LLA — biologia, fatores prognósticos e diferenças adulto vs. pediátrico
Epidemiologia e subtipagem: LLA: leucemia mais comum em crianças (~3.000 casos/ano nos EUA pediátrico; ~6.000 em adultos). Em crianças: SRC >85% com quimio. Em adultos: SRC ~40-50% (pior prognóstico por biologia diferente + tolerância reduzida a quimio intensiva). Imunofenótipo: B-precursor (~85% pediátrico, ~80% adulto) com marcadores CD19, CD10, CD20 (variável), CD34, TdT. Células T (~15-20%): CD2, CD3, CD5, CD7, CD1a. Mixed lineage leukemia (MLL): CD19, CD22, CD10- (hiperleucocitose, pior prognóstico).
Subtipos moleculares de LLA-B (adultos): Ph+ (BCR-ABL1, t(9;22)): ~25% de adultos (raro em crianças). Pior prognóstico histórico. TKI + quimio transformou prognóstico. Ph-like (BCR-ABL1-like): ~10-30% de adultos LLA-B. Expressão similar a Ph+ mas sem BCR-ABL. Mutações CRLF2, JAK1/2, ABL2, PDGFRB → potencialmente responsíveis a TKI. Pior prognóstico. KMT2A (MLL)-rearranjo: t(4;11) frequente em lactentes. Muito pior prognóstico. CD10-, CD19+, CD22+. DUX4/ERG: prognóstico favorável. ETV6-RUNX1 (t(12;21)): pediátrico, muito favorável. Raro em adultos. Hiperdiploide (>50 cromossomos): pediátrico, favorável. Raro em adultos. Hipodiploide (<44 cromossomos): muito desfavorável.
Doença Residual Mínima (MRD) como marcador prognóstico: MRD (Minimal Residual Disease) por citometria de fluxo multidimensional ou PCR/NGS: detecta 1 célula leucêmica em 10.000-1.000.000 de células normais. MRD-negativo após indução: preditor forte de SRC independentemente de outros fatores. Guia decisão de alotransplante.
Regimes de indução em adultos: Hiper-CVAD (hiperfracinamento de ciclofosfamida + vincristina + doxorrubicina + dexametasona, alternado com MTX + ARA-C alta dose): MD Anderson, ORR ~90%, SRC 5 anos ~40%. Larson/CALGB 8811: vincristina + prednisona + daunorrubicina + L-asparaginase + ciclofosfamida + mercaptopurina: SRC 5 anos ~38%. Pediátrico-based (DFCI, AALL0434): L-asparaginase aumentada (PEG-asparaginase), methotrexate em alta dose: adultos jovens (<40-50 anos) beneficiam de regimes pediátrico-based (SRC melhora para ~70%).
Blinatumomabe (BLAST, TORRE) e inotuzumabe ozogamicina (INNOVATE/INO-VATE) — imunoterapia em LLA
Blinatumomabe (Blincyto®, CD19×CD3 BiTE, Amgen): BiTE (Bispecific T-cell Engager): anticorpo biespecífico tandem (CD19 binder + anti-CD3 scFv) → recruta T-cells para matar células B-leucêmicas CD19+. Administrado por infusão contínua IV (28 dias ininterruptos + 2 semanas de descanso).
BLAST (Gökbuget N et al., JCO 2018, fase II) — blinatumomabe em LLA-B remissão MRD+: 116 pacientes LLA-B adultos em RC1 ou RC2 com MRD+ após quimio consolidação. Blinatumomabe 15 mcg/m²/dia × 28 dias infusão contínua. MRD-negatividade: 76% atingiram MRD-negativo após 1 ciclo. SRC a 3 anos: 23% (população muito pré-tratada). SG a 3 anos: 38%. → Aprovação FDA: julho 2018 para LLA-B MRD+ em RC1/RC2.
TOWER (Kantarjian H et al., NEJM 2017, fase III) — blinatumomabe vs. quimio de resgate em LLA-B recaído/refratário: 405 adultos LLA-B recaído/refratário. Blinatumomabe 9 mcg/dia D1-7 → 28 mcg/dia D8-28 × ciclo 1, depois 28 mcg/dia × ciclos 2-5. SG: 7,7 vs. 4,0m (HR 0,71; P=0,01). RC ou RCi: 39% vs. 18% (P<0,001). MRD-neg entre respondedores: 76% vs. 48%. → Aprovação FDA: dezembro 2014 (acelerada para r/r LLA-B), confirmada com TOWER.
