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← Blog·Oncologia de Precisão22 de junho de 2026

Larotrectinibe e Entrectinibe: Inibidores de TRK para Fusões de NTRK — a Era da Indicação Tumor-Agnóstica

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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NTRK e fusões TRK: a oncogênese por fusão gênica ativante

TRK — Tropomyosin Receptor Kinases: TRK é uma família de RTKs com três membros:

  • TRKA (encodificado por NTRK1): receptor de NGF (nerve growth factor), essencial para neurônios sensitivos/simpáticos
  • TRKB (NTRK2): receptor de BDNF (brain-derived neurotrophic factor), importante para sobrevivência neuronal
  • TRKC (NTRK3): receptor de NT-3 (neurotrophin-3)

Em condições normais: TRKs são expressos no sistema nervoso e alguns outros tecidos; ativados por neurotrofinas; regulam sobrevivência, crescimento axonal, diferenciação.

Fusões de NTRK — como ocorrem e por que ativam câncer: Fusões gênicas ocorrem quando quebras cromossômicas unem partes de dois genes diferentes no mesmo cromossomo (intracromossômica) ou entre dois cromossomos (translocação). Em fusões oncogênicas de NTRK: a porção 3' de NTRK (domínio quinase de TRKA/B/C) se funde com a porção 5' de um gene parceiro qualquer.

Resultado: a proteína de fusão tem o domínio quinase de TRK constitutivamente ativo — sem precisar de ligante (NGF/BDNF). Ativa MAPK, PI3K/AKT e PLCγ constitutivamente → proliferação não-controlada.

Parceiros de fusão: Mais de 80 parceiros já identificados. Exemplos:

  • ETV6-NTRK3: clássico em carcinoma mamário secretório, fibrossarcoma congênito, AINS (adenocarcinoma infantil não-secretório)
  • LMNA-NTRK1, TPM3-NTRK1: em melanoma, gástrico, sarcoma
  • EML4-NTRK3: análogo ao EML4-ALK mas para NTRK3

Frequência por tumor: Raras em geral (<1%) mas frequentes em tumores raros específicos:

  • Fibrossarcoma congênito: >90% (ETV6-NTRK3)
  • Carcinoma mamário secretório: ~100% (ETV6-NTRK3)
  • Carcinoma salivar secretório análogo: ~90%
  • AINS pediátrico: ~15%
  • Em carcinomas comuns (CPNPC, colorretal, etc.): <1%

Larotrectinibe — o primeiro agente tumor-agnóstico adulto-pediátrico (LOXO-101)

Larotrectinibe (Vitrakvi®, LOXO-101) — desenvolvimento: Desenvolvido pela LOXO Oncology (adquirida pela Eli Lilly). Inibidor altamente seletivo de TRKA/B/C. IC₅₀ para TRKA: 5 nM; para TRKB: 11 nM; para TRKC: 4 nM. Mínima atividade em ROS1, ALK, ou outras quinases (>100× seletividade sobre off-targets).

Desenvolvimento clínico acelerado: 3 estudos combinados (LOXO-TRK-14001/15002/SCOUT):

  • LOXO-TRK-14001: fase I adultos (NCT02122913)
  • LOXO-TRK-15002: fase I/II crianças (SCOUT)
  • LOXO-TRK-16001: fase II adultos (NAVIGATE)

Análise pooled (Drilon et al., NEJM 2018): 55 pacientes com fusão de NTRK (17 tipos tumorais diferentes). ORR: 75%. CR: 22%. SLP mediana: NR (>18 meses no momento da publicação). Resposta independente do tipo tumoral, tipo de fusão, e linha de tratamento.

Aprovação FDA: novembro 2018 — primeira aprovação tumor-agnóstica de adultos (pembrolizumabe MSI-H foi primeiro para qualquer tumor, mas pediatria era excluída). Larotrectinibe incluiu PEDIATRIA.

Indicação: tumores sólidos com fusão de NTRK, metastáticos ou irressecáveis, sem alternativa satisfatória de tratamento.

Atualização de eficácia (2020): Análise expandida de 159 pacientes: ORR 79% (CR 16%, PR 63%). SLP mediana: 28,3 meses. Respostas duraram >1 ano em 86% dos pacientes que responderam.

Fibrossarcoma congênito (neonatos): Caso especial: ETV6-NTRK3 em >90% → larotrectinibe ORR >90% com respostas completas. Criança de 3 meses: a mais jovem a receber agente de terapia alvo-direcionada. Possível evitar amputação.

