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← Blog·Oncologia de Precisão29 de julho de 2026

Câncer de Bexiga Urotelial: Nivolumabe Adjuvante (CheckMate-274), Pembrolizumabe Pós-Platina (KEYNOTE-045), BCG Intravesical, M-VAC e Enfortumabe+Pembrolizumabe em 1ª Linha

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Câncer de bexiga — estadiamento, patologia e tratamento por estágio clínico

Carcinoma urotelial — epidemiologia: 4ª neoplasia mais comum em homens nos EUA (~81.000 casos/ano). Predominância masculina (3:1). Fatores de risco: tabagismo (maior risco), exposição a aromáticos (anilinas, benzidina — trabalhadores de borracha e corante), aristolóquia (fitoterapia asiática — muito carcinogênica), ciclofosfamida, infecção esquistossomose (Bilharzia → carcinoma escamoso no Egito).

Histologia: Carcinoma de células de transição (urotelial): ~95%. Carcinoma escamoso: ~5% (especialmente em Bilharzia). Adenocarcinoma urotelial: raro. Variantes: carcinoma micropapilífero, carcinoma com diferenciação escamosa, variante nestled, plasmocitóide.

Estadiamento: NMIBC (Não-Invasivo de Músculo — Non-Muscle-Invasive Bladder Cancer): Ta (superficial, papilar), Tis (carcinoma in situ — flat), T1 (invasão de lâmina própria, sem músculo). Tratamento: RTUP + BCG intravesical (alto risco). MIBC (Músculo-Invasivo): T2 (músculo superficial), T3 (muscular profundo/gordura), T4 (estruturas adjacentes). Tratamento: neoadjuvante (gem+cis) + cistectomia radical OU RT radical com quimio concomitante. Adjuvante: nivolumabe (se doença residual patológica). Metastático (M1): sistêmico.

Grau histológico (WHO 2004): PUNLMP (Papillary Urothelial Neoplasm of Low Malignant Potential): comportamento benigno-like. Low grade: recorre mas raramente progride para músculo. High grade: alto risco de progressão para MIBC e metástase.

NMIBC alto risco — BCG intravesical: BCG (Mycobacterium bovis atenuado, cepa Pasteur ou Connaught): instilação intravesical após RTUP. Mecanismo: ativação imune local (T cells infiltrating tumor, IL-2, TNF-α, IFN-γ). Indicação: T1 high grade, Tis, Ta high grade multifocal, BCG-naive alto risco. Regime de indução: 6 instilações semanais + manutenção (3 instilações q3m × 1-3 anos). BCG-unresponsive: falha após BCG adequado → cistectomia ou pembrolizumabe (Keytruda aprovado 2020 para BCG-unresponsive Tis/T1 inelegível à cistectomia: ORR 41%).

Quimio neoadjuvante, adjuvante nivolumabe (CheckMate-274) e MIBC

Quimio neoadjuvante (NAC) em MIBC: SWOG-8710 (Grossman HB et al., NEJM 2003, fase III): gem+cis neoadjuvante × 3 ciclos → cistectomia vs. cistectomia alone em MIBC. SG a 5 anos: 57% vs. 43% (HR 0,75; P=0,006). pCR: 38% vs. 15%. → NAC como padrão em MIBC elegível à cisplatina. Candidatos: GFR ≥60, ECOG 0-2, sem surdez relevante. Gem+cis (gemcitabina 1000 mg/m² D1,8 + cisplatina 70 mg/m² D2, q21d × 4 ciclos): padrão. M-VAC (metotrexato, vinblastina, doxorrubicina, cisplatina, q28d × 3-4 ciclos): alternativa histórica, mais tóxico. NAC pré-cistectomia: desvantagem → atraso da cirurgia se sem resposta. Marcadores moleculares para prever resposta (ERCC2, ATM, MRE11 mutações → predizem pCR ao cisplatina) — em investigação.

CheckMate-274 (Bajorin DR et al., NEJM 2021, fase III) — nivolumabe adjuvante pós-cistectomia: 709 pacientes MIBC (ypT2-4 OU ypN+ — doença residual pós-NAC, ou pT3+ pN+ se cirurgia direta). Nivolumabe 240 mg q2w × 1 ano vs. placebo.

