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← Blog·Oncologia de Precisão03 de agosto de 2026

Fusões RET em CPNPC e Tireoide Medular (RET-mutado): Selpercatinibe (LIBRETTO-001), Pralsetinibe (ARROW), Cabozantinibe e Vandetanibe vs. TKIs Seletivos

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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RET — biologia, fusões em CPNPC e mutações no carcinoma de tireoide medular

RET (Rearranged during Transfection) — proto-oncogene: RET: receptor tirosina-quinase. Gene em 10q11.21. Ligantes: GDNF (glial cell line-derived neurotrophic factor) e família (neurturina, artemina, persefina) via co-receptor GFRα. Sinalização: RET → RAS/MAPK, PI3K/AKT, JAK-STAT. Papel em desenvolvimento neuronal, células enterocromafins, células parafoliculares C da tireoide.

Fusões RET em CPNPC: Fusões de RET: junção do domínio TK de RET com um gene parceiro → fusão proteica com domínio TK constitutivamente ativo (sem necessidade de ligante). Parceiros principais: KIF5B-RET (~70% das fusões RET em CPNPC), CCDC6-RET (~15%), NCOA4-RET, TRIM33-RET, outros. Prevalência: ~1-2% de todos os CPNPCs. Perfil clínico: adenocarcinoma, nunca/pouco fumantes, jovens, frequentemente sem outras mutações driver (EGFR WT, KRAS WT, ALK negativo, ROS1 negativo). Detecção: RNA-seq (mais sensível para detectar fusões e parceiros novos), FISH (menos sensível para fusões RET vs. ALK), IHC (não validada para RET), RT-PCR (depende do parceiro). Preferência: NGS de RNA ou DNA com capacidade de detectar fusões.

Mutações RET no carcinoma de tireoide medular (CMT): CMT: tumor de células C parafoliculares da tireoide. Produz calcitonina → marcador diagnóstico e de resposta ao tratamento. Representa ~3-5% de todos os cânceres de tireoide. RET germline: NEM 2A (Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2A): mutações RET no exon 10 (C620R/Y) ou exon 11 (C634R/F/Y, mais comum) → CMT + feocromocitoma + hiperparatireoidismo. NEM 2B: mutação M918T (exon 16) → CMT mais agressivo + feocromocitoma + neuromas mucosos + fenótipo marfanoide. Síndromes NEM 2: autossômica dominante → teste germline obrigatório em CMT hereditário. RET somático (esporádico CMT, ~75% dos CMTs): M918T em éxon 16 (~80% dos esporádicos) → pior prognóstico. Outros: H768R, C634F somático. Detecção: teste RET germline em todos os CMTs. Se germline negativo → teste somático tumoral (preferencialmente NGS) para M918T e outros.

TKIs multi-alvo (cabozantinibe EXAM e vandetanibe ZETA) no CMT — era pré-2020

Vandetanibe (Caprelsa®, AstraZeneca) — ZETA (Wells SA et al., JCO 2012, fase III): 331 pacientes CMT localmente avançado ou metastático. Vandetanibe 300 mg/dia vs. placebo. SLP: 19,3 vs. 3,1m (HR 0,46; P<0,001). ORR: 45% vs. 13% (incluindo 2% CR). DCR: 87% vs. 71%. → Aprovação FDA: abril 2011 (primeiro TKI aprovado em CMT). Vandetanibe: inibidor de VEGFR-2/3, EGFR, e RET. Multi-alvo → mais toxicidade off-target: QTc prolongamento (monitoramento ECG obrigatório), hipertensão, diarreia, rash.

Cabozantinibe (Cometriq®, Exelixis) — EXAM (Elisei R et al., JCO 2013, fase III): 330 pacientes CMT progressivo. Cabozantinibe 140 mg/dia vs. placebo. SLP: 11,7 vs. 4,0m (HR 0,28; P<0,001). ORR: 28% vs. 0%. SG: não significativa (SG 26,6 vs. 21,1m, HR 0,85, P=0,24). → Aprovação FDA: novembro 2012 para CMT progressivo com metástases. Cabozantinibe em CMT: inibidor de RET, MET, VEGFR-2, AXL. Dose: 140 mg para CMT (vs. 60 mg para RCC). Toxicidade: síndrome mão-pé, hipertensão, diarreia, estomatite. Redução de dose frequente.

Subgrupos em EXAM: pacientes com RET M918T: SLP 13,9 vs. 4,0m (HR 0,15) — maior benefício no mutado M918T.

Limitações dos TKIs multi-alvo em CPNPC RET-fusão: Cabozantinibe e vandetanibe em CPNPC RET-fusão (fora do rótulo): ORR 28% e 18% respectivamente (estudos retrospectivos, Gautschi O et al.). SLP: 4-7m. Inferior ao esperado para outros drivers como ALK (ORR crizotinibe 65%), EGFR (ORR osimertinibe 80%). Confirmação: RET-fusão em CPNPC necessitava de TKIs mais seletivos.

