MET/HGF e a via de sinalização: biologia e papel em CPNPC
MET — receptor tirosina quinase de HGF: MET (mesenchymal-epithelial transition factor) é um receptor tirosina quinase que liga o Hepatocyte Growth Factor (HGF, também chamado scatter factor). Quando HGF se liga ao MET, ocorre:
- Homodimerização de MET
- Transfosforilação de resíduos no domínio quinase (Y1234/Y1235)
- Recrutamento de proteínas adaptadoras (GRB2, SOS, SHC, GAB1)
- Ativação de RAS/RAF/MEK/ERK, PI3K/AKT/mTOR, STAT3
Funções fisiológicas de MET: Embriogênese (migração de células musculares), cicatrização de feridas, invasão trofoblástica. Em adultos, MET é principalmente regulado e ativo apenas em contextos de reparo tecidual.
Alterações de MET em câncer: MET pode ser ativado oncogenicamente por múltiplos mecanismos, TODOS com relevância clínica diferente:
- METex14 skipping (mutações de splicing): a mais acionável com capmatinibe/tepotinibe — 3-4% dos CPNPCs
- Amplificação de MET: número de cópias aumentado — bypass de resistência a EGFR-TKI (~5-10% dos CPNPCs pós-osimertinibe); primária em ~2%
- Mutação de MET no kinase domain (M1268T, D1246N, Y1248H): resistência adquirida a capmatinibe/tepotinibe
- Fusão de MET (ex.: KIF5B-MET): raro, mas acionável
Frequência de METex14 em CPNPC: ~3-4% dos adenocarcinomas de pulmão. Mais frequente em: idosos (mediana >70 anos), sexo feminino, não-fumantes. Mutuamente não-exclusivo com amplificação de MET (às vezes coexistem — pior prognóstico).
Éxon 14 skipping: como uma mutação de splicing ativa o MET
Estrutura do MET e o éxon 14: O éxon 14 do gene MET codifica o domínio justaMembranar (juxta-membrana, JM) da proteína — uma região que contém a tirosina Y1003. Esta tirosina, quando fosforilada, recruta a E3 ubiquitina ligase CBL, que ubiquitina MET → degradação via proteassoma.
O mecanismo do éxon 14 skipping: Mutações no sítio de splicing do éxon 14 (doador ou acepedor de splice, ou mutações dentro do éxon que alteram reconhecimento) → o esplicossomo pula o éxon 14 inteiro → mRNA sem éxon 14 → proteína MET sem o domínio justaMembranar.
Consequências: MET sem éxon 14 perde Y1003 → CBL não consegue ubiquitinar → MET não é degradado → acúmulo de MET na superfície celular → sinalização contínua quando HGF está presente (ou mesmo basal). METex14 NÃO é constitutivamente ativo como KRAS-G12C — ele precisa de HGF. Mas como MET está presente em densidade muito maior e não é degradado, a sinalização é amplificada.
Detecção: METex14 é detectado por RNA-seq (RNA sequencing) ou NGS em DNA. Importante: NGS em DNA pode perder alguns casos de METex14 se a mutação for introônica e fora do painel. RNA-seq é mais sensível. Biopsia líquida (ctDNA) detecta com sensibilidade ~60-70%.
Heterogeneidade do METex14: Há >200 variantes de METex14 skipping descritas (diferentes posições no sítio de splice). A maioria tem apresentação clínica similar. METex14 coexistindo com amplificação de MET tem pior prognóstico e pode ser menos responsivo.
GEOMETRY Mono-1 (capmatinibe) e VISION (tepotinibe): aprovações FDA
Capmatinibe — GEOMETRY Mono-1 (Wolf et al., NEJM 2020): Fase II, não randomizado. 97 pacientes com CPNPC METex14 avançado. Capmatinibe 400 mg BID.
Resultados por linha:
- Não-tratados (1ª linha, n=28): ORR 68%. DOR: 12,6 meses. SLP: 12,4 meses.
- Pré-tratados (2ª+ linha, n=69): ORR 41%. DOR: 9,7 meses. SLP: 5,4 meses.
- Subgrupo com amplificação de MET alta (GCN≥10): ORR 29-40% (menor que METex14).
Aprovação FDA: Maio 2020 — capmatinibe para CPNPC adulto METex14 skipping. Primeira aprovação para METex14 em qualquer tumor.