DFS (Disease-Free Survival) por ITT: nivolumabe 20,8 vs. placebo 10,9 meses (HR 0,70; P<0,001). DFS em PD-L1≥1%: 21,9 vs. 10,6m (HR 0,55; P<0,001). SG: HR 0,70 (P=0,001) — também significativa (atualização 2023). Aprovação FDA: agosto 2021 para MIBC com doença residual pós-NAC+cisectomia (ou doença pT3+pN+ sem NAC). Primeiro adjuvante aprovado em bexiga MIBC.

Toxicidade: irAEs grau ≥3: 17% nivolumabe vs. 8% placebo. Tireoidite, rash, pneumonite. Quem beneficia mais: PD-L1 ≥1% (HR 0,55 para DFS) > ITT (HR 0,70). Mas benefício presente em todos os subgrupos.

RT radical com quimio concomitante (bladder preservation): Alternativa à cistectomia em selecionados (tumor único <6 cm, sem hidronefrose, sem T4): RTUP máxima + cisplatina concomitante (sensitizing) + RT 55-64 Gy. Metanálise: sobrevida comparável à cistectomia em tumores T2-T3 selecionados. 5-year bladder preservation: 80% dos responders. Sequelas: cistite por radiação, urgência miccional, retite.

Tratamento sistêmico metastático: gem+cis 1ª linha, pembrolizumabe 2ª linha (KEYNOTE-045)

Gem+cis (gemcitabina + cisplatina) — padrão 1ª linha metastático cisplatina-eligible: Von der Maase H et al. (NEJM 2000, fase III): gem+cis vs. M-VAC (metotrexato + vinblastina + doxorrubicina + cisplatina) em urothelial metastático 1ª linha: SG 13,8 vs. 14,8m (NS — non-inferior). Gem+cis: menos neutropenia febril, menos mucosite, similar eficácia → gem+cis tornou-se o padrão por tolerabilidade. Dose: gemcitabina 1000 mg/m² D1, D8 + cisplatina 70 mg/m² D1 q21d. Cisplatina: exige função renal (GFR ≥60), audição preservada, ECOG ≤2. M-VAC dose-densa (HD-M-VAC + G-CSF q2w): superior a M-VAC convencional. EORTC 30924: HD-MVAC superior em ORR (62% vs. 50%) e SLP; ainda alternativa ao gem+cis por ORR maior.

Inelegíveis à cisplatina (GFR 30-60, ECOG 2, insuficiência cardíaca): KEYNOTE-052 (Balar AV et al., Lancet 2017, fase II): pembrolizumabe monotherapy 1ª linha em cisplatina-ineligible. ORR: 29% (todos), 51% em CPS ≥10. SLP mediana: 2,2m. SG: 11,3m em CPS≥10. IMvigor210 (Balar AV et al., Lancet 2017): atezolizumabe em cisplatina-ineligible 1ª linha: ORR 23,1% em IC2/3 (alta PD-L1). Aprovação FDA (acelerad): 2016/2017. IMPORTANTE: Aprovações aceleradas revertidas → Pembrolizumabe e atezolizumabe como monoterapia 1ª linha em cisplatina-ineligible SOMENTE quando PD-L1 positivo (CPS≥10 para pembro; IC2/3 para atezo) após dados de SG de estudos confirmatórios negativos em PD-L1 baixo (IMvigor130, KEYNOTE-361 falharam em SG global). Restrição FDA: só usar IO mono em cisplatina-ineligible PD-L1+ pacientes.

KEYNOTE-045 (Bellmunt J et al., NEJM 2017, fase III) — pembrolizumabe 2ª linha pós-platina: 542 pacientes urothelial metastático progressão ou recaída após platina-based. Pembrolizumabe 200 mg q3w vs. quimio investigador (paclitaxel, docetaxel, vinflunina). SG mediana: 10,3 vs. 7,4 meses (HR 0,73; P=0,002). ORR: 21,1% vs. 11,4%. SG a 2 anos: 26,9% vs. 14,3% — benefício durável. Aprovação FDA: maio 2017 para urothelial carcinoma pós-platina (2ª linha).

