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← Blog·Oncologia de Precisão29 de julho de 2026

Câncer de Colo do Útero: Pembrolizumabe (KEYNOTE-826 e KEYNOTE-A18), Tisotumabe Vedotina (innovaTV 301), Bevacizumabe (GOG 240) e Rucaparibe em Recaída

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Câncer cervical — epidemiologia, HPV, estadiamento FIGO e tratamento curativo

Epidemiologia: Câncer cervical: 4ª neoplasia mais frequente em mulheres mundialmente (~600.000 casos/ano). No Brasil: 2ª mais frequente após mama em algumas regiões. Mortalidade desproporcional em países de baixa/média renda (acesso limitado a rastreio e vacinação). Vacinação HPV (9-valente, Gardasil 9): protege contra HPV 16, 18 (causam ~70% dos cervicais), 31, 33, 45, 52, 58, 6, 11. Rastreio (Papanicolaou): detecta lesões pré-malignas (LSIL, HSIL, CIN).

Histologia: Carcinoma escamoso: ~70-80% (cervix). Adenocarcinoma: ~20-25% (endocervical). Adenoescamoso, outros: raros.

HPV e carcinogênese: HPV 16/18 → proteínas E6 (degrada TP53) e E7 (inativa pRb) → instabilidade genômica → CIN1→CIN2→CIN3→carcinoma invasivo. Processo leva 10-15 anos — janela para rastreio e tratamento. Vacina antes da exposição ao HPV (antes do início sexual): alta eficácia (>90% contra HPV 16/18). Vacina após infecção: protege contra outros tipos não adquiridos.

Estadiamento FIGO 2018 (clínico-patológico + imagem): FIGO 2018 (revisado): permite uso de imagem e biópsia para estadiamento. IA1: microinvasivo (profundidade ≤3mm). IA2: 3-5mm profundidade. IB1: ≤2 cm. IB2: 2-4 cm. IB3: >4 cm. IIA: extensão vaginal sem paramétrios. IIB: extensão paramétrial. IIIA: 1/3 inferior vagina. IIIB: parede pélvica/hidronefrose. IIIC: linfonodos pélvicos (C1) ou para-aórticos (C2). IVA: bexiga/reto. IVB: metástase à distância.

Tratamento curativo: IA1 sem LVI: conização (fertilidade) ou histerectomia simples. IA2-IB1: histerectomia radical + linfadenectomia pélvica (Wertheim-Meigs) OU RT definitiva. IB2-IVA (localmente avançado): CRT definitiva (cisplatina semanal 40 mg/m² + RT 45-50 Gy pélvico + braquiterapia) → SG a 5 anos ~55-70%. FIGO IB3-IVA: CRT → avaliação resposta → histerectomia em selecionados. Adjuvante pós-histerectomia com fatores adversos: RT ± cisplatina.

KEYNOTE-A18 (IO + CRT local avançado) e GOG 240 (bevacizumabe no metastático)

KEYNOTE-A18 (Lorusso D et al., Lancet 2024, fase III) — pembrolizumabe + CRT em cervical localmente avançado: 1060 pacientes carcinoma cervical FIGO 2014 IB2-IVA (localmente avançado não-metastático). Pembrolizumabe 200 mg q3w × 5 doses (durante CRT) → pembrolizumabe 400 mg q6w × 15 doses (manutenção) + cisplatina 40 mg/m²/semana + RT (45-50,4 Gy pélvico ± linfonodos para-aórticos + braquiterapia) vs. placebo + CRT.

SLP a 24 meses: 67,8% vs. 57,3% (HR 0,70; P=0,0020). SG a 24 meses: 87,4% vs. 80,8% (HR 0,73; P=0,0040). Benefício em todos os subtipos histológicos e estadios. Aprovação FDA: janeiro 2024 para cervical localmente avançado (FIGO IB2-IVA) + CRT. Implicações: pembrolizumabe adicionado à CRT padrão é o novo padrão em localmente avançado. PD-L1 não foi preditor necessário — tratamento indica-se para todos os localmente avançados.

GOG 240 (Tewari KS et al., NEJM 2014; SG 2017, fase III) — bevacizumabe no cervical metastático: 452 pacientes carcinoma cervical recidivado/metastático. 2×2 factorial: cisplatina + paclitaxel ± bevacizumabe vs. topotecan + paclitaxel ± bevacizumabe. Anáise de bevacizumabe vs. não-bevacizumabe: SG: 17,0 vs. 13,3 meses (HR 0,71; P=0,004). ORR: 48% vs. 36%. Bevacizumabe: primeiro agente a melhorar SG em cervical metastático. Aprovação FDA: agosto 2014. Toxicidade: fistula (6% com bev vs. 1% sem — atenção em pélvica prévia irradiada), HAS, trombose. Cisplatina + paclitaxel + bevacizumabe: padrão em cervical metastático (1ª linha, sem IO, há 10 anos).

