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← Blog·Oncologia de Precisão02 de julho de 2026

Bevacizumabe Anti-VEGF em Câncer Colorretal, Ovariano e Glioblastoma: AVF2107g (TREE-1/2), ICON7/GOG-218 (AURELIA) e AVAglio

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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VEGF e angiogênese tumoral: o alvo de bevacizumabe

VEGF (Vascular Endothelial Growth Factor) — família e receptores: Família VEGF: VEGF-A (o mais importante), VEGF-B, VEGF-C, VEGF-D, PlGF (Placental Growth Factor). Receptores: VEGFR-1 (FLT1), VEGFR-2 (KDR, FLK1), VEGFR-3. VEGF-A se liga principalmente a VEGFR-2 → ativa sinalização em células endoteliais: proliferação, sobrevivência, permeabilidade, migração → formação de novos vasos.

Angiogênese tumoral — "switch angiogênico": Tumores sólidos >2 mm³ precisam de vasos sanguíneos para nutrir células centrais. Quando tumor excede esse tamanho → hipoxia central → HIF-1α (Hypoxia Inducible Factor) se acumula → transcrição de VEGF, PlGF, angiopoietina → angiogênese. Vasos tumorais são anormais: tortuosos, mal perfundidos, permeáveis (edema intratumoral) — "normalização vascular" é efeito de bevacizumabe.

Bevacizumabe (Avastin®, rhuMAb VEGF): IgG1 humanizada anti-VEGF-A — liga e neutraliza VEGF-A livre no plasma/interstício tumoral → sem VEGF disponível para VEGFR-2 → inibição de angiogênese. Dose: varia por indicação:

  • CCRm: 5 mg/kg q2sem OU 7,5 mg/kg q3sem
  • Pulmão: 15 mg/kg q3sem
  • Ovário: 7,5-15 mg/kg q3sem
  • GBM: 10 mg/kg q2sem

Normalização vascular e quimio: Paradoxo: bevacizumabe reduz vasos mas aumenta entrega de quimio ao tumor. Mecanismo: bevacizumabe prune vasos anormais e imaturos → os vasos restantes são mais maduros, menos permeáveis → melhor perfusão → melhor entrega de quimio. Janela de normalização vascular: dias 3-7 após bevacizumabe.

Por que anti-VEGF beneficia múltiplos tumores: Angiogênese é universal em tumores sólidos (desde que >2 mm³). Anti-VEGF potencialmente ativo em qualquer tumor angiodependente + quimio. O desafio: sem biomarcador preditivo estabelecido para bevacizumabe — não há equivalente do PD-L1 ou EGFR mutação para VEGF.

Câncer colorretal metastático: AVF2107g, E3200 e evolução do tratamento

AVF2107g (Hurwitz et al., NEJM 2004) — bevacizumabe em CCRm 1ª linha: 813 pacientes CCRm sem tratamento. Bevacizumabe + IFL (irinotecano+fluorouracil+leucovorin em bolus) vs. IFL + placebo.

SG: 20,3 vs. 15,6 meses (HR 0,66; P<0,001). SLP: 10,6 vs. 6,2 meses. ORR: 44,8% vs. 34,8%.

Aprovação FDA: fevereiro 2004 — primeira aprovação de bevacizumabe em qualquer tumor.

E3200 (Giantonio et al., JCO 2007) — bevacizumabe em CCRm 2ª linha: Bevacizumabe + FOLFOX4 vs. FOLFOX4 vs. bevacizumabe solo em CCRm pré-tratado com IFL. SG: 12,9 vs. 10,8 vs. 10,2 meses (bevacizumabe+FOLFOX > FOLFOX > bevacizumabe solo). Aprovação FDA: junho 2006 para CCRm 2ª linha.

Regimes atuais em CCRm: 1ª linha padrão: FOLFOX + bevacizumabe OU FOLFIRI + bevacizumabe. Benefício similar entre FOLFOX e FOLFIRI (N9741, JCO 2004 — sem diferença entre os dois regimes base). Escolha depende de tolerância e preferência.

Bevacizumabe através de linhas: ML18147/TML: bevacizumabe continuar na 2ª linha após progressão em bevacizumabe-based 1ª linha. SG: 11,2 vs. 9,8 meses (HR 0,81; P=0,0062). Estratégia "bevacizumabe beyond progression" (BBP) é prática estabelecida.