CheckMate-275 (Sharma P et al., Lancet Oncol 2017, fase II): nivolumabe monotherapy pós-platina: ORR 19,6%. Aprovação FDA: fevereiro 2017 (também 2ª linha).

Erdafitinibe (FGFR3), sacituzumabe (TROPHY-U-01) e JAVELIN manutenção

FGFR3 mutação/fusão em câncer de bexiga: FGFR3: mutação ponto (S249C, R248C, Y375C, K652E, G370C/V) em ~20% dos urotheliais (mais em NMIBC). Fusão FGFR3::TACC3 em ~5%. FGFR3 mutado → ativa RAS/MAPK, PI3K/AKT sem necessidade de ligante.

Erdafitinibe (Balversa®, pan-FGFR1-4 inibidor, Janssen): THOR (Loriot Y et al., NEJM 2023, fase III): erdafitinibe 8-9 mg/dia vs. pembrolizumabe ou docetaxel (investigador escolha) em urothelial FGFR-alterado pré-tratado (≥1 platina). Erdafitinibe: SG 12,1 vs. 7,8m (HR 0,64; P<0,001). ORR 35,9% vs. 8,8%. Aprovação FDA: abril 2019 (acelerada, BLUMYST estudo fase II: ORR 40%) e aprovação regular pelo THOR dados. Toxicidade: hiperfosfatemia, retinalidade FGFR, HFSR, estomatite.

Sacituzumabe govitecan (Trodelvy®, anti-TROP2-SN-38): TROP2: proteína de superfície hiperexpresso em urotelial (~89%). SN-38: metabólito ativo de irinotecano. ADC com linker hidrolisável (bystander effect potente). TROPHY-U-01 (Loriot Y et al., JCO 2021, fase II) — cohort 1 (pós-platina e pós-checkpoint): 113 pacientes urothelial pós-platina + pós-PD-1/L1. Sacituzumabe 10 mg/kg D1, D8 q21d. ORR 27%. SLP: 5,4m. SG: 10,9m. → Aprovação FDA: avril 2021.

Avelumabe manutenção (JAVELIN Bladder 100, Powles T et al., NEJM 2020, fase III): 700 pacientes urothelial metastático sem progressão após gem+platina 1ª linha (4-6 ciclos). Avelumabe (anti-PD-L1) 800 mg q2w manutenção → suporte melhor cuidado vs. suporte melhor cuidado. SG mediana: 21,4 vs. 14,3 meses (HR 0,69; P=0,001). SG a 2 anos: 46,0% vs. 34,9%. ORR (PD-L1+): 12,8% vs. 5,3%. Aprovação FDA: junho 2020 para urothelial metastático sem progressão após gem+platina (manutenção). → Após gem+cis em 1ª linha, se sem progressão, iniciar avelumabe manutenção é agora padrão.

Sequência completa de tratamento em urothelial metastático (2025): 1ª linha cisplatina-elegível: gem+cis → avelumabe manutenção (se estável/resposta) OU EV+pembrolizumabe (EV-302, se elegível — novo padrão). 1ª linha cisplatina-inelegível PD-L1+: pembrolizumabe ou atezolizumabe mono. 1ª linha cisplatina-inelegível PD-L1-negativo: gem+carboplatina → avelumabe manutenção. 2ª linha pós-platina: pembrolizumabe ou nivolumabe. 2ª linha pós-platina + pós-IO: enfortumabe vedotina (EV-201: ORR 44%), sacituzumabe, erdafitinibe (se FGFR3+). 3ª linha: outro agente da 2ª linha não usado.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é BCG e como ele trata o câncer de bexiga?+