Entrectinibe: NTRK + ROS1 + ALK — espectro mais amplo mas menos seletivo

Entrectinibe (Rozlytrek®, RXDX-101) — mecanismo: Inibidor de pan-TRK (TRKA/B/C), ROS1, e ALK. IC₅₀: TRKA ~1 nM, TRKB ~3 nM, ROS1 ~0,1 nM. Atividade em ALK: IC₅₀ ~12 nM. Diferente de larotrectinibe, tem atividade fora de TRK.

Vantagem adicional: PENETRAÇÃO DE SNC. Entrectinibe foi desenvolvido com atenção à barreira hematoencefálica — atividade em metástases cerebrais documentada.

TRIDENT-1 — análise pooled NTRK: Análise de 3 estudos (ALKA-372-001, STARTRK-1, STARTRK-2): 74 adultos com fusão NTRK e câncer sólido. ORR: 57% (adultos). CR: 7%.

Menor ORR que larotrectinibe (57% vs. 79%) — provável diferença de seleção e potência de TRK. Entrectinibe é menos seletivo → mais toxicidade off-target.

Metástases cerebrais: ORR em metástases cerebrais mensuráveis: 50-55%. Larotrectinibe: menor penetração CNS em adultos (fármacos pediátricos têm dados CNS melhores). Isso dá entrectinibe vantagem em pacientes com doença do SNC.

Aprovação FDA: agosto 2019 para NTRK fusão em tumores sólidos adultos + ROS1 em CPNPC. (ROS1 em CPNPC — alternativa a crizotinibe com melhor penetração CNS.)

Toxicidades de entrectinibe vs. larotrectinibe: Entrectinibe: neurotoxicidade mais proeminente (tontura, disgeusia, distúrbio cognitivo — por atividade em CNS TRK), além de fadiga, constipação, dispneia. Larotrectinibe: anemia, elevação de transaminases, tontura moderada. Ambos: hepatotoxicidade como classe.

Resistência a TRK inibidores e segunda geração: selitrectinibe e repotrectinibe

Mecanismos de resistência a TRK-i de 1ª geração:

Mutações do gatekeeper/solvation front:

  • TRKA G595R: análogo ao EGFR T790M — mutação no domínio quinase que bloqueia larotrectinibe/entrectinibe
  • TRKA G667C (solvent front): na borda do bolso de binding
  • TRKB G639R, TRKC G623E: análogos em outras isoformas
  • F589L: mutação no loop de ativação

Amplificação/bypass:

  • Amplificação de KRAS, MET: ativação de MAPK independente de TRK
  • Fusão de kinase alternativa: tumor adquire segunda fusão oncogênica

TRK-i de 2ª geração: Desenvolvidos especificamente para cobrir mutações de resistência:

Selitrectinibe (LOXO-195): Cobre G595R, G667C, F589L. Fase I/II (LIBRETTO-001). ORR em resistência de 1ª geração: 25-40% (modesto). FDA breakthrough designation.

Repotrectinibe (Augtyro®, TPX-0005): Pan-TRK/ROS1/ALK de próxima geração. Molécula macrocíclica que acomoda mutações do solvation front. Aprovação FDA novembro 2023 para CPNPC ROS1-positivo (TRIDENT-1). Também ativo em NTRK resistente a larotrectinibe/entrectinibe.

TRIDENT-1 em NTRK resistente (entrectinibe/larotrectinibe): ORR 58% em pacientes NTRK-fusão não TRK-i tratados, 40% em pós-TRK-i.

Implicação: Em progressão em TRK-i de 1ª geração: testar mutação de resistência por liqbiópsia/tecido → selitrectinibe ou repotrectinibe se disponíveis. Próximo nível: ensaios com terceira geração e combinações.

Como testar para fusões de NTRK: NGS, FISH, IHC pan-TRK

Metodologias de detecção de NTRK:

IHC pan-TRK (imunohistoquímica): Anticorpos policlonais que reconhecem TRK (any isoform). Alta sensibilidade (>90%) para detectar fusões — proteína de fusão é expressa em nível alto. Especificidade moderada (algumas expressões normais de TRK em neurônios). Usado como triagem rápida e barata. LIMITAÇÕES: não identifica qual gene de fusão, não detecta fusões "crípticas". Resultado positivo em IHC → confirmar com NGS ou FISH.

FISH (Hibridização in situ por fluorescência): Detecta rearranjos cromossômicos de NTRK1/2/3. Boa sensibilidade para translocações simples. LIMITAÇÃO: não detecta inversões intracromossômicas (ex: ETV6-NTRK3 em alguns tecidos).

