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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 12 min de leitura

ALK, rearranjos EML4-ALK e inibidores de ALK: crizotinibe, alectinibe, brigatinibe e lorlatinibe em NSCLC

Rearranjos de ALK (principalmente EML4-ALK) ocorrem em 3-5% dos NSCLC — young, non-smoker, adenocarcinoma. Inibidores de ALK de 1ª geração (crizotinibe) foram superados por 2ª/3ª geração (alectinibe, brigatinibe, lorlatinibe) com melhor penetração SNC e cobertura de mutações de resistência.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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ALK — receptor tirosina-quinase e rearranjos em NSCLC

ALK (Anaplastic Lymphoma Kinase) — receptor tirosina-quinase do grupo de receptores de insulina:

Função fisiológica: em adultos, ALK tem expressão muito restrita ao sistema nervoso — importante no desenvolvimento neuronal; em tumores, rearranjos criam proteínas de fusão ectópicas que ativam quinase constitutivamente

Rearranjos de ALK em NSCLC:

  • Cromossomo 2p23 onde ALK reside; inversão pericêntrica no cromossomo 2 → fusão com EML4 (echinoderm microtubule-associated protein-like 4) → EML4-ALK
  • ~20 variantes de EML4-ALK (V1, V2, V3a/b, etc.) por diferentes pontos de quebra — V3 pode ter prognóstico diferente
  • Outros parceiros de fusão: KIF5B-ALK, TFG-ALK, KLC1-ALK (raros)
  • EML4-ALK funde o domínio de oligomerização de EML4 com o domínio quinase intracelular de ALK → dímero constitutivo → ativa RAS/ERK, PI3K/AKT, JAK/STAT3 continuamente

Perfil do paciente com ALK-positivo:

  • Adenocarcinoma (quase sempre)
  • Jovem (<50 anos com frequência)
  • Não fumante ou ex-fumante leve
  • Diferente de EGFR-mutado (que predomina em asiáticos), ALK ocorre igualmente em todas as etnias
  • ~3-5% de todos os NSCLC = 40.000-50.000 casos/ano nos EUA

Diagnóstico:

  • FISH (gold standard histórico): detecta rearranjo cromossômico independente de parceiro
  • IHC (D5F3 clone): mais rápido, custo menor, sensibilidade ~95% para NSCLC ALK+ comparado a FISH; aprovado FDA como diagnóstico companion para crizotinibe
  • NGS (DNA-based): detecta fusões mas pode perder variantes; RNA-based NGS: mais sensível para fusões (sequencia transcritos) → preferido em laboratorios modernos

Outras fusões targetáveis em NSCLC (mesma família de lógica terapêutica):

  • ROS1 (1-2%): receptor tirosina-quinase similar a ALK; CD74-ROS1, SLC34A2-ROS1; responde a crizotinibe, entrectinibe, lorlatinibe, repotrectinibe
  • RET (1-2%): CCDC6-RET, KIF5B-RET; pralsetinibe (Gavreto), selpercatinibe (Retevmo)
  • NTRK1/2/3 (<1%): entrectinibe (Rozlytrek), larotrectinibe (Vitrakvi) — aprovação tumor-agnóstica
  • MET exon 14 skip (3-4%): capmatinibe (Tabrecta), tepotinibe (Tepmetko) — skip de exon cria MET sem domain de degradação → acumulação de MET ativo

Inibidores de ALK: três gerações e evolução clínica

1ª Geração — Crizotinibe (Xalkori® — Pfizer):

  • Inibidor de ATP-competitive de ALK, MET e ROS1 (multi-target TKI)
  • PROFILE 1014 trial: crizotinibe vs quimioterapia (platina + pemetrexedo) em 1ª linha ALK-positivo → PFS 10.9 vs 7.0 meses; ORR 74% vs 45% → aprovado 1ª linha 2013
  • Limitações: resistência em ~12 meses; penetração pobre em SNC (substrato de P-gp); mutações de resistência em ALK (L1196M, G1269A, C1156Y, etc.) e bypass (EGFR, KRAS mutações secundárias)

2ª Geração:

Alectinibe (Alecensa® — Roche/Genentech):