KEYNOTE-826 (pembro + 1ª linha metastático) e tisotumabe vedotina (innovaTV 301)

KEYNOTE-826 (Colombo N et al., NEJM 2021; atualização 2023, fase III) — pembrolizumabe em 1ª linha metastático: 617 pacientes carcinoma cervical persistente, recidivado ou metastático não-tratado sistemicamente. Pembrolizumabe 200 mg q3w + cisplatina (ou carboplatina) + paclitaxel ± bevacizumabe vs. placebo + quimio ± bevacizumabe.

PD-L1 CPS ≥1 (89% dos pacientes): SG mediana: 28,6 vs. 16,5 meses (HR 0,64; P<0,001). SLP: 10,4 vs. 8,2m (HR 0,62; P<0,001). ORR: 68,7% vs. 50,2%. Todos os pacientes (ITT): SG 24,4 vs. 16,5m (HR 0,67). Aprovação FDA: outubro 2021 para cervical persistente/recidivado/metastático 1ª linha (com quimio ± bev).

Pembrólizumabe em cervical: CPS em vez de TPS (tumor proportion score) — por ser mais sensível em tumores com componente inflamatório estromal. CPS ≥1 presente em >90% dos cervicais escamosos.

CALLA (Coleman RL et al., Lancet Oncol 2023, fase III): cemiplimabe (anti-PD-1) vs. placebo + quimio + bev em cervical metastático 1ª linha: SLP 10,1 vs. 8,4m (HR 0,75; P=0,003). SG: sem diferença (HR 0,82; NS). Cemiplimabe aprovado (EMA) mas sem diferença de SG — pembrolizumabe permanece padrão por SG clara.

Tisotumabe vedotina (Tivdak®, ADC anti-Fator Tecidual, Seagen/Genmab): Anticorpo anti-Fator Tecidual (TF, Tissue Factor = F3, receptor para FVII da cascata de coagulação) conjugado a MMAE (auristatina). TF: hiperexpresso em ~85-90% dos carcinomas cervicais. Mecanismo: anti-TF se liga ao TF → internalização → MMAE liberado → inibição de tubulina → apoptose + bystander killing.

innovaTV 204 (Vergote I et al., Lancet Oncol 2021, fase II): tisotumabe vedotina 2 mg/kg q3w em cervical R/R pós-platina. ORR 24%. SLP 4,2m. SG 12,1m. → Aprovação FDA acelerada: setembro 2021.

innovaTV 301 (Vergote I et al., NEJM 2023, fase III): tisotumabe vedotina 2 mg/kg q3w vs. quimio (paclitaxel, topotecan, ou irinotecano — investigador escolha) em cervical pós-platina (+ pós-IO se recebido). SG mediana: 11,5 vs. 9,5 meses (HR 0,70; P=0,0038). SLP: 4,2 vs. 2,9m (HR 0,67; P<0,001). ORR: 17,8% vs. 5,2%. Aprovação FDA regular: dezembro 2023 para cervical R/R pós-platina. Toxicidade: toxicidade ocular (11,5% grau ≥3 — hemorragia conjuntival, olho seco, keratopathy → colírio lubrificante profilático, avaliação oftalmológica) + neuropatia + alopecia + HFSR.

Rastreio, vacinação, câncer endometrial e perspectivas

Carcinoma endometrial — visão geral: Neoplasia ginecológica mais frequente nos países ocidentais. ~66.000 casos/ano EUA. >90% em mulheres na pós-menopausa. Histologia: endometrioide (tipo 1, mais comum, relacionado ao estrogênio, baixo grau) e não-endometrioide (tipo 2: seroso, células claras, carcinosarcoma — maior risco, pior prognóstico).

Classificação molecular (TCGA 2013): POLE ultramutado: MSI-H-like, excelente prognóstico. ~10%. dMMR/MSI-H: instabilidade de microssatélites, good prognosis. ~30%. p53 WT/aneuploide: intermediário. p53 mutado: pior prognóstico, inclui seroso.

Tratamento estágio I-II: histerectomia + salpingooferectomia bilateral + linfadenectomia sentinela. Adjuvante por risco: baixo risco sem adjuvante; risco intermediário-baixo: RT vaginal (PORTEC-1/2); alto risco: RT pélvica ± quimio.

Endometrial metastático: 1ª linha: carboplatina + paclitaxel (PORTEC-3, GOG/NRG 209) → padrão. Com dMMR/MSI-H 1ª linha: pembrolizumabe + carboplatina + paclitaxel (RUBY: dostarlimabe + QT) ou lenvatinibe + pembrolizumabe (KEYNOTE-775: SG 18,3 vs. 11,4m em não-dMMR, coberto em C307/C309 parcialmente). 2ª linha pós-platina: pembrolizumabe (se dMMR — KEYNOTE-158), lenvatinibe + pembrolizumabe (KEYNOTE-775: SG em todos: 18,3 vs. 11,4m).

