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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 10 min de leitura

DPP-4 inibidores: sitagliptina, saxagliptina, alogliptina e vildagliptina — gliptinas no tratamento do DM2

DPP-4 (dipeptidil peptidase-4) degrada GLP-1 endógeno. Inibidores de DPP-4 (gliptinas) aumentam GLP-1 ativo → mais insulina glucose-dependent + menos glucagon. Bem toleradas, peso-neutras, mas eficácia moderada e sem benefício CV robusto como GLP-1 agonistas ou SGLT2 i.

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Equipe Peptídeos Bio
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Material educativo. Itens de uso médico exigem indicação, prescrição e acompanhamento profissional.

DPP-4 — a enzima e os substratos incretínicos

DPP-4 (Dipeptidil Peptidase-4 / CD26) — serina protease:

Localização: membrana celular (forma transmembrana) e solúvel no plasma; ubíqua — enterócitos, células endoteliais, células imunes (CD26 é marcador de linfócitos T ativados), rins, fígado, pulmões

Especificidade enzimática: cliva dipeptídeo N-terminal de peptídeos com X-Pro ou X-Ala na posição 2 (prolina ou alanina como 2º aminoácido)

Substratos endógenos de DPP-4:

  • GLP-1(7-36)amida → GLP-1(9-36) inativo (principal alvo terapêutico)
  • GIP(1-42) → GIP(3-42) inativo (menos clinicamente relevante)
  • Neuropeptídeo Y, peptídeo YY (regulação do apetite)
  • SDF-1α/CXCL12 (mobilização de progenitores hematopoéticos e cardio-reparo — relevância cardiovascular)
  • BNP, GLP-2, peptídeo vasoativo intestinal

Efeito da inibição de DPP-4:

  • GLP-1 e GIP endógenos (secretados pelas células L e K intestinais após refeição) → degradados normalmente em 1-2 minutos por DPP-4 → com DPP-4 inibido: GLP-1 e GIP aumentam 2-3x → efeitos incretínicos potencializados
  • Diferença crucial das gliptinas vs agonistas de GLP-1R: gliptinas aumentam GLP-1 endógeno (que é liberado apenas após refeição) → efeito mais fisiológico e dependente de refeição; GLP-1 agonistas provêm concentrações farmacológicas suprafisiológicas de forma contínua → muito maior efeito sobre peso e glicemia

Efeitos terapêuticos das gliptinas (via GLP-1 + GIP aumentados):

  • Células β pancreáticas: ↑ insulina glucose-dependent (apenas quando glicemia alta) → baixíssimo risco de hipoglicemia
  • Células α: ↓ glucagon pós-prandial → menos glicogenólise hepática pós-prandial
  • Menor esvaziamento gástrico (efeito mínimo comparado a agonistas GLP-1 diretos)
  • Peso neutro (vs SGLT2 i que emagerecem e GLP-1 agonistas que emagerecem muito) — GLP-1 endógeno potencializado não é suficiente para causar grande perda de peso

Gliptinas aprovadas: sitagliptina, saxagliptina, alogliptina e vildagliptina

Sitagliptina (Januvia® / Janumet® com metformina — MSD/Merck):

  • 1ª gliptina aprovada (FDA 2006) — referência da classe
  • 100 mg/dia oral (ajustar em DRC: 50 mg se TFG 30-49; 25 mg se TFG <30)
  • Seletiva para DPP-4 (razão de seletividade >2600x vs FAP, DPP-8, DPP-9)
  • TECOS trial (CVOT): sitagliptina vs placebo em DM2 + DCV → MACE: não inferior, neutro (HR 0.98) → segurança CV confirmada, sem benefício ativo
  • Bem tolerada: nasofaringite leve; artralgia reportada (FDA safety communication 2015)

Saxagliptina (Onglyza® / Kombiglyze® — AstraZeneca/BMS):

  • 5 mg/dia (2.5 mg se TFG <50 ou com inibidores de CYP3A4/5)
  • SAVOR-TIMI 53 (CVOT): saxagliptina vs placebo → MACE neutro MAS hospitalização por IC aumentada 27% (HR 1.27, p=0.007) → sinal de segurança preocupante → FDA exige aviso
  • Mecanismo de IC: possivelmente via acúmulo de SDF-1α (substrato de DPP-4 com efeitos no coração) → vasodilatação e remodelamento cardíaco

Alogliptina (Nesina® / Kazano® com metformina — Takeda):

  • 25 mg/dia (ajuste renal)
  • EXAMINE (CVOT): alogliptina pós-SCA → MACE neutro (0.96); tendência não significativa de aumento de IC

Vildagliptina (Galvus® / Eucreas® com metformina — Novartis) — aprovada na Europa e Ásia, não nos EUA:

  • 50 mg 2x/dia; menos estudos de CVOT
  • Nasopharyngitis, cough (rara)

Linagliptina (Tradjenta® / Jentadueto® — Boehringer + Lilly):