  • Altamente seletivo para ALK (não inibe cMET como crizotinibe) → menos efeitos GI; excelente penetração em SNC
  • ALEX trial (global, 1ª linha vs crizotinibe): PFS 34.8 vs 10.9 meses → histórico; J-ALEX (Japão): similar
  • ALESIA (Ásia, 1ª linha): PFS não atingida vs 11.1 meses com crizotinibe a 18 meses
  • Cobertura de mutações de resistência: L1196M, G1269A (mas não G1202R)
  • Padrão de 1ª linha global desde 2017/2018

Brigatinibe (Alunbrig® — Ariad/Takeda):

  • Também ALK + EGFR (interessante em alguns contextos de resistência)
  • ALTA-1L trial (1ª linha vs crizotinibe): PFS 24.0 vs 11.0 meses; excelente atividade em SNC
  • Aprovado 1ª linha 2020; alternativa a alectinibe

Ceritinibe (Zykadia® — Novartis): 2ª geração, menos usado atualmente pela toxicidade GI elevada

3ª Geração — Lorlatinibe (Lorbrena® — Pfizer):

  • Inibidor macrocíclico pan-ALK — cobre praticamente todas as mutações conhecidas de resistência INCLUDING G1202R (a mais frequente pós-alectinibe/brigatinibe)
  • Excelente penetração em SNC (substrato menor de P-gp, menor peso molecular)
  • CROWN trial (1ª linha vs crizotinibe): PFS não atingida vs 9.3 meses; a 3 anos, 64% vs 19% sem progressão → melhor PFS já visto em ALK-positivo
  • Toxicidades específicas: hiperlipidemia (85% precisa estatina), efeitos no SNC (sutil em alguns: mudanças de humor, sonhos vívidos, dificuldade de concentração), edema periférico
  • Aprovado 1ª linha FDA 2021; crescente adoção como opção de 1ª linha

Sequenciamento pós-progressão:

  • Após crizotinibe: alectinibe ou brigatinibe (melhor) ou ceritinibe
  • Após alectinibe/brigatinibe: biópsia (líquida ou tecido) para detectar G1202R → lorlatinibe; outras mutações → capmatinibe/tepotinibe se MET amplificado
  • Após lorlatinibe: sem inibidor ALK aprovado → QT ou imunoterapia (ALK+ tem baixo TMB e PD-L1, imunoterapia pouco ativa)

MET, NTRK, RET e outras fusões rares: alvos moleculares em NSCLC e tumores agnósticos

MET (Mesenchymal-Epithelial Transition receptor / c-MET):

Biologia: receptor tirosina-quinase; ligante = HGF (hepatocyte growth factor); ativa RAS, PI3K, STAT3 → proliferação, invasão, angiogênese

Alterações oncogênicas em NSCLC:

  1. MET exon 14 skipping (3-4% de NSCLC adeno): mutações no sítio splicing do exon 14 → mRNA sem exon 14 → proteína MET sem domínio de ubiquitinação (CBL binding) → não é degradada → MET acumula e sinaliza mais

- Capmatinibe (Tabrecta® — Novartis) + tepotinibe (Tepmetko® — Merck KGaA): aprovados para MET exon 14 skip em NSCLC (2020-2021); ORR ~40-45%

  1. MET amplificação: copy number gain de MET → pode ocorrer de novo (2%) ou como mecanismo de resistência a EGFR TKI (20% das resistências adquiridas a osimertinibe, erlotinibe)
  2. MET Y1230 e D1228 mutações: resistência a capmatinibe/tepotinibe

NTRK (Neurotrophic Tyrosine Receptor Kinase) 1/2/3 — fusões:

  • NTRK1, 2 ou 3 funde com parceiros variados (ETV6-NTRK3 em carcinoma secretório; TPM3-NTRK1 em cólon, etc.)
  • Frequência baixa em cada tumor mas distribuída por muitos tipos tumorais → aprovação tumor-agnóstica
  • Larotrectinibe (Vitrakvi® — Bayer/Loxo): 1º oncológico aprovado baseado exclusivamente em biomarcador (NTRK fusion) sem tipo tumoral — NAVIGATE/SCOUT/LOXO-TRK-14001 pooled: ORR 75%, DOR mediana ~40 meses
  • Entrectinibe (Rozlytrek® — Roche): também inibe ALK e ROS1; ORR 57% em NTRK fusion; boa penetração SNC
  • Resistência: mutações kinase (solvent-front: G595R em NTRK1); selitrectinibe, repotrectinibe: TKI de 2ª geração

RET fusões (1-2% NSCLC; 10-20% papilário de tireoide):

