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← Blog·Oncologia de Precisão27 de junho de 2026

Inibidores de FLT3 em LMA: Midostaurina (RATIFY), Gilteritinibe (ADMIRAL) e Quizartinibe (QuANTUM-First) na Leucemia Mieloide Aguda

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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FLT3: o oncogene mais mutado na LMA e seus mecanismos de transformação

FLT3 (Fms-like Tyrosine Kinase 3, CD135): FLT3 é um receptor de tirosina quinase classe III (como c-KIT, PDGFR, FMS) expresso em células progenitoras hematopoéticas normais. Ligante: FL (FLT3 ligand) → dimerização → autofosforilação → ativação de downstream: RAS/MAPK, PI3K/AKT, STAT5 → proliferação e sobrevivência de precursores mieloides e linfoides.

Mutações em FLT3 em LMA:

FLT3-ITD (Internal Tandem Duplication) — 25% das LMAs: Duplicação em tandem interna de 3-400 pb no domínio juxtamembrana (éxons 14-15). A duplicação impede que o domínio juxtamembrana funcione como "travão" da atividade quinase. Resultado: FLT3 constitutivamente ativo SEM ligação do FL. AR (allelic ratio = FLT3-ITD/FLT3 WT) alto (>0,5) = pior prognóstico. FLT3-ITD é associado a: leucocitose elevada, alta taxa de RC (de quimio) mas alta recaída, mau prognóstico — SG 5 anos ~30-40% com transplante.

FLT3-TKD (Tyrosine Kinase Domain) — 5-7%: Mutações pontuais no domínio de ativação (loop D835, I836). Menos grave prognósticamente que ITD. D835Y mais comum.

Downstream de FLT3-ITD: STAT5 constitutivamente ativo → transcrição de BCL-XL (antiapoptótico), MCL-1, ciclinas. PI3K/AKT → sobrevivência. RAS/ERK → proliferação. Interessante: FLT3-ITD ativa STAT5 via sinalização nuclear (não apenas citoplasmática), induzindo regulação epigenética aberrante.

Mutações co-ocorrentes relevantes: FLT3-ITD frequentemente co-ocorre com: NPM1 (nucleofosmina 1 — citoplasmática; quando ambos: prognóstico intermediário a favorável); DNMT3A; TET2; IDH1/2. Mutações resistência a inibidores FLT3: F691L (gatekeeper), D835 (resistência a quizartinibe/crenolanibe mas não gilteritinibe).

LMA: biologia, classificação molecular e contexto clínico

Leucemia Mieloide Aguda (LMA/AML): Doença hematopoética clonal com acúmulo de blastos mieloides imaturos na medula e sangue. Incidência: ~4/100.000; mediana de idade: 68 anos. Tratamento intensivo: indução (7+3: citarabina 7d + daunorrubicina 3d → CR em ~60-70%) → consolidação → transplante alogênico em alto risco.

Classificação molecular da LMA (ELN 2022): Favorável:

  • t(8;21)/RUNX1::RUNX1T1
  • inv(16)/t(16;16)/CBFB::MYH11
  • NPM1 mutado sem FLT3-ITD
  • CEBPA bZIP mutado

Intermediário:

  • FLT3-ITD (AR alto — pior que AR baixo)
  • NPM1 mutado + FLT3-ITD

Adverso:

  • TP53 mutado
  • ASXL1, BCOR, EZH2, RUNX1, SF3B1, SRSF2, STAG2 mutados
  • t(6;9), monocárion complexo, -5, -7, 3q26

Por que FLT3-ITD é importante: Pacientes com LMA FLT3-ITD (especialmente AR alto) têm alta taxa inicial de remissão completa com quimio convencional (~60-75%) MAS alta recaída (~70% recaem em 1-2 anos) → mau prognóstico global sem transplante e sem inibidor de FLT3. Com midostaurina adicionada a quimio (RATIFY), SG melhorou significativamente.

Transplante alogênico em LMA FLT3-ITD: Padrão para pacientes ≤70 anos com LMA FLT3-ITD em RC1 (primeira remissão completa), dado alto risco de recaída. Gilteritinibe manutenção pós-transplante em investigação (MORPHO trial — dados emergindo).

RATIFY: midostaurina + quimio em LMA FLT3+ — 1ª linha

Midostaurina (Rydapt®, PKC412): Inibidor multiquinase de 1ª geração: FLT3 (ITD e TKD), c-KIT, VEGFR2, PDGFR, PKCα. Não seletivo — mas a falta de seletividade pode ser vantagem (múltiplos alvos no microambiente leucêmico). Oral, 2×/dia. Também aprovado para mastocitose sistêmica avançada (EXPLORER).

RATIFY (Stone et al., NEJM 2017) — midostaurina + DA vs. DA em LMA FLT3+ 1ª linha: 717 pacientes LMA FLT3+ (ITD ou TKD) 18-59 anos. Midostaurina 50 mg 2×/dia (D8-21 dos ciclos de indução/consolidação) + quimio padrão 7+3 → midostaurina manutenção vs. placebo. Consolidação: citarabina alta dose + midostaurina × 4 ciclos.

