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← Blog·Oncologia de Precisão17 de julho de 2026

Leucemia Mieloide Aguda (LMA): Venetoclax + Azacitidina (VIALE-A), Midostaurina em FLT3+ (RATIFY), Gilteritinibe (ADMIRAL), Enasidenibe/Ivosidenibe IDH2/IDH1 e Gemtuzumabe Ozogamicina

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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LMA — classificação molecular, subtipos e resistência à quimioterapia padrão

LMA — panorama: Leucemia mieloide aguda: expansão clonal de blastos mieloides imaturos (≥20% na medula óssea — critério diagnóstico). Incidência: ~20.000 casos/ano EUA. Bimodal: pico em crianças <5 anos e >60 anos. A maioria dos casos: adultos idosos (mediana 68 anos) → difícil de tratar com quimio intensiva.

Classificação molecular (WHO 2022 + ELN 2022): LMA com alterações genéticas recorrentes (bom prognóstico):

  • t(8;21) → RUNX1::RUNX1T1 (AML1-ETO)
  • inv(16) ou t(16;16) → CBFB::MYH11
  • NPM1 mutação (20-30%): bom prognóstico se sem FLT3-ITD
  • CEBPA biallélico (5-10%): bom prognóstico
  • PML::RARA [t(15;17)]: LPA (Leucemia Promielocítica Aguda) → ATRA+ATO (coberto separado)

LMA de prognóstico intermediário:

  • NPM1 mut com FLT3-ITD alta AR
  • FLT3-ITD sem NPM1 ou CEBPA
  • Citogenética normal sem as alterações acima

LMA de prognóstico desfavorável:

  • TP53 mutação (10-15%)
  • RUNX1 mutação
  • ASXL1 mutação
  • Monossomia 7, del(7q), monossomia 5, del(5q), inv(3), t(3;3), t(6;9) [DEK::NUP214]
  • Complex karyotype (≥3 alterações não recorrentes)

Mutações driver importantes em LMA: FLT3 (FMS-like Tyrosine Kinase 3): presente em ~30-35%. ITD (internal tandem duplication): ~25% — pior prognóstico, especialmente se alta razão alélica (AR >0.5). TKD (D835): ~5-10% — prognóstico menor impacto. FLT3 ativado → MAPK/ERK, PI3K/AKT, STAT5. IDH1 (isocitrato desidrogenase 1, R132): ~6-10%. IDH2 (R140, R172): ~10-15%. Produção do oncometabólito 2-HG → inibição de demetilases TET2 → hipMetilação DNA → bloqueio de diferenciação. NPM1 (Nucleophosmin 1): nucleocitoplasmic shuttle de NPM1 mutado → retido no citoplasma → disfunção ribosomal e apoptótica. ~25-30% de todas LMA (muito comum).

Quimioterapia '7+3' — padrão histórico: Citarabina 100-200 mg/m² × 7 dias (infusão contínua) + daunorrubicina 60-90 mg/m² D1-3 (OU idarrubicina 12 mg/m² D1-3). Indução: CR em 65-75% de jovens adultos; 40-55% em idosos. Consolidação: altas doses de citarabina (HiDAC) × 3-4 ciclos, ou transplante alogênico em alto risco. Cura global: ~25-40% (adultos todos ages). Idosos ≥75 anos: CR em apenas 30-40% e toxicidade alta → inadequado.

Venetoclax + azacitidina (VIALE-A) — revolução em LMA de idosos inelegíveis

Venetoclax (Venclexta®, ABT-199, AbbVie/Genentech): Inibidor altamente seletivo de BCL-2 (B-Cell Lymphoma 2) — proteína anti-apoptótica. BCL-2 sequestra BH3-only proteins (BIM, PUMA, NOXA) → impede ativação de BAX/BAK → bloqueia liberação de citocromo c → células malignas sobrevivem apesar de dano ao DNA. Venetoclax → libera BH3-only proteins → BAX/BAK ativados → apoptose.

Venetoclax aprovado primeiro em LLC (Leucemia Linfocítica Crônica, 2016) com grande sucesso. Em LMA: blastos expressam BCL-2 altamente (especialmente NPM1-mutado e IDH-mutado). Combinação com HMA (agente hipometilante — azacitidina) → sinergismo: HMA aumenta expressão de BIM (pró-apoptótico) → maior sensibilidade ao venetoclax.