BCG (Bacillus Calmette-Guérin) é uma bactéria viva atenuada usada originalmente como vacina contra a tuberculose — mas em câncer de bexiga não-invasivo de músculo, funciona como imunoterapia local. Após a ressecção do tumor por via transuretral (endoscopia), o BCG é instilado diretamente na bexiga através de uma sonda. A bactéria entra nas células que revestem a bexiga, ativa intensamente o sistema imune local (linfócitos, macrófagos, citocinas inflamatórias), que então destroem as células tumorais remanescentes. É especialmente eficaz contra o carcinoma in situ (CIS) — um câncer flat de alto grau — e contra tumores T1 de alto grau. O tratamento dura pelo menos 1-3 anos (6 instilações semanais de indução + ciclos de manutenção trimestrais). BCG tem maior eficácia na prevenção de recaída e progressão para câncer muscular do que qualquer quimioterapia intravesical. Em pacientes que não respondem ao BCG ('BCG-unresponsive'), pembrolizumabe foi aprovado em 2020 como alternativa para aqueles que não querem ou não podem fazer cistectomia.

O que é nivolumabe adjuvante e quando é indicado no câncer de bexiga?+

Tratamento adjuvante significa dado após a cirurgia principal para reduzir o risco de recaída. No câncer de bexiga músculo-invasivo, mesmo após cistectomia radical (remoção cirúrgica da bexiga), pacientes que têm doença residual ou características patológicas de alto risco (invasão profunda T3/T4 ou linfonodos positivos) têm até 50% de chance de recidiva em 2 anos. O estudo CheckMate-274 mostrou que nivolumabe (anti-PD-1) por 1 ano após a cirurgia mais que dobrou o tempo sem recaída: 20,8 versus 10,9 meses. Em pacientes com PD-L1 ≥1%, o benefício foi ainda maior (HR 0,55). Isso levou à aprovação do nivolumabe adjuvante em agosto de 2021. Indicações: pacientes que fizeram quimioterapia neoadjuvante com cisplatina + cirurgia mas ainda tinham doença residual na peça cirúrgica, OU pacientes que fizeram cistectomia diretamente e têm patologia T3+ ou N+.

O tratamento de bexiga metastática mudou recentemente?+

Sim, profundamente. Por décadas, gem+cis foi o único padrão de 1ª linha, com sobrevida mediana de ~13 meses. Nos últimos 5 anos, houve uma revolução: em 2020, avelumabe (manutenção após gem+cis em pacientes que não progrediram) foi aprovado — prolongando a sobrevida de 14 para 21 meses. Em 2021, enfortumabe vedotina (anti-nectina-4 + MMAE) e sacituzumabe govitecan (anti-TROP2 + SN-38) foram aprovados para linhas tardias. Em 2023, o estudo EV-302 foi o mais impactante: enfortumabe vedotina + pembrolizumabe como 1ª linha versus gem+cis mostrou redução de 53% no risco de morte (sobrevida de 31,5 vs. 16,1 meses) — o maior benefício de sobrevida já visto em câncer de bexiga metastático. EV+pembrolizumabe está rapidamente se tornando o novo padrão de 1ª linha, inclusive para pacientes que antes eram 'inelegíveis à cisplatina' (pois não contém platina). O campo evolui mais rápido que qualquer outra neoplasia urológica.

O que é FGFR3 e existe teste específico para ele no câncer de bexiga?+

FGFR3 (receptor do fator de crescimento de fibroblasto tipo 3) é uma proteína normalmente envolvida no desenvolvimento ósseo e em outros processos celulares. Em ~20-25% dos cânceres de bexiga, o gene FGFR3 sofre mutações pontuais específicas (principalmente S249C e R248C) ou fusões com outros genes (FGFR3::TACC3), que fazem o receptor ficar permanentemente ativo — estimulando o crescimento das células tumorais. Erdafitinibe (Balversa) bloqueia especificamente FGFR3 mutado e, no estudo THOR, mostrou sobrevida de 12,1 meses versus 7,8 meses com a quimioterapia padrão em pacientes com essas alterações após progressão à platina. Para ser elegível, é necessário testar o tumor para mutações/fusões de FGFR3 por sequenciamento genético (NGS de DNA) — o teste TheraScreen FGFR RGQ RT-PCR foi aprovado como companheiro diagnóstico para erdafitinibe. FGFR3 mutações são mais frequentes em cânceres de bexiga não-invasivos (superficiais) que nos invasivos de músculo, mas a indicação de erdafitinibe é para doença metastática.

Referências Científicas

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