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← Blog·Oncologia de Precisão23 de junho de 2026

Enzalutamida, Abiraterona, Apalutamida e Darolutamida: a Revolução dos Novos Agentes Hormonais em Câncer de Próstata

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Via do receptor de andrógeno no câncer de próstata resistente à castração

Por que o AR continua ativo na "castração resistente": A castração (cirúrgica ou química com LHRH agonistas/antagonistas) reduz testosterona sérica a <50 ng/dL — suprimindo >95% da fonte testicular. Mas o AR permanece ativo no CPRC por múltiplos mecanismos:

  1. Síntese intra-tumoral de andrógenos:

Células do câncer de próstata sintetizam andrógenos a partir de precursores como DHEA (adrenal), progesterona e colesterol. CYP17A1 (17α-hidroxilase/17,20-liase) é essencial nessa síntese — alvo de abiraterona.

  1. Amplificação/mutação do AR:

AR amplificado → altamente sensível a baixos níveis de andrógeno. Mutações no LBD (ligand binding domain) do AR permitem ativação por glucocorticoides, progesterona ou mesmo anti-andrógenos de 1ª geração (flutamida, bicalutamida) — síndrome da retirada do anti-andrógeno.

  1. Variantes de splicing (ARv7):

ARv7 é uma variante truncada do AR sem o LBD — ativa sem precisar de ligante e, portanto, resistente a antagonistas de AR e a abiraterona. ARv7 está presente em ~10-15% dos CPRC de início e em >30% após progressão em enzalutamida/abiraterona. Detectável em CTCs por RT-PCR.

  1. Coativadores de AR:

SRC-1, β-catenina, FOXA1, NKX3-1 — amplificados ou mutados em CPRC, ativando AR de forma ligante-independente.

O "mosaico" de resistência do CPRC: Nenhum mecanismo domina sozinho — múltiplos coexistem. Isso explica por que sequências de ARSi frequentemente têm resposta diminuída (cross-resistance entre enzalutamida e abiraterona é real).

Abiraterona: inibidor de CYP17A1 em CPRC pré e pós-docetaxel

Abiraterona (Zytiga®, acetato de abiraterona) — mecanismo: Inibidor irreversível de CYP17A1 (a enzima chave na biossíntese de andrógenos tanto adrenal quanto intra-tumoral). Bloqueia tanto 17α-hidroxilase → redução de cortisol → feedback → ACTH → hiperaldosteronismo → retenção de sal+água+HAS → exige prednisona concomitante (substitui cortisol e reduz mineralocorticoide).

Dose: Abiraterona 1.000 mg QD em jejum (estômago vazio) + prednisona 5 mg BID. Absorção com comida: 10× maior → não padronizar alimentação.

COU-AA-301 (de Bono et al., NEJM 2011) — pós-docetaxel: 1.195 pacientes CPRC pós-docetaxel. Abiraterona+prednisona vs. placebo+prednisona. SG: 14,8 vs. 10,9 meses (HR 0,65). ORR PSA: 29% vs. 6%. Aprovação FDA: abril 2011 para CPRC pós-docetaxel.

COU-AA-302 (Ryan et al., NEJM 2013) — pré-docetaxel: 1.088 pacientes CPRC assintomático ou mínimo-sintomático, sem docetaxel prévio. SG: 34,7 vs. 30,3 meses (HR 0,81). SLP: 16,5 vs. 8,3 meses (HR 0,53). ORR PSA: 62% vs. 24%. Aprovação FDA: dezembro 2012 para CPRC pré-docetaxel.

Formulação Yonsa® (suspensão micronizada): Pode ser tomada com comida (sem prejuízo de absorção) — alternativa para pacientes com dificuldade de jejum. Dose: 500 mg BID com prednisona 4 mg BID.

Em hormono-sensível (LATITUDE, STAMPEDE): Abiraterona+prednisona em câncer de próstata metastático hormono-sensível de alto risco: SG melhorada. Aprovação FDA 2017 para mHSPC de alto risco.

Enzalutamida: antagonista de AR pós-docetaxel (AFFIRM) e pré-docetaxel (PREVAIL)

Enzalutamida (Xtandi®) — mecanismo: Antagonista de AR competitivo de alta afinidade (Kd ~86 nM — 5-8× maior que bicalutamida). Inibe AR em 3 etapas: (1) bloqueia ligação de andrógeno ao LBD, (2) bloqueia translocação nuclear do AR, (3) bloqueia ligação do AR ao DNA. Sem atividade agonista parcial. Dose: 160 mg QD (sem restrição alimentar).