Toxicidade blinatumomabe: CRS (45%), toxicidade neurológica (ICANS: 37%, convulsões em <5%), hipofosfatemia. Dexametasona profilática antes e no dia 8 (dose de escalada). Neutropenia. Infusão contínua = complexidade logística.
Inotuzumabe ozogamicina (Besylomycin/Besylate, Besylomab) — INNOVATE/INO-VATE: Anticorpo anti-CD22 + calicheamicina (potente quimioterapia DNA-crosslinker). CD22: expresso em >90% das LLA-B. Internalização do complexo CD22+inotuzumabe → liberação intracelular de calicheamicina → quebras de fita dupla → apoptose.
INO-VATE (Kantarjian H et al., NEJM 2016, fase III): 326 adultos LLA-B recaído/refratário. Inotuzumabe ozogamicina 0,8 mg/m² D1 + 0,5 mg/m² D8+D15 ciclo 1; 0,5 mg/m² D1/D8/D15 ciclos 2-6 q28d vs. quimio de resgate. RC/RCi: 80,7% vs. 29,4% (P<0,001). MRD-neg entre RC: 78% vs. 28%. SLP: 5,0 vs. 1,8m (HR 0,45; P<0,001). SG: 7,7 vs. 6,7m (HR 0,75; P=0,04). → Aprovação FDA: agosto 2017 para LLA-B recaído/refratário adultos. Hepatotoxicidade: VOD (doença veno-oclusiva hepática/sinusoidal obstruction syndrome) em ~11% dos que recebem TCTH alogênico pós-inotuzumabe (risco real — cuidado com condicionamento pós-inotuzumabe).
CAR-T (tisagenlecleucel ELIANA/JULIET) e LLA Ph+ (dasatinibe/ponatinibe)
Tisagenlecleucel (Kymriah®, tisa-cel, anti-CD19 CAR-T, Novartis): ELIANA (Maude SL et al., NEJM 2018, fase II) — LLA-B pediátrica recaído/refratário: 75 pacientes ≤25 anos LLA-B recaído/refratário. Tisa-cel (dose adaptada ao peso, 0,2-5×10⁶ células/kg). ORR a 3 meses: 81% (CR: 60%, CRi: 21%). SRC sem evento a 12m: 50%. SG a 12m: 76%. → Aprovação FDA: agosto 2017 para LLA-B r/r em <25 anos.
JULIET (Schuster SJ et al., NEJM 2019, fase II) — DLBCL adulto r/r (coberto em artigo DLBCL). Tisa-cel aprovado também para DLBCL.
Axicabtagene ciloleucel (ZUMA-1, ZUMA-3): axi-cel em LLA-B adulto. ZUMA-3 (Shah BD et al., NEJM 2021): 71 adultos LLA-B r/r. ORR 71% (CR 56%). SG 18,2m. → Aprovado FDA outubro 2021 para LLA-B adultos r/r ≥18 anos. Brexucabtagene autoleucel (KTE-X19): aprovado fev 2021 para LLA em recaída após SCT ou refratária ≥2 linhas em adultos.
Comparação CAR-T em LLA adulto: Axi-cel (ZUMA-3): ORR 71%, SG 18,2m. Tisa-cel pediátrico: ORR 81% (população mais jovem e de melhor PS). Toxicidades: CRS (grau ≥3: 20-25%), ICANS (grau ≥3: 10-15%), citopenias prolongadas. Monitoramento em centro certificado REMS.
LLA Ph+ — TKIs + quimio/blinatumomabe: Ph+ (BCR-ABL1): 25% dos adultos LLA. BCR-ABL p210 ou p190. Historicamente pior prognóstico; TKIs transformaram. 1ª linha Ph+: dasatinibe (100 mg/dia) + quimio ou corticóide-based: SRC dramático melhora. RALL (Ribera JM, JCO 2015): quimio pediátrico-based + imatinibe → SRC 3 anos 42%. 2ª geração: dasatinibe+quimio: SRC 3-5 anos ~55-70%. TCTH alo em RC1 ainda recomendado em adultos Ph+ (alta MRD+). Blinatumomabe + dasatinibe (sem quimio): GIMEMA/NILG (Foà R, NEJM 2020): quimio-free Ph+ LLA adulto: SG 2 anos 84,8% — paradigma quimio-free! T315I (mutação de resistência aos TKI 1G/2G): ponatinibe (PONATEYALL: ORR 70%). Asciminib (STAMP): em investigação. Ponatinibe + blinatumomabe (quimio-free Ph+): PONABL (Foà R et al., Nat Med 2024): RC 95%, MRD-neg 83% — possivelmente novíssimo padrão.