  • 5 mg/dia; única gliptina eliminada primariamente pela bíle/fecal (não renal) → SEM ajuste de dose em DRC → vantagem em pacientes com renal severo
  • CARMELINA (CVOT): neutro; CAROLINA (vs glimepiride): não-inferioridade em MACE com menos hipoglicemia que sulfoniureia

Eficácia comparativa:

  • Redução de A1C: -0.7 a -1.0% (monotorapia); menor que SGLT2 i (-0.7-1.2%) e muito menor que GLP-1 agonistas (semaglutida: -1.5-1.8%)
  • Peso: neutro (+/- 0.1 kg) vs SGLT2 i (-2-3 kg) e semaglutida (-6 kg em dose DM2)
  • Hipoglicemia: mínima (risco ~1-2%, significativamente menor que sulfonilureias)
  • CV: gliptinas são seguros mas sem benefício cardiovascular ativo (exceto saxagliptina que teve sinal negativo de IC)

Posição nas guidelines atuais:

  • Antes da revolução de SGLT2 i e GLP-1 agonistas, gliptinas eram 2ª linha pós-metformina
  • Agora: se não há DCV, IC, DRC (onde SGLT2 i ou GLP-1 agonistas têm benefícios específicos), gliptinas ainda são opção válida para adicionar ao esquema — especialmente em pacientes idosos onde hipoglicemia é maior preocupação

Pancreatite, câncer pancreático e outros efeitos adversos das gliptinas

Pancreatite e gliptinas — o debate:

Preocupação inicial (2011-2013):

  • Estudos observacionais (Elashoff, Singh) sugeriram 2-3x mais pancreatite com incretinas (sitagliptina, exenatida)
  • FDA e EMA iniciaram investigação; FDA black-box warning foi considerado mas não implementado

Evidências dos grandes CVOT:

  • TECOS (sitagliptina): pancreatite 0.3% vs 0.2% (não significativo)
  • SAVOR-TIMI 53 (saxagliptina): pancreatite 0.3% vs 0.2%
  • EXAMINE (alogliptina): 0.3% vs 0.1% (diferença pequena)
  • Metanálise 2017: sem aumento significativo de pancreatite nos RCTs
  • Conclusão atual: pancreatite não é risco estabelecido com gliptinas nos trials controlados; possivelmente o DM2 em si aumenta pancreatite (viés de confundimento nos estudos observacionais)

Câncer pancreático: hipótese inicial de proliferação de células ductais → câncer pancreático com incretinas — não confirmada nos trials

Artralgia (sitagliptina — FDA 2015):

  • Casos de artralgia severa e debilitante reportados via MedWatch → FDA safety communication; resolução com descontinuação
  • Mecanismo: possível inflamação de articulações por DPP-4 (CD26) que é marcador de linfócitos sinoviais

Reações em pele (penfigoide bolhoso) — principalmente alogliptina, sitagliptina, vildagliptina:

  • Raro mas grave — reação autoimune cutânea; tratar com corticoide, descontinuação obrigatória

Nasofaringite e infecção de vias aéreas superiores: 5-8% nos trials; DPP-4 (CD26) regula imunidade de mucosa → inibição pode leve comprometer defesa local

ITU: leve tendência (vs SGLT2 i onde glicosúria cria substrato)

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Combinações de DPP-4 i com outros antidiabéticos e posição nas guidelines

Combinação DPP-4 i + metformina:

  • Sinergismo mecanístico: metformina reduce gluconeogênese hepática + melhora sensibilidade à insulina; DPP-4 i aumenta insulinosecreção glucose-dependent + reduz glucagon
  • Disponível em comprimido único (Janumet, Kombiglyze XR, Xigduo com dapagliflozina, etc.)
  • Excelente para melhorar aderência e reduzir número de comprimidos

DPP-4 i + SGLT2 i:

  • Mecanismos complementares: DPP-4 i age via incretina/insulina; SGLT2 i via glicosúria
  • Tripla (metformina + DPP-4 i + SGLT2 i): Qternmet XR (saxagliptina + dapagliflozina + metformina); Trijardy XR (linagliptina + empagliflozina + metformina)
  • Não combinar SGLT2 i com GLP-1 agonistas + DPP-4 i (redundância: DPP-4 i age no GLP-1 endógeno; se GLP-1 agonista já dá suprafisiológicas concentrações de GLP-1, adicionar DPP-4 i pouco adiciona)

DPP-4 i + insulina:

  • Adicionar sitagliptina a insulina basal: reduz A1C -0.6% com risco mínimo de hipoglicemia adicional
  • MerforMin + basal insulina + DPP-4 i: régime "basal plus" frequentemente usado

Guidelines atuais (ADA 2024, ESC 2023):

  • Paciente DM2 com DCV estabelecida, IC ou DRC → SGLT2 i e/ou GLP-1 agonistas são 1ª escolha além de metformina
  • Paciente DM2 sem DCV/IC/DRC → personalizar: gliptinas são opção válida quando custo, tolerabilidade, peso neutro e risco mínimo de hipoglicemia são prioritários
  • Gliptinas perderam o "status" de agentes de preferência universal mas mantém nicho clínico específico — especialmente idosos frágeis, pacientes com múltiplas comorbidades onde hipoglicemia é perigosa, DRC avançada (linagliptina)
  • Custos: gliptinas geralmente mais baratas que GLP-1 agonistas semanais mas mais caras que sulfonilureias; genérico de sitagliptina disponível desde 2023

