Cromo: Elemento Raro, Função Insulínica
O Micronutriente da Sensibilidade à Insulina
Cromo (Cr) — Metal de Transição (Grupo 6, Z=24):
- Dois estados biologicamente relevantes:
- Cr³⁺ (Cromo trivalente): ESSENCIAL, presente nos alimentos, no corpo humano, não-tóxico - Cr⁶⁺ (Cromo hexavalente): TÓXICO e carcinogênico — usado em galvanoplastia, não existe em alimentos
- Necessidade diária (AI): 25-35 µg/dia
- Corpo humano contém apenas ~2-6 mg total de Cr³⁺
Fontes alimentares de Cr³⁺:
- Levedura de cerveja: Fonte mais rica (~60 µg/100g)
- Fígado bovino: ~55 µg/100g
- Ostras: ~57 µg/100g
- Grãos integrais: 5-15 µg/100g
- Brócolis: ~11 µg/100g
- Alimentos processados com açúcar: Perdem Cr (refinamento remove; açúcar na dieta também aumenta perda urinária)
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GTF e Cromidulina: Mecanismo Molecular
Como o Cromo Potencializa a Insulina
GTF (Glucose Tolerance Factor):
- Complexo postulado originalmente por Mertz e Schwartz nos anos 1950-1970
- Composição proposta: Cr³⁺ + nicotinamida + glutamato + cisteína + glicina
- Isolado originalmente de levedura de cerveja
- Estrutura exata nunca totalmente caracterizada (ainda há debate científico)
- Mecanismo: GTF age como cofator da insulina — potencializa ligação da insulina ao IR e sinalização downstream
Cromidulina (Low-Molecular-Weight Chromium-binding Substance, LMWCr):
- Tetrapeptídeo com sequência Asp-Glu-Gly-Ala (e outros aminoácidos quelando Cr³⁺)
- Descoberta por Vincent (2000, PNAS)
Ciclo da Cromidulina (Modelo de Vincent): ``` Jejum: Apocromidulina (sem Cr³⁺) reside no citossol de células-alvo de insulina
Após refeição/insulina: Insulina → IR (receptor de insulina) → IR ativado → sinalização intracelular ↓ Influxo de Cr³⁺ do sangue para a célula ↓ Apocromidulina + 4 Cr³⁺ → Holocromidulina (forma ativa) ↓ Holocromidulina → liga ao domínio quinase do IR (ativado) ↓ Ativa tirosina quinase do IR → amplifica sinalização: IR → IRS-1 → PI3K → AKT → GLUT4 ↓ Mais translocação de GLUT4 → mais captação de glicose na célula ```
Papel: Cromidulina = amplificador de sinal da insulina (quando Cr³⁺ disponível)
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Deficiência de Cromo
Casos Clínicos Clássicos
Primeiro caso de deficiência de Cr³⁺ em humanos (Jeejeebhoy KN, *Am J Clin Nutr*, 1977):
- Paciente em nutrição parenteral total (NPT) prolongada sem Cr³⁺ → hiperglicemia severa refratária a insulina
- Adição de Cr³⁺ intravenoso → reversão completa em dias
- Esse caso e mais 2-3 similares estabeleceram a essencialidade do Cr³⁺
Grupos de risco de deficiência:
- Nutrição parenteral prolongada sem Cr³⁺ supplementado
- Idosos (absorção reduzida)
- Consumo alto de açúcar refinado (aumenta excreção urinária de Cr³⁺)
- Atletas de alto desempenho? (perda pelo suor, maior demanda) — evidência fraca
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Evidências em Diabetes Tipo 2
O Que os Estudos Mostram
Meta-análises e Cochrane Reviews:
- Althuis MD et al. (*Am J Clin Nutr*, 2002): 20 ensaios clínicos randomizados → resultados MISTOS; não possível concluir claramente
- Balk EM et al. (*Diabetes Care*, 2007): Picolinato Cr → Redução de HbA1c em populações com DM2 já diagnosticado, mas estudos de baixa qualidade
- Costello RB et al.: Poucos estudos de alta qualidade em DM2; benefício inconclusivo
Estudo Positivo (Anderson RA, 1997, *Diabetes*):
- 180 participantes chineses com DM2 × 4 meses
- Cr 1.000 µg/dia (picolinato) → redução de HbA1c de 8,5% para 7,5% vs. placebo
- Críticas: Populações chinesas têm mais chances de deficiência de Cr (dieta diferente); resultados não replicados na mesma magnitude em populações ocidentais
Por que os resultados são inconsistentes:
- A maioria dos estudos usa populações com Cr³⁺ adequado → suplementar em suficientes não ajuda
- Qualidade dos estudos é baixa
- Difícil medir deficiência de Cr (biomarcadores inadequados)
- Heterogeneidade: Diferentes formas de Cr, doses, populações
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Picolinato de Cromo
A Forma Mais Usada como Suplemento
Picolinato de Cromo = Cr³⁺ + ácido picolínico (3-piridinacarboxílico, metabolito do triptofano):
- Quelato lipofílico → melhor absorção intestinal (~2-3× mais absorvível que CrCl₃)
- Gary Evans (USDA) desenvolveu e patenteou nos anos 1980
- Forma mais vendida em suplementos para: perda de peso, resistência insulínica, melhora de composição corporal
Outras formas de suplemento:
- Cloreto de Cromo (CrCl₃): Baixa biodisponibilidade (~0,5-2%)
- Cromo Nicotinato (Cr + nicotinamida): Forma do GTF original
- Cromo GTF de Levedura: Mais biodisponível, mais cara
Segurança do picolinato:
- Estudos em animais: Picolinato de Cr em doses muito altas → dano oxidativo de DNA (controverso)
- Em humanos nas doses usuais (200-1000 µg/dia): Considerado seguro
- UL: Não estabelecido formalmente pelo IOM (dados insuficientes); FDA considera 200 µg/dia como "safe and adequate"
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Referências
- Jeejeebhoy KN, et al. "Chromium deficiency, glucose intolerance, and neuropathy reversed by chromium supplementation in a patient receiving long-term total parenteral nutrition." *Am J Clin Nutr.* 1977;30(4):531–538.
- Anderson RA, et al. "Elevated intakes of supplemental chromium improve glucose and insulin variables in individuals with type 2 diabetes." *Diabetes.* 1997;46(11):1786–1791.
- Balk EM, et al. "Effect of chromium supplementation on glucose metabolism and lipids." *Diabetes Care.* 2007;30(8):2154–2163.
- Vincent JB. "The biochemistry of chromium." *J Nutr.* 2000;130(4):715–718.
- Althuis MD, et al. "Glucose and insulin responses to dietary chromium supplements: a meta-analysis." *Am J Clin Nutr.* 2002;76(1):148–155.
- Cefalu WT, Hu FB. "Role of chromium in human health and in diabetes." *Diabetes Care.* 2004;27(11):2741–2751.