VIALE-A (DiNardo CD et al., NEJM 2020, fase III): 431 pacientes LMA recém-diagnosticada inelegíveis para quimioterapia intensiva (≥75 anos OU comorbidades: FE cardíaca <50%, creatinina >1,3, bilirrubina >1,5, ECOG 3). Venetoclax 400 mg/dia D1-28 + azacitidina 75 mg/m² SC ou IV D1-7 q28d vs. azacitidina + placebo.

SG mediana: 14,7 vs. 9,6 meses (HR 0,66; P<0,001). CR+CRi: 36,7% vs. 17,9%. SG a 24 meses: 37,9% vs. 22%. ORR (CR+CRi+MLFS+PR): 66% vs. 28%.

Subgrupos: maior benefício em LMA de novo vs. secundária (AHD-related). NPM1-mutado: CR 66%. IDH-mutado: CR 46%. TP53-mutado: pior resposta.

Toxicidade VIALE-A: Neutropenia: grau 3-4: 42% vs. 28%. Trombocitopenia grau 3-4: 45% vs. 38%. Febre neutropênica: 42% vs. 19%. Infecções graves: 42% vs. 29%. Profilaxia antimicrobiana obrigatória (fluconazol profilático), mas cuidado com interações CYP3A4 (venetoclax metabolizado por CYP3A4 — dose reduzida com antifúngicos azólicos fortes). Tumor lysis syndrome (TLS): menos comum em LMA que em LLC, mas monitorar eletrólitos no início.

Venetoclax + LDAC (citarabina baixa dose) — VIALE-C: Venetoclax + citarabina baixa dose (LDAC) vs. LDAC: SG mediana 7,2 vs. 4,1 meses (HR 0,75; NS mas numericamente favorável). Menor que VIALE-A → aza+ven é preferido.

Aprovação FDA: Outubro 2020: venetoclax + azacitidina OU venetoclax + LDAC para LMA recém-diagnosticada inelegíveis para quimio intensiva.

Midostaurina (RATIFY) em FLT3+ e gilteritinibe (ADMIRAL) em recaída

FLT3 como alvo em LMA: FLT3-ITD é o fator prognóstico adverso mais comum em LMA (25% dos pacientes). Ativação constitutiva de FLT3 → sinalização MAPK/ERK + STAT5 + PI3K/AKT → proliferação e bloqueio de apoptose. Pacientes com FLT3-ITD de alta AR (>0.5) têm taxa de recaída de ~70% mesmo após CR e transplante.

Midostaurina (Rydapt®, PKC412, Novartis): TKI multialvo de 1ª geração: FLT3 ITD e TKD, KIT, VEGFR, PDGFR, PKC (protein kinase C). Dose: 50 mg 2×/dia D8-21 de cada ciclo de quimio.

RATIFY (Stone et al., NEJM 2017, fase III): 717 pacientes LMA FLT3-mutada (ITD ou TKD), 18-59 anos, elegíveis para quimio intensiva. Midostaurina + 7+3 indução → midostaurina + HiDAC consolidação → midostaurina manutenção × 12 meses vs. placebo + 7+3. SG a 5 anos: 51,4% vs. 43,8% (HR 0,78; P=0,009). EFS a 5 anos: 28,8% vs. 21,0%. CR: 59% vs. 54% (NS — mas SG melhorou). Historicamente relevante: primeiro agente aprovado que melhora SG em 1ª linha de LMA FLT3+. Aprovação FDA: abril 2017 para LMA FLT3-mutada em combinação com quimio padrão.

Nota: censor de transplante em RATIFY: benefício SG de midostaurina visível mesmo nos que transplantaram → não apenas pela melhora do transplante.

Gilteritinibe (Xospata®, ASP2215, Astellas): Inibidor seletivo de FLT3 (ITD e TKD) + AXL. 2ª geração — mais potente e seletivo que midostaurina. Dose: 120 mg/dia oral contínuo.

ADMIRAL (Perl AE et al., NEJM 2019, fase III): 371 pacientes LMA FLT3-mutada (ITD ≥25% ou TKD D835/I836) em 1ª recaída ou refratária. Gilteritinibe 120 mg/dia vs. quimio salvamento (investigador escolhe: LDAC, azacitidina, MEC, FLAG-IDA). SG mediana: 9,3 vs. 5,6 meses (HR 0,64; P<0,001). CR+CRh: 34,3% vs. 15,3%. Transplante pós-CR: 25% vs. 15%. Aprovação FDA: novembro 2018 para LMA FLT3-mutada recaída/refratária.

