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← Blog·Oncologia de Precisão07 de julho de 2026

Inibidores de Receptor de Andrógeno de 2ª Geração (ARPIs) em Câncer de Próstata: Darolutamida (ARAMIS/ARASENS), Apalutamida (SPARTAN/TITAN) e Enzalutamida (PROSPER/ARCHES/ENZAMET)

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Biologia do receptor de andrógeno e vias de resistência à castração

Receptor de Andrógeno (RA) — papel no câncer de próstata: RA é um receptor nuclear da família esteróide. Em próstata normal e no tumor: DHT (diidrotestosterona, mais potente) e testosterona ligam-se ao RA → RA ativa transcrição de genes de sobrevida, proliferação, antiapoptose (PSA, TMPRSS2, KLK2).

Supressão androgênica (castração) = bloqueio do RA por privação de andrógeno. Castração química: agonistas GnRH (LHRH agonistas: leuprolida, goserelina) ou antagonistas GnRH (degarelix, relugolix). Castração cirúrgica (orquiectomia bilateral). PSA cai, tumor regride — resposta em >90% dos casos.

CRPC (Câncer de Próstata Resistente à Castração): Após 18-24 meses de ADT em média, o tumor escapa → CRPC (PSA em ascensão com níveis de testosterona de castração <50 ng/dL). Mecanismos de resistência:

  • Amplificação de RA (mais RA → ativado mesmo com pouco androgênio)
  • Mutações de RA (RA-mutado ativado por outros ligantes: bicalutamida/estrógenos — antagonistas tornam-se agonistas)
  • Splicing alternativo RA-V7 (variante sem domínio de ligação ao ligante → ativo sem DHT; resistência a enzalutamida/apalutamida)
  • Síntese intratumoral de andrógenos (tumor faz sua própria DHT via CYP17A1 → acetato de abiraterona inibe CYP17)
  • Bypass vias não-RA: PI3K/AKT, WNT, neuroendócrina

ARPIs de 1ª e 2ª geração: Bicalutamida (Casodex): antagonista parcial de RA de 1ª geração — atividade agonista residual, especialmente em RA amplificado. Pouco eficaz em CRPC. Enzalutamida/apalutamida/darolutamida: ARPIs de 2ª geração — antagonistas puros de RA, também inibem translocação nuclear e ligação ao DNA do RA. Sem atividade agonista. Abiraterona: não é ARPI mas atua via CYP17 inibição (abordagem diferente da mesmo via).

AFFIRM, PROSPER, ARCHES e ENZAMET: enzalutamida em CRPC e mCSPC

Enzalutamida (Xtandi®, MDV3100): ARPI puro: antagonismo competitivo do ligante ao RA + bloqueia translocação nuclear + bloqueia ligação ao DNA. Dose: 160 mg/dia oral (4 cápsulas de 40 mg). Metabolismo: CYP3A4 + CYP2C8. Indutor potente de CYP3A4 → muitas interações medicamentosas. Toxicidade: fadiga, hipertensão, quedas/fraturas, náusea. ALERTA: convulsões em ~0,5% (GABA-A antagonismo leve); evitar em antecedente de epilepsia.

AFFIRM (Scher et al., NEJM 2012) — enzalutamida pós-docetaxel em mCRPC: 1199 pacientes mCRPC pós-docetaxel. Enzalutamida 160 mg/dia vs. placebo + ADT. SG: 18,4 vs. 13,6 meses (HR 0,63; P<0,001). ORR PSA: 54% vs. 2%. Aprovação FDA: agosto 2012.

PREVAIL (Beer et al., NEJM 2014) — enzalutamida pré-quimio em mCRPC: Enzalutamida vs. placebo em mCRPC não-tratado com quimioterapia. SG: 32,4 vs. 30,2 meses (HR 0,71). SLP por imagem: 20,0 vs. 5,4 meses. Aprovação FDA: setembro 2014 para mCRPC sem quimio prévia.

PROSPER (Hussain et al., NEJM 2018) — enzalutamida em nmCRPC (PSA em ascensão sem metástases): 1401 pacientes nmCRPC com PSA doubling time ≤10 meses (alto risco de metástases). Enzalutamida vs. placebo + ADT. MFS (metastasis-free survival): 36,6 vs. 14,7 meses (HR 0,29; P<0,001). SG: 67,0 vs. 56,3 meses (HR 0,73). Aprovação FDA: julho 2018 para nmCRPC alto risco.

ARCHES (Armstrong et al., NEJM 2019) — enzalutamida em mCSPC (recém-diagnosticado metastático hormônio-sensível): 1150 pacientes mCSPC. Enzalutamida + ADT vs. placebo + ADT. rPFS: não atingida vs. 19,0 meses (HR 0,39; P<0,001). SG: HR 0,66 (P=0,0018). Aprovação FDA: dezembro 2019 para mCSPC.

