A Deficiência de GH no Adulto: Uma Condição Subdiagnosticada
O Hormônio do Crescimento (GH) não para de ser importante depois dos 18 anos — quando o crescimento linear cessa. Na vida adulta, o GH continua:
- Mantendo a composição corporal (massa magra vs. gordura)
- Regulando o metabolismo energético (mobilização de gordura)
- Preservando a densidade óssea (via IGF-1)
- Influenciando a qualidade do sono
- Mantendo a cognição e humor
- Regulando lipídios (LDL, HDL, triglicerídeos)
A Deficiência de GH no Adulto (DGHA) é uma condição clínica real — não apenas o envelhecimento fisiológico — que ocorre quando a secreção hipofisária de GH cai significativamente abaixo do esperado para a idade.
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Causas de DGHA
Orgânicas (Lesão Hipofisária)
A causa mais comum de DGHA real:
- Adenoma hipofisário tratado (cirurgia transesfenoidal ou radioterapia)
- Craniofaringioma (tumor hipotalâmico da infância, frequentemente ressecado)
- Radioterapia craniana (por leucemia, tumores cerebrais)
- Traumatismo cranioencefálico (TCE) — causa crescente: 15–20% dos sobreviventes de TCE grave têm DGHA
- Síndromes hipofisárias (síndrome de Sheehan pós-parto, apoplexia hipofisária)
Idiopática (Sem Lesão Identificável)
Alguns pacientes têm IGF-1 baixo e resposta inadequada ao teste de estimulação, sem lesão estrutural — causa desconhecida.
Envelhecimento Fisiológico vs. DGHA
O GH declina com a idade (somatopausa):
- Pulsos de GH em homens de 20 anos: ~10 pulsos/24h, amplitude média de ~3 ng/mL
- Homens de 60 anos: ~4–5 pulsos/24h, amplitude média de ~0,5 ng/mL
- Redução de ~14% por décaa
Este declínio é fisiológico — não é DGHA. A distinção importa porque:
- DGHA orgânica: Indicação para reposição com GH exógeno (aprovada)
- Declínio fisiológico: Área de debate — secretagogos podem ser mais adequados que GH exógeno
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Diagnóstico: Como Confirmar DGHA
Por Que o IGF-1 Isolado Não Basta
IGF-1 reflete a produção hepática de GH de forma integrada, mas:
- IGF-1 baixo tem muitas outras causas (desnutrição, hepatopatia, hipotireoidismo, diabetes)
- IGF-1 dentro do normal não exclui DGHA (20–30% dos pacientes com DGHA têm IGF-1 normal)
O diagnóstico definitivo requer teste de estimulação de GH — provocar a hipófise e medir a resposta.
Testes de Estimulação Disponíveis
1. Teste de Hipoglicemia Induzida pela Insulina (ITT)
"Padrão-ouro" histórico:
- Insulina 0,15 UI/kg IV → glicemia cai abaixo de 40 mg/dL → resposta de contra-regulação → GH sobe
- Pico de GH <3 ng/mL = DGHA grave
- Pico de GH 3–10 ng/mL = DGHA parcial
- Pico de GH >10 ng/mL = Normal
Desvantagem: Risco de hipoglicemia grave (convulsões, coma). Requer monitoramento médico intensivo. Contraindicado em epilepsia, doenças cardíacas, idosos.
2. Teste GHRH+Arginina
Alternativa mais segura e mais usada atualmente:
- GHRH 1 mcg/kg IV + Arginina 0,5 g/kg IV (infusão 30 min)
- Pico de GH <4 ng/mL (IMC<25), <1 ng/mL (IMC>30) = DGHA
- Sensibilidade 97%, especificidade 85% (Biller BMK et al., 2002)
3. Teste Glucagon
Glucagon 1–1,5 mg IM:
- Alternativa quando GHRH indisponível
- Pico de GH <3 ng/mL = DGHA
- Menos específico que ITT ou GHRH+Arg
4. IGF-1 < P2.5 para a idade + dois déficits de outros eixos hipofisários
Em pacientes com dano hipofisário conhecido e déficit de ≥3 outros eixos (TSH, ACTH, ADH, gonadotrofinas), IGF-1 muito baixo pode ser suficiente para diagnóstico sem teste de estimulação.
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Tratamento: GH Exógeno ou Secretagogos?
