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← Blog·Oncologia de Precisão01 de agosto de 2026

Glioblastoma (GBM): Temozolomida + RT (Protocolo Stupp), Bevacizumabe (AVAglio/RTOG), TTFields (Optune/EF-14) e IDH-mutado — Gliomas de Baixo Grau e Vorasidenibe

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Classificação WHO 2021 de tumores do SNC — GBM, IDH e implicações clínicas

Classificação molecular WHO 2021 (CNS5): A classificação 2021 da WHO para tumores do SNC foi revolucionada pela biologia molecular. Tumores são agora definidos por marcadores moleculares além da histologia:

Glioblastoma (GBM, WHO grau 4, IDH-wildtype): DEVE ser IDH-wildtype por definição. Se histologia de GBM e IDH-mutado → reclassificado como astrocitoma IDH-mutado grau 4. GBM IDH-WT tem: amplificação EGFR, ganho chr7/perda chr10, TERT promoter mutado, PTEN perda, TP53 mutado, CDKN2A/B deleção. Prognóstico: mediana SG ~15m.

Astrocitoma IDH-mutado (WHO grau 2, 3 ou 4): IDH1 R132H (90%) ou IDH2 R172X. Grau determinado por: grau 2 = IDH-mut sem CDKN2A/B deleção; grau 3 = IDH-mut + anaplasia; grau 4 = IDH-mut + CDKN2A/B deleção (sem necrose/proliferação vascular obrigatória). Mais lento que GBM.

Oligodendroglioma IDH-mutado e 1p/19q codeleção: codel (perda de braço 1p e 19q) + IDH-mut = oligodendroglioma (grau 2 ou 3). Melhor prognóstico, mais sensível a PCV quimio.

MGMT (O6-metilguanina-metiltransferase): MGMT: enzima de reparo que remove alquilações em O6-guanina do DNA — exatamente o que TMZ causa. MGMT promoter metilado: silenciamento epigenético → menos MGMT → mais dano pelo TMZ não reparado → mais eficácia do TMZ. MGMT promoter metilado: preditor de resposta ao TMZ em GBM e gliomas. Prevalência: ~45-50% de GBMs têm MGMT metilado. Pacientes idosos (>65-70 anos) MGMT metilado → fortemente considera RT hipofracionada + TMZ ou TMZ sozinho. MGMT não-metilado: TMZ tem menor benefício (mas ainda standard para compatibilidade).

Marcadores preditivos em neurooncologia: EGFR amplificação/EGFRvIII (variante III com deleção de éxons 2-7): em ~40% dos GBMs. EGFRvIII: alvo de vacinas (rindopepimut/ACT IV — falhou em fase III). EGFR TKI: sem benefício claro em GBM. TERT (telomerase reverse transcriptase) promoter mutação: marcador de GBM IDH-WT (C228T ou C250T). H3 K27M mutação: glioma difuso da linha média (ex-DIPG). H3.3 G34 mutação: glioblastoma hemisférico pediátrico. IDH1/2 mutação: driver principal de gliomas de baixo e médio grau. IDH mutado produz 2-HG (oncometabolito) → hipermetilação do DNA (fenótipo CpG island methylator, G-CIMP) → silenciamento de genes supressores de tumor (MGMT, CDH1).

Protocolo Stupp e temozolomida no GBM recém-diagnosticado

EORTC 26981/NCIC CE.3 (Stupp R et al., NEJM 2005, fase III) — protocolo padrão: 573 pacientes GBM recém-diagnosticado. Temozolomida (TMZ) 75 mg/m²/dia durante RT (60 Gy em 30 frações × 6 semanas) → TMZ 150-200 mg/m²/dia 5 dias a cada 28 dias × 6 ciclos vs. RT sozinha. SG mediana: 14,6 vs. 12,1 meses (HR 0,63; P<0,001). SG a 2 anos: 26,5% vs. 10,4%. → Aprovação FDA 2005. Padrão por mais de 20 anos.

Análise MGMT (Hegi ME et al., NEJM 2005, subanálise): Em MGMT metilado: SG com Stupp 21,7 vs. 12,7m. Em MGMT não-metilado: SG 12,7 vs. 11,8m (menor benefício, mas ainda dado). MGMT metilado é preditivo de benefício com TMZ.

