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← Blog·Oncologia de Precisão04 de agosto de 2026

Fusões NTRK (TRK Fusion Cancer): Larotrectinibe (NAVIGATE/SCOUT), Entrectinibe (STARTRK-2) e a Era dos Medicamentos Agnósticos ao Tumor

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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NTRK e fusões TRK — biologia, tumores afetados e prevalência

NTRK (Neurotrophic Tyrosine receptor Kinase) genes e receptores Trk: NTRK1, NTRK2, NTRK3: genes que codificam receptores tirosina-quinase TrkA, TrkB, TrkC respectivamente. Ligantes fisiológicos: NGF (nerve growth factor) → TrkA; BDNF/NT-4 → TrkB; NT-3 → TrkC. Papel normal: sobrevida, diferenciação e crescimento neuronal (sistema nervoso periférico e SNC). Sinalização TRK ativada: RAS/MAPK, PI3K/AKT, PLCγ → proliferação, sobrevida, invasão em células tumorais com fusão.

Fusões NTRK — mecanismo oncogênico: Rearranjos cromossômicos que fundem o domínio TK de NTRK1/2/3 a um gene parceiro → proteína de fusão com TK constitutivamente ativa (sem precisar de ligante). Parceiros comuns: ETV6 (ETV6-NTRK3 = fusão fundadora de fibrossarcoma infantil/carcinoma secretório), LMNA, TPM3, TPR, SQSTM1, BCAN, entre centenas de parceiros possíveis.

Prevalência por tumor: Fibrossarcoma congênito/infantil: ETV6-NTRK3 em >90% → alta prevalência, extremamente responsivo. Carcinoma secretório de mama: ETV6-NTRK3 em >90%. Carcinoma secretório de glândula salivar: ETV6-NTRK3 em >90%. Glioma de alto grau (crianças): NTRK2/3 fusões em ~10-15%. Neuroblastoma: NTRK1 (alto nível) — preditor de boa resposta em alguns casos. Cânceres comuns adultos (pulmão, cólon, mama): ~0,2-1%. Baixa prevalência mas alta volume absoluto. Carcinoma de tireoide: ETV6-NTRK3 e outros em ~1-3%. Melanoma, sarcomas de partes moles, cânceres de pâncreas, biliar: <1%.

→ A estratégia 'tumor-agnostica': NTRK tem baixa prevalência em cada tumor mas ALTA responsividade quando presente → testar em todos os tumores avançados (especialmente quando sem outras drivers).

Métodos de detecção de fusões NTRK: IHC pan-TRK (anti-TrkA/B/C): alta sensibilidade (~95%) como triagem; especificidade limitada (expressão fisiológica em neurônios). Resultado positivo → confirmar com NGS/FISH/RT-PCR. FISH: detecta quebra do gene NTRK, mas não identifica parceiro. RT-PCR: para parceiros conhecidos (ETV6-NTRK3). Não detecta parceiros novos. RNA-seq ou NGS de DNA/RNA (preferencial): detecta fusões independente do parceiro → mais sensível e específico. Ideal para rastreio de fusões NTRK em oncologia de precisão.

Larotrectinibe (NAVIGATE/SCOUT) — aprovação tumor-agnóstica e dados de eficácia

Larotrectinibe (Vitrakvi®, LOXO-101, Bayer/Lilly) — TKI oral altamente seletivo de TrkA/B/C: Primeiro TRK inibidor desenvolvido especificamente para fusões NTRK. Alta seletividade: mínima atividade em outros RTKs → baixa toxicidade off-target. Dose adultos: 100 mg BID oral. Crianças (≥1kg, suspensão oral): 100 mg/m² BID (máx 100 mg BID).

Pooled analysis — 3 ensaios fase I/II (Hong DS et al., NEJM 2019; atualização Demetri GD, JCO 2022): Ensaios: LOXO-TRK-14-001 (fase I adultos), SCOUT (fase I/II pediátrico), NAVIGATE (fase II adultos). Pooled n=159 pacientes com 17 tipos de tumores sólidos TRK-fusão positivos. ORR: 79% (CR 16%, PR 63%). ORR confirmado: 75%. DCR: 86%. Duração de resposta mediana: 35,2m (a maioria das respostas ainda em curso no corte). SLP mediana: 28,3m. SG mediana: 44,4m. SNC-metástases: ORR intracraniano 75% (n=16). Tipos tumorais com ORR alta: glândula salivar (88%), fibrossarcoma infantil (90%), CPNPC (73%), tireoide (90%), melanoma (70%), cólon (43%), sarcoma (71%). → Aprovação FDA: novembro 2018 (PRIMEIRO medicamento tumor-agnóstico 2ª por histologia para fusões NTRK, após o precedente pembrolizumabe MSI-H em 2017). Aprovado para todos os tumores sólidos NTRK-fusão sem mutação de resistência adquirida, ou sem alternativa satisfatória.

