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← Blog·Oncologia de Precisão12 de julho de 2026

Enfortumabe Vedotina e Atezolizumabe em Carcinoma Urotelial: EV-302 (1ª Linha), EV-103, Imunoterapia em Bexiga e a Revolução dos ADCs no Trato Urinário

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Carcinoma urotelial — biologia, estadiamento e o desafio terapêutico histórico

Carcinoma urotelial (CU) — epidemiologia e biologia: CU origina-se do urotélio que reveste bexiga, ureter, pelve renal e uretra. Bexiga: sítio mais comum (90%). Fatores de risco: tabagismo (#1 — responsável por ~50% dos casos), exposição química (aminas aromáticas, corantes), aristolóquia, ciclofosfamida (acrolein metabólito uroteliotóxico), infecção crônica por S. haematobium (carcinoma espinocelular em países endêmicos).

Histologia: carcinoma de células transicionais (urotelial) 90%, carcinoma espinocelular 5%, adenocarcinoma 1%, carcinoma de pequenas células raro.

Classificação e progressão: Não-invasivo de músculo (NMIBC): 75% ao diagnóstico. Ta (papilar superficial), T1 (invasão lâmina própria), Tis (carcinoma in situ). Tratado com ressecção transuretral + BCG intravesical. Alto risco de recidiva e progressão. Invasivo de músculo (MIBC): T2-T4. Cistectomia radical (curetiva) + quimio neoadjuvante (cisplatina-based, MVAC ou GemCis). SG 5 anos ~50-60% após cistectomia curativa. Metastático: N+ ou M1. SG histórica ~15 meses com GemCis.

Biologia molecular do CU metastático: Alta TMB (10-15 mut/Mb) — por mutações APOBEC (citidina deaminase) e DNA damage response deficiente. ERCC2 mutado em ~12% (resposta melhor a cisplatina). FGFR3 mutado/fundido em ~20% (resposta a erdafitinibe). PIK3CA mutado ~20%. RB1 mutado ~20%. TP53 mutado ~50%. HER2 amplificado ~6-7%. Nectina-4 (NECTIN4) altamente superexpressa em >80% dos CU — alvo de enfortumabe vedotina.

Divisão platina-elegível vs. não-elegível: Elegível para cisplatina: PS 0-1, clearance creatinina ≥60 mL/min (Cockcroft-Gault), sem perda auditiva significativa. Não-elegível: CrCl <60, PS ≥2, NYHA III-IV, neuropatia grau ≥2, hipoacusia que requer aparelho. ~50% dos pacientes com CU metastático são cisplatina-inelegíveis.

IO em carcinoma urotelial: IMvigor211, KEYNOTE-052 e KEYNOTE-045

Antes da IO em CU metastático: GemCis (gemcitabina + cisplatina) era o único padrão de 1ª linha para elegíveis (Von der Maase et al., NEJM 2000: GemCis não-inferior a MVAC com melhor tolerância). Para não-elegíveis: carboplatina + gema (GemCarbo) com piores resultados (~12 meses SG). 2ª linha: vinflunina (Europa), taxanos, ifosfamida — ORR 8-15%, SG ~7-9 meses.

IMvigor210 (fase II) — atezolizumabe em CU platina-inelegível 1ª linha: Cohort 1: 119 pacientes CU platina-inelegível. Atezolizumabe 1200 mg q3sem. ORR: 23,5% em IC2/3 (PD-L1 alto). ORR geral: 15%. SG: 15,9 meses. Aprovação acelerada FDA: abril 2016 para CU platina-inelegível 1ª linha (baseada em fase II). Primeiro IO aprovado em CUB.

IMvigor211 (Powles et al., Lancet 2018) — atezolizumabe vs. quimio em CU 2ª linha pós-platina: 931 pacientes CU avançado pós-platina. Atezolizumabe 1200 mg q3sem vs. quimio (taxano ou vinflunina). Todos: SG 11,1 vs. 10,6 meses (HR 0,87 — NS). IC2/3 (PD-L1+): SG 11,1 vs. 10,6 meses (NS).

Estudo NEGATIVO — não demonstrou superioridade a quimio em 2ª linha. Aprovação acelerada baseada em ORR foi retirada em 2021.

KEYNOTE-052 (Balar et al., Lancet Oncol 2017) — pembrolizumabe em CU platina-inelegível 1ª linha: 374 pacientes CU platina-inelegível. Pembrolizumabe 200 mg q3sem. ORR: 29% (PD-L1 CPS≥10: ORR 47%). SG: 11,3 meses. Aprovação acelerada FDA: maio 2017 para CU platina-inelegível 1ª linha.

