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← Blog·Oncologia de Precisão19 de junho de 2026

Larotrectinibe e Entrectinibe: Inibidores de NTRK para Tumores com Fusões Neurotrofinas — A Era da Aprovação Tumor-Agnóstica

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Neurotrofinas e receptores TRK: biologia e papel em câncer

Os receptores TRK (tropomyosin receptor kinase) — TRKA, TRKB e TRKC — são tirosina quinases codificadas pelos genes NTRK1, NTRK2 e NTRK3, respectivamente. Na fisiologia normal, os receptores TRK são ativados por neurotrofinas:

  • TRKA/NTRK1: ativado por NGF (nerve growth factor), essencial para desenvolvimento do sistema nervoso simpático e nocicepção
  • TRKB/NTRK2: ativado por BDNF e NT-4/5, crítico para plasticidade sináptica e sobrevivência neuronal
  • TRKC/NTRK3: ativado por NT-3, importante em desenvolvimento do cerebelo

Em adultos, a expressão de TRK está restrita principalmente ao sistema nervoso — tornando-os alvos com boa janela terapêutica.

Fusões NTRK oncogênicas: Rearranjos cromossômicos que fundem a porção codificante do domínio quinase de NTRK com a porção 5' de um gene parceiro levam à expressão de uma proteína quimérica com atividade de quinase constitutiva. Mais de 80 genes parceiros foram identificados. Exemplos:

  • ETV6-NTRK3: característica do fibrossarcoma infantil congênito e carcinoma secretor de mama
  • TPM3-NTRK1: descrito em cânceres de cólon, tireoide e pulmão
  • LMNA-NTRK1: carcinoma papilífero de tireoide

Frequência e distribuição: Fusões NTRK ocorrem em <1% dos cânceres comuns (pulmão, cólon, mama) mas em frequências muito altas em tumores raros — fibrossarcoma infantil (>90%), carcinoma secretor de mama (~95%), carcinoma analogous to mammary secretory carcinoma das glândulas salivares. No total, estimam-se ~3.500 novos casos/ano nos EUA com fusão NTRK em tumores tratáveis.

Mecanismo de ação: inibição seletiva de quinases TRK

Larotrectinibe (Vitrakvi®): Inibidor competitivo de ATP altamente seletivo para TRKA, TRKB e TRKC, com IC₅₀ de 5-11 nM. A seletividade é notável: >1000× de preferência por TRK sobre um painel de 246 outras quinases. Essa seletividade minimiza efeitos off-target e explica o excelente perfil de segurança.

Entrectinibe (Rozlytrek®): Inibidor de TRKA/B/C, mas também de ROS1 e ALK (estruturalmente relacionadas). IC₅₀ para TRK de 1-12 nM. A atividade adicional contra ROS1 e ALK permite aprovação separada para CPNPC ROS1-positivo.

Consequências do bloqueio de TRK-fusão: A quinase TRK ativa constitutivamente sinaliza através de:

  • RAS/MAPK/ERK: proliferação
  • PI3K/AKT: sobrevivência
  • PLC-γ/PKC: ativação de múltiplas cascatas

O bloqueio de TRK-fusão remove simultaneamente todos esses sinais das células tumorais que dependem exclusivamente dessa sinalização (oncogene addiction análoga ao ALK+ em CPNPC).

Penetração no SNC: Larotrectinibe tem penetração no SNC documentada — estudos de distribuição mostraram atividade em metástases cerebrais. Entrectinibe também foi desenvolvido com perfil lipofílico que favorece penetração craniana.

Reação de transferência de escudo: Uma característica única de larotrectinibe e agentes similares é que, por sua alta seletividade, não há inibição de EGFR, VEGFR ou outras quinases com expressão ampla — resultando em um perfil de toxicidade notavelmente limpo para um antineoplásico.

Basket trials e aprovação tumor-agnóstica: NAVIGATE e STARTRK

A aprovação de larotrectinibe e entrectinibe representou um paradigma histórico na regulação oncológica: pela primeira vez, a FDA aprovaria um medicamento para qualquer tumor com um biomarcador específico, independentemente do tipo histológico ou órgão de origem.

NAVIGATE (larotrectinibe — Drilon et al., NEJM 2018): Análise combinada de 3 ensaios (fase I LOXO-101-10001, fase I pediátrico SCOUT, fase II NAVIGATE) com 55 pacientes com fusões NTRK em 12 tipos tumorais diferentes. Taxa de resposta objetiva (ORR): 75% (IC 95%: 61-85%). Resposta completa (CR): 22%. Duração mediana de resposta: não alcançada (>70% de respostas ainda ativas ao tempo de análise). Os tipos tumorais incluíam fibrossarcoma, GIST, CPNPC, sarcoma de células fusiformes, glândula salivar, tireoide, cólon, mama — respostas clinicamente consistentes em todos.