Toxicidade larotrectinibe: Perfil de segurança excelente: EAs grau ≥3 em <15% dos pacientes. Mais comuns: fatiga (29%), tontura (28%), náusea (29%), constipação (23%), elevação de AST/ALT (grau ≥3 em 5%), anemia. Disfunção do SNC (tonturas, disartria, ataxia) em ~20%: resultado da inibição de TrkB no SNC normal → geralmente grau 1-2, manejável com dose-reduction. Sem toxicidade cardíaca, hematológica ou cutânea grave típica.

Populações especiais: Pediátrico (SCOUT): ORR 93% em fibrossarcoma congênito/infantil ETV6-NTRK3. SLP de >3 anos na maioria. Larotrectinibe mudou completamente o prognóstico desta doença que antes necessitava de amputação em muitos casos. Carcinoma secretório de glândula salivar: tumor raro com alta prevalência de ETV6-NTRK3 → ORR 88% com larotrectinibe. Antes tratado com cisplatina+doxorrubicina (ORR <20%).

Entrectinibe (STARTRK-2) e TKIs de 2ª geração em resistência NTRK

Entrectinibe (Rozlytrek®, RXDX-101, Roche/Genentech) — TRK/ROS1/ALK inibidor: Pan-TRK + ROS1 + ALK inibidor. Múltiplos alvos (vs. larotrectinibe: seletivo para TRK). Forte penetração no SNC (muito lipofílico). Dose: 600 mg QD oral.

STARTRK-1/2/3 (Doebele RC et al., Lancet Oncol 2020, fase I/II pooled): 54 pacientes com fusões NTRK, ROS1 ou ALK. NTRK-fusão n=54 (tumores sólidos TRK+). ORR (NTRK-fusão): 57% (CR 7%, PR 50%). DCR 90%. SLP 11,2m. SG não-atingida. Intracraniano (SNC): ORR 54% em pacientes com metástases cerebrais mensuráveis (forte ponto de entrectinibe). → Aprovação FDA: agosto 2019 para tumores sólidos NTRK-fusão adultos E crianças ≥12 anos com massa corporal ≥35 kg (limitação pediátrica).

Comparação larotrectinibe vs. entrectinibe (sem comparação direta): ORR: 75-79% vs. 57% (números diferentes de estudos, tamanhos pequenos — não comparáveis diretamente). Penetração SNC: ambos penetram, entrectinibe historicamente reconhecido por maior concentração SNC (muito lipofílico). Seletividade: larotrectinibe = TRK-seletivo; entrectinibe = TRK+ROS1+ALK (vantagem se múltiplos alvos). Cardiotoxicidade: entrectinibe tem bradiarritmia e QTc prolongamento mais frequentes.

Resistência a TKIs de 1ª geração (larotrectinibe/entrectinibe): Mutações on-target de NTRK adquiridas: gatekeeper (F589L em TrkA, G623R em TrkC — análogo ao T790M em EGFR), xDFG (G667C, G696A — altera loop de ativação), solvent-front (G595R em TrkA — análogo a G1269A em ALK). Mecanismos off-target: amplificação KRAS, BRAF V600E, fusão MET, amplificação CDK4.

TKIs de 2ª geração para resistência NTRK: Repotrectinibe (Augtyro®, TPX-0005, Bristol-Myers Squibb/Turning Point) — ROS1/TRK/ALK seletivo: TRIDENT-1 (Cho BC et al., Nat Med 2023): repotrectinibe em TRK-fusão pós-1ª geração TKI. ORR 58% (n=24, pós-larotrectinibe/entrectinibe). ORR em TKI-naive NTRK 78%. → Aprovação FDA: novembro 2023 para TRK-fusão tumores sólidos adultos (TKI-naive e pós-TKI). Selitrectinibe (LOXO-195, Bayer): TKI seletivo de 2ª geração para mutações de resistência gatekeeper/xDFG. ORR ~50% pós-larotrectinibe/entrectinibe (dados fase I, Drilon A, Cancer Cell 2021). Não aprovado ainda.