KEYNOTE-045 (Bellmunt et al., NEJM 2017) — pembrolizumabe vs. quimio em CU 2ª linha pós-platina: 542 pacientes CU avançado pós-platina. Pembrolizumabe 200 mg q3sem vs. quimio (taxano ou vinflunina). SG: 10,3 vs. 7,4 meses (HR 0,73; P=0,002). ORR: 21,1% vs. 11,4%. Aprovação FDA: maio 2017 para CU avançado pós-platina. Primeiro IO com SG positivo em CU 2ª linha. Pembrolizumabe tornou-se padrão de 2ª linha pós-platina.

Enfortumabe vedotina (EV) — ADC anti-nectina-4 e EV-302 em 1ª linha

Enfortumabe vedotina (Padcev®, EV, ASG-22ME): ADC: anticorpo anti-nectina-4 (NECTIN4, PVRL4) humanizado + MMAE via linker protease-clivável. Nectina-4: expresso em >80% dos CU (superfície celular). Ligante de adhesão, envolve diferenciação celular. Internalizado → MMAE (auristatina E, inibidor de tubulina) liberado → morte celular. Bystander killing: MMAE permeável à membrana → cells vizinhas sem nectina-4 também morrem. Dose: 1,25 mg/kg IV D1/D8 q3sem.

EV-101 (fase I) e EV-201 (fase II) — dados iniciais: EV-201: enfortumabe em CU pós-platina e pós-IO. ORR: 44%. SLP: 5,5 meses. SG: 11,7 meses. Aprovação acelerada FDA: dezembro 2019 para CU pós-platina e pós-IO.

EV-103 (fase Ib) — EV + pembrolizumabe em CU 1ª linha platina-inelegível: 45 pacientes CU platina-inelegível. EV 1,25 mg/kg + pembrolizumabe 200 mg q3sem. ORR: 73,3%. CR: 15,6%. SLP: 12,3 meses. Aprovação acelerada FDA: abril 2021 para CU platina-inelegível 1ª linha (EV+pembro).

EV-302 / KEYNOTE-A39 (Powles et al., NEJM 2024) — EV + pembrolizumabe vs. platina+gema em CU 1ª linha: 886 pacientes CU avançado sem tratamento prévio (elegíveis E não-elegíveis para cisplatina). EV 1,25 mg/kg D1/D8 + pembrolizumabe 200 mg q3sem vs. GemCis ou GemCarbo (escolha por elegibilidade a cisplatina).

SG: 31,5 vs. 16,1 meses (HR 0,47; P<0,001). SLP: 12,5 vs. 6,3 meses (HR 0,45; P<0,001). ORR: 67,7% vs. 44,4%.

MAIOR BENEFÍCIO DE SG REGISTRADO EM CU AVANÇADO NA HISTÓRIA. HR 0,47 = 53% de redução no risco de morte.

Aprovação FDA: dezembro 2023 para CU avançado não-tratado (todos — cisplatina-elegíveis E inelegíveis).

Toxicidades de EV: Neuropatia periférica: ~49% qualquer grau, grau ≥3 ~6%. Monitorar cuidadosamente — principal dose-limitante. Rash/reação cutânea: ~40% (MMAE + nectina-4 em pele — nectina-4 é expresso em queratinócitos). Hiperglicemia: ~12% (mesmo sem diabetes — MMAE afeta metabolismo de glicose). Fadiga: ~49%. Alopecia: ~50%. Diarreia: ~21%.

Erdafitinibe FGFR3, sacituzumabe govitecan e a sequência terapêutica atual em CU

Erdafitinibe (Balversa®, JNJ-42756493, Janssen) em CU FGFR3-alterado: Inibidor oral pan-FGFR1-4. FGFR3 mutado (R248C, S249C, G372C, Y373C) ou fundido (FGFR3-TACC3, FGFR3-BAIAP2L1) em ~20% dos CU. Dose: 8 mg/dia → auto-titulado para 9 mg/dia se fosfato sérico <5,5 mg/dL após 14 dias.

BLC2001 (fase II): 99 pacientes CU FGFR3 mutado/fundido pós-platina. ORR: 32,2%. SG: 13,8 meses. Aprovação acelerada FDA: abril 2019 para CU FGFR3 alterado pós-platina.

THOR (Choubassi et al., NEJM 2023, fase III): 266 pacientes CU FGFR3 alterado pós-platina pré-tratado. Erdafitinibe vs. pembrolizumabe ou quimio (irinotecano/docetaxel). Erdafitinibe vs. quimio: SG 12,1 vs. 7,8 meses (HR 0,64; P=0,005). Erdafitinibe vs. pembrolizumabe: SG 10,9 vs. 11,1 meses (HR 1,02 — semelhante). Aprovação regular FDA: abril 2024 para CU FGFR3 alterado pós-platina.

Sacituzumabe govitecan (Trodelvy) em CU — TROPHY-U-01: Trop2 expresso em ~80% dos CU. TROPHY-U-01 (fase II): 113 pacientes CU pós-platina + pós-IO. SG govitecan 10 mg/kg D1/D8 q3sem. ORR: 27,4%. SLP: 5,4 meses. SG: 10,9 meses. Aprovação FDA: abril 2021 para CU avançado pós-platina e pós-IO. Segunda ADC aprovada em CU.