AFFIRM (Scher et al., NEJM 2012) — pós-docetaxel: 1.199 pacientes CPRC pós-docetaxel. Enzalutamida 160 mg vs. placebo. SG: 18,4 vs. 13,6 meses (HR 0,63; P<0,001). ORR PSA: 54% vs. 2%. Aprovação FDA: agosto 2012 para CPRC pós-docetaxel.

PREVAIL (Beer et al., NEJM 2014) — pré-docetaxel: 1.717 pacientes CPRC sem quimio prévia, assintomático/mínimo-sintomático. SG: 35,3 vs. 31,3 meses (HR 0,77). SLP: 20,0 vs. 5,4 meses (HR 0,19). ORR PSA: 78% vs. 3%. Aprovação FDA: setembro 2014 para CPRC pré-docetaxel.

ARCHES (Armstrong et al., JCO 2019) — em mHSPC: Enzalutamida+ADT vs. placebo+ADT em câncer de próstata metastático hormono-sensível. SLP radiológica: NR vs. 19,0 meses (HR 0,39; P<0,001). SG: 66,0 vs. 53,3 meses (HR 0,66). Aprovação FDA: dezembro 2019 para mHSPC.

Efeitos adversos específicos: Fadiga (33%), tontura (11%), hipertensão (11%), cefaleia (10%). ATENÇÃO: convulsões em ~0,5% — histórico de convulsão é contraindicação relativa. Atravessa BHE parcialmente. Cuidado com interações com CYP3A4 (rifampicina, fenitoína reduzem níveis; warfarina aumenta INR). Não requer prednisona (diferença chave vs. abiraterona).

Apalutamida e darolutamida: NAH em não-metastático resistente à castração

CPRC não-metastático (nmCRPC) — o contexto: PSA em elevação durante castração sem metástases detectáveis por TC/cintilografia convencional. PSA doubling time (PSADT) ≤10 meses → alto risco de metástase em 2 anos (45-50%). Aprovações aqui são baseadas em MFS (metastasis-free survival) e SG.

Apalutamida (Erleada®) — SPARTAN: Antagonista AR de 2ª geração. Dose: 240 mg QD. Não atravessa BHE de forma significativa (menor risco de convulsão que enzalutamida).

SPARTAN (Smith et al., NEJM 2018): 1.207 pacientes nmCRPC com PSADT ≤10 meses. Apalutamida+ADT vs. placebo+ADT. MFS: 40,5 vs. 16,2 meses (HR 0,28; P<0,001). SG: 73,9 vs. 59,9 meses (HR 0,78). Aprovação FDA: fevereiro 2018 para nmCRPC. Aprovação expandida 2019 para mHSPC (TITAN trial).

Darolutamida (Nubeqa®) — ARAMIS e ARASENS: Antagonista AR estruturalmente distinto (pirazolil-amida). Mínima penetração de BHE → mais seguro neurologicamente. Não interage com CYP3A4.

ARAMIS (Fizazi et al., NEJM 2019): 1.509 pacientes nmCRPC. Darolutamida+ADT vs. placebo. MFS: 40,4 vs. 18,4 meses (HR 0,41; P<0,001). SG: 83,2% vs. 76,7% em 3 anos. Aprovação FDA: julho 2019 para nmCRPC.

ARASENS (Smith et al., NEJM 2022): darolutamida+ADT+docetaxel vs. ADT+docetaxel em mHSPC alto volume. SG: HR 0,68 (P<0,001). Tripleto (darolutamida+ADT+docetaxel) superior. Aprovação FDA: fevereiro 2022 para mHSPC.

Vantagem de darolutamida: Perfil neurológico mais seguro (menos fadiga, menos convulsão) — diferencial em idosos. Menor interação com CYP. ARASENS = única aprovação de tripleto (ARSi+ADT+quimio) em mHSPC.

Sequência de NAH e resistência cruzada: ARv7, splicing e o que fazer após falha

Resistência cruzada entre NAH: Após falha em enzalutamida: abiraterona tem ORR PSA de ~15-20% (vs. 60%+ em primeiro uso). Após falha em abiraterona: enzalutamida tem ORR similar reduzido. A resistência cruzada existe porque:

  • ARv7: ativa ambos (independente de LBD) — resistente a ambos
  • Upregulação de gluco-receptores: bypass da inibição de síntese (abiraterona) → AR ainda ativado por glucocorticoides

Quando usar enzalutamida vs. abiraterona:

  • Enzalutamida: Não precisa de prednisona (melhor em DM, imunossuprimidos). Risco de convulsão (evitar em epilépticos). Mais tontura/fadiga.
  • Abiraterona: Precisa de prednisona. Mais retenção de sal (cuidado em IC, HAS grave). Sem risco de convulsão. Mais hepatotoxicidade leve.