Anti-EGFR em CCRm — vs. bevacizumabe: Cetuximabe/panitumumabe (anti-EGFR): ativo em CCRm RAS wildtype (KRAS/NRAS WT exons 2/3/4). FIRE-3 (FOLFIRI+cetuximabe vs. FOLFIRI+bevacizumabe em KRAS WT): SG: 33,1 vs. 25,0 meses (cetuximabe) — benefício de SG com cetuximabe em RAS WT. PEAK: panitumumabe vs. bevacizumabe + FOLFOX em KRAS WT: SG 41,3 vs. 28,9 meses. Anti-EGFR preferível em RAS/BRAF WT lado esquerdo.

BRAF V600E em CCRm: BEACON (Kopetz et al., NEJM 2019): encorafenibe (BRAF) + binimetinibe (MEK) + cetuximabe vs. cetuximabe+quimio em CCRm BRAF V600E. SG: 9,0 vs. 5,4 meses (HR 0,52). Aprovação FDA: abril 2020.

Câncer de ovário: ICON7, GOG-218 e AURELIA — bevacizumabe em platina-suscetível e resistente

ICON7 (Perren et al., NEJM 2011) — bevacizumabe 1ª linha em ovário: 1528 pacientes câncer de ovário (incluindo peritoneal/trompa de Falópio) estágio alto. Carboplatina+paclitaxel (6 ciclos) → observação vs. carboplatina+paclitaxel + bevacizumabe (C1-6) → bevacizumabe manutenção (C7-18, 7,5 mg/kg q3sem).

SLP: 19,0 vs. 17,3 meses (HR 0,81; P=0,004). Subgrupo alto risco: SLP 16,0 vs. 10,5 meses (HR 0,73). SG: 58,0 vs. 52,4 meses (HR 0,85; P=0,03) — benefício modest em SG global.

GOG-218 (Burger et al., NEJM 2011) — EUA: 1873 pacientes ovário estágio III-IV. Carboplatina+paclitaxel+bevacizumabe (C2-6) → manutenção com bevacizumabe por C7-22 vs. quimio+placebo. SLP: 14,1 vs. 10,3 meses (HR 0,72; P<0,001). Sem SG diferença. Aprovação FDA: dezembro 2016 para carcinoma de ovário/trompa/peritoneal estágio III-IV avançado com carboplatina+paclitaxel e manutenção.

AURELIA (Pujade-Lauraine et al., JCO 2014) — platina-resistente: Ovário platina-resistente (progressão <6m após platina): bevacizumabe + quimio (pegylated liposomal doxorrubicina OU topotecano OU paclitaxel semanal) vs. quimio. SLP: 6,7 vs. 3,4 meses (HR 0,48; P<0,001). ORR: 27,3% vs. 11,8%. Aprovação FDA: novembro 2014 para ovário platina-resistente + quimio.

PARP inhibidores + bevacizumabe em ovário: PAOLA-1 (Ray-Coquard et al., NEJM 2019): olaparibe+bevacizumabe manutenção vs. bevacizumabe após platina+bevacizumabe em ovário HRD (HR-deficiente). SLP: 22,1 vs. 16,6 meses em geral; em BRCA mutado: 37,2 vs. 21,7 meses (HR 0,31). Aprovação FDA para essa combinação em HRD+.

Ovário: sequência terapêutica atual: 1ª linha: carboplatina+paclitaxel + bevacizumabe → manutenção bevacizumabe OU olaparibe (BRCA-mut ou HRD+) OU niraparibe (todos). Platina-sensível recidivado: re-platina ± PARP inibidem. Platina-resistente: bevacizumabe + quimio (AURELIA), mirvetuxumabe soravtansine (anti-FRα ADC em FRα alta — MIRASOL, 2023).

Glioblastoma (GBM): AVAglio e o enigma de bevacizumabe sem SG

Glioblastoma (GBM) — contexto clínico: GBM é o tumor cerebral maligno mais comum em adultos. Mediana de SG com tratamento padrão (Stupp protocol: cirurgia → temozolomida+RT concomitante → temozolomida adjuvante): ~14-16 meses. GBM é altamente angiogênico (VEGF elevado no tumor — hipoxia extrema) → racional para bevacizumabe.