Sequência terapêutica em NTRK-fusão: 1ª linha: larotrectinibe OU entrectinibe (equivalentes para sólidos; larotrectinibe preferido em crianças <12 anos). Progressão/resistência: repotrectinibe (cobre mutações gatekeeper, solvent-front, xDFG). Selitrectinibe em investigação. Sempre investigar: mecanismo de resistência por líquido de biópsia ou rebiopsia → off-target → quimio/combinações.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que significa um medicamento ser 'tumor-agnóstico' e por que isso é revolucionário?+

Historicamente, os tratamentos em oncologia eram aprovados para um tipo específico de tumor: 'para câncer de pulmão', 'para câncer de mama', etc. Um medicamento tumor-agnóstico é aprovado para qualquer tipo de câncer que tenha uma característica molecular específica — independentemente de onde o tumor nasceu. Larotrectinibe foi aprovado em novembro 2018 para qualquer tumor sólido com fusão NTRK, seja pulmão, mama, cólon, glândula salivar, sarcoma, tireoide ou qualquer outro. Isso é revolucionário porque: (1) Significa que a biologia molecular do tumor — não o órgão de origem — define o tratamento; (2) Permite que pacientes com tumores raros sem tratamentos aprovados para sua histologia específica acessem terapias eficazes; (3) Demonstra que o mesmo driver molecular pode ser tratado da mesma forma independentemente do órgão. Exemplos de tumor-agnósticos aprovados: pembrolizumabe (MSI-H/dMMR, qualquer tumor sólido), larotrectinibe e entrectinibe (fusões NTRK), sotorasibe parcialmente, dostarlimabe (dMMR). A tendência da oncologia é cada vez mais tratar pela biologia molecular e não pela histologia.

Em quais tumores as fusões NTRK são mais comuns e onde vale a pena testar?+

Fusões NTRK são muito raras em tumores comuns (menos de 1% em pulmão, mama, cólon), mas extremamente prevalentes em alguns tumores raros específicos: Fibrossarcoma congênito/infantil: >90% têm fusão ETV6-NTRK3 — nesse tumor, larotrectinibe mudou completamente o tratamento, com ORR de 90% e possibilidade de evitar amputações em tumores não-ressecáveis; Carcinoma secretório de mama e glândula salivar: >90% têm ETV6-NTRK3; Carcinoma de tireoide pediátrico: ~40%. Para tumores comuns, testar todos os pacientes por NGS (painel molecular amplo) faz sentido para capturar esse 1% que pode ter resposta extraordinária. A recomendação atual dos guidelines oncológicos é: todos os pacientes com tumores sólidos avançados sem alternativa terapêutica eficaz devem ter NGS ampliado que inclua detecção de fusões NTRK. O custo do teste compensa pela resposta excepcional (ORR ~79%, durações de resposta acima de 3 anos) quando a fusão é encontrada.

O que é repotrectinibe e quando é usado após a falha do larotrectinibe?+

Repotrectinibe (Augtyro) é um TKI de 2ª geração que foi desenvolvido especificamente para superar as mutações de resistência que surgem após larotrectinibe ou entrectinibe. Quando um tumor com fusão NTRK trata inicialmente com larotrectinibe, eventualmente pode adquirir mutações no próprio gene NTRK que tornam o receptor menos sensível ao inibidor — as principais são mutações no 'gatekeeper' (F589L em TrkA), nas regiões 'xDFG' e 'solvent-front' (G595R). Repotrectinibe tem uma estrutura molecular maior e compacta ('macrocyclic') que ainda consegue se encaixar no receptor mesmo com essas mutações, superando a resistência. No estudo TRIDENT-1, mostrou ORR de 58% em pacientes que já tinham falhado ao larotrectinibe ou entrectinibe — uma taxa expressiva nessa população pré-tratada. Também foi aprovado para uso de 1ª linha (ORR 78%), então pode ser uma opção inicial em casos onde se suspeita de resistência. Além de NTRK, repotrectinibe também inibe ROS1 e ALK — tornando-o versátil para múltiplos drivers.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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