VHL e a via HIF/VEGF no carcinoma de células renais
Von Hippel-Lindau (VHL) — o supressor tumoral central do CCR: VHL é um gene supressor tumoral localizado no 3p25. Mutações bialélicas em VHL (deleção, mutação nonsense) ocorrem em >80% dos ccCCR (células claras). Síndrome de VHL germinal (doença autossômica dominante): hemangioblastomas, cistos renais, feocromocitoma.
Função normal de VHL: A proteína pVHL é parte do complexo E3 ubiquitina ligase (pVHL-Elongin B/C-Cullin-2). Quando O₂ está normal: prolil hidroxilases (PHD) hidroxilam HIF-1α e HIF-2α → pVHL reconhece HIF hidroxilado → poliubiquitinação → degradação proteossomal.
Consequência da perda de VHL: Sem pVHL funcional: HIF-1α e HIF-2α NÃO são degradados → acúmulo nuclear → ativação de >100 genes respondedores à hipóxia:
- VEGF (A, B, C, D): angiogênese tumoral
- PDGF: proliferação de pericitos
- TGF-α: crescimento celular via EGFR
- Glut-1/3: uso anaeróbico de glicose
- CAIX (anidrase carbônica IX): acidificação
- EPO: eritropoietina (causa policitemia em pacientes com VHL)
O ccCCR é um dos tumores sólidos mais vascularizados — daí a sensibilidade histórica a anti-angiogênicos (VEGFR-TKI) antes da era imunológica.
Por que imunoterapia funciona em CCR: CCR tem alta mutacional burden relativa a outros tumores e microambiente imune ativo. Checkpoint imune (PD-1/CTLA-4) é eficaz porque o ccCCR tem células T infiltrantes significativas.
Sunitinibe, pazopanibe e a era VEGFR-TKI em CCR
Sunitinibe (Sutent®): Multi-quinase inibidor: VEGFR1/2/3, PDGFR-α/β, c-KIT, FLT3. Dose: 50 mg QD 4 semanas on/2 off (4/2 ciclo). Aprovado 2006 para ccCCR de primeira linha.
Estudo pivotal (Motzer et al., NEJM 2007): sunitinibe vs. interferon-α. SLP: 11 vs. 5 meses (HR 0,42; P<0,001). SG: 26 vs. 22 meses (NS — cruzamento). ORR: 31% vs. 6%. Tornou-se o padrão de primeira linha por anos.
Pazopanibe (Votrient®): VEGFR1/2/3, PDGFR, c-KIT. Dose: 800 mg QD contínuo. COMPARZ: pazopanibe não-inferior a sunitinibe em SLP. Perfil de toxicidade diferente: mais hepatotoxicidade (ALT elevação frequente) mas menos fadiga e mucosite. Não superior.
Axitinibe (Inlyta®): Seletivo para VEGFR1/2/3 com alta potência. Aprovado 2012 como segunda linha (AXIS trial: axitinibe vs. sorafenibe em pós-sunitinibe; SLP: 6,7 vs. 4,7 meses). Tornou-se parceiro preferido de imunoterapia (axitinibe+pembrolizumabe — KEYNOTE-426).
Toxicidades comuns de VEGFR-TKI:
- Hipertensão (30-80%): marcador de eficácia paradoxalmente. Controlar com IECA/BCC/tiazida.
- Diarreia: 50-60%; loperamida
- Fadiga: 50-60%
- Hipotireoidismo: 30-50% com sunitinibe (VEGFR em tireoide → atrofia)
- Síndrome mão-pé (PPE): eritema/calo em palmas e solas; hidratante, redução de dose
- Hepatotoxicidade: mais no pazopanibe; AST/ALT elevados
- Sangramento: VEGF-dependente; raramente grave
Cabozantinibe: VEGFR2+MET+AXL e o diferencial oncológico
Cabozantinibe (Cabometyx®) — o TKI mais amplo: Além de VEGFR1/2/3, cabozantinibe também inibe:
- MET (c-Met): amplificação de MET é um mecanismo de resistência a anti-VEGFR; cabozantinibe inibe MET → supera essa resistência
- AXL: receptor tirosina quinase que media EMT, resistência, imunossupressão; cabozantinibe é um dos únicos TKIs com AXL eficaz
- RET: fusões de RET (CCR papilífero)
- TYRO3, MERTK: família TAM (relacionados a imunossupressão via fosfatidilserina)
Mecanismo diferencial: MET e AXL são expressivamente upregulados como mecanismos de escape ao bloqueio de VEGFR — especialmente após progressão em sunitinibe/pazopanibe. Cabozantinibe inibe esses mecanismos de escape → eficaz mesmo em pós-VEGFR.
METEOR (Choueiri et al., NEJM 2015) — fase III, CCR segunda linha: 658 pacientes com ccCCR que progressiram após VEGFR-TKI. Cabozantinibe 60 mg QD vs. everolimo (mTOR-i). SLP: 7,4 vs. 3,8 meses (HR 0,58; P<0,001). SG: 21,4 vs. 16,5 meses (HR 0,66; P=0,00026). ORR: 17% vs. 3%.