SG mediana: 74,7 vs. 25,6 meses (HR 0,78; P=0,009). SLP: 8,2 vs. 3,0 meses. CR: 59% vs. 54% (NS — mas SG diferiu).

Aprovação FDA: abril 2017 para LMA FLT3+ 1ª linha (com DA).

Limitações de midostaurina: Não seletiva → toxicidade gastrointestinal (náusea 83%, vômitos 69%), interações com CYP3A4. A manutenção com midostaurina no RATIFY é de duração limitada (após consolidação) — não é terapia de manutenção indefinida. Benefício clínico: real mas modesto (SG HR 0,78).

Mastocitose sistêmica avançada: Midostaurina também aprovada para: mastocitose sistêmica agressiva, leucemia de mastócitos. EXPLORER (DeAngelo, NEJM 2016): ORR 60%, CR 6%, duração mediana de resposta 24 meses. Mutação D816V de c-KIT ativa = driver em 95% das mastocitoses.

ADMIRAL: gilteritinibe em LMA FLT3+ r/r — superando quimioterapia de salvamento

Gilteritinibe (Xospata®, ASP2215): Inibidor seletivo de FLT3 e AXL (tirosina quinase envolvida em resistência). Potente: IC₅₀ FLT3 <1 nM. Ativo contra FLT3-ITD E FLT3-TKD (inclusive D835). Dose: 120 mg/dia oral. Excelente penetração tecidual. Inibe FLT3 na medula >85% a 120 mg.

ADMIRAL (Perl et al., NEJM 2019) — gilteritinibe vs. quimio de salvamento em LMA FLT3+ r/r: 371 pacientes LMA FLT3+ r/r (refratária ou em 1ª recaída). Gilteritinibe 120 mg/dia vs. escolha do investigador (quimio de salvamento: LD-AraC, MEC, FLAG-IDA ou azacitidina).

SG: 9,3 vs. 5,6 meses (HR 0,64; P<0,001). CR/CRh: 21,1% vs. 10,5%. Taxa de transplante: 25,5% vs. 15,3%.

Aprovação FDA: novembro 2018 para LMA FLT3+ r/r.

Síndrome de diferenciação com gilteritinibe: Similar à ATRA em LMA M3 (promielocítica): gilteritinibe causa diferenciação de blastos FLT3+ → liberação de citocinas → síndrome de diferenciação: febre, hipoxemia, edema pulmonar, infiltrados pulmonares, derrame pleural, hipotensão, insuficiência renal. Ocorre em ~10% dos pacientes. Manejo: dexametasona 10 mg IV 2×/dia + hidratação. Geralmente sem necessidade de suspender gilteritinibe se grau leve-moderado.

Gilteritinibe + azacitidina: LACEWING: gilteritinibe+azacitidina vs. azacitidina em LMA FLT3+ não-elegíveis a quimio. SG: 9,8 vs. 8,9 meses (NS — sem benefício significativo). Gilteritinibe não mostrou adição a azacitidina em LMA idosa.

Resistência a gilteritinibe: Mutações F691L (gatekeeper, similar T315I de BCR-ABL) — resistente a gilteritinibe. Ativação de via RAS (NRAS, KRAS mutações em recaída). Linhagem switching. Crenolanibe (pan-FLT3 + atividade D835) pode superar F691L — estudos em andamento.

QuANTUM-First: quizartinibe na 1ª linha da LMA FLT3-ITD

Quizartinibe (Vanflyta®, AC220): Inibidor potente e seletivo de FLT3 (e c-KIT). IC₅₀ FLT3 <1 nM. Alta especificidade — menos off-target. Dose: 40 mg/dia. Ativo contra FLT3-ITD; MENOS ativo contra TKD D835 (diferente de gilteritinibe). Limitação: prolongamento de QTc (torsades de pointes raro).

QuANTUM-First (Erba et al., NEJM 2023) — quizartinibe + DA vs. DA em LMA FLT3-ITD 1ª linha: 539 pacientes LMA FLT3-ITD 18-75 anos. Quizartinibe 40 mg/dia (D15-21 de indução e D1-28 de consolidação) + DA vs. DA.

SG: 31,9 vs. 15,1 meses (HR 0,78; P=0,032). CR: 71% vs. 64% (NS). SLP: 24,4 vs. 11 meses.

Aprovação FDA: julho 2023 para LMA FLT3-ITD 1ª linha (com quimio intensiva e manutenção pós-transplante).

Comparação RATIFY (midostaurina) vs. QuANTUM-First (quizartinibe): Sem comparação direta. Quizartinibe: mais seletivo, maior SG mediana (31,9m vs. 74,7m de midostaurina — mas populações e follow-ups diferentes). Quizartinibe é mais específico para ITD; midostaurina ativa em ITD e TKD.