Quizartinibe (QuANTUM-First, fase III): TKI seletivo de FLT3-ITD (não ativo em TKD). Em RATIFY-like de FLT3-ITD em 1ª linha: SG superior a quimio+placebo em 1ª linha. Aprovação FDA: julho 2023 para LMA FLT3-ITD+ adultos de novo com quimio 7+3.

IDH1/IDH2, gemtuzumabe e outras terapias-alvo em LMA

IDH2 — enasidenibe (IDHIFA®): IDH2 (Isocitrate Dehydrogenase 2, mitocondrial): mutação em R140 ou R172. IDH2-mut → converte α-KG em 2-HG (2-hidroxiglutarato, oncometabólito) → inibe TET2 e outras dioxigenases → bloqueio de diferenciação mieloide → blastos. Enasidenibe: inibidor seletivo de IDH2 mutante. 100 mg/dia oral.

AG221-C-001 (Stein et al., Blood 2017, fase I/II): LMA IDH2-mutada R/R. ORR 40,3%. CR+CRh 26,2%. SG mediana 9,3m (em resposta profunda CR: SG 19,7m). Aprovação FDA: agosto 2017 para LMA IDH2-mutada adultos R/R. Síndrome de diferenciação: 10-15% — blastos que começam a diferenciar induzem síndrome inflamatória similar a LPA (febre, derrame pulmonar/pleural, falência renal) → corticosteroides (dexametasona 10 mg 2x/dia).

IDH1 — ivosidenibe (Tibsovo®) e olutasidenibe: IDH1 (citosólico): mutação R132. 2-HG produzido → mesmos efeitos de IDH2. Ivosidenibe: inibidor seletivo de IDH1 mutante. 500 mg/dia oral. AG120-C-001 (DiNardo et al., NEJM 2018): LMA IDH1-mutada R/R: ORR 41,6%, CR+CRh 30%, SG 8,8m → Aprovação FDA: julho 2018. AGILE (Montesinos et al., NEJM 2022): ivosidenibe + azacitidina vs. aza + placebo em LMA IDH1-mutada inelegível quimio intensiva. EFS 5,5 vs. 1,8 meses. CR 47,2% vs. 14,9% → aprovação FDA maio 2022. Olutasidenibe (FT-2102, Forma Terapeutics): 2ª geração IDH1 inibidor. ORR 35%. Aprovação FDA: dezembro 2022 para LMA IDH1-mutada R/R. Resistência a IDH1/2 inh: mutações no mesmo IDH (isoform switching: IDH1→IDH2 em recaída pós-enasidenibe), ou segunda hit em RAS/NRAS bypass.

Gemtuzumabe ozogamicina (Mylotarg®, GO, anti-CD33-calicheamicina): Anticorpo anti-CD33 conjugado a calicheamicina (agente de dano ao DNA — alquilante de DNA). CD33: expresso em ~90% das LMA (mieloides). Retirado do mercado em 2010 (toxicidade hepática — VOD, venooclusiva doença) mas reaprovado FDA 2017 com dose e esquema modificados. LMA de novo CD33+ baixo risco (CBF-LMA): adição a daunorrubicina + citarabina melhora EFS e SG (ALFA-0701, meta-análise SWOG). LMA favorável (t(8;21) e inv(16)): GO adiciona à CR profunda. GO 3 mg/m² D1,4,7 (lower dose fracionado) vs. 9 mg/m² D1 original (menos VOD). Protocolo com profilaxia de VOD (ácido ursodesoxicólico).

