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← Blog·Oncologia de Precisão13 de julho de 2026

Tirosina Quinase Inibidores em Carcinoma Diferenciado e Medular de Tireóide: Sorafenibe (DECISION), Lenvatinibe (SELECT), Vandetanibe (ZETA), Cabozantinibe (EXAM) e Selpercatinibe (LIBRETTO)

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Subtipos de carcinoma de tireóide — biologia e tratamento por estágio

Classificação de carcinomas de tireóide: Diferenciados (DTC): carcinoma papilífero (PTC, ~85%) e folicular (FTC, ~10%). Origem folicular. Geralmente de bom prognóstico (>95% SG 10 anos em estágio I-II). Responde a radioiodo (RAI — iodo-131) quando metastático/recorrente. Anaplásico (ATC): ~2%. Dedifferenciado, extremamente agressivo (SG mediana 5 meses sem tratamento). BRAF V600E em ~50% → dabrafenibe+trametinibe em primeira/única linha (ROAR basket, coberto em C308). Medular (CMT): ~3-5%. Origem células C (parafoliculares) → produz calcitonina. 25% hereditário (MEN2A, MEN2B, FMTC) com mutação germline de RET. 75% esporádico — mutações somáticas de RET (~60%) ou RAS (~15%). Diferentemente dos outros subtipos, não capta RAI.

Fisiopatologia molecular: DTC/PTC: BRAF V600E (~60%), RAS mutações (~15%), RET/PTC rearranjos (~20%), NTRK fusions (~2%), outros. BRAF V600E: associado a PTC clássico mais agressivo, linfnode-metastático. Folicular (FTC): RAS (~40%), PAX8-PPARγ translocação (~30%). CMT: RET mutações (germline no hereditário; somático em esporádico — M918T, C634R) e raramente RAS.

Radioiodo (RAI) — quando funciona e quando não: PTC/FTC bem diferenciados: expressam NIS (Sodium-Iodide Symporter) → captam iodo radioativo → lise por β-partículas. RAI em ablação pós-tireoidectomia + terapia de doença metastática recorrente → 95% cura em estágio I-II. RAI-refratário (RAIR): doença que não capta RAI (NIS subexpresso) OU progride após ≤600 mCi de RAI OU não mostra resposta após tratamento inicial. Ocorre em ~50% dos DTC metastáticos. RAIR-DTC: VEGFRs TKI (sorafenibe, lenvatinibe).

Redifferentiation com dabrafenibe+trametinibe em BRAF V600E DTC: BRAF V600E → RAF/MEK → ERK → supressão de NIS e tireoglobulina. Inibição BRAF+MEK → restaura NIS → recaptura de RAI. Estratégia de "re-diferenciação" → tratamento com BRAF+MEK × 25-50 dias → scan RAI → se captação ≥5×: RAI 100 mCi → seguimento. Estudos piloto com ORR ~54% para restauração de captação e resposta a RAI.

DECISION e SELECT: sorafenibe e lenvatinibe em DTC refratário a RAI

Sorafenibe (DECISION, Brose et al., Lancet 2014) — sorafenibe vs. placebo em RAIR-DTC: 417 pacientes DTC localmente avançado/metastático RAI-refratário. Sorafenibe 400 mg 2×/dia vs. placebo (crossover permitido). SLP: 10,8 vs. 5,8 meses (HR 0,587; P<0,001). ORR: 12,2% vs. 0,5% (DCR 54% vs. 33%). SG: sem diferença (HR 0,88; NS — crossover extenso: 71% do braço placebo cruzou para sorafenibe). Aprovação FDA: novembro 2013 para DTC localmente avançado/metastático refratário a RAI.

Toxicidade de sorafenibe em DTC: HFSR (hand-foot skin reaction): 76%, grau 3-4: 20%. Hipocalcemia (sorafenibe inibe RET nos C cells, afeta PTH): em pacientes já hipoparatireóideos pós-tireoidectomia, pode piorar. HAS (hipertensão arterial): 40%. Diarreia: 68%.