Perguntas frequentes sobre DPP-4 inibidores (gliptinas)

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre DPP-4 inibidores e GLP-1 agonistas?+

Ambos atuam no sistema incretínico, mas de formas muito diferentes em potência e mecanismo: DPP-4 i (gliptinas) inibem a enzima que degrada GLP-1 endógeno → aumentam GLP-1 de 2-3x (ainda dentro de faixas fisiológicas) → efeitos moderados (A1C -0.7-1.0%, peso neutro, sem redução CV robusta). GLP-1 agonistas (semaglutida, liraglutida, tirzepatida) são análogos de GLP-1 que fornecem concentrações suprafisiológicas e constantes → efeitos muito maiores (A1C -1.5-2.0%, perda de peso -5 a -21%, redução de MACE 12-26%, benefício renal). A escolha: se apenas controle glicêmico com boa tolerabilidade e sem preocupação de peso/CV → gliptinas; se DCV, IC, DRC, obesidade → GLP-1 agonistas e/ou SGLT2 i são superiores.

Gliptinas podem causar hipoglicemia?+

Raramente — essa é uma das principais vantagens das gliptinas. Como atuam via GLP-1/GIP (que estimulam insulina apenas quando glicemia está elevada), a insulinosecreção é glucose-dependent: não há liberação de insulina quando a glicemia já está normal. Em monoterapia ou combinação com metformina: risco de hipoglicemia muito baixo (~1-2%, similar a placebo). O risco aumenta quando gliptinas são combinadas com sulfonilureias ou insulina (que liberam insulina mesmo em glicemia normal). Nesse caso, pode ser necessário reduzir a dose da sulfonilureia ao adicionar a gliptina. Essa característica de segurança hipoglicêmica torna gliptinas especialmente atraentes para idosos (onde hipoglicemia é perigosa — quedas, fraturas, eventos cardiovasculares).

Por que saxagliptina aumenta hospitalização por IC?+

A explicação mais aceita é o acúmulo de SDF-1α (CXCL12). SDF-1α é normalmente degradado por DPP-4; com saxagliptina, SDF-1α aumenta. SDF-1α se liga ao receptor CXCR4 em células endoteliais e cardiomiócitos → efeitos vasodilatadores e remodelamento cardíaco que em pacientes já com disfunção cardíaca podem ser prejudiciais. Também: o mecanismo pode ser relacionado ao efeito de SDF-1α em células progenitoras que migram para o coração de forma inadequada. O achado foi isolado do SAVOR-TIMI 53 — outras gliptinas (sitagliptina, alogliptina, linagliptina) NÃO mostraram esse sinal. Por isso, em pacientes com IC ou história de IC, saxagliptina deve ser evitada; as outras gliptinas são aparentemente seguras.

Como as gliptinas se comparam às sulfonilureias?+

Gliptinas têm perfil de segurança superior às sulfonilureias em aspectos importantes: (1) Hipoglicemia: gliptinas muito rara hipoglicemia; sulfonilureias causam hipoglicemia frequente (mecanismo: fecham canais K-ATP nas células β independentemente de glicemia → insulina liberada mesmo em jejum). (2) Peso: gliptinas neutras; sulfonilureias causam ganho de peso +1-3 kg. (3) Durabilidade: sulfonilureias aceleram exaustão de células β por hiperestimulação crônica; gliptinas mais preservam. Porém: (4) Eficácia glicêmica similar (-0.7-1.0% para ambas); (5) Custo: sulfonilureias genéricas são muito mais baratas; (6) CV: CAROLINA trial comparou linagliptina vs glimepiride diretamente → MACE similar mas MUITO menos hipoglicemia com linagliptina.

Referências Científicas

  1. Green JB, Bethel MA, Armstrong PW, et al. (TECOS) Effect of sitagliptin on cardiovascular outcomes in type 2 diabetes (TECOS). N Engl J Med, 2015.
  2. Scirica BM, Bhatt DL, Braunwald E, et al. (SAVOR-TIMI 53) Saxagliptin and cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes mellitus (SAVOR-TIMI 53). N Engl J Med, 2013.
  3. White WB, Cannon CP, Heller SR, et al. (EXAMINE) Alogliptin after acute coronary syndrome in patients with type 2 diabetes (EXAMINE). N Engl J Med, 2013.
  4. Rosenstock J, Kahn SE, Johansen OE, et al. (CAROLINA) Effect of linagliptin versus glimepiride on major adverse cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes (CAROLINA). JAMA, 2019.
  5. Deacon CF. Physiology and pharmacology of DPP-4 in glucose homeostasis and the treatment of type 2 diabetes. Front Endocrinol (Lausanne), 2019.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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