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← Blog·Oncologia de Precisão19 de junho de 2026

Gilteritinibe e a Inibição de FLT3 em LMA: Da Biologia das Mutações FLT3-ITD/TKD ao Ensaio ADMIRAL e Resistência

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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FLT3 normal e mutações em LMA: ITD e TKD

FLT3 (FMS-like tyrosine kinase 3) é um receptor de tirosina quinase do tipo III expresso em progenitores hematopoiéticos, crucial para o desenvolvimento de células dendríticas e linfócitos B/NK. A sinalização fisiológica ocorre via ligação do FL (FLT3 ligand), causando dimerização do receptor e autofosforilação do domínio intracelular quinase.

FLT3-ITD (internal tandem duplication): A mutação mais comum (~25% de todas as LMAs). Duplicações em tandem no domínio yuxtamembrana (JM) de FLT3 (éxon 14 principalmente) resultam em uma inserção de variável comprimento (3-400+ pares de bases) que mantém FLT3 em conformação ativa constitutiva — sem necessidade de ligação do ligante. As ITDs mais longas e com alta razão alélica (VAF >0,5) conferem pior prognóstico. FLT3-ITD ativa predominantemente STAT5, PI3K/AKT e MAPK.

FLT3-TKD (tyrosine kinase domain mutation): Mutações pontuais no loop de ativação do domínio quinase (principalmente D835Y/D835H no éxon 20, e outros sítios), ~7% das LMAs. Diferente das ITDs, as TKDs não se associam a prognóstico claramente adverso mas conferem resistência a inibidores de primeira geração.

Prognóstico de FLT3-ITD: É um fator de prognóstico negativo na LMA: menor taxa de remissão completa, maior risco de recaída, menor sobrevida global — especialmente sem transplante alogênico em CR1. A razão alélica (proporção FLT3-ITD/FLT3 selvagem) é um modificador: razão alta (>0,5) é mais adversa. O ELN 2022 classifica FLT3-ITD de qualquer razão como "risco adverso" na ausência de NPM1-mutação concomitante.

Co-mutações e contexto moleculares: FLT3-ITD frequentemente co-ocorre com NPM1 mutação (~35% dos casos). Quando FLT3-ITD de baixa razão alélica ocorre com NPM1-mutação, o prognóstico é intermediário (não adverso). O painel de co-mutações (DNMT3A, TET2, IDH1/2, RUNX1, TP53) modifica o prognóstico e pode influenciar a seleção terapêutica.

Inibidores de FLT3: da midostaurina à geração quizartinibe/gilteritinibe

Primeira geração (midostaurina, sorafenibe, lestaurtinibe): Midostaurina é um inibidor multi-quinase não seletivo (FLT3, PKC, VEGFR, PDGFR) aprovado em 2017 para LMA FLT3-mutada de novo (ensaio RATIFY — em combinação com 7+3 de indução). No RATIFY, adição de midostaurina à quimioterapia melhorou SG (74,7 vs. 25,6% em 5 anos, HR 0,78; P=0,009). Porém, a midostaurina tem fraca inibição de FLT3 em plasma (IC₅₀ de 10-20 nM vs. concentrações plasmáticas de 1-2 μM total, mas proteína-ligada diminui a fração livre).

Sorafenibe (inibidor de VEGFR/RAF/FLT3) tem atividade em FLT3-ITD mas não foi aprovado para LMA. Lestaurtinibe falhou em ensaios de fase III.

Por que a primeira geração falhou como monoplerapia: Seletividade insuficiente para FLT3 plasmático → inibição incompleta → células residuais FLT3+ sobrevivem → resistência rápida.

Segunda geração — quizartinibe (AC220): Primeiro inibidor FLT3 altamente seletivo (IC₅₀ de 1,7 nM). Taxa de resposta como monoterapia em LMA recidivada: 44-54%. Porém, limitado às FLT3-ITD (não cobre TKD D835), e resistência emerge rapidamente via mutações TKD (D835, F691L). Aprovado no Japão, aprovado FDA 2023 em combinação com quimioterapia de indução.