STARTRK-2 (entrectinibe — Doebele et al., Lancet Oncol 2020): 54 pacientes com fusões NTRK em múltiplos tipos tumorais. ORR: 57% (mais baixo que larotrectinibe, possivelmente por diferenças de inclusão e tempo de follow-up). Em pacientes com metástases de SNC (n=10): ORR intracraniana de 55%.

Aprovações regulatórias:

  • Larotrectinibe: FDA novembro 2018, EMA setembro 2019 — primeiro aprovação tumor-agnóstica por biomarcador (exceto pembrolizumabe MSI-H, aprovado um ano antes)
  • Entrectinibe: FDA agosto 2019 (incluindo CPNPC ROS1+)

Desafio diagnóstico: A raridade das fusões NTRK e a heterogeneidade de tipos tumorais exigem painéis de NGS abrangentes — não detectáveis por IHC isolada (embora pan-TRK IHC seja rastreamento inicial). Muitos laboratórios adotaram NGS de DNA/RNA como padrão em tumores avançados.

Resistência e inibidores de segunda geração (selitrectinibe, repotrectinibe)

Mecanismos de resistência: Resistência ao larotrectinibe e entrectinibe emerge principalmente por mutações no sítio de ligação de TRK:

  1. Mutações "gatekeeper": G595R (NTRK1), G639R (NTRK2), G623R (NTRK3) — a glicina no sítio gatekeeper, quando mutada para arginina, cria obstrução estérica análoga a T790M em EGFR e G101V em BCL-2.
  1. Mutações "xDFG": Mutações nos resíduos do motivo DFG (ex.: D639G) que afetam a conformação do loop de ativação, reduzindo afinidade por inibidores Tipo I.
  1. Bypass via amplificação de MET ou KRAS: Mecanismos independentes de NTRK.

Selitrectinibe (LOXO-195) e repotrectinibe (TPX-0005): Inibidores de segunda geração projetados especificamente para superar as mutações de resistência do sítio de ligação de TRK:

  • Selitrectinibe: mantém atividade contra G595R, G639R, F589L, V573M. Dados de fase I/II mostraram ORR de ~45% em pacientes que progrediram em larotrectinibe/entrectinibe — impressionante dado que esses pacientes já estavam na segunda geração.
  • Repotrectinibe: aprovado pelo FDA em 2023 para CPNPC ROS1-positivo incluindo resistência a inibidores anteriores, com atividade adicional em NTRK-fusionados. Tem macrocycle design único com alta compacidade e penetração de SNC favorável.

Relevância do diagnóstico de resistência: A detecção da mutação de resistência por ctDNA orienta a seleção do segundo TKI. Sequenciamento de ctDNA ao longo do tratamento pode detectar resistência emergente semanas antes da progressão radiológica.

Diagnóstico de fusões NTRK: abordagens e desafios na prática clínica

Por que o diagnóstico é desafiador: Fusões NTRK são raras em tumores comuns, tornam-se "comuns" apenas em tumores infrequentes, e as fusões são estruturalmente diversas (>80 parceiros gênicos) — dificultando rastreamento por métodos simples.

Métodos disponíveis:

  1. IHC pan-TRK (clone EPR17341, Abcam/Agilent): Detecta a proteína TRK de forma independente do parceiro de fusão. Alta sensibilidade (~92%) como rastreamento, mas falsos positivos ocorrem em tumores com expressão normal de TRK (neuroblastoma, GIST). Recomendado como triagem inicial em tumores de risco.
  1. FISH (hibridação in situ fluorescente): Detecta rearranjos por separação de probes flanqueantes o gene NTRK. Limitação: não identifica o gene parceiro; pode perder fusões intraparafrásicas.
  1. RT-PCR: Detecta transcriptos de fusão específicos com primers desenhados para pares de gene parceiro comuns. Altamente sensível para fusões conhecidas mas "cega" para parceiros novos.
  1. NGS de DNA: Painéis gênicos que detectam rearranjos por cobertura de regiões de breakpoint. Pode perder fusões em introns grandes ou eventos complexos.
  1. RNA-seq (sequenciamento de transcriptoma): O método mais abrangente — detecta qualquer fusão expressa independente do parceiro. Padrão de referência para laboratórios de alta complexidade. Custo ainda limita uso rotineiro.