Selpercatinibe (LIBRETTO-001) e pralsetinibe (ARROW) — TKIs seletivos de RET

Selpercatinibe (Retevmo®, LY3527723, Eli Lilly/Loxo Oncology) — LIBRETTO-001 (Drilon A et al., NEJM 2020, fase I/II): Primeiro TKI altamente seletivo de RET aprovado. Mecanismo: inibidor potente, seletivo e CNS-penetrante de RET (WT e mutado). Mínima inibição de VEGFR-2/EGFR/outros → menos off-target toxicity. Dose: 120 mg ou 160 mg BID oral.

Coorte CPNPC RET-fusão pós-platina (n=105): ORR 64%. DCR 91%. SLP 17,5m. SG 24,8m. Coorte CPNPC RET-fusão naive (n=39): ORR 85%. DCR 90%. SLP não atingida (mediana follow-up 13m). Coorte CMT RET-mutado pós-cabozantinibe/vandetanibe (n=55): ORR 69%. DCR 91%. Coorte CMT RET-mutado naive (n=88): ORR 73%. DCR 93%. SLP não atingida (mediana follow-up 17m). Intracraniano (SNC): ORR em metástases cerebrais mensurável 82% (análise pequena).

→ Aprovação FDA: maio 2020 para CPNPC RET-fusão E CMT RET-mutado (ambas adultos e pediátrico ≥12 anos).

LIBRETTO-431 (fase III, Lin JJ et al., NEJM 2023): selpercatinibe vs. platina+pemetrexede ± pembrolizumabe em CPNPC RET-fusão 1ª linha. SLP: 24,8 vs. 11,2m (HR 0,46; P<0,001). ORR: 83,7% vs. 65,1%. SG: sem diferença madura (OS imatura, segue em follow-up). → Aprovação FDA regulares para 1ª linha: agosto 2023. Toxicidade selpercatinibe: hipertensão (35%), elevação de AST/ALT (38%), QTc prolongamento (12%), boca seca, diarreia, fadiga. Geralmente grau 1-2. Hepatotoxicidade grau ≥3: 3% → monitoramento hepático.

Pralsetinibe (Gavreto®, RET seletivo, Blueprint Medicines/Genentech) — ARROW (Gainor JF et al., Nat Med 2021, fase I/II): Dose: 400 mg QD oral.

Coorte CPNPC RET-fusão pós-platina (n=116): ORR 57%. DCR 91%. SLP 16,5m. Coorte CPNPC RET-fusão naive (n=26): ORR 70%. DCR 96%. Coorte CMT RET-mutado pós-cabozantinibe/vandetanibe (n=55): ORR 60%. Coorte CMT RET-mutado naive (n=87): ORR 71%. → Aprovação FDA acelerada: setembro 2020 para CPNPC RET-fusão pós-platina e CMT RET-mutado (adultos e pedi ≥12 anos). ACCELERET (fase III confirmação vs. platina): em andamento. Toxicidade: neutropenia (53%), anemia (32%), hipertensão (26%), constipação (32%), rash (21%), elevação de AST/ALT. Pneumonite intersticial ~3% (monitoramento).

Selpercatinibe vs. pralsetinibe — comparação: Sem comparação direta em fase III. Dados cruzados sugerem eficácia similar. Selpercatinibe: maior penetração SNC, mais estudos publicados. Pralsetinibe: dose QD (uma vez ao dia), mas neutropenia mais frequente. Ambos aprovados; escolha por preferência do médico/paciente, toxicidade e disponibilidade.

Resistência a TKIs seletivos de RET: Mutações on-target: G810R (selpercatinibe), G810S/D/E (resistência a ambos), V804M (ativação de RET — pode ser sensível a outros inibidores). Off-target: amplificação KRAS, MET, BRAF. Tratamento pós-progressão: ensaio clínico. BOS172738 e outros TKIs RET de próxima geração em investigação.

NEM 2 — neoplasia endócrina múltipla, rastreamento e cirurgia profilática

NEM tipo 2 — síndrome genética por mutação RET germline: NEM 2: síndrome autossômica dominante causada por mutações ativadoras de RET. Penetrância para CMT: quase 100% se cirurgia profilática não realizada.

NEM 2A (síndrome de Sipple): mutações em codón 634 (C634R/F/Y, mais comum) ou codón 620 (C620R) → CMT (>95%), feocromocitoma bilateral (50%), hiperparatireoidismo (15-30%). Início do CMT: 2ª-3ª décadas. NEM 2B: mutação M918T (éxon 16) → CMT (mais agressivo, início infantil), feocromocitoma (50%), neuromas mucosos (lábios, língua, TGI), habitus marfanoide. CMT pode aparecer <1 ano de vida em NEM 2B extremo. Pior prognóstico → intervenção cirúrgica urgente. CMT familiar (CMTF): mutações RET sem outros tumores da NEM.

