O Microbioma como Órgão Endócrino
Composição e Escala
Microbioma intestinal:
- ~3,8 × 10¹³ bactérias (aproximadamente igual ao número de células humanas)
- Genoma combinado: > 3 milhões de genes (vs. ~20.000 genes humanos)
- Principais filos: Firmicutes (60–80%), Bacteroidetes (10–40%), Proteobacteria, Actinobacteria, Verrucomicrobia
- Variação regional: estômago/duodeno (poucos organismos, pH ácido), íleo (mais), cólon (mais denso, anaeróbios)
Microbioma como órgão metabólico:
- Fermenta fibras não digeríveis → produz AGCC (ácidos graxos de cadeia curta)
- Metaboliza ácidos biliares primários → biliares secundários (DCA, LCA)
- Sintetiza vitaminas: K2, B12, folato
- Degrada mucus e glicoproteínas (Akkermansia muciniphila: degrada mucina)
- Metaboliza triptofano → serotonina (via células EC) + indol + triptamina
Relação com saúde:
- Disbiose: alteração da composição (menos Bacteroidetes, mais Firmicutes, menos Akkermansia) → obesidade, DM2, IBD, autismo, depressão
- Diversidade α: mais diversidade = mais resiliente e saudável geralmente
AGCC: Butirato, Propionato e Acetato
Síntese e Receptores
Produção de AGCC:
- Bactérias fermentadoras (anaerobes obrigatórios): Firmicutes (Ruminococcus, Faecalibacterium prausnitzii, Clostridium IV e XIVa) fermentam fibras → piruvato → AGCC
- Fibras fermentáveis: inulina, FOS (fruto-oligossacarídeos), pectina, amido resistente → substrato preferencial
Receptores de AGCC:
- GPR43 (FFAR2): liga propionato > acetato; expresso em: células L intestinais, adipócitos, neutrófilos
- GPR41 (FFAR3): liga propionato > butirato > acetato; expresso em: células L intestinais, neurônios sensitivos (sistema entérico), células endoteliais
- GPR109a (HCA2): receptor do butirato em colonócitos + macrófagos intestinais
- GPR109a em imunidade: butirato → GPR109a em macrófagos → menos NF-κB → menos TNF-α + IL-6 → anti-inflamatório colônico
Butirato: O Mais Estudado
Butirato:
- AGCC de 4 carbonos; principal fonte energética dos colonócitos (70–80% da energia dos colonócitos)
- Inibidor de HDAC (histona desacetilase): butirato → inibe HDAC → mais acetilação de histonas → cromatina mais aberta → mais genes de diferenciação/anti-proliferação → proteção contra câncer colorretal
- Induz apoptose em células de câncer colorretal mas não em colonócitos normais ("efeito Warburg reverso": colonócitos normais oxidam butirato; células cancerosas fazem glicólise mesmo com butirato)
- Anti-inflamatório: via Tregs → butirato → GPR109a + HDAC inibição → mais FoxP3 → mais Tregs → menos inflamação intestinal
Butirato e secreção de GLP-1:
- Butirato → GPR43/GPR41 em células L → Gαs → AMPc → mais GLP-1 secretado
- Propionato: ainda mais potente que butirato para GLP-1 via GPR41
- Dieta rica em fibras → mais AGCC → mais GLP-1 → mais saciedade + efeito incretina
Faecalibacterium prausnitzii:
- Produtor principal de butirato; marcador de saúde intestinal
- Diminuído em: DII, obesidade, DM2, depressão → associação com inflamação
- Em IBD: F. prausnitzii muito diminuída durante flares
Propionato e Acetato
Propionato:
- Metabolizado pelo fígado → gliconeogênese hepática (substrato de propionil-CoA → succinil-CoA → Krebs)
- GPR41 em células L → GLP-1 + PYY
- GPR41 em células renais e adipócitos: reduz lipogênese?