Sequência atual em CUB avançado (2025): 1ª linha (todos — elegíveis e inelegíveis para cisplatina): PREFERIDO: EV + pembrolizumabe (EV-302) — nova 1ª linha padrão ALTERNATIVA se EV indisponível: GemCis (eligíveis) + pembrolizumabe manutenção (JAVELIN Bladder 100) OU pembrolizumabe mono (inelegíveis, PD-L1 CPS≥10, KEYNOTE-052)

2ª linha pós-EV+pembro: quimio padrão (GemCis/GemCarbo se elegíveis) OU sacituzumabe OU erdafitinibe (FGFR3+)

2ª linha pós-GemCis:

  • Pembrolizumabe (KEYNOTE-045) — padrão
  • EV + pembrolizumabe se ainda não usados
  • Erdafitinibe (FGFR3+)
  • Sacituzumabe (pós-platina + pós-IO)

JAVELIN Bladder 100 (Powles et al., NEJM 2020): avelumabe manutenção após 1ª linha platina em CU sem progressão. SG: 21,4 vs. 14,3 meses (HR 0,69; P=0,001). Padrão em pacientes que receberam platina+gema e responderam, como manutenção.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Enfortumabe vedotina mudou o tratamento do câncer de bexiga?+

De forma profunda — o EV-302 é um dos maiores avanços em oncologia urológica das últimas décadas. O estudo comparou enfortumabe vedotina + pembrolizumabe versus quimioterapia com platina em pacientes com câncer urotelial avançado nunca tratados, e o resultado foi extraordinário: sobrevida mediana de 31,5 versus 16,1 meses — uma duplicação da sobrevida. Com HR de 0,47, significa 53% de redução no risco de morte. Isso é o maior benefício de sobrevida já demonstrado em um estudo de fase III no câncer de bexiga avançado. A combinação foi aprovada em 2023 e mudou completamente o padrão de 1ª linha — tanto para pacientes elegíveis quanto para os inelegíveis à cisplatina. Hoje, enfortumabe vedotina + pembrolizumabe é a nova 1ª linha padrão para câncer urotelial metastático.

O que é nectina-4 e por que é um bom alvo para o câncer de bexiga?+

Nectina-4 (NECTIN4) é uma proteína de adesão celular que está altamente superexpressa em mais de 80% dos carcinomas uroteliais — muito mais do que em tecidos normais. Essa expressão diferencial é ideal para um ADC (anticorpo conjugado a fármaco): o anticorpo (anti-nectina-4) leva o agente quimioterápico (MMAE, um inibidor de tubulina) especificamente para as células tumorais, poupando relativamente os tecidos normais. A nectina-4 fica na superfície celular e é internalizada rapidamente após ser reconhecida pelo anticorpo, permitindo que o MMAE entre na célula e a destrua. Além disso, MMAE é levemente permeável à membrana — pode sair da célula atingida e também matar células vizinhas com menos nectina-4 (efeito 'bystander'). Essa combinação de alta expressão no alvo + internalização eficiente + bystander killing torna nectina-4 um alvo quase ideal.

Todo câncer de bexiga avançado deve fazer sequenciamento genético?+

Recomenda-se fortemente, especialmente para identificar alterações de FGFR3 (~20% dos CU) e outras alterações acionáveis. Com FGFR3 mutado ou fundido, erdafitinibe é uma opção aprovada em 2ª linha pós-platina, com ORR de 32% e superioridade à quimioterapia (estudo THOR). Além disso, o teste de MSI-H/TMB-H pode identificar pacientes que respondem excepcionalmente bem à imunoterapia. HER2 amplificado (~6-7%) tem terapias em investigação. Na prática, o NGS deve ser feito no momento do diagnóstico de doença avançada ou ao progressão — tendo em conta que no cenário atual (EV+pembro em 1ª linha), os resultados do sequenciamento guiarão as escolhas após a progressão.

Imunoterapia é eficaz no câncer de bexiga?+

Sim — especialmente quando combinada com enfortumabe vedotina (EV+pembro, EV-302). Quando usada isolada, pembrolizumabe é o mais eficaz dos anti-PD-1/PD-L1 no CU: em 2ª linha pós-platina (KEYNOTE-045), superou a quimioterapia em sobrevida (10,3 vs. 7,4 meses, redução de 27% no risco de morte). Em 1ª linha para pacientes inelegíveis à cisplatina, pembrolizumabe é aprovado com ORR ~29% e 47% em PD-L1 alto. A IO isolada em 2ª linha do carcinoma urotelial tem ORR de ~20-25% — modesta, mas com duração de resposta longa em respondedores (~30% dos respondedores ainda em remissão em 2 anos). A revolução real foi a combinação com EV — que dobrou a taxa de resposta (68% vs. 44%) e sobrevida global em 1ª linha.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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