Rastreamento em familiares de portadores: Todos os familiares de 1º grau de um paciente com NEM 2 / CMT familiar devem fazer teste RET germline. Positivos: encaminhar para cirurgião endócrino para timing de tireoidectomia profilática. Timing da tireoidectomia total profilática (consenso ATA 2015): Risco muito alto (NEM 2B / M918T): tireoidectomia nos primeiros 6 meses de vida. Risco alto (NEM 2A / codón 634): tireoidectomia antes dos 5 anos, ou antes dos 5 anos se calcitonina elevada. Risco moderado (outros codóns): tireoidectomia antes dos 5 anos de acordo com calcitonina. Pré-operatório: exclusão de feocromocitoma (catecolaminas urinárias, metanefrinas plasmáticas) ANTES da cirurgia da tireoide para evitar crise hipertensiva intraoperatória.

Calcitonina como marcador de CMT: Calcitonina: produzida pelas células C. Elevada em CMT. Doubling time (tempo de duplicação da calcitonina): preditor prognóstico — DT <6m: alto risco mortalidade; DT >24m: prognóstico favorável. CEA elevado: marcador adicional. Manejo: cirurgia é a única cura do CMT localizado. Ressecção total + linfadenectomia central ± lateral conforme estadiamento. Pós-cirurgia: calcitonina para monitoramento de recaída. Doença avançada/metastática: selpercatinibe ou pralsetinibe como primeira escolha (RET-mutado). Cabozantinibe ou vandetanibe como alternativa. Quimio: pouca atividade (dacarbazina, 5-FU). CMT: normalmente não avid no PET-FDG → utilizar 68Ga-DOTATATE (se SSTR+) ou 18F-FDG para estadiamento; calcitonina mais sensível.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que são fusões RET e por que são importantes no câncer de pulmão?+

Fusões RET são rearranjos genéticos em que o gene RET (que normalmente codifica um receptor de crescimento) se une a outro gene parceiro, produzindo uma proteína híbrida que mantém o domínio catalítico do RET constitutivamente ativado — ou seja, mandando sinais de crescimento para a célula sem parar. Ocorrem em ~1-2% dos cânceres de pulmão não-pequenas células (CPNPC), predominantemente em adenocarcinoma de nunca-fumantes jovens. Antes de 2020, os TKIs disponíveis (cabozantinibe, vandetanibe) tinham taxas de resposta de apenas 18-28% em CPNPC RET-fusão porque foram desenvolvidos para outros alvos e apenas inibem RET como efeito secundário. Com o desenvolvimento de TKIs altamente seletivos de RET — selpercatinibe (Retevmo) e pralsetinibe (Gavreto) — as taxas de resposta saltaram para 64-85%, com sobrevidas livres de progressão de 17-25 meses. Isso transformou RET de um driver 'orfão' em um alvo terapêutico de alta eficácia.

O que é NEM 2 e quando se deve fazer cirurgia profilática da tireoide?+

NEM 2 (Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2) é uma síndrome hereditária causada por mutações no gene RET que praticamente garante o desenvolvimento de carcinoma de tireoide medular (CMT) ao longo da vida se não tratado. Na NEM 2A, a mutação mais comum (codón 634) está associada a CMT, feocromocitoma e hiperparatireoidismo. Na NEM 2B (mutação M918T), o CMT é mais agressivo e pode surgir nos primeiros meses de vida. A tireoidectomia total profilática é recomendada: Em NEM 2B/M918T: nos primeiros 6 meses de vida (ou o mais cedo possível). Em NEM 2A/codón 634: antes dos 5 anos de idade. Em mutações de risco moderado: pode-se aguardar até 5 anos monitorando a calcitonina. Uma regra crítica: antes de qualquer cirurgia da tireoide em portadores de NEM 2, é OBRIGATÓRIO descartar feocromocitoma por exames de imagem e metanefrinas no sangue/urina — caso contrário, a manipulação cirúrgica pode desencadear uma crise hipertensiva grave. Familiares de primeiro grau de portadores de NEM 2 devem ser testados para a mutação RET.

Qual a diferença entre selpercatinibe e os TKIs mais antigos como cabozantinibe no carcinoma de tireoide medular?+

A diferença fundamental é seletividade: Cabozantinibe e vandetanibe são TKIs 'multi-alvo' — inibem RET, mas também VEGFR, MET, EGFR e outros. A inibição desses outros alvos causa efeitos colaterais significativos: síndrome mão-pé, hipertensão importante, diarreia grave, prolongamento do QT (risco cardíaco). Taxas de resposta: 28-45%. Selpercatinibe é altamente seletivo para RET — inibe RET (WT e mutado) com muito menos efeito em outros receptores. Resultado: menos efeitos colaterais off-target, e paradoxalmente MAIOR eficácia, pois altas doses podem ser mantidas sem precisar reduzir. Taxas de resposta: 69-73% em CMT pré-tratado; até 73% em CMT naive. A seletividade também permite melhor penetração no SNC (selpercatinibe atravessa a barreira hematoencefálica). Na prática, selpercatinibe ou pralsetinibe são agora o tratamento de escolha para CMT RET-mutado avançado, relegando cabozantinibe e vandetanibe para situações onde os seletivos não estão disponíveis ou após falha dos seletivos.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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