- Inibição de acetato hepático: propionato pode competir com acetato no fígado
Acetato:
- AGCC mais abundante (~60% dos AGCC intestinais)
- GPR43 em adipócitos: acetato → GPR43 → inhibe lipólise → mais sensibilização insulínica indireta
- Cruza BHE: acetato no SNC → hipotálamo → menos apetite (estudos em roedores)
- Metabolismo: oxidado por maioria dos tecidos; substrato para lipogênese e colesterol
Microbioma e GLP-1/PYY
Células L e Microbioma
Modulação de GLP-1 pelo microbioma:
- Dieta rica em fibras → Firmicutes fermentadores → butirato/propionato → GPR43/41 → células L → mais GLP-1 + PYY
- Dieta ocidental (pobre em fibras) → menos AGCC → menos estímulo de células L → menos GLP-1/PYY → menos saciedade
- Akkermansia muciniphila: bactéria mucinolítica asociada a melhor sensibilidade insulínica + mais células L + mais GLP-1
Experimento de transferência de microbioma e GLP-1:
- Camundongos germ-free (estéreis): GLP-1 em jejum menor que gnotobióticos colonizados
- Colonização com bactérias de obesos → mais gordura + menos GLP-1 pós-prandial
- Colonização com bactérias de magros → mais GLP-1 + menos adiposidade
GLP-1RA e microbioma:
- Semaglutida, liraglutida → menos adiposidade → mudança composicional do microbioma (mais Akkermansia + mais diversidade)
- Discutível: a mudança de microbioma explica parte dos efeitos dos GLP-1RA? Evidência: estudo 2023 (eLife): microbioma de ratos tratados com semaglutida → transferência para germ-free → menos peso que controles
Indol e Triptofano
Metabolismo do triptofano bacteriano:
- Triptofano (Trp) alimentar → 3 vias: serotonina (células EC), kynurenina (imunidade/inflamação), indol (bactérias — Indole tryptophanase em E. coli, Clostridium, Lactobacillus)
- Indol: ativa receptor AhR (Aryl Hydrocarbon Receptor) → células Treg + células ILC3 → imunidade intestinal
- Indol propionato: produzido por C. sporogenes → neuroprotetor (BHE, neurônios)
Indol e GLP-1:
- Indol → células enteroendócrinas → ativa TGR5 (receptor de ácido biliar) + estimula células L → mais GLP-1
- Dieta rica em proteínas fermentadas: mais triptofano disponível para bactérias → mais indol → mais GLP-1?
Ácidos Biliares Secundários e Metabolismo
Ácidos biliares primários (CA, CDCA):
- Fígado → glicocola + taurina conjugam → bile primária → intestino
- Bactérias intestinais (Bifidobacterium, Clostridium): desconjugam → mais bile livre
- Enzimas BSH (bile salt hydrolase): hidrolisam bile conjugada
Ácidos biliares secundários (DCA, LCA):
- 7α-desidoxilação por Clostridium scindens: CA → DCA; CDCA → LCA
- DCA, LCA → ligam TGR5 (receptor de membrana) → GLP-1 em células L → insulinotrópico
- DCA, LCA → ligam FXR (receptor nuclear) → regulam metabolismo de bilirrubina + glicose + lipídeos
TGR5 (GPBAR1):
- GPCR em células L, macrófagos, neurônios entéricos, vesícula biliar
- Ácidos biliares → TGR5 → AMPc → mais GLP-1 + menos inflamação macrófagos
- TGR5 como alvo terapêutico em obesidade + DM2 (agonistas em desenvolvimento)
FMT (Transplante de Microbiota Fecal)
FMT em Clostridioides difficile
FMT estabelecido:
- C. difficile recorrente (rCDI): FMT é o tratamento mais eficaz → cura em 80–90%
- Mecanismo: doador saudável → restabelece microbioma diverso → menos nichos para C. difficile
- FDA 2023: aprovação de duas preparações de FMT (Rebyota, Vowst) para rCDI recorrente
FMT em obesidade e DM2:
- Ensaio randomizado (Kootte 2012 — Gastroenterology): FMT de doador magro para DM2 com resistência insulínica → melhora de sensibilidade insulínica em 6 semanas
- Mecanismo proposto: mais produtores de butirato → mais GLP-1 + menos inflamação
- Dados: promissores mas transitórios (microbioma do receptor retorna) → combinação com dieta?
- FMT não aprovado para obesidade/DM2
Referências
- Schroeder BO, Bäckhed F. "Signals from the gut microbiota to distant organs in physiology and disease." *Nat Med*. 2016;22(10):1079-89. DOI: 10.1038/nm.4185
- Cani PD, et al. "Changes in gut microbiota control metabolic endotoxemia-induced inflammation in high-fat diet–induced obesity." *Diabetes*. 2008;57(6):1470-81. DOI: 10.2337/db07-1403
- Psichas A, et al. "The short chain fatty acid propionate stimulates GLP-1 and PYY secretion via free fatty acid receptor 2 in rodents." *Int J Obes*. 2015;39(3):424-9. DOI: 10.1038/ijo.2014.153
- Plovier H, et al. "A purified membrane protein from Akkermansia muciniphila or the pasteurized bacterium improves metabolism in obese and diabetic mice." *Nat Med*. 2017;23(1):107-13. DOI: 10.1038/nm.4236
- Kootte RS, et al. "Improvement of insulin sensitivity after lean donor feces in metabolic syndrome is driven by baseline intestinal microbiota composition." *Cell Metab*. 2017;26(4):611-19. DOI: 10.1016/j.cmet.2017.09.008
- Fiorucci S, et al. "Bile acid signaling via FXR and TGR5 in the liver." *Hepatology*. 2020;71(3):883-91. DOI: 10.1002/hep.31000
- Larraufie P, et al. "Important role of the microbiota in the regulation of gut endocrine cell function via gut hormones." *Sci Rep*. 2019;9(1):2025. DOI: 10.1038/s41598-019-38617-6
Veja Também
Explore nosso Hub de Imunidade para comparar todos os peptídeos desta categoria. Aprofunde-se em O que é GLP-1, BPC-157 para intestino e Peptídeos para imunidade baixa.