ENZAMET (Davis et al., Lancet 2019) — enzalutamida em mCSPC (incluindo docetaxel pré-planejado): 1125 pacientes mCSPC. Enzalutamida + ADT vs. ARPI 1ª geração (bicalutamida/nilutamida/flutamida) + ADT. SG: 67% vs. 57% a 3 anos (HR 0,67; P=0,002). Estratificado por docetaxel pré-planejado: enzalutamida funciona independente de docetaxel. Aprovação (combinado com ARCHES).

Apalutamida (SPARTAN e TITAN) e darolutamida (ARAMIS e ARASENS)

Apalutamida (Erleada®, ARN-509): ARPI de 2ª geração similar a enzalutamida. Diferencial: sem convulsões (menor penetração no SNC vs. enzalutamida). Dose: 240 mg/dia oral (4 comprimidos de 60 mg). Indutor de CYP3A4 e CYP2C19. Toxicidade: rash cutâneo em ~24% (mais que enzalutamida ~1%), hipotireoidismo (~8%), fraturas.

SPARTAN (Smith et al., NEJM 2018) — apalutamida em nmCRPC: 1207 pacientes nmCRPC alto risco (PSA DT ≤10 meses). Apalutamida 240 mg + ADT vs. placebo + ADT. MFS: 40,5 vs. 16,2 meses (HR 0,28; P<0,001). SG: 73,9 vs. 59,9 meses (HR 0,78; P=0,016). Aprovação FDA: fevereiro 2018 para nmCRPC — primeiro ARPI aprovado nesse setting.

TITAN (Chi et al., NEJM 2019) — apalutamida em mCSPC: 1052 pacientes mCSPC. Apalutamida 240 mg + ADT vs. placebo + ADT (docetaxel prévio permitido em até 30%). rPFS: não atingida vs. 22,1 meses (HR 0,48; P<0,001). SG: 82,4% vs. 74,2% a 2 anos (HR 0,67; P=0,005). Aprovação FDA: setembro 2019 para mCSPC.

Darolutamida (Nubeqa®, ODM-201): ARPI com estrutura química diferente (diariltiohidantoína). Diferencial crítico: baixa penetração no SNC (praticamente sem atividade no cérebro) → sem risco de convulsões (mesmo em pacientes com epilepsia pré-existente). Não indutor de CYP3A4 (menos interações medicamentosas). Dose: 600 mg 2×/dia oral.

ARAMIS (Fizazi et al., NEJM 2019) — darolutamida em nmCRPC: 1509 pacientes nmCRPC alto risco. Darolutamida 600 mg 2×/dia + ADT vs. placebo + ADT. MFS: 40,4 vs. 18,4 meses (HR 0,41; P<0,001). SG: 83,2% vs. 76,4% a 3 anos (HR 0,69; P=0,0036). Aprovação FDA: julho 2019 para nmCRPC alto risco.

ARASENS (Smith et al., NEJM 2022) — darolutamida + docetaxel + ADT em mCSPC (tripla terapia): 1306 pacientes mCSPC. Darolutamida 600 mg 2×/dia + ADT + docetaxel (75 mg/m² q3sem × 6) vs. placebo + ADT + docetaxel. SG: HR 0,68 (P<0,001); 4 anos: 62,7% vs. 50,4%. rPFS: HR 0,36. Aprovação FDA: fevereiro 2022 para mCSPC — primeiro regime de tripla terapia (ADT + docetaxel + ARPI) aprovado.

Abiraterona + prednisona, BRCA/HRD e perspectivas de combinações

Acetato de abiraterona (Zytiga®, Yonsa®): Inibidor de CYP17A1 (enzima de síntese de andrógenos nas glândulas suprarrenais e intratumoral) → reduz DHEA e androstenediona → reduz DHT intratumoral. Dose: 1000 mg/dia (4 comprimidos 250 mg) em jejum + prednisona 5 mg 2×/dia (para compensar supressão de cortisol → sem prednisona → síndrome de excesso de mineralocorticoide: HAS, hipocalemia, edema). Formulação melhorada: abiraterona acetato fino (Yonsa® 500 mg) com alimento — menor dose, sem necessidade de jejum.

COU-AA-301 (de Bono et al., NEJM 2011): abiraterona pós-docetaxel em mCRPC. SG: 14,8 vs. 10,9 meses (HR 0,65). COU-AA-302 (Ryan et al., NEJM 2013): pré-quimio em mCRPC. Ambos estabelecidos.

LATITUDE (Fizazi et al., NEJM 2017) e STAMPEDE (James et al., NEJM 2017): abiraterona em mCSPC alto risco. SG: HR ~0,62 em LATITUDE. Aprovação FDA: fevereiro 2018 para mCSPC.

PROfound e OLAPARIBE em CRPC BRCA/HRD (coberto em C304 PARP): Olaparibe: PROfound (coorte A BRCA1/2): SG 19,1 vs. 14,7 meses. Aprovação: mCRPC BRCA1/2 pós-ARPI. Rucaparibe: TRITON3: mCRPC BRCA1/2 pré-quimio.