Temozolomida para idosos (>65-70 anos): NOA-08 e Nordic trials: GBM em idosos: RT hipofracionada (40 Gy em 15 frações) vs. TMZ sozinha. Se MGMT metilado: TMZ > RT em SG. Se MGMT não-metilado: RT > TMZ. Protocolo atual em idosos: MGMT metilado → TMZ (RT pode ser evitada); MGMT não-metilado → RT hipofracionada. MGMT metilado + bom PS em idoso → Stupp adaptado (RT 40 Gy + TMZ).

Pós-RT: Tratamento de GBM recorrente: Bevacizumabe (aprovado 2009 para GBM recorrente — NCI AVF3708g: ORR 28,2%, SG 9,2m). Lomustina (CCNU): agente alquilante oral, 110 mg/m² q6w. BELOB (lomustina ± bevacizumabe): bevacizumabe + lomustina não superior a lomustina em SG (revisão confirma: bev prolonga SLP mas não SG na recorrência). Tumor recorrente → re-irradiação (foco estereotáxico), TTFields, bevacizumabe, lomustina.

Novos agentes em GBM: Bevacizumabe no recém-diagnosticado: AVAglio (Chinot OL et al., NEJM 2014) e RTOG 0825 (Gilbert MR et al., NEJM 2014): bevacizumabe + Stupp vs. Stupp: SLP melhorou (10,6 vs. 6,2m / 10,7 vs. 7,3m), mas SG não melhorou (16,8 vs. 16,7m / 15,7 vs. 16,1m). Bevacizumabe NÃO indicado no recém-diagnosticado fora de ensaio. Imuno-oncologia em GBM: CheckMate-143 (nivolumabe vs. bevacizumabe em recorrente): SG sem diferença. GBM tem microambiente imunossupressor (FOXP3+ Tregs, IDO, TGF-β) — IO não demonstrou benefício claro até o momento.

Tumor Treating Fields (TTFields, Optune, EF-14) — campos elétricos alternados no GBM

TTFields — mecanismo de ação: Tumor Treating Fields (Campos de Tratamento de Tumor): dispositivo portátil (Optune®) que gera campos elétricos alternados de baixa intensidade (1-3 V/cm) na frequência de 200 kHz diretamente no cérebro via arrays de transdutores aplicados ao couro cabeludo (precisam ser raspados e mantidos lá por ≥18h/dia). Mecanismo: (1) Nas células em divisão, os campos de 200 kHz interferem na orientação e montagem do fuso mitótico (alinhamento de tubulinas durante a mitose — moléculas dipolo são perturbadas pelo campo oscilante); (2) Perturbam a formação do septo celular durante a citocinese → divisão anormal → morte celular. Seletividade: células em repouso (G0/G1/S) são menos afetadas. Frequência ótima é específica para o tipo celular — 200 kHz para GBM.

EF-14 (Stupp R et al., JAMA 2017, fase III) — TTFields + Stupp: 695 pacientes GBM recém-diagnosticado, após RT + TMZ concomitante (durante a fase de manutenção). TTFields (≥18h/dia) + TMZ manutenção vs. TMZ sozinha. SG mediana: 20,9 vs. 16,0m (HR 0,63; P<0,001). SLP mediana: 6,7 vs. 4,0m (HR 0,63; P<0,001). SG a 5 anos: 13% vs. 5%. Pacientes com alta adesão (≥22h/dia): SG 24,9m vs. 16,0m. → Aprovação FDA: outubro 2015 para GBM recém-diagnosticado (durante manutenção pós-Stupp). Padrão atual em GBM: RT + TMZ → TTFields + TMZ manutenção × 6 ciclos (padrão em jovens com bom PS e sem contraindicação ao dispositivo).

Limitações de TTFields: Adesão: dispositivo deve ser usado ≥18h/dia (idealmente ≥22h) — significativa carga para o paciente. Incômodo cosmético (couro cabeludo raspado), local de reação (dermatite nos arrays: 52% grau 1/2, 2% grau 3). Custo (>$20.000/mês nos EUA). Não indicado em: marca-passo, desfibrilador implantável, shunt metálico intracraniano na área de tratamento, gravidez. Padrão nos países onde disponível: EUA, UE, Japão. No Brasil: sem aprovação ANVISA até a data desse artigo — uso via importação individual.