  • Selpercatinibe (Retevmo® — Eli Lilly/Loxo): potente e seletivo RET; LIBRETTO-001: ORR 64-85% em NSCLC e tireoide com RET fusion; penetração SNC
  • Pralsetinibe (Gavreto® — Blueprint Medicines/Roche): similar ao selpercatinibe; ARROW trial: ORR 57-70%
  • Ambos superiores a TKI multi-alvo antigos (cabozantinibe, vandetanibe) com menos toxicidade
  • Tireoide medular (RET mutation pontual M918T, C634F — não fusão): selpercatinibe e pralsetinibe também aprovados

Filosofia NGS em NSCLC:

  • Todo NSCLC não-escamoso avançado deve ter NGS ampliado (DNA + RNA) buscando: EGFR, ALK, ROS1, RET, MET ex14, NTRK, BRAF V600, KRAS G12C, ERBB2 (HER2) mutações/amplificações, BRCA1/2, STK11, KEAP1, TP53 (prognóstico)
  • RNA-based NGS é crítico para detectar fusões (ALK, ROS1, RET, NTRK) pois podem ser perdidas por DNA-only

Inibidores de PARP: olaparibe, niraparibe, rucaparibe e talazoparibe em BRCA e HRD

PARP (Poly ADP-Ribose Polymerase) — enzima de reparo de DNA de fita simples (SSB):

Mecanismo de funcionamento de PARP inibidores:

  1. PARP1 detecta SSBs → forma PARilação → recruta maquinaria de reparo BER (base excision repair) → repara SSB
  2. PARP inibidores bloqueiam atividade catalítica E "trapped" PARP-DNA (complexo estável) → impede reparo de SSB → SSBs persistem → tornam-se DSBs (double-strand breaks) durante replicação
  3. DSBs normalmente reparadas por HRR (homologous recombination repair) mediada por BRCA1, BRCA2, RAD51, PALB2
  4. Em células com BRCA1/2 mutado ou HRD (homologous recombination deficiency): sem HRR → DSBs causam morte celular → letalidade sintética
  5. Células normais (com BRCA1/2 intacto): HRR funciona como backup → sobrevivem

BRCA1 e BRCA2 — genes supressores de tumor:

  • Proteínas essenciais para HRR: BRCA1 regula checkpoint e recruta RAD51; BRCA2 carrega RAD51 para filamento de ssDNA no sítio de DSB
  • Mutações germinativas BRCA1/2: síndrome hereditária de câncer de mama-ovário (HBOC); também em próstata, pâncreas
  • Mutações somáticas: em ~5-7% de mama esporádico, ~15-20% de ovário esporádico seroso de alto grau
  • HRD (homologous recombination deficiency) — conceito mais amplo: inclui mutações em outros genes HR (RAD51C, PALB2, BRIP1) e também alterações epigenéticas que funcionalmente mimetizam BRCA ("BRCAness")

Inibidores de PARP aprovados:

Olaparibe (Lynparza® — AstraZeneca/MSD):

  • Ca ovário BRCA-mutado: manutenção pós-platina (SOLO-1: PFS 56 meses vs 13.8) + recidivado (SOLO-2)
  • Ca mama metastático BRCA1/2 germline (OlympiAD: olaparibe vs QT → PFS 7.0 vs 4.2 meses)
  • Ca próstata CRPC com BRCA1/2/ATM (PROfound trial: olaparibe vs enzalutamida/abiraterona → 7.4 vs 3.6 meses)
  • Ca pâncreas BRCA germline (POLO trial: olaparibe manutenção)

Niraparibe (Zejula® — GSK):

  • Ca ovário manutenção pós-platina — PRIMA trial: HRD+ 21.9 vs 10.4 meses PFS
  • Notável: aprovado para TODOS os pacientes de ovário pós-platina (não só BRCA) mas benefício maior em HRD+

Rucaparibe (Rubraca® — Clovis/Pfizer): ovário, próstata BRCA; menos usado globalmente

Talazoparibe (Talzenna® — Pfizer): Ca mama metastático BRCA germline; EMBRACA trial: PFS 8.6 vs 5.6 meses vs QT

Toxicidades PARP i: anemia, trombocitopenia, náusea (classe-efeito); síndrome mielodisplásica/LMA (rara, 1-2%, após longa exposição)

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Perguntas frequentes sobre ALK, RET, NTRK e PARP inibidores

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença de penetração no SNC entre crizotinibe e alectinibe?+