Recomendação prática: Para tumores raros com alta prevalência de NTRK (fibrossarcoma infantil, carcinoma secretor), RNA-seq ou FISH são adequados. Para tumores comuns em busca de marcadores acionáveis múltiplos, painéis de NGS abrangentes com cobertura de fusões são o melhor custo-benefício.

Fibrossarcoma infantil e carcinoma secretor: os tumores de altíssima prevalência de NTRK

Fibrossarcoma infantil congênito (FIC): Tumor dos tecidos moles raro que ocorre em crianças <5 anos (frequentemente ao nascimento). Historicamente tratado com quimioterapia citotóxica e cirurgia radical (amputação em alguns casos). A fusão ETV6-NTRK3 está presente em >90% dos FIC.

Com larotrectinibe, as taxas de resposta em FIC atingem ~90%, com muitos pacientes alcançando resposta completa. O BASKET trial SCOUT incluiu 24 pacientes pediátricos com NTRK+, com ORR de 93% e respostas duráveis — transformando a abordagem do FIC: evitando cirurgias mutiladoras e quimioterapia em muitos casos.

Carcinoma secretor de mama: Um subtipo raro de câncer de mama (<1% dos casos) definido histologicamente por vacúolos secretores e padrão microcístico. ETV6-NTRK3 presente em ~95% dos casos. Tumores que seriam classificados como triplo-negativos e tratados com quimioterapia intensiva podem ser tratados eficazmente com larotrectinibe/entrectinibe.

Tumor análogo nas glândulas salivares (carcinoma analogous to mammary secretory carcinoma das glândulas salivares) também tem altíssima frequência de ETV6-NTRK3 e responde excelentemente aos TRK-i.

Implicações para patologia: Esses tumores demonstram que a classificação molecular pode substituir ou complementar a histológica — o FIC tratado como NTRK+ tem outcome radicalmente diferente do FIC tratado genericamente como sarcoma.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é uma fusão gênica e por que causa câncer?+

Uma fusão gênica ocorre quando um rearranjo cromossômico (inversão, translocação) une partes de dois genes diferentes, criando uma proteína híbrida anormal. No caso de NTRK, a fusão une o domínio quinase de NTRK (que transmite sinais de crescimento) com um gene parceiro que promove sua expressão constitutiva — a quinase fica sempre ativa, mesmo sem o estímulo normal, forçando a célula a se multiplicar continuamente.

Como saber se meu tumor tem fusão NTRK?+

Pela análise molecular do tumor — preferencialmente por NGS (sequenciamento de nova geração) de DNA ou RNA que detecta fusões gênicas, ou por FISH. A IHC pan-TRK pode ser usada como rastreamento inicial em centros sem NGS disponível. O oncologista pode solicitar painéis moleculares abrangentes (como FoundationOne, MSK-IMPACT, ou equivalentes nacionais) que detectam NTRK e dezenas de outros alvos simultaneamente.

Por que larotrectinibe e entrectinibe têm menos efeitos colaterais que a quimioterapia?+

Porque os receptores TRK (TRKA, TRKB, TRKC) têm expressão muito limitada nos tecidos adultos normais — principalmente no sistema nervoso. O bloqueio de TRK pelo larotrectinibe/entrectinibe praticamente não afeta células normais fora do sistema nervoso. Isso explica o perfil de segurança favorável, com as principais toxicidades sendo tontura, fadiga e parestesias — muito diferentes da neutropenia, alopecia e náusea da quimioterapia.

NTRK-positivo é raro em qualquer câncer ou comum em algum tipo específico?+

Ambas as respostas são certas dependendo do ângulo: fusões NTRK são raras em cânceres comuns (<1% em pulmão, cólon, mama) mas muito prevalentes em tumores raros específicos: fibrossarcoma infantil congênito (>90%), carcinoma secretor de mama (~95%) e carcinoma análogo das glândulas salivares. Por isso, é essencial o diagnóstico molecular em todos os tumores avançados, não apenas nos 'suspeitos'.

Se larotrectinibe funciona tão bem, por que as taxas de resposta de entrectinibe são um pouco menores?+

Os dois agentes têm potência comparável contra TRK in vitro. As diferenças nos estudos podem refletir seleção diferente de pacientes, tempo de follow-up e critérios de inclusão — não necessariamente diferença real de eficácia. Entrectinibe tem a vantagem adicional de inibir ROS1 e ALK, ampliando suas indicações. Clinicamente, ambos são considerados equivalentes para NTRK+ sem preferência estabelecida.

Referências Científicas

  1. . , .
  2. . , .
  3. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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