Gilteritinibe — cobertura dual ITD+TKD: IC₅₀ para FLT3-ITD: 0,29 nM; FLT3-TKD D835Y: 0,89 nM. Também inibe AXL (receptor de tirosina quinase envolvido em resistência a FLT3-i). A cobertura de AXL distingue gilteritinibe de quizartinibe.

ADMIRAL — o ensaio que posicionou gilteritinibe como padrão em LMA FLT3+ R/R

Desenho do ADMIRAL (Perl et al., NEJM 2019): 371 pacientes com LMA FLT3-mutada (ITD ou TKD) em primeira ou posterior recidiva, ou refratários à indução primária. Randomizados 2:1 para gilteritinibe 120 mg/dia (oral) vs. quimioterapia de resgate (escolha do investigador: LoDAC, azacitidina, MEC ou FLAG-IDA).

Resultados primários:

  • SG mediana: 9,3 vs. 5,6 meses (HR 0,64; P<0,001) — benefício de 3,7 meses
  • Taxa de RC ou RC com recuperação hematológica incompleta (RCh): 34,0% vs. 15,3%
  • RC pura: 21,1% vs. 10,5%
  • Taxa de transplante após gilteritinibe: 25,5% vs. 14,6%

Subgrupos: Benefício consistente em FLT3-ITD e FLT3-TKD, em pacientes com ou sem transplante prévio, e com diferentes co-mutações. Pacientes que alcançaram CR e foram para TCTH tiveram SG de 15,3 meses, demonstrando que gilteritinibe como ponte ao transplante é uma estratégia válida.

Aprovações: FDA: novembro 2018 para LMA FLT3-mutada adulta recidivada/refratária. EMA: agosto 2019. Atualmente sendo investigado em primeira linha em combinação com quimioterapia (ensaio MORPHO: gilteritinibe pós-TCTH como manutenção).

MORPHO (pós-transplante): Gilteritinibe vs. placebo como manutenção após TCTH em LMA FLT3-mutada em CR1/CR2. Resultado: SLD melhorada numericamente mas sem significância estatística no endpoint primário geral, porém com benefício em pacientes com doença mensurável residual (DRM) positiva pré-TCTH — informando que MRD orienta a seleção de candidatos à manutenção.

Mecanismos de resistência ao gilteritinibe

Como todos os TKIs, resistência ao gilteritinibe emerge invariavelmente, mediana de progressão de ~3-4 meses em monoterapia em LMA R/R.

Mutações no sítio de ligação de FLT3 (mecanismos on-target):

  • F691L (posição gatekeeper): substitui fenilalanina por leucina no sítio de ligação, estericament impedindo gilteritinibe. É análoga a T315I em ABL (imatinibe) e C481S em BTK (ibrutinibe).
  • D835 (loop de ativação): mutações secundárias de D835 em ITD+TKD conferem resistência à maioria dos FLT3-i
  • Y842H/C: no loop de ativação, similar ao D835

Ativação de vias bypass (mecanismos off-target):

  • Amplificação de FLT3: mais cópias do gene mutante superam o bloqueio
  • Ativação de MAPK via KRAS/NRAS: bypass downstream
  • Ativação de MCL-1 ou inativação de BAX: resistência à apoptose independente de FLT3
  • Ativação de AXL (via TYRO3/AXL/MER): caminho alternativo que gilteritinibe inibe mas pode ser subóptimo em doses clínicas

Transformação de linhagem: Até 10-15% dos casos de resistência decorrem de mudança para fenótipo linfoide (LLA-like), fugindo do contexto mieloide onde FLT3 é relevante.

Estratégias para superar resistência:

  • Combinação gilteritinibe + venetoclax: sinergismo documentado (venetoclax cobre MCL-1 e apoptose; estudos fase Ib/II promissores)
  • Combinação com azacitidina: LACEWING trial (fase III) não atingiu endpoint primário mas mostrou benefício em subgrupos
  • Inibidores de próxima geração (quizartinibe após gilteritinibe: dados limitados; agentes experimentais)

Perfil de segurança, QTc e síndrome de diferenciação

Prolongamento de QTc: Gilteritinibe prolonga o intervalo QTc de forma dose-dependente. Na dose aprovada de 120 mg/dia, o prolongamento médio é de ~4-6 ms. Monitorar ECG antes de iniciar, no D15, D8 do ciclo 2, e mensalmente. Evitar concomitância com outros QTc-prolongadores (haloperidol, quinolonas, antifúngicos azólicos potentes). Suspender se QTc >500 ms ou aumento >60 ms.