Enorme. Crizotinibe é substrato da P-glicoproteína (bomba de efluxo na barreira hemato-encefálica) → concentração no SNC muito baixa (~0.0026 de razão SNC/plasma). O cérebro é o sítio mais frequente de 'santuário' e primeira progressão com crizotinibe (~40-50% desenvolvem metástases cerebrais). Alectinibe e brigatinibe têm estruturas moleculares que evitam P-gp → razão SNC/plasma de 0.63-3.1 (100-1000x mais que crizotinibe). Lorlatinibe tem perfil SNC ainda melhor por seu design macrocíclico. Na prática: alectinibe, brigatinibe e lorlatinibe eliminam metástases cerebrais existentes e previnem novas — isso é transformador para qualidade de vida e prognóstico desses pacientes.

PARP inibidores funcionam sem BRCA mutado?+

Parcialmente, em subgrupos com HRD (homologous recombination deficiency). HRD abrange alterações além de BRCA1/2 — mutações em RAD51C, PALB2, BRIP1, FANCA e epigenética (metilação de BRCA1). Testes de HRD (Myriad myChoice, Foundation Medicine CDx) analisam scars genômicos: LOH (loss of heterozygosity), large-scale state transitions (LST), e telomeric allelic imbalance (TAI) — padrões que indicam HRR defeituosa. Em ovário, niraparibe mostrou benefício em HRD+ sem BRCA mutado. Em outros tumores (mama, próstata, pâncreas), o benefício fora de BRCA germline/somático é menor — onde PARP inibidores são aprovados sem BRCA é ovário pós-platina (niraparibe) e com teste HRD+.

Por que pacientes com ALK têm resposta ruim à imunoterapia (PD-1/PD-L1)?+

ALK-positivo NSCLC tem baixa imunogenicidade tumoral: TMB (tumor mutational burden) baixo (poucas mutações somáticas acumuladas ao longo da vida em não-fumantes → menos neoantígenos), PD-L1 variável mas frequentemente baixo, e microambiente imune menos inflamado. Estudos retrospectivos e prospectivos (CHECKMATE, KEYNOTE) mostram que ICI (pembrolizumabe, nivolumabe) têm ORR muito baixo em ALK+ (~10-15%) comparado à população geral de NSCLC. Pior: ASCEND-7 e outros sugeriram toxicidade pneumonite aumentada quando ICI é dado logo após ALK TKI. Guidelines atuais: reservar ICI para ALK+ após progressão em múltiplos ALK TKI quando não há mais opção.

Larotrectinibe funciona para todos os tumores com NTRK fusion?+

Sim — a aprovação FDA do larotrectinibe (2018) foi a primeira oncológica baseada exclusivamente em biomarcador molecular sem especificação de tipo tumoral. Em todos os tumores com NTRK1/2/3 fusion (de qualquer histologia, qualquer faixa etária incluindo pediatria), o ORR é ~75% com respostas duradouras. Essa lógica de 'tumor-agnostic' mudou a oncologia de precisão: o alvo molecular supera a histologia de origem. A condição é que seja uma FUSÃO (não mutação ou amplificação de NTRK) — é o rearranjo cromossômico que cria a proteína de fusão constitutivamente ativa. Entrectinibe também é aprovado tumor-agnostic para NTRK fusion.

Referências Científicas

  1. Solomon BJ, Mok T, Kim DW, et al. (PROFILE 1014) First-line crizotinib versus chemotherapy in ALK-positive lung cancer. N Engl J Med, 2014.
  2. Peters S, Camidge DR, Shaw AT, et al. (ALEX Trial Investigators) Alectinib versus crizotinib in untreated ALK-positive non-small-cell lung cancer (ALEX). N Engl J Med, 2017.
  3. Shaw AT, Bauer TM, de Marinis F, et al. (CROWN investigators) First-line lorlatinib versus crizotinib in advanced ALK-positive lung cancer (CROWN). N Engl J Med, 2020.
  4. Drilon A, Laetsch TW, Kummar S, et al. Efficacy of larotrectinib in TRK fusion-positive cancers in adults and children (NAVIGATE/SCOUT). N Engl J Med, 2018.
  5. Robson ME, Tung N, Conte P, et al. (OlympiAD) OlympiAD final overall survival and tolerability results: olaparib versus chemotherapy treatment of physician's choice in patients with BRCA1/2 mutations and HER2-negative metastatic breast cancer. Ann Oncol, 2019.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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