Ferro no Organismo
Funções e Distribuição
Ferro (Fe) — metal de transição (Z=26):
- Fe²⁺ (ferroso): Estado solúvel, absorvível, pró-oxidante (Fenton: Fe²⁺ + H₂O₂ → Fe³⁺ + •OH)
- Fe³⁺ (férrico): Estado insolúvel (pH >7), não absorvível diretamente → precisar ser reduzido
Distribuição corporal (em adulto de 70kg):
- Total: ~3,5-4g de Fe
- Hemoglobina nos eritrócitos: ~2,5g (65%) — Fe²⁺ no grupo heme → liga O₂
- Ferritina/Hemossiderina (armazenamento): ~1g (25%) — Fígado, baço, medula óssea
- Mioglobina: ~0,3g (10%) — Músculo
- Enzimas (catalase, citocromo c, complexos I/II/III): ~0,1g
Funções bioquímicas do ferro:
- Transporte de O₂: Hemoglobina (4 grupos heme com Fe²⁺ cada)
- Armazenamento de O₂: Mioglobina (1 grupo heme)
- Respiração celular: Complexos I, II, III (centros Fe-S + heme)
- DNA: Ribonucleotídeo redutase (síntese de nucleotídeos) contém ferro
- Enzimas: Catalase, peroxidases, aconitase (citoplásmica e mitocondrial — ciclo de Krebs)
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Absorção Intestinal de Ferro
O Processo Altamente Regulado
Duodeno = principal local de absorção de ferro:
Ferro Não-heme (Fe³⁺ de alimentos vegetais e suplementos ferrosos/féricos): ``` Lúmen intestinal: Fe³⁺ (dos alimentos: íons, fitatos, oxalatos) → DcytB (Duodenal Cytochrome B) DcytB reduz Fe³⁺ → Fe²⁺ (reação que precisa vitamina C) Fe²⁺ → DMT1 (Divalent Metal Transporter 1, SLC11A2) → interior do enterócito ```
Ferro Heme (de carnes, peixe):
- Heme (Fe²⁺ + protoporfirina) → absorvido por transportador específico HCP1 (Heme Carrier Protein 1)
- Dentro do enterócito: HO-1 (Heme Oxigenase) → Fe²⁺ liberado do heme
- Absorção de ferro heme: ~15-40% (mais eficiente que não-heme)
Dentro do Enterócito:
- Fe²⁺ → pode ser armazenado como Ferritina (reserva temporária)
- Fe²⁺ → exportado via Ferroportina (FPN1, SLC40A1) → Fe³⁺ (por hefaestina + ceruloplasmina) → transferrina
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Hepcidina: O Regulador Central
O Hormônio do Ferro
Hepcidina (HAMP = Hepcidin Antimicrobial Peptide):
- Peptídeo de 25 aminoácidos, produzido pelo fígado
- Descoberto inicialmente como peptídeo antimicrobial (Ganz e Park, 2001-2003)
- Principal regulador sistêmico de homeostase de ferro
Mecanismo de Hepcidina: ``` Hepcidina elevada: Hepcidina → liga ferroportina (FPN1) na superfície do enterócito, macrófago e hepatócito ↓ FPN1 internalizada e degradada no lisossomo Menos Fe exportado → Fe fica preso nas células (enterócitos, macrófagos) ↓ Menos Fe2+ disponível para hemoglobina → anemia (funcional, mesmo com estoque presente) ```
O que aumenta hepcidina:
- Mais ferro (sensores BMP/SMAD no fígado detectam)
- Inflamação: IL-6 → STAT3 → transcrição de HAMP (hepcidina)
- Sobrecarga de ferro (hemocromatose) → hepcidina não funciona (mutação HFE)
O que diminui hepcidina:
- Deficiência de ferro
- Hipóxia (altitude, anemia) → EPO → fator supressor de hepcidina ERFE (Erythroferrone) → mais absorção
- Eritropoiese aumentada (produção de glóbulos vermelhos) → mais ERFE → menos hepcidina
"Anemia de Doença Crônica" = Anemia de Inflamação:
- Inflamação crônica (artrite reumatóide, câncer, DRC, infecção) → IL-6 → mais hepcidina
- Hepcidina alta → ferro preso em macrófagos → menos para eritroblastos → anemia
- Fe sérico baixo mas ferritina ALTA (estoques presentes mas inacessíveis)
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Diagnóstico de Deficiência de Ferro
Os Estágios e Marcadores
Estágios da deficiência:
- Depleção de estoques: Ferritina sérica < 12 µg/L; Hemoglobina ainda normal
- Eritropoiese deficiente de ferro: Ferritina baixa + Fe sérico baixo + TIBC alta + Transferrina saturação < 16%; Hemoglobina ainda normal
- Anemia ferropriva (IDA): Ferrritina baixa + Hemoglobina <12g/dL (mulheres) / <13g/dL (homens) + hemácias microcíticas e hipocrômicas
Ferritina sérica: Melhor marcador de estoques de ferro (mas elevada na inflamação = falso normal)
Saturação de transferrina: Fe sérico / TIBC × 100; <16% = deficiente
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Suplementos de Ferro: Formas
Comparação de Biodisponibilidade
| Forma | Absorção | Tolerância GI | Dose Fe elem. | Uso | |-------|---------|-------------|--------------|-----| | Sulfato Ferroso (Fe²⁺) | ~12-25% | Baixa (constipação, náusea) | 20% de 325mg = 65mg Fe | Gold standard; mais estudado | | Gliconato Ferroso | ~12-20% | Melhor que sulfato | 12% de 300mg = 36mg Fe | Melhor tolerado | | Fumarato Ferroso | ~15-25% | Melhor | 33% de 200mg = 65mg Fe | Boa tolerância | | Bis-glicinato Ferroso | ~25-35% (quelado) | Excelente | ~18-28mg por dose | Menos efeitos GI, mais absorvível | | Ferro Férrico (Fe³⁺): Carbonila, polissacarídeo | ~12% | Melhor tolerado | varia | Mais caro, menos eficiente |
Vitamina C + Ferro: Reduz Fe³⁺ → Fe²⁺ no duodeno → mais DMT1 → mais absorção (2-3×)
Inibidores de absorção:
- Fitatos (cereais, legumes), Oxalatos (espinafre, chá)
- Cálcio (em doses altas), café/chá (taninos)
- Proteína de soja
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Referências
- Ganz T. "Systemic iron homeostasis." *Physiol Rev.* 2013;93(4):1721–1741.
- Camaschella C. "Iron-deficiency anemia." *N Engl J Med.* 2015;372(19):1832–1843.
- Moretti D, et al. "Oral iron supplements increase hepcidin and decrease iron absorption from daily or twice-daily doses in iron-depleted young women." *Blood.* 2015;126(17):1981–1989.
- Pasricha SR, et al. "Diagnosis and management of iron deficiency anaemia: a clinical update." *Med J Aust.* 2010;193(9):525–532.
- Lönnerdal B. "Dietary factors influencing zinc absorption." *J Nutr.* 2000;130(5S Suppl):1378S–1383S.
- Zimmermann MB, Hurrell RF. "Nutritional iron deficiency." *Lancet.* 2007;370(9586):511–520.