RUBY (Mirza MR et al., NEJM 2023, fase III): dostarlimabe (anti-PD-1 GSK) + carboplatina + paclitaxel → dostarlimabe × 3 anos vs. quimio + placebo. dMMR: SLP NR vs. 7,7m (HR 0,28). Todos: SLP 11,8 vs. 7,9m (HR 0,64). → Aprovação FDA: agosto 2023 para endometrial primário avançado/recidivado.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

A vacinação contra HPV previne o câncer de colo do útero? Como funciona?+

Sim — a vacinação HPV é a prevenção primária mais eficaz contra o câncer cervical. O HPV (vírus do papiloma humano) é a causa necessária de praticamente todos os cânceres cervicais, e os tipos 16 e 18 são responsáveis por ~70% dos casos. A vacina 9-valente (Gardasil 9) protege contra 9 tipos de HPV, cobrindo ~90% dos cânceres cervicais. Como funciona: a vacina contém proteínas da cápsula viral (sem vírus vivo) que estimulam o sistema imune a produzir anticorpos contra o HPV. Se a pessoa for exposta ao vírus depois, esses anticorpos impedem a infecção. A vacina é altamente eficaz quando dada antes da primeira exposição ao HPV (geralmente antes do início da atividade sexual, idealmente 9-14 anos). Em adultos jovens (até 26 anos) que ainda não foram expostos, a proteção ainda é significativa. Estudos populacionais mostram que países com alta cobertura vacinal (>80%) já registram reduções de 60-90% em lesões pré-cancerosas em mulheres jovens.

O que é pembrolizumabe e como ele melhorou o tratamento do câncer cervical metastático?+

Pembrolizumabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia PD-1 — uma proteína nos linfócitos T que funciona como um 'freio' do sistema imune. Células tumorais do câncer cervical com frequência expressam PD-L1 (o ligante de PD-1), que se liga ao PD-1 dos linfócitos e os 'adormece', permitindo que o tumor escape do ataque imune. Pembrolizumabe remove esse freio, reativando os linfócitos T para atacar o tumor. Em câncer cervical metastático, o estudo KEYNOTE-826 mostrou que adicionar pembrolizumabe à quimioterapia (cisplatina/carboplatina + paclitaxel) prolongou a sobrevida de 16,5 para 28,6 meses em pacientes PD-L1 positivos — uma melhora de quase 12 meses em sobrevida mediana. Além disso, no tratamento localmente avançado (estágio IB2-IVA), o KEYNOTE-A18 mostrou que adicionar pembrolizumabe à radioterapia + cisplatina (tratamento padrão anterior) reduziu o risco de progressão em 30% e o risco de morte em 27%.

O que é tisotumabe vedotina e como ele age no câncer cervical?+

Tisotumabe vedotina (Tivdak) é um tipo de 'míssil guiado' — um conjugado anticorpo-droga (ADC). O anticorpo reconhece o Fator Tecidual (TF), uma proteína que normalmente participa da coagulação sanguínea mas que está produzida em excesso em ~85-90% dos cânceres cervicais. Quando o anticorpo se liga ao TF na superfície das células tumorais, carrega junto uma quimioterapia (MMAE) para dentro da célula. Lá dentro, MMAE é liberado e destrói os microtúbulos, causando a morte celular. A vantagem: entrega alta concentração de quimio diretamente no tumor, com menor impacto sistêmico. No estudo innovaTV 301, tisotumabe vedotina prolongou a sobrevida de 9,5 para 11,5 meses em comparação à quimioterapia convencional em pacientes com doença recidivada após platina. Um efeito colateral específico é a toxicidade ocular (ressecamento, irritação, hemorragia conjuntival) — por isso, colírio lubrificante é obrigatório e avaliação oftalmológica regular é recomendada.

Câncer cervical e câncer de corpo do útero (endometrial) são o mesmo?+

Não — são doenças completamente diferentes, apesar de ambas afetarem o útero. Câncer cervical (colo do útero): surge no colo, a parte inferior do útero que se abre para a vagina. Quase todos são causados pelo HPV. Pode ser rastreado por Papanicolaou e prevenido pela vacina HPV. Tratamento curativo: cirurgia em estágios iniciais ou radioterapia + cisplatina em estágios intermediários. Metastático: quimio + bevacizumabe + pembrolizumabe. Câncer endometrial (corpo do útero): surge no endométrio, o revestimento interno do corpo do útero. Não é causado pelo HPV. Associado ao excesso de estrogênio (obesidade, síndrome metabólica, reposição hormonal sem progesterona). É o câncer ginecológico mais comum no Ocidente. Rastreio: não há rastreio universal recomendado (ao contrário do cervical). Sintoma mais frequente: sangramento uterino anormal na pós-menopausa — qualquer sangramento pós-menopausa exige avaliação. Tratamento: cirurgia na maioria; quimio com carboplatina+paclitaxel no metastático, com novos imunoterápicos em 1ª linha para subtipos MSI-H/dMMR.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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