Menin inibidores — nova fronteira: Revumenib (SNDX-5613): Inibidor de menin (proteína de fusão MLL — Menin interaction). NPM1-mutada e rearranjos KMT2A (MLL) dependem de complexo menin-MLL para expressão de genes HOX/MEIS1. Revumenib inibe menin-KMT2A → reprograma transcrição → diferenciação. AUGMENT-101 fase I/II: LMA KMT2A-r ou NPM1-mut R/R. ORR 53%, CR 23% → aprovação FDA novembro 2024.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é leucemia mieloide aguda e como se diferencia de outros tipos de leucemia?+

Leucemia mieloide aguda (LMA) é um câncer em que células imaturas da linhagem mieloide (precursores de glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas) proliferam rapidamente na medula óssea e invadem o sangue. 'Aguda' significa que evolui rapidamente — sem tratamento, a sobrevida é de semanas. Difere de outros tipos: leucemia linfocítica aguda (LLA): afeta células linfoides em vez de mieloides, mais comum em crianças; leucemia mieloide crônica (LMC): mieloide mas de evolução lenta, causada por BCR::ABL1, tratada com imatinibe/nilotinibe; leucemia linfocítica crônica (LLC): evolução muito lenta, principalmente em idosos, raramente fatal a curto prazo. LMA é tratada com quimioterapia intensiva (7+3) em pacientes jovens, com intenção curativa. Em idosos ou fragilizados, a combinação venetoclax + azacitidina (VIALE-A) tornou-se o novo padrão — mais tolerável e com eficácia similar ou superior.

O que é FLT3 e por que é importante na leucemia aguda?+

FLT3 (FMS-like Tyrosine Kinase 3) é um receptor de tirosina quinase normalmente presente nas células progenitoras da medula óssea, onde controla a sobrevida e proliferação das células-tronco hematopoiéticas. Em ~30% das leucemias mieloides agudas, o gene FLT3 sofre uma mutação 'ITD' (duplicação interna em tandem) que faz o receptor ficar permanentemente ativado — sem precisar de ligante — estimulando as células leucêmicas a crescerem sem parar e resistirem à morte. É um dos fatores prognósticos mais importantes em LMA: FLT3-ITD com alta carga alélica está associado a alta taxa de recaída (>70%) mesmo após quimioterapia e transplante. A descoberta dessa mutação levou ao desenvolvimento de medicamentos específicos: midostaurina (adicionado à quimioterapia de 1ª linha — estudo RATIFY melhorou a sobrevida a 5 anos de 44% para 51%) e gilteritinibe (para doença recaída — duplicou a sobrevida mediana comparado à quimioterapia de resgate).

O que é venetoclax e como ele funciona na leucemia mieloide aguda?+

Venetoclax é um inibidor de BCL-2 — uma proteína que normalmente protege as células da morte programada (apoptose). Células leucêmicas frequentemente produzem BCL-2 em excesso, o que as torna 'imorredouras': mesmo quando seu DNA é danificado pela quimioterapia, BCL-2 bloqueia os sinais que deveriam levá-las à morte. Venetoclax 'libera' esses sinais de apoptose, permitindo que as células leucêmicas morram. Quando combinado com azacitidina (um agente epigenético que altera a expressão de genes de apoptose), o efeito é sinérgico: o estudo VIALE-A mostrou que em idosos com LMA (que não suportam a quimioterapia intensiva tradicional), venetoclax + azacitidina mais que dobrou as remissões completas (37% vs. 18%) e prolongou a sobrevida de 9,6 para 14,7 meses. Para muitos pacientes de 70-80+ anos que antes tinham poucas opções além de cuidados paliativos, esta combinação representa uma mudança transformadora.

O que é síndrome de diferenciação e quando acontece no tratamento da leucemia?+

Síndrome de diferenciação (antes chamada de 'síndrome do ácido retinoide' ou SARS) é uma complicação que ocorre quando medicamentos que forçam as células leucêmicas a 'amadurecer' (diferenciarem) causam uma reação inflamatória no organismo. Acontece com: ATRA (ácido all-trans retinoico) e trióxido de arsênio em leucemia promielocítica (LPA); enasidenibe e ivosidenibe em LMA IDH-mutada. Mecanismo: ao diferenciar rapidamente, os blastos liberam citocinas inflamatórias — leucócitos imaturos aderem aos vasos capilares do pulmão causando edema, pneumonia inflamatória e falência respiratória. Sinais: febre inexplicada, dificuldade respiratória, ganho de peso, derrame pleural ou pericárdico, hipotensão, insuficiência renal. Ocorre em 10-15% dos tratados com enasidenibe ou ivosidenibe. Tratamento imediato: dexametasona 10 mg 2x/dia até melhora dos sintomas (não requer interrupção do medicamento na maioria dos casos). Reconhecimento precoce é vital — a síndrome pode ser fatal se não tratada.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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