Sequência após 2 NAH: Após enzalutamida + abiraterona: docetaxel ou cabazitaxel (quimio) ou PARP-i (se BRCA+). Se ARv7+ por teste de CTC: quimio preferida (ARv7 prevê resistência a qualquer NAH).

LuPSMA — lútetio-PSMA-617 (PluvictoTM): Em CPRC pós-NAH e pós-quimio: lútetio-PSMA-617 (radioligand therapy, VISION trial) SG HR 0,62. Aprovação FDA março 2022. PSMA (prostate-specific membrane antigen) é altamente expresso em CPRC — lútetio-617 se liga e entrega radiação local.

Cabazitaxel: Em CPRC pós-docetaxel: cabazitaxel superior a mitoxantrana (TROPIC trial, SG 15,1 vs. 12,7m). Ainda ativo pós-enzalutamida/abiraterona (mecanismo diferente). Aprovado FDA 2010 para CPRC pós-docetaxel.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Qual é a diferença entre enzalutamida e abiraterona para câncer de próstata?+

Ambos tratam câncer de próstata resistente à castração, mas por mecanismos distintos: abiraterona bloqueia a produção de andrógenos (hormônios masculinos) em todos os tecidos, incluindo dentro do tumor. Enzalutamida, por sua vez, não bloqueia a produção, mas bloqueia o receptor de andrógeno diretamente — impede que o hormônio se ligue e ative o crescimento tumoral mesmo que ainda seja produzido. Diferenças práticas: abiraterona exige prednisona concomitante (para repor cortisol que ela suprime); enzalutamida não. Enzalutamida causa mais tonturas e raramente convulsões (atravessa a barreira hematoencefálica). Abiraterona causa mais retenção de sal e edema.

O que é CPRC não-metastático e por que tratar se ainda não há metástases?+

CPRC não-metastático (nmCRPC) é quando o PSA está subindo durante a castração (hormônioterapia primária), mas os exames de imagem convencionais (TC e cintilografia) ainda não mostram metástases. Parece paradoxal tratar algo que 'ainda não apareceu'. Porém, estudos mostram que pacientes com PSA dobrando em ≤10 meses têm 45-50% de probabilidade de desenvolver metástases visíveis em 2 anos — e metástase = pior prognóstico. Apalutamida e darolutamida (aprovados em nmCRPC) retardam o aparecimento das primeiras metástases em 24-40 meses, prolongando a sobrevida. É medicina preventiva de segunda recaída oncológica.

Por que a enzalutamida pode causar convulsão?+

Enzalutamida atravessa parcialmente a barreira hematoencefálica e tem fraca atividade antagonista de receptores GABA-A em neurônios — GABA-A é o principal receptor inibitório do cérebro. Ao antagonizá-lo minimamente, aumenta a excitabilidade neuronal, podendo precipitar convulsões em indivíduos suscetíveis (~0,5% dos casos). Por isso, é contraindicada em pacientes com histórico de convulsões. Darolutamida e apalutamida têm estrutura molecular que penetra muito menos na barreira hematoencefálica e têm menos risco de convulsão — sendo preferidas em pacientes com histórico neurológico.

Abiraterona precisa ser tomada em jejum?+

A formulação original (Zytiga, 250 mg comprimidos) deve ser tomada em estômago vazio (pelo menos 2 horas antes e 1 hora depois de comer). Isso porque alimentos aumentam muito a absorção — e tomar com comida resultaria em dose imprevisível. Existe uma formulação alternativa (Yonsa, suspensão de partículas micronizadas, 125 mg) que pode ser tomada com ou sem comida. Se o paciente tiver dificuldade com o jejum, Yonsa é uma opção. Na dúvida, padronize: sempre em jejum (formulação original) ou sempre com comida (Yonsa) — a variabilidade é o problema.

O que é ARv7 e por que importa no tratamento do câncer de próstata?+

ARv7 é uma variante anômala do receptor de andrógeno que falta o domínio onde os hormônios e os antagonistas se ligam. Sem esse domínio, nem os andrógenos (hormônios masculinos) nem os bloqueadores de AR (enzalutamida, apalutamida, darolutamida) podem inibi-lo — ele fica permanentemente ativo, independente do tratamento hormonal. Detectável em células tumorais circulantes no sangue. Quando ARv7 está presente, os novos agentes hormonais têm muito menos eficácia — nesses casos, quimioterapia (docetaxel) geralmente funciona melhor. O teste de ARv7 pode guiar a sequência de tratamentos e poupar o paciente de tratar com um medicamento que provavelmente não vai funcionar.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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