Vorasidenibe e IDH-mutado — gliomas de baixo e médio grau, tratamento alvo

IDH1/2 e oncometabolito 2-HG: IDH1 R132H (91% dos IDH-mutados) ou IDH2 R172X: gain-of-function mutation → neoenzymatic activity → reduz α-cetoglutarato a 2-hidroxiglutarato (2-HG, oncometabolito). 2-HG: inibidor competitivo das enzimas α-KG dependentes (TET2, ALKBH, histona demetilases JMJD) → bloqueio de diferenciação, hipermetilação do DNA (G-CIMP), instabilidade cromossômica.

Ivosidenibe e enasidenibe em leucemia: IDH1 ivosidenibe (Tibsovo): aprovado para AML IDH1-mutado (2018) e colangiocarcinoma IDH1-mutado (2021, ClarIDHy). Mecanismo: inibe o IDH1 mutado → reduz 2-HG → restaura diferenciação de blastos (coberto em C316 e C317). IDH2 enasidenibe: aprovado para AML IDH2-mutado.

INDIGO (Mellinghoff IK et al., NEJM 2023, fase III) — vorasidenibe em glioma IDH-mutado grau 2: 331 pacientes astrocitoma ou oligodendroglioma WHO grau 2 IDH-mutado (não-codelecionado ou 1p/19q-codel), cirurgia (resseção ou biópsia) sem quimio/RT anterior (vigilância ativa pós-cirurgia). Vorasidenibe 40 mg oral/dia × até progressão vs. placebo. SLP por imagem: 17,7 vs. 11,1 meses (HR 0,39; P<0,001). Tempo para próximo tratamento (RT ou quimio): não atingido vs. 17,4m (HR 0,46). SG: imatura na análise principal (sem diferença significativa ainda — follow-up insuficiente). → Aprovação FDA: agosto 2023 para astrocitoma ou oligodendroglioma IDH-mutado grau 2, cirúrgico, sem tratamento sistêmico anterior. Primeiro inibidor de IDH com aprovação em tumores sólidos do SNC. Vorasidenibe (Voranigo®, Servier): inibidor dual IDH1 + IDH2. Alta permeabilidade no SNC (penetração no cérebro). Dose: 40 mg 1×/dia em jejum. Toxicidade: elevação de ALT/AST (grau 3 em 8%). Monitoramento hepático obrigatório.

Tratamento de gliomas IDH-mutados graus 2-3 (antes do vorasidenibe): Observação pós-resseção completa em grau 2 assintomático, jovem. Ou RT + PCV quimio (procarbazina + CCNU + vincristina) em grau 2-3 de alto risco (RTOG 9802, CATNON). CATNON (van den Bent MJ et al., Lancet 2021): RT + TMZ em astrocitoma IDH-mutado grau 3: SG a 5 anos 55,9% vs. 44,1% (HR 0,60; P=0,0055). PCV vs. TMZ: CODEL (oligodendroglioma) — comparação em andamento.

Perspectivas em neurooncologia (2025): CAR-T em GBM: EGFRvIII CAR-T, IL13Rα2 CAR-T — ensaios fase I/II com respostas anedóticas em recidiva. PVSRIPO (poliovírus recombinante intralesional): GBM recorrente — fase I: 21% de SG a 24 meses (histórico ~4%). Vorasidenibe em grau 3 e gliomas IDH-mutados maiores (INDIGO-2): expansão em andamento. ONC201/TRC-201 (dopamine receptor D2 antagonist): H3 K27M glioma difuso linha média — fase II com respostas promissoras.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por que o glioblastoma é tão difícil de curar mesmo com cirurgia e radioterapia?+