AVAglio (Chinot et al., NEJM 2014) — bevacizumabe + RT+TMZ em GBM 1ª linha: 921 pacientes GBM recém-diagnosticado. Bevacizumabe 10 mg/kg q2sem + Stupp protocol vs. Stupp protocol + placebo.

SLP: 10,6 vs. 6,2 meses (HR 0,64; P<0,001) — diferença enorme de SLP. SG: 16,8 vs. 16,7 meses (HR 0,83; P=0,10) — NENHUMA diferença em SG.

Paradoxo de AVAglio: Bevacizumabe dobra SLP mas não melhora SG em GBM. Explicação possível:

  • Bevacizumabe reduz permeabilidade vascular → menos edema cerebral → melhora na RM (menos gadolínio) → "pseudo-resposta radiológica" → SLP inflacionada artificialmente
  • Tumor escapa da angiogênese convencional → invasão difusa guiada por co-optação de vasos normais (não angiogênese) → bevacizumabe não controla esse mecanismo de escape
  • Bevacizumabe pode aumentar invasividade tumoral em GBM (seleção de fenótipo mais invasivo)

Aprovação FDA: fevereiro 2009 (recorrente) — bevacizumabe NÃO aprovado em GBM 1ª linha (AVAglio negativo para SG).

Bevacizumabe em GBM recorrente: BRAIN trial e estudos não-randomizados: ORR 25-38%, SLP 3-4 meses — respostas mas curtas. Aprovado FDA em recorrente em 2009 baseado em estudos não-randomizados.

Uso prático em GBM recorrente: Bevacizumabe é usado para: reduzir edema cerebral (substituindo dexametasona), paliar sintomas, prolongar SLP. Sem comparador randomizado vs. quimio em recorrência. Na prática, muitos centros usam bevacizumabe + temozolomida ou bevacizumabe + lomustina em GBM recorrente por opção pragmática.

Outras indicações de bevacizumabe e toxicidades vasculares críticas

Câncer cervical: GOG-240 (Tewari et al., NEJM 2014): cisplatina+paclitaxel ± bevacizumabe em cervical recorrente/metastático. SG: 17,0 vs. 13,3 meses (HR 0,71; P=0,004). ORR: 48% vs. 36%. Aprovação FDA: agosto 2014 para cervical recorrente/persistente/metastático + quimio.

Câncer de mama HER2- metastático: Bevacizumabe + paclitaxel (E2100): SLP 11,8 vs. 5,9 meses. Mas sem SG. Aprovação acelerada, depois retirada pela FDA em 2011 (sem SG + perfil de toxicidade). Somente ABCP (com atezolizumabe, não bevacizumabe isolado) manteve aprovação no pulmão EGFR/ALK.

Carcinoma de células renais (CCR): Bevacizumabe + IFN-α: AVOREN/BO17705 — SLP 10,2 vs. 5,4 meses. Menos usado hoje com chegada de sunitinibe, TKIs muti-target e pembrolizumabe+axitinibe.

Toxicidades vasculares específicas de bevacizumabe:

  1. Hipertensão arterial: 23-38% (grau 3: 6-18%). Monitorar PA a cada ciclo. Tratar com anti-hipertensivos. Pode ser necessário reduzir ou suspender.
  1. Tromboembolismo venoso (TEV): 15-18% (TVP, EP). Heparina de baixo peso molecular para tratamento quando TEV ocorre — bevacizumabe geralmente mantido se TEV tratado.
  1. Tromboembolismo arterial (TEA): IAM, AVC em 3-5%. SUSPENDER permanentemente.
  1. Hemorragia: 5% qualquer grau. Grave: hemoptise (CONTRA-INDICAÇÃO em CPNPC escamoso), epistaxe, hemorragia intracraniana em GBM. Raras mas podem ser fatais.
  1. Perfuração gastrointestinal/deiscência de anastomose: 1-2%. Risco em GI tumor, cirurgia recente. Sinais: dor abdominal aguda → TC urgente.
  1. Proteinúria: 30-40% qualquer grau, 2-3% nefrótica. Monitorar proteína urina antes de cada ciclo.
  1. Fístulas: GU, GI, brônquica. Mais raras mas graves.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é bevacizumabe e como ele difere da quimioterapia convencional?+

Bevacizumabe (Avastin) é um anticorpo que bloqueia o VEGF — uma proteína que os tumores produzem para estimular o crescimento de novos vasos sanguíneos (angiogênese). Sem esses novos vasos, o tumor não consegue se alimentar e crescer. A diferença da quimioterapia: enquanto a quimio ataca diretamente as células tumorais (e também as células normais em divisão, causando efeitos colaterais como queda de cabelo, náusea), bevacizumabe não mata células tumorais diretamente — ele corta o suprimento de sangue. Por isso, seus efeitos colaterais são diferentes: risco de sangramento, hipertensão, trombose e, raramente, perfuração intestinal. Em quase todas as indicações, bevacizumabe é combinado com quimioterapia para potencializar o efeito — raramente é usado sozinho.