Síndrome de diferenciação (antiga síndrome de ácido retinoico): Ocorre em 3-6% dos pacientes, especialmente nas primeiras semanas. Manifesta-se com febre, leucocitose, infiltrado pulmonar, derrame pleural e pericárdico, ganho de peso e hipóxia — decorrente da diferenciação rápida dos blastos leucêmicos. Tratamento: dexametasona 10 mg IV 12/12h por ≥3 dias, continuação do gilteritinibe se possível (ou suspensão temporária em casos graves).

Transaminases e toxicidade hepática: Elevação de ALT/AST em 10-20% dos pacientes. Monitorar função hepática mensalmente.

Náusea, diarreia e fadiga: Os efeitos GI são moderados (grau 1-2 na maioria). Fadiga é frequente.

Dor muscular/articular: Mialgia e artralgia em ~15% dos pacientes — relacionados à inibição de AXL e outras quinases.

Interações: Gilteritinibe é substrato de CYP3A4 e transportador P-gp. Indutores fortes (rifampicina, carbamazepina, fenitoína) reduzem exposição em ~70%. Inibidores fortes de CYP3A4 aumentam a AUC.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Como saber se minha leucemia tem mutação de FLT3?+

O diagnóstico de FLT3-ITD e FLT3-TKD é feito no momento do diagnóstico de LMA, obrigatoriamente hoje em centros oncológicos modernos. A amostra (medula óssea ou sangue periférico com >20% de blastos) é enviada para análise molecular — geralmente PCR com fragmento de análise para ITD, e sequenciamento de Sanger/NGS para TKD. O resultado influencia a estratificação de risco, a decisão de transplante em CR1 e a seleção de TKI.

Qual a diferença entre gilteritinibe e midostaurina?+

Midostaurina é um inibidor multi-quinase (FLT3, PKC, VEGFR) aprovado em primeira linha combinado com quimioterapia de indução (7+3). Gilteritinibe é um inibidor seletivo de FLT3 e AXL, mais potente e específico, aprovado para LMA FLT3-mutada recidivada/refratária como monoterapia. Em resumo: midostaurina = primeira linha + quimioterapia; gilteritinibe = recidiva/refratário.

O gilteritinibe cura a leucemia?+

Como monoterapia, raramente. O gilteritinibe induz remissões em ~34% dos pacientes, mas a duração mediana de resposta é de ~5 meses. O objetivo na maioria dos casos é alcançar uma segunda remissão completa suficiente para realizar transplante alogênico de células-tronco — que representa a única abordagem com potencial curativo em LMA FLT3+ recidivada. Pacientes que chegam ao transplante após remissão com gilteritinibe têm SG de ~15 meses.

O que é síndrome de diferenciação e como reconhecê-la?+

Síndrome de diferenciação é uma resposta inflamatória sistêmica que ocorre quando os blastos leucêmicos começam a diferenciar rapidamente sob efeito do gilteritinibe (ou outros diferenciadores como ATRA em LPA). Os sinais são: febre sem foco infeccioso, dificuldade respiratória, infiltrado novo nos pulmões na radiografia/TC, ganho de peso repentino, inchaço nos tornozelos. Se suspeitar, o médico deve iniciar dexametasona imediatamente — o tratamento precoce é vital.

Gilteritinibe pode ser usado em combinação com outros medicamentos?+

Sim, e combinações estão sendo ativamente estudadas. A combinação gilteritinibe + venetoclax (inibidor de BCL-2) mostrou sinergismo in vitro e em estudos de fase Ib/II, com taxas de remissão superiores à monoterapia. Combinação com azacitidina também foi testada. Em primeira linha, combinação com quimioterapia de indução é estudada no ensaio HOVON. Atualmente, fora de ensaio clínico, a combinação mais usada é venetoclax + gilteritinibe em pacientes frágeis.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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