Glioblastoma (GBM) tem características que o tornam um dos tumores mais resistentes à cura: (1) Infiltração difusa — células tumorais individuais infiltram o tecido cerebral normal centímetros além das margens visíveis na ressonância magnética; mesmo uma cirurgia que remove tudo o que aparece na imagem deixa células tumorais invasivas no cérebro, tornando a cura cirúrgica praticamente impossível; (2) Barreira hematoencefálica (BHE) — limita a penetração de muitas drogas que funcionam em outros cânceres; a quimioterapia padrão (temozolomida) consegue atravessá-la, mas muitos outros agentes não; (3) Heterogeneidade intratumoral e resistência — GBM contém populações de células com diferentes mutações que respondem diferentemente ao tratamento; células-tronco tumorais são especialmente resistentes; (4) Microambiente imunossupressor — GBM 'sequestra' o sistema imunológico ao redor, criando uma zona de imunossupressão com muitos macrófagos e células T reguladoras (Tregs), o que explica o fracasso das imunoterapias que funcionam em outros tumores. Com o protocolo Stupp + TTFields, a sobrevida mediana é de ~21 meses e ~13% dos pacientes sobrevivem 5 anos — ainda um grande desafio.

O que são Tumor Treating Fields (TTFields) e como podem melhorar a sobrevida no GBM?+

Tumor Treating Fields (TTFields, Optune) é uma tecnologia portátil — um dispositivo que o paciente usa na cabeça com adesivos especiais (arrays de transdutores colados ao couro cabeludo raspado) ligados a um gerador de campo elétrico. Esses campos elétricos alternados a 200 kHz interferem fisicamente na divisão celular: durante a mitose, as células precisam montar o fuso mitótico (estrutura que separa os cromossomos) — os campos elétricos perturbam esse processo nas células tumorais, impedindo que elas se dividam normalmente e causando morte celular. A frequência específica (200 kHz) foi calculada para ser ótima para células de GBM. O dispositivo deve ser usado no mínimo 18 horas por dia (idealmente 22+ horas). O estudo EF-14 mostrou que adicionar TTFields ao tratamento padrão (temozolomida de manutenção) aumentou a sobrevida mediana de 16 para 20,9 meses — e a 5 anos, 13% vs. 5% dos pacientes estavam vivos. A principal limitação é a adesão e o desconforto de usar o dispositivo quase 24h por dia com o couro cabeludo raspado.

O que é glioma IDH-mutado e como é diferente do glioblastoma?+

IDH-mutado refere-se a gliomas com mutação nos genes IDH1 ou IDH2 — essas mutações são encontradas na maioria dos gliomas de grau 2 e 3 (astrocitomas, oligodendrogliomas) e raramente em glioblastomas verdadeiros. O glioblastoma por definição WHO 2021 deve ser IDH-wildtype (sem mutação no IDH). A diferença prognóstica é enorme: GBM (IDH-wildtype): sobrevida mediana ~15 meses; Astrocitoma IDH-mutado grau 2: sobrevida mediana >10 anos; Astrocitoma IDH-mutado grau 3: ~5-7 anos; Oligodendroglioma: >10-15 anos. A mutação IDH muda fundamentalmente a biologia do tumor — produz um oncometabolito (2-HG) que altera epigenética mas também torna as células mais diferenciadas e de crescimento mais lento. O vorasidenibe (aprovado em 2023) é o primeiro inibidor alvo para gliomas IDH-mutados de baixo grau — bloqueia IDH1 e IDH2 mutados, reduzindo 2-HG e desacelerando a progressão do tumor.

O que é MGMT e por que é importante saber se está metilado no glioblastoma?+

MGMT (O6-metilguanina-DNA metiltransferase) é uma enzima de reparo do DNA que remove o dano causado pela temozolomida — a quimioterapia padrão para GBM. Quando o gene MGMT está 'metilado' (um processo epigenético que desliga o gene), a célula produz menos dessa enzima, tornando-a menos capaz de reparar o dano da temozolomida → a droga mata melhor as células tumorais. Quando MGMT não está metilado, as células tumorais produzem muita enzima MGMT e conseguem reparar o dano da temozolomida → a droga é menos eficaz. Na prática: MGMT metilado (~45% dos GBMs): sobrevida com Stupp ~21,7 vs. 12,7m sem quimio — claro benefício. MGMT não-metilado: benefício menor com temozolomida (~12-13 meses de sobrevida). Em pacientes idosos com GBM MGMT metilado, pode-se inclusive considerar temozolomida sem radioterapia (para evitar neurotoxicidade cognitiva da RT em idosos). O teste de metilação MGMT por PCR ou pirossequenciamento deve ser feito em todo GBM diagnosticado.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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