Tepotinibe — VISION (Paik et al., NEJM 2020): Fase II, braço único. 152 pacientes com CPNPC METex14. Tepotinibe 500 mg QD.
Resultados: ORR: 46% (investigador) / 44% (revisão independente). DOR mediana: 11,1 meses. SLP: 8,5 meses. SG: 17,1 meses.
Aprovação FDA: Fevereiro 2021 — tepotinibe para CPNPC adulto METex14. Dose única diária (vantagem logística vs. capmatinibe BID).
Comparação capmatinibe vs. tepotinibe: Sem cabeça-a-cabeça. ORR comparáveis (41-68% dependendo linha). Capmatinibe BID (400 mg×2) vs. tepotinibe QD (500 mg). Tepotinibe: conveniência de dose única. Capmatinibe: dados de 1ª linha especificamente fortes (ORR 68%). Na prática, a disponibilidade e guideline local guiam a escolha.
Resistência a MET-TKI e estratégias emergentes
Resistência adquirida a capmatinibe/tepotinibe: Como em outros TKIs, resistência emerge tipicamente em mediana de 8-12 meses. Mecanismos identificados:
On-target (mutações em MET):
- D1228N/H/Y: mutação no P-loop de MET → reduz ligação dos inibidores Tipo I (capmatinibe, tepotinibe são Tipo Ib)
- Y1230C/H/S: activation loop mutation — semelhante ao T315I do BCR-ABL
- D1246N: mutação mais rara no activation loop
Off-target (bypass de sinalização):
- Amplificação de EGFR, ativação de KRAS/NRAS: sinalizam downstream via RAS independentemente de MET
- Fusão de RET, NTRK: ativação de vias alternativas
- Mutação de PIK3CA: ativa PI3K diretamente
Amplificação de MET como mecanismo de resistência: Paradoxalmente, células METex14+ podem ganhar amplificação de MET, resultando em mais sinal do que o TKI consegue suprimir.
Estratégias para superar:
- Inibidores Tipo II de MET (cabozantinibe, savolitinibe, glumetinib): ligam-se na conformação inativa de MET — cobrem D1228N/Y1230C. Ensaios em pós-capmatinibe/tepotinibe mostram atividade.
- Combinação MET-TKI + EGFR-TKI: em resistência por ativação de EGFR.
- Anticorpos bispecíficos: amivantamabe (EGFR+MET bispecífico) — aprovado em CPNPC EGFR, tem atividade em METex14.
- ADC anti-MET: telisotuzumabe vedotina (c-Met-ADC) — em ensaio fase II para METex14 e amplificação de MET.
Biopsia líquida em progressão: ctDNA no momento da progressão identifica mecanismos de resistência em ~50-60% dos casos — guia a escolha de tratamento subsequente.
Toxicidades, interações e manejo clínico
Capmatinibe (400 mg BID) — toxicidades:
- Edema periférico: 51% (grau 3: 8-10%) — a toxicidade mais característica. Mecanismo: MET em células endoteliais/epiteliais do rim (regulação de fluidos). Diuréticos (furosemida) e meias de compressão.
- Náusea: 45% (grau 3: <5%)
- Fadiga: 37%
- Dispneia: 25%
- Elevação de creatinina: 15-20% (geralmente grau 1-2, monitorar)
- Pneumonite intersticial: rara mas potencialmente grave (<3%)
Tepotinibe (500 mg QD) — toxicidades: Perfil similar ao capmatinibe.
- Edema: 63% (grau 3+: 9%)
- Náusea: 26%
- Diarreia: 25%
- Fadiga: 22%
- Dispneia: 14%
Interações medicamentosas: Ambos são substratos de CYP3A4. Evitar indutores fortes de CYP3A4 (rifampicina, fenitoína, carbamazepina — reduzem exposição). Inibidores fortes de CYP3A4 (cetoconazol, itraconazol) aumentam exposição. Tepotinibe também inibe P-gp e BCRP — aumenta exposição de substratos como dabigatrana.
Manejo do edema: O edema periférico é o principal obstáculo à adesão. Estratégias:
- Antecipação: informar o paciente no início do tratamento
- Restrição de sal na dieta
- Meias de compressão grau II desde o início
- Furosemida 20-40 mg se grau 2-3
- Redução de dose se grau 3 persistente
Monitoramento: Função renal (creatinina) mensalmente. Eletrólitos. Sintomas pulmonares (pneumonite). Peso e avaliação de edema em cada consulta.