SELECT (Schlumberger et al., NEJM 2015) — lenvatinibe vs. placebo em RAIR-DTC: 392 pacientes DTC refratário a RAI sem TKI prévio. Lenvatinibe 24 mg/dia contínuo vs. placebo. SLP: 18,3 vs. 3,6 meses (HR 0,21; P<0,001). ORR: 64,8% vs. 1,5% (CR 1,5%, PR 63,2%). DCR: 87%. SG: sem diferença (crossover). Aprovação FDA: fevereiro 2015 para DTC refratário a RAI. Impressionante: ORR de 65% em DTC refratário — um dos maiores ORR em ensaios de TKIs em tumores sólidos.

Lenvatinibe vs. sorafenibe — qual preferir em RAIR-DTC: SELECT: lenvatinibe superior em ORR (65% vs. 12%) e SLP (18 vs. 11 meses). Lenvatinibe tem mais hipertensão, proteinúria, fistulas. Sorafenibe tem mais HFSR. Lenvatinibe: dose inicial 24 mg pode ser alta — muitos necessitam redução. Sem head-to-head direto mas lenvatinibe considerado superior pela maioria das diretrizes.

Sequência RAIR-DTC (2025): 1ª linha: lenvatinibe (24 mg/dia contínuo). 2ª linha pós-lenvatinibe: sorafenibe (400 mg 2×/dia). Pós-ambos: dados muito limitados; pembrolizumabe (se MSI-H), cabozantinibe (off-label), estudos clínicos.

ZETA, EXAM e CMT: vandetanibe e cabozantinibe na doença medular

Carcinoma Medular de Tireóide (CMT) — características: CMT hereditário: NEM2A (hiperparatireoidismo + feocromocitoma + CMT), NEM2B (feocromocitoma + neuromas mucosos + Marfan-like + CMT agressivo, mutação M918T — pior). FMTC: apenas CMT. Screening genético germline de RET obrigatório em todos os CMT diagnosticados. CMT esporádico: RET somático em ~60% (principalmente M918T, C634W); RAS mutações em ~15%.

Calcitonina e CEA: marcadores séricos. CEA em ascensão = indicador de progressão.

Mutação RET no CMT: Codon 634 (C634W/F/G): grau moderado de agressividade. Codon 918 (M918T): mais agressivo — NEM2B. Presente em CMT esporádico de alta malignidade. Codon 883 (A883F): moderado.

Vandetanibe (Caprelsa®, ZD6474, AstraZeneca): Multi-TKI: RET, VEGFR1/2/3, EGFR. Dose: 300 mg/dia oral. QTc prolongamento: monitorar ECG; evitar medicações Qt-prolongadoras. Contraindicado em Qt ≥500 ms.

ZETA (Wells et al., JCO 2012, fase III) — vandetanibe vs. placebo em CMT avançado: 331 pacientes CMT localmente avançado/metastático. Vandetanibe 300 mg/dia vs. placebo. SLP: 30,5 vs. 19,3 meses (HR 0,46; P<0,001). ORR: 45% vs. 13%. SG: sem diferença (crossover). Aprovação FDA: abril 2011 para CMT avançado sintomático ou em progressão.

Cabozantinibe (Cometriq®, XL-184, Exelixis): Multi-TKI: RET, VEGFR2, MET, KIT, AXL. Dose: 140 mg/dia (CMT) — diferente da dose de CCR (60 mg).

EXAM (Elisei et al., JCO 2013, fase III) — cabozantinibe vs. placebo em CMT progressivo: 330 pacientes CMT documentado em progressão. Cabozantinibe 140 mg/dia vs. placebo. SLP: 11,2 vs. 4,0 meses (HR 0,28; P<0,001). ORR: 28% vs. 0%. SG: 26,6 vs. 21,1 meses (HR 0,85; P=0,24 — NS). Aprovação FDA: novembro 2012 para CMT progressivo. Cabozantinibe também para CMT com mutação RET M918T: SLP 15,1 vs. 4,0 meses (HR 0,15) — benefício mais expressivo no subgrupo RET M918T.