Aprovação FDA: abril 2016 para CCR segunda linha. Padrão em segunda linha pós-VEGFR-TKI.
CABOSUN (Choueiri et al., JCO 2017) — fase II, CCR primeira linha intermediário/alto risco: 157 pacientes com ccCCR de risco intermediário/alto (IMDC). Cabozantinibe vs. sunitinibe. SLP: 8,2 vs. 5,6 meses (HR 0,66; P=0,012). ORR: 33% vs. 12%.
Aprovação FDA: 2017 para primeira linha intermediário/alto risco (antes dos combos com IO).
CheckMate 9ER e KEYNOTE-426: combos IO+TKI que transformaram a primeira linha
A era dos combos IO+anti-VEGFR: Checkmate 214 (nivolumabe+ipilimumabe) estabeleceu duplo checkpoint em primeira linha de risco intermediário/alto — mas para baixo risco, as IO combos tinham desafios. A combinação IO+VEGFR-TKI tem sinergia: TKI reduz imunossupressão mediada por VEGF; IO desbloqueio checkpoint.
KEYNOTE-426 (Rini et al., NEJM 2019) — axitinibe+pembrolizumabe vs. sunitinibe: 861 pacientes com ccCCR avançado não-tratados (qualquer risco IMDC). Axitinibe+pembrolizumabe vs. sunitinibe. SLP: 15,1 vs. 11,1 meses (HR 0,69; P<0,001). SG: 45,7 vs. 40,1 meses (HR 0,73; P<0,001). ORR: 59,3% vs. 35,7%.
Aprovação FDA: abril 2019 — axitinibe+pembrolizumabe para ccCCR avançado primeira linha qualquer risco. Tornou-se o combo de referência por simplicidade e aprovação ampla.
CheckMate 9ER (Choueiri et al., NEJM 2021) — nivolumabe+cabozantinibe vs. sunitinibe: 651 pacientes com ccCCR não-tratados. Nivolumabe+cabozantinibe vs. sunitinibe. SLP: 16,6 vs. 8,3 meses (HR 0,51; P<0,001). SG: 37,7 vs. 34,3 meses (HR 0,70; P=0,001). ORR: 55,7% vs. 27,1%.
Aprovação FDA: janeiro 2021. SLP mais longa vs. axitinibe+pembrolizumabe (numericamente) — mas sem comparação direta.
CLEAR/KEYNOTE-581 (Motzer et al., NEJM 2021) — lenvatinibe+pembrolizumabe vs. sunitinibe: 1.069 pacientes. SLP: 23,9 vs. 9,2 meses (HR 0,39; P<0,001). A maior SLP em CCR metastático. SG: 53,7 vs. 46,2 meses. FDA 2021.
Escolha entre combos: Nenhum estudo cabeça-a-cabeça. Na prática: risco baixo IMDC → considerar nivolumabe+ipilimumabe (CheckMate 214) ou sunitinibe; intermediário/alto → IO+TKI. Lenvatinibe+pembro tem maior SLP mas mais toxicidade.
Sequenciamento e manejo de toxicidades em CCR
Sequenciamento atual (após primeira linha IO+TKI): Após progressão em axitinibe+pembrolizumabe ou nivolumabe+cabozantinibe:
- Cabozantinibe (se não usou como 1ª linha): opção principal pós-IO+axitinibe
- Axitinibe (se não usou): opção pós-IO+cabozantinibe
- Nivolumabe mono: aprovado em segunda linha (CheckMate 025) se não usou IO
- Everolimo: everolimus (mTOR-i) como opção posterior (RECORD-1)
- Tivozanibe: TKI mais seletivo para VEGFR, menor toxicidade não-alvo (TIVO-3)
- Belzutifan (HIF-2α inhibitor): LITESPARK-005 — inibição direta do HIF-2α (alvo a montante de VEGF) em ccCCR pós-VEGFR+IO; aprovado 2023
Belzutifan — mecanismo revolucionário: Belzutifan (Welireg®) inibe diretamente HIF-2α — a proteína que é acumulada pela perda de VHL. Inibindo HIF-2α, bloqueia-se a transcrição de VEGF sem inibir VEGFR (abordagem mais upstream). Aprovado para CCR VHL-disease (hereditário) e em ccCCR pós-tratado.
Toxicidades de cabozantinibe (Cabometyx): Síndrome mão-pé: 50%. Hipertensão: 37%. Diarreia: 73%. Náusea: 50%. Elevação de AST/ALT: 20%. Tromboembolismo: 7-10% (monitorar, profilaxia se alto risco). Dose inicial 60 mg QD; redução a 40 ou 20 mg se intolerável.
Hipertensão com TKIs: Hipertensão é quase universal (30-80%). Paradoxalmente, hipertensão grau 2-3 pode ser marcador de melhor resposta ao TKI (mais inibição de VEGFR = mais PA = mais eficácia). Tratar agressivamente: IECA (lisinopril), anlodipino, ou betabloqueador. Não suspender o TKI por HAS — tratar a PA.