Lutetium-177 PSMA (177Lu-PSMA-617, Pluvicto®): Radioligand therapy: 177Lu ligado a PSMA-617 (PSMA = prostate-specific membrane antigen). VISION (Sartor et al., NEJM 2021): 831 pacientes mCRPC PSMA+ pós-ARPI e docetaxel. 177Lu-PSMA + atendimento padrão vs. atendimento padrão. SG: 15,3 vs. 11,3 meses (HR 0,62; P<0,001). rPFS: 8,7 vs. 3,4 meses. Aprovação FDA: março 2022 para mCRPC PSMA+ pós-ARPI + docetaxel.

Sequência atual em câncer de próstata (2025): mCSPC: ADT + ARPI (apalutamida/darolutamida/enzalutamida) OU ADT + abiraterona OU ADT + docetaxel + darolutamida (ARASENS). Alto volume: tripla terapia preferida. nmCRPC: ARPI (apalutamida/darolutamida/enzalutamida) + ADT. mCRPC sem ARPI prévio: ARPI + ADT (ou olaparibe se BRCA+). mCRPC pós-ARPI: abiraterona (se não usada), docetaxel, cabazitaxel, 177Lu-PSMA, olaparibe (BRCA), pembrolizumabe (MSI-H).

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Qual é a diferença entre enzalutamida, apalutamida e darolutamida?+

Os três são inibidores de receptor de andrógeno de 2ª geração (ARPIs) muito similares em eficácia para câncer de próstata, mas têm diferenças importantes de segurança: Enzalutamida (Xtandi) foi o primeiro — tem risco baixo mas real de convulsões (~0,5%) e penetra bem no cérebro; não recomendado em quem tem histórico de epilepsia. Apalutamida (Erleada) tem risco menor de convulsões que enzalutamida, mas causa rash cutâneo com mais frequência (~24%) e pode causar hipotireoidismo. Darolutamida (Nubeqa) tem a estrutura química mais diferente: praticamente não atravessa a barreira hematoencefálica → sem risco de convulsões, pode ser usado em epilépticos; tem menos interações medicamentosas (não induz CYP3A4); 600 mg 2× ao dia (menos conveniente que os outros, que são dose única). Na prática, darolutamida é preferida em pacientes com epilepsia ou que tomam muitas medicações; enzalutamida ou apalutamida em primeira escolha geral.

O que é câncer de próstata hormônio-sensível metastático (mCSPC)?+

mCSPC (metastatic Castration-Sensitive Prostate Cancer) é o câncer de próstata que já se espalhou para outros órgãos (metastático) mas ainda responde à privação androgênica (ADT). É diferente do CRPC (resistente à castração), onde o tumor cresceu apesar do bloqueio hormonal. A distinção é importante porque o tratamento é diferente: em mCSPC, combinar ADT com um ARPI (apalutamida, darolutamida, enzalutamida) ou abiraterona melhora significativamente a sobrevida — estudos como TITAN, ARCHES e ARASENS mostraram reduções de 30-50% no risco de morte. A tripla terapia (ADT + docetaxel + darolutamida, estudo ARASENS) foi a primeira combinação de 3 medicamentos a mostrar benefício de sobrevida em mCSPC, especialmente em tumores de alto volume metastático. Hoje, monoterapia com ADT em mCSPC é considerada tratamento subótimo.

Por que o câncer de próstata fica resistente à hormonioterapia?+

O câncer de próstata inicialmente depende dos hormônios masculinos (andrógenos — testosterona e DHT) para crescer. Quando bloqueamos esses hormônios com ADT (castração química ou cirúrgica), o tumor regride. Mas ao longo de 18-24 meses, as células tumorais desenvolvem mecanismos de escape: (1) amplificam o receptor de andrógeno — fazem muito mais receptores, captando qualquer resíduo de andrógeno disponível; (2) mutam o receptor para que ele seja ativado por outras substâncias (até pelos próprios bloqueadores de andrógeno mais antigos!); (3) produzem andrógenos dentro do próprio tumor, independente das glândulas suprarrenais; (4) desenvolvem uma variante do receptor (RA-V7) que funciona sem andrógeno. Os ARPIs de 2ª geração (enzalutamida, apalutamida, darolutamida) foram desenvolvidos para superar os dois primeiros mecanismos — são antagonistas muito mais potentes do receptor.

O que é 177Lu-PSMA e para quem é indicado no câncer de próstata?+

177Lu-PSMA (Pluvicto) é uma 'radioligand therapy' — um medicamento radioativo que se direciona especificamente para células do câncer de próstata. PSMA (antígeno de membrana específico da próstata) é uma proteína muito expressa em ~80% dos cânceres de próstata metastáticos. O medicamento tem dois componentes: um ligante (PSMA-617) que se prende ao PSMA nas células tumorais, e um radioisótopo (Lutécio-177) que emite radiação beta de curto alcance, destruindo as células próximas. O estudo VISION mostrou que prolonga a sobrevida de 11,3 para 15,3 meses em pacientes já tratados com ARPI e docetaxel. É indicado para mCRPC (resistente à castração) que expressa PSMA (confirmado por PET scan com PSMA) e já recebeu ARPI e quimioterapia baseada em taxano. Antes de fazer o tratamento, é obrigatório um PET scan com ligante de PSMA para confirmar que o tumor realmente expressa o alvo.

Referências Científicas

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