogos de GH (para deficiência):
- Somatropina recombinante (Genotropin®, Saizen®): SC 6-7x/semana ou diária; indicações: deficiência de GH pediátrica (baixa estatura), Turner, Prader-Willi, deficiência de GH adulto, Síndrome de intestino curto
- Somapacitan (Sogroya®), Lonapegsomatropin (Skytrofa®): GH de ação prolongada — dose semanal; criança: não-inferior à somatropina diária, adesão melhor
Antagonistas de GH (para acromegalia):
- Pegvisomant (Somavert®): GH mutado que compete pelo receptor GHR mas não ativa sinalização → bloqueia → reduz IGF-1 → aprovado para acromegalia resistente a análogos de SST
Análogos de somatostatina (para acromegalia):
- Octreotide (Sandostatin®, Sandostatin LAR®): inibe secreção de GH via SST5 receptor → reduz GH e IGF-1; controla acromegalia
- Lanreotide (Somatuline®): similar, formulação de ação prolongada (injeção mensal)
- Pasireotide (Signifor®): pangossomatostatin (SST1-5) → mais potente, aprovado para Cushing doença também
IGF-1 recombinante:
- Mecasermina (IPLEX® / Increlex®): rhIGF-1 — aprovado para insuficiência primária de IGF-1 (receptor GH defeituoso, anticorpos anti-GH) → crescimento em crianças; também usado em resistência severa à insulina (receptoropatia de insulina)
IGF-1, longevidade e câncer
IGF-1 e longevidade — o paradoxo:
Organismos modelo:
- C. elegans: mutação de daf-2 (receptor IGF-like) → vida 2x mais longa; daf-16 (FOXO) necessário
- Camundongos Ames dwarf e Little (GH-deficientes): 40-50% mais longos; camundongos Laron (GHR knockout): 50% mais longos; intolerantes à insulina mas longevos
- Interpretação: via IGF-1/PI3K/AKT → inibe FOXO → menos autofagia/reparo de DNA → envelhecimento mais rápido; redução de sinalização IGF-1 → ativa FOXO → mais longevidade
Humanos — síndrome de Laron:
- Deficiência congênita de receptor de GH (GHR) → IGF-1 muito baixo → baixa estatura
- Ecuadorianos com Laron: menor incidência de câncer e diabetes (5 casos de câncer em 100 pessoas vs 17% na população controle) → dados de Guevara-Aguirre (2011, SciTransl Med)
- Porém: não vivem mais (acidentes, maior adiposidade, outros fatores)
IGF-1 moderado vs extremos:
- Meta-análises mostram curva em U: IGF-1 muito baixo → maior mortalidade cardiovascular e por causas gerais; IGF-1 muito alto → maior risco de câncer
- Faixa ótima controversa — difícil isolar de outros fatores
IGF-1 e câncer:
- IGF-1R superexpresso em muitos tumores (mama, próstata, cólon, pulmão)
- IGF-1 → PI3K/AKT/mTOR → proliferação, sobrevivência celular, inibição de apoptose → crescimento tumoral
- Hiperinsulinemia crônica (DM2/obesidade) → suprime IGFBP-1/3 → mais IGF-1 livre → crescimento tumoral
- Inibidores de IGF-1R (ganitumab, cixutumumab, figitumumab) — trials em sarcoma de Ewing (IGF-1R amplificado), outros tumores — resultados modestos, resistência via PI3K/mTOR
Exercício, nutrição e IGF-1:
- Exercício de força: ↑ IGF-1 muscular local → hipertrofia muscular (mecanismo mediado por AMPK e mTOR)
- Restrição calórica: ↓ IGF-1 hepático (proteína alimentar é drive principal de IGF-1 hepático) → menor sinalização mTOR → mais autofagia
- Dieta com alta proteína → ↑ IGF-1; vegetarianos têm IGF-1 ~13% menor que onívoros
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Acromegalia e deficiência de GH em adultos
Acromegalia — excesso de GH (e IGF-1) em adultos:
Causa: adenoma somatotrófico da pituitária (>95% dos casos) — produção autônoma de GH
Manifestações:
- Crescimento de mãos, pés, proeminências ósseas faciais (arcadas supraorbitárias, mandíbula)
- Macroglossia, aumento de partes moles (lábios, nariz)
- Síndrome do túnel do carpo (compressão de nervo mediano)
- HAS, cardiopatia (cardiomiopatia acromegálica), DM2 (GH antagoniza insulina)
- Apneia do sono (50-80%)
- Risco aumentado de pólipos e câncer de cólon → colonoscopia ao diagnóstico e acompanhamento
Diagnóstico:
- IGF-1 elevado para idade/sexo + GH não suprimido com TTOG (>0.4 ng/mL após 75g glicose)
- RM pituitária → adenoma
Tratamento:
- Cirurgia transesfenoidal: cura em 40-80% (microadenomas); padrão de 1ª linha
- Análogos de SST (octreotide LAR/lanreotide): normalizam IGF-1 em 40-55%; primeira escolha farmacológica
- Pegvisomant: antagonista GHR → normaliza IGF-1 em 90% dos casos refratários
- Cabergolina (agonista dopaminérgico): eficaz em 30-40% isolada; combina com análogos de SST
- Radioterapia: reservada para casos refratários; latência de anos para efeito
Deficiência de GH em adultos (DAGHA):
- Causas: adenoma pituitário/radioterapia/cirurgia pituitária, traumatismo cranioencefálico grave
- Manifestações: sarcopenia, ↑ gordura visceral, dislipidemia (↑LDL, ↓HDL), osteopenia, fadiga, redução de QV
- IGF-1 baixo para a idade (< percentil 2.5 do grupo etário)
- Teste de estimulação de GH: ITT (hypoglicemia insulínica — padrão-ouro), GHRH+arginina, glucagon
- Tratamento: somatropina SC com meta IGF-1 na faixa média para idade (não supratherapêutico); monitorar efeitos adversos (RI, retenção de líquidos, parestesias) — ajustes individualizados