Manutenção pós-transplante com inibidores de FLT3: LMA FLT3-ITD em RC após transplante: recaída é o maior risco (30-50%). Quizartinibe manutenção pós-transplante: aprovado como manutenção em QuANTUM-First (1 ano após transplante). MORPHO (gilteritinibe manutenção pós-transplante): dados apresentados 2023 — sem diferença em DFS global, mas benefício em paciente MRD+ pós-transplante.

Enasidenibe e ivosidenibe — inibidores IDH: IDH2 mutado (enasidenibe/Idhifa®): LMA IDH2+ r/r. IDHENTIFY: SG 11m vs. 10m com quimio convencional (NS). Ivosidenibe (Tibsovo®): IDH1+ LMA r/r. AGILE: ivosidenibe+azacitidina vs. azacitidina em LMA IDH1+ não elegível quimio. SG: 24 vs. 7,9 meses (HR 0,44; P<0,001). Aprovação FDA 2022.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é a mutação FLT3 na leucemia e por que é importante?+

FLT3 é um gene que normalmente controla o crescimento de células sanguíneas precursoras. Na leucemia mieloide aguda (LMA), o FLT3 fica mutado em cerca de 30% dos pacientes — a mutação mais comum (FLT3-ITD, em 25%) faz o gene ficar 'ligado' permanentemente, estimulando o crescimento descontrolado das células leucêmicas sem parar. Pacientes com FLT3-ITD tendem a responder bem inicialmente à quimioterapia (altas taxas de remissão), mas a doença recai com frequência — daí a necessidade de inibidores específicos de FLT3 para melhorar o controle. A identificação da mutação FLT3 é obrigatória no diagnóstico de LMA, pois muda o tratamento: pacientes FLT3+ recebem um inibidor de FLT3 junto com a quimioterapia.

Midostaurina é eficaz sozinha para a leucemia?+

Não — midostaurina (Rydapt) foi aprovada para uso em COMBINAÇÃO com quimioterapia (esquema 7+3: citarabina + daunorrubicina), não como agente isolado para LMA. O estudo RATIFY mostrou que adicionar midostaurina ao esquema 7+3 melhorou a sobrevida de pacientes com LMA FLT3+ de 25,6 meses para 74,7 meses — uma melhora impressionante. Midostaurina sozinha não tem eficácia estabelecida suficiente para induzir remissão em LMA. Já para mastocitose sistêmica avançada (uma doença diferente), midostaurina pode ser usada como monoterapia com bons resultados (taxa de resposta ~60%).

Quando usar gilteritinibe no tratamento da leucemia?+

Gilteritinibe (Xospata) é aprovado para LMA com mutação FLT3 (ITD ou TKD) que é refratária ao tratamento inicial ou que recaiu após remissão. No estudo ADMIRAL, gilteritinibe mostrou sobrevida de 9,3 meses vs. 5,6 meses com quimioterapia de salvamento — e 25% dos pacientes conseguiram ir ao transplante após o gilteritinibe. A vantagem do gilteritinibe sobre quimioterapia: é oral (tomado 1 vez ao dia em casa), tem menos toxicidade imediata que quimioterapia intensiva, e é específico para FLT3 (atua tanto em FLT3-ITD quanto em TKD-D835). A principal toxicidade a monitorar é a síndrome de diferenciação — febre, problemas respiratórios — que responde bem a corticoides.

LMA FLT3+ pode ser curada?+

Sim, mas o risco de recaída é alto sem transplante. Com quimioterapia de indução + inibidor de FLT3 (midostaurina ou quizartinibe), cerca de 60-70% entram em remissão completa. Desses, os que têm doador compatível e condição clínica vão ao transplante alogênico de células-tronco em 1ª remissão — o transplante oferece a melhor chance de cura (50-60% livre de doença em 5 anos). Sem transplante, a maioria recai (70% em 2 anos). Para quem recai após transplante, as opções são mais limitadas, mas gilteritinibe e outros inibidores de FLT3 podem controlar a doença por algum tempo. A estratégia atual busca o transplante precoce em 1ª remissão sempre que possível para pacientes FLT3-ITD de alto risco.

Existe diferença entre as mutações FLT3-ITD e FLT3-TKD e como isso muda o tratamento?+

Sim, existem diferenças importantes. FLT3-ITD (duplicação em tandem) está em ~25% das LMAs e tem pior prognóstico — alta taxa de recaída. FLT3-TKD (mutação do domínio quinase, principalmente D835) está em ~5-7% e tem prognóstico um pouco menos grave. Quanto ao tratamento com inibidores: midostaurina funciona em ambos (ITD e TKD). Gilteritinibe também funciona em ambos (ITD e TKD-D835). Quizartinibe é mais potente em FLT3-ITD mas tem menor atividade em FLT3-TKD (D835) — por isso quizartinibe foi aprovado especificamente para FLT3-ITD. Se um paciente tem FLT3-TKD e falha ao quizartinibe, o gilteritinibe seria a próxima opção já que mantém atividade em D835.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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