Vandetanibe vs. cabozantinibe em CMT: Ambos aprovados. Preferências: vandetanibe em CMT RAS-mutado (sem RET) ou CMT hereditário; cabozantinibe em CMT com RET M918T (especialmente NEM2B) ou pós-vandetanibe. Toxicidade: cabozantinibe causa mais HAS/HFSR; vandetanibe causa mais rash, diarreia, QTc. Dose de cabozantinibe em CMT: 140 mg é alta → redução frequente.

Selpercatinibe e pralsetinibe — inibidores RET seletivos na era moderna de CMT/DTC

Problema dos TKIs não-seletivos (vandetanibe/cabozantinibe) em CMT: Vandetanibe e cabozantinibe são multikinase → toxicidade ampla (VEGFR, MET, EGFR). RET é o alvo primário em CMT mas outros alvos são responsáveis por muita toxicidade. Necessidade de inibidores RET altamente seletivos.

Selpercatinibe (Retevmo®, LOXO-292, Eli Lilly): Inibidor seletivo de RET (e mutações gatekeeper de RET V804M/L — resistência a inibidores anteriores). Dose: 120 mg 2×/dia (<50 kg) ou 160 mg 2×/dia (≥50 kg).

LIBRETTO-001 (fase I/II, Wirth et al., NEJM 2020): RET-mutado CMT pré-tratado com vandetanibe/cabozantinibe: ORR 69%. Duração mediana de resposta: 20,3 meses. RET-mutado CMT sem TKI prévio: ORR 73%. SLP a 1 ano: 82%. RET fusão CPNPC (coberto em C301): ORR 64%. Aprovação FDA: maio 2020 para CMT RET-mutado (hereditário e esporádico) + CPNPC RET fusão + outros tumores RET fusão.

LIBRETTO-531 (fase III, Wirth et al., NEJM 2023, CMT) — selpercatinibe vs. vandetanibe/cabozantinibe 1ª linha em CMT RET-mutado: 261 pacientes CMT avançado RET-mutado sem TKI prévio. Selpercatinibe vs. vandetanibe ou cabozantinibe (escolha do investigador). SLP: 26 meses vs. 9,2 meses (HR 0,28; P<0,001). ORR: 69% vs. 38%. Aprovação FDA: outubro 2023 para CMT RET-mutado 1ª linha.

Pralsetinibe (Gavreto®, BLU-667, Blueprint Medicines/Roche): Segundo inibidor seletivo de RET. Dose: 400 mg/dia oral. ARROW (fase I/II, Gainor et al., NEJM 2020): CMT RET-mutado pós-vandetanibe/cabozantinibe: ORR 60%. Sem TKI prévio: ORR 71%. CPNPC RET fusão: ORR 72%. Aprovação FDA: setembro 2020 para CPNPC RET fusão + CMT RET-mutado.

Selpercatinibe vs. pralsetinibe em CMT: Sem head-to-head. LIBRETTO-531 é o único estudo de fase III vs. padrão em CMT → selpercatinibe tem dado de fase III mais forte. Ambos aprovados. Pralsetinibe pode ter mais atividade em mutações RET V804L. Diferença de doses (selper 2×/dia, prals 1×/dia).