NGS (Next-Generation Sequencing) — RNA-based: Padrão ouro. RNA-seq detecta todos os tipos de fusão (translocação, inversão, deleção), identifica o gene parceiro, e quantifica. RNA fusion panels específicos (como Foundation Medicine RNA). VANTAGEM: detecta fusões de todos os 3 genes NTRK simultaneamente.

NGS DNA-based: Detecta breakpoints genômicos, mas pode perder alguns rearranjos intragênicos. Menor sensibilidade que RNA para fusões.

Quando testar: Segundo ESMO/ASCO: Todo tumor metastático ou avançado onde fusão de NTRK alteraria o tratamento. Prioritário em: câncer de tireoide papilar variante mucinosa, carcinoma de glândula salivar, fibrossarcoma congênito, CPNPC, CCR colorretal, melanoma (alta taxa de fusão relativa).

Custos e acesso no Brasil: NGS-RNA (fusões): ~R$2-5k dependendo do laboratório. IHC pan-TRK: ~R$200-500 (triagem). Alguns planos cobrem NGS em cancer metastático. Programa de acesso Bayer/Lilly para larotrectinibe disponível no Brasil.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que são fusões de NTRK e por que são importantes para o tratamento do câncer?+

Fusões de NTRK são alterações genéticas em que um fragmento dos genes NTRK1, NTRK2 ou NTRK3 se une a outro gene, criando uma proteína híbrida com atividade quinase permanentemente 'ligada'. Isso impulsiona o crescimento do tumor de forma independente do tipo de câncer onde ocorreu. São raras (menos de 1% dos cânceres comuns, mas até 90% de tumores raros como fibrossarcoma congênito). São importantes porque larotrectinibe e entrectinibe — inibidores de TRK — têm taxas de resposta altíssimas (57-79%) em qualquer tumor com fusão de NTRK, independentemente de onde ele está no corpo. Identificar uma fusão de NTRK pode dar acesso a um tratamento altamente eficaz mesmo em cancer avançado.

O larotrectinibe funciona em crianças com câncer?+

Sim — é um dos únicos tratamentos de precisão oncológica aprovado especificamente para adultos E crianças (incluindo neonatos). Foi aprovado pelo FDA em 2018 sem restrição de idade. O uso mais impressionante é em fibrossarcoma congênito — um tumor de tecido mole de bebês e crianças pequenas que em mais de 90% dos casos tem a fusão ETV6-NTRK3. Larotrectinibe nesse contexto tem ORR>90%, com respostas completas em muitos pacientes. Alguns bebês que teriam precisado de amputação de membros tiveram seus tumores completamente regredidos com larotrectinibe oral — foi um avanço notável em oncologia pediátrica.

Qual é a diferença entre larotrectinibe e entrectinibe?+

Ambos inibem TRK (alvo das fusões de NTRK), mas com diferenças importantes: larotrectinibe é ultra-seletivo para TRK (sem atividade em outros alvos), tem maior ORR (79% vs. 57%) e menos toxicidade neurológica. Entrectinibe também inibe ROS1 e ALK, penetra melhor no sistema nervoso central, e é preferido em pacientes com metástases cerebrais. Em NTRK de primeira escolha, larotrectinibe é geralmente preferido pela eficácia superior; em pacientes com doença do SNC ou em CPNPC com ROS1 positivo, entrectinibe é uma opção muito boa.

Como saber se meu câncer tem fusão de NTRK?+

Através de testes moleculares, disponíveis em laboratórios especializados. O padrão ouro é o NGS de RNA (sequenciamento genético de nova geração) em tecido tumoral ou biópsia líquida — identifica qualquer fusão de NTRK1/2/3. Uma alternativa mais barata para triagem é a imunohistoquímica pan-TRK, que detecta a proteína alterada no tecido. Se positiva em IHC, confirma-se com NGS. O teste é especialmente recomendado em cânceres metastáticos ou avançados, pois um resultado positivo pode abrir acesso a um tratamento com alta probabilidade de resposta.

O que acontece quando o tumor para de responder a larotrectinibe?+

A resistência a larotrectinibe geralmente ocorre por mutações no domínio quinase de TRK (como G595R), que tornam o inibidor incapaz de se ligar adequadamente. Nesses casos, uma biópsia com análise molecular (NGS/ctDNA) pode identificar a mutação específica de resistência. Existem inibidores de TRK de 2ª geração em desenvolvimento para essas mutações: selitrectinibe e repotrectinibe (aprovado para ROS1 em 2023) têm atividade em mutações de resistência de larotrectinibe. A oncologia de precisão em TRK segue o mesmo modelo do EGFR (osimertinibe supera T790M) — há opções para quem progride.

Referências Científicas

  1. . , .
  2. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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