Bevacizumabe funciona para câncer colorretal metastático?+

Sim — bevacizumabe é parte do tratamento padrão do câncer colorretal metastático (CCRm) há 20 anos (desde 2004). Combinado com regimes de quimioterapia (FOLFOX ou FOLFIRI), melhora a sobrevida global de 15,6 para 20,3 meses em 1ª linha, e também tem benefício em 2ª linha. Uma característica importante: mesmo que o tumor progrida após bevacizumabe na 1ª linha, há benefício em continuar bevacizumabe com uma nova quimioterapia na 2ª linha ('bevacizumabe além da progressão' — estudo ML18147). Nos últimos anos, para pacientes com RAS e BRAF selvagem em tumor do lado esquerdo do cólon, anticorpos anti-EGFR (cetuximabe, panitumumabe) podem ser preferíveis ao bevacizumabe em 1ª linha. Para mutação BRAF V600E, a combinação encorafenibe+binimetinibe+cetuximabe é o padrão atual.

Por que bevacizumabe não melhora a sobrevida no câncer de ovário?+

Na verdade, bevacizumabe MELHORA a sobrevida livre de progressão no câncer de ovário (adiando a progressão), e há um benefício modesto em sobrevida global nos estudos ICON7 e GOG-218. No glioblastoma (tumor cerebral), bevacizumabe aumenta muito o tempo sem progressão no exame de imagem mas surpreendentemente não melhora a sobrevida total — esse foi o resultado paradoxal do AVAglio. A explicação provável para o GBM: bevacizumabe reduz o extravasamento de contraste (que está no critério de progressão pela RM), criando uma 'pseudo-resposta' que faz parecer que o tumor está controlado quando na verdade está crescendo de forma invasiva, sem depender de novos vasos. Para o câncer de ovário, bevacizumabe é aprovado e amplamente usado — em combinação com inibidores de PARP (como olaparibe + bevacizumabe no PAOLA-1) os resultados são ainda melhores para pacientes com deficiência de recombinação homóloga.

Quais pacientes NÃO devem receber bevacizumabe?+

Bevacizumabe tem contraindicações importantes: hemoptise recente (>2,5 mL de sangue vermelho — especialmente em câncer de pulmão escamoso, onde perfura brônquios); cirurgia abdominal major nos últimos 4-6 semanas (risco de deiscência de anastomose/perfuração); AVC ou IAM recentes (menos de 6 meses); fístula ativa; hipertensão severa não controlada; insuficiência renal grave com proteinúria nefrótica; gravidez (teratogênico). Em câncer de pulmão, o tipo escamoso é contraindicado pelo risco de hemoptise grave. Além disso, bevacizumabe deve ser pausado pelo menos 4-6 semanas antes de qualquer cirurgia eletiva para evitar comprometimento da cicatrização, e reiniciado apenas após cicatrização completa.

O bevacizumabe pode ser usado para câncer de pulmão além do ABCP?+

Bevacizumabe tem aprovação específica em câncer de pulmão não-pequenas células NÃO-escamoso metastático: combinado com carboplatina+paclitaxel em 1ª linha (estudo E4599). A dose é 15 mg/kg q3sem. Pacientes com tumor escamoso NÃO podem receber bevacizumabe (risco de hemorragia pulmonar grave). Com a chegada da imunoterapia, o esquema ABCP (atezolizumabe + bevacizumabe + carboplatina + paclitaxel, do IMpower150) ganhou destaque por ser o único regime de IO aprovado para pulmão com EGFR ou ALK positivo após falha de TKI. Para pulmão sem driver e sem imunoterapia, bevacizumabe + quimio ainda é usado, mas pembrolizumabe + quimio (sem bevacizumabe) tornou-se mais popular por dados de SG mais robustos.

Referências Científicas

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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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