Sequência em CMT RET-mutado (2025): 1ª linha: selpercatinibe (LIBRETTO-531) — padrão atual. 2ª linha pós-selpercatinibe: pralsetinibe (possível atividade diferencial em mutações resistência), vandetanibe ou cabozantinibe (se não usados), estudo clínico. CMT RAS-mutado (sem RET): vandetanibe ou cabozantinibe.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é câncer de tireóide refratário ao iodo e como é tratado?+

A maioria dos cânceres de tireóide diferenciados (papilíferos e foliculares) pode ser tratada com iodo radioativo — as células tumorais captam o iodo e são destruídas pela radiação. Porém, ~50% dos casos metastáticos tornam-se 'refratários ao radioiodo' (RAIR): o tumor deixa de captar o iodo (perde o NIS, transportador de iodo) e cresce apesar do tratamento. Para esses pacientes, os inibidores de VEGFR (tirosina quinase) são o padrão: sorafenibe (DECISION: prolonga a sobrevida sem progressão de 5,8 para 10,8 meses) e lenvatinibe (SELECT: prolonga de 3,6 para 18,3 meses com taxa de resposta impressionante de 65%). Lenvatinibe é geralmente a primeira escolha por ser mais eficaz. Uma nova estratégia emergente é a 're-diferenciação' com BRAF+MEK inibidores em tumores BRAF V600E, que pode restaurar a captação de iodo antes de nova dose.

O que é carcinoma medular de tireóide e por que o teste genético é obrigatório?+

Carcinoma medular de tireóide (CMT) é um tipo raro (~4% dos cânceres de tireóide) que surge das células C (parafoliculares) da tireóide, não dos folículos. Uma peculiaridade crítica: 25% são hereditários, causados por mutações no gene RET transmitidas de geração em geração (Síndromes de Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 — NEM2). Portadores de RET mutado geralmente desenvolvem CMT, frequentemente acompanhado de feocromocitoma. Por isso, quando alguém é diagnosticado com CMT, o teste genético germline de RET é obrigatório: se positivo, todos os familiares de 1º grau devem ser testados — os portadores podem fazer tireoidectomia profilática antes do câncer se desenvolver. Além do rastreio familiar, conhecer a mutação específica de RET (M918T = mais agressivo, exige cirurgia muito precoce; codon 634 = moderado) guia o calendário cirúrgico e o prognóstico.

Selpercatinibe é melhor que vandetanibe para câncer medular de tireóide?+

Sim, com base nos dados disponíveis. O estudo LIBRETTO-531 comparou diretamente selpercatinibe versus vandetanibe ou cabozantinibe em 1ª linha para CMT RET-mutado e mostrou resultados superiores: sobrevida sem progressão de 26 versus 9,2 meses, e taxa de resposta de 69% versus 38%. Além disso, selpercatinibe é mais seletivo para RET (não bloqueia outros alvos como VEGFR, EGFR, MET), o que resulta em menos efeitos colaterais — menos hipertensão, menos HFSR (reação mão-pé), sem risco de prolongamento do QTc que é preocupante com vandetanibe. Hoje, selpercatinibe é considerado o padrão de 1ª linha para CMT RET-mutado (hereditário ou esporádico). Para CMT sem mutação RET (raramente, com RAS mutado ou sem alvo identificável), vandetanibe ou cabozantinibe permanecem sendo usados.

Câncer de tireóide anaplásico tem tratamento?+

O carcinoma anaplásico de tireóide (CAT) é um dos cânceres mais agressivos — com sobrevida mediana de 3-6 meses historicamente. Porém, há um subgrupo que respondeu bem a uma terapia específica: BRAF V600E é encontrado em ~50% dos CATs. Para esses pacientes, dabrafenibe + trametinibe (inibidores de BRAF e MEK) mostrou resultados notáveis: taxa de resposta de 56% e sobrevida de 14,5 meses (versus 3-6 meses sem tratamento). Isso levou à aprovação FDA em 2018 — um avanço extraordinário para uma doença que era praticamente incurável. Para CAT BRAF WT (sem mutação BRAF), as opções são mais limitadas: combinação de quimioterapia (paclitaxel + doxorrubicina), imunoterapia (dados emergentes), ou ensaio clínico. Qualquer suspeita de CAT justifica biópsia urgente e teste de BRAF.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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