Opção 1: GH Recombinante Exógeno (rhGH)
Indicado para: DGHA orgânica confirmada por teste de estimulação
Dose: 0,2–0,4 mg/dia SC (titulação por IGF-1 e clínica)
Benefícios documentados em RCTs:
- Composição corporal: ↑ massa magra 2–3 kg, ↓ gordura visceral 15–20%
- Qualidade de vida: Escalas QoL-AGHDA mostram melhora em ~70% dos pacientes
- Densidade óssea: ↑ BMD em 5–10% (mínimo 12–18 meses)
- Lipídios: LDL ↓ 10–15%, HDL ↑ 5–10%
- Função cardíaca: Melhora da fração de ejeção em DGHA com cardiomiopatia
Efeitos adversos do rhGH:
- Retenção de sódio e água (edema, síndrome do túnel do carpo — geralmente transitórios)
- Artralgias (transitórias na titulação)
- IGF-1 suprafisiológico (risco teórico de neoplasias — monitorar)
- Progressão de retinopatia diabética (contraindicado em DM com retinopatia proliferativa)
Status regulatório no Brasil: DGHA orgânica com teste confirmado → reposição aprovada pelo CFM e ANVISA; TRT pode ser prescrita por endocrinologista.
Opção 2: Secretagogos (GHRH + GHRP)
Indicado para: Declínio fisiológico de GH (somatopausa), otimização de composição corporal sem diagnóstico formal de DGHA, contexto de longevidade.
Vantagens sobre GH exógeno:
- Preservam a pulsatilidade fisiológica (GH exógeno não)
- Não suprimem o eixo hipofisário (GH exógeno pode suprimir a produção endógena)
- Perfil de segurança provavelmente melhor para uso em longevidade (menos dados, mas mecanismo mais fisiológico)
- Custo menor (no contexto de compostos de pesquisa)
- Não requerem diagnóstico formal ou prescrição (no contexto de pesquisa/biohacking)
Desvantagens:
- Dependem de hipófise funcional (não funcionam em DGHA orgânica com hipófise danificada)
- Menor elevação de IGF-1 que GH exógeno para a mesma meta
- Regulação mais complexa (ciclos para evitar dessensibilização)
Comparação IGF-1:
- GH exógeno 0,3 mg/dia: IGF-1 +80–100 ng/mL
- CJC-1295 sem DAC + Ipamorelin 200 mcg cada, 2×/dia: IGF-1 +40–60 ng/mL
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Protocolo Baseado em Evidências para DGHA Orgânica
Início de rhGH (com prescrição médica):
- Dose inicial: 0,1–0,2 mg/dia
- Titulação a cada 4–6 semanas baseado em IGF-1 (alvo: P50–P75 da faixa normal para a idade)
- Monitoramento: IGF-1 (trimestral), glicemia, PSA (homens >40), RMN hipofisária anual
Protocolo de Secretagogos (contexto de longevidade/pesquisa):
- CJC-1295 sem DAC 200 mcg + Ipamorelin 200 mcg SC, 3× ao dia (jejum)
- Ciclos de 12–16 semanas com pausa de 4–8 semanas
- Monitoramento: IGF-1 no meio do ciclo (confirmar resposta)
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Monitoramento Laboratorial
| Exame | Frequência | Alvo na Reposição | |-------|-----------|------------------| | IGF-1 | A cada 3 meses (inicial), depois semestral | P50–P75 para a idade | | Glicemia de jejum + HbA1c | Semestral | Normal | | Perfil lipídico | Anual | LDL <130 mg/dL | | Densitometria óssea | A cada 2 anos | T-score >-1 | | PSA (homens >40) | Anual | Normal para a idade | | ECG + eco (se DGHA + cardio) | Anual | Fração de ejeção normal |
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Referências
- Molitch ME, et al. "Evaluation and treatment of adult growth hormone deficiency." *J Clin Endocrinol Metab.* 2011;96(6):1587–1609.
- Biller BMK, et al. "The GHRH+arginine stimulation test and its reference range." *J Clin Endocrinol Metab.* 2002;87(2):477–485.
- Giustina A, Veldhuis JD. "Pathophysiology of the neuroregulation of growth hormone secretion in experimental animals and the human." *Endocr Rev.* 1998;19(6):717–797.
- de Boer H, et al. "Clinical aspects of growth hormone deficiency in adults." *Endocr Rev.* 1995;16(3):268–287.
- Rosen T, Bengtsson BA. "Premature mortality due to cardiovascular disease in hypopituitarism." *Lancet.* 1990;336(8710):285–288.
- Veldhuis JD, et al. "Sermorelin therapy in GH-deficient adults." *Clin Endocrinol.* 2001;54(3):363–374.