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← Blog·Oncologia de Precisão26 de junho de 2026

CAR-T Anti-CD19 em DLBCL e LLA: Axicabtagene (ZUMA-1/7), Tisagenlecleucel (JULIET/ELIANA) e Lisocabtagene (TRANSFORM)

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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CD19: alvo universal em linfomas B e leucemia linfoblástica

CD19 (CR2/B4): CD19 é um co-receptor de células B expresso desde células pró-B até plasmoblastos (ausente em plasmócitas maduras, similar a CD20). CD19 é o alvo mais explorado em imunoterapia de células B.

Perfil de expressão em malignidades de células B:

  • DLBCL (linfoma difuso GCB e ABC): 90-95% CD19+
  • ALL pré-B (leucemia linfoblástica aguda): 80-90% CD19+
  • Linfoma folicular, MCL, CLL: >90% CD19+
  • Mieloma múltiplo: ausente ou muito baixo (por isso CD38/BCMA são alvos em MM)

Vantagens de CD19 vs. CD20 como alvo: CD19 é expresso mais precocemente na diferenciação de células B e em progenitoras — potencialmente cobre mais espectro de clones leucêmicos. CD19 internaliza após ligação de anticorpo (CD20 não — diferença importante: ADC anti-CD19 = eficiente; CAR-T anti-CD19 = eficiente). Ausência de expressão em células não-B = toxicidade off-target reduzida.

Perda de CD19 — mecanismo de resistência: ~30-40% dos pacientes que recidivam após CAR-T anti-CD19 têm células tumorais CD19-negativas (escape antigênico). Mecanismos: splicing alternativo do éxon 2 (truncamento da proteína), mutações loss-of-function, linhagem switching (conversão de B para T-like). Soluções: CAR-T biespecífico CD19+CD22 (Leahy et al., NEJM 2023 — dados preliminares) ou CAR-T CD22 sequencial.

Diferença dos CARs CD19:

  • Axi-cel (CD28 coestimulador): expansão rápida e intensa → mais CRS e ICANS
  • Tisa-cel e liso-cel (4-1BB coestimulador): expansão mais controlada, persistência mais longa → menos toxicidade imediata

ZUMA-1 e JULIET: primeiros CAR-T CD19 em DLBCL r/r

ZUMA-1 (Neelapu et al., NEJM 2017) — axi-cel em DLBCL r/r: 101 pacientes DLBCL r/r (DLBCL, PMBCL, HGBCL) ≥2 linhas, inelegíveis a ASCT ou pós-ASCT. Dose única de axi-cel após linfodepleção com fludarabina+ciclofosfamida.

ORR: 72%. CR: 51%. SLP mediana: 5,9 meses. CR duradoura em 2 anos: 39%.

Aprovação FDA: outubro 2017 — primeiro CAR-T aprovado para linfoma adulto.

JULIET (Schuster et al., NEJM 2019) — tisa-cel em DLBCL r/r: 93 pacientes DLBCL r/r ≥2 linhas. Tisa-cel após linfodepleção.

ORR: 52%. CR: 40%. SLP mediana: NR em respondedores completos. CR durável em 12 meses: 65% dos que atingiram CR.

Aprovação FDA: maio 2018 para DLBCL r/r ≥2 linhas.

Toxicidade comparada: |Toxicidade|Axi-cel (ZUMA-1)|Tisa-cel (JULIET)| |CRS qualquer|93%|58%| |CRS grau ≥3|11%|22% (classificação diferente)| |ICANS qualquer|64%|21%| |ICANS grau ≥3|28%|12%|

Axi-cel tem mais toxicidade por coestimulador CD28 → expansão mais explosiva. Tisa-cel (4-1BB) expande mais lentamente → menor CRS aguda, mas persistência mais longa.

Liso-cel (BREYANZI®, lisocabtagene maraleucel): Produto CAR-T 4-1BB com formulação definida (proporção fixa CD4:CD8). TRANSCEND (Abramson et al., Lancet 2020): 269 pacientes DLBCL r/r. ORR 73%, CR 53%, SLP mediana 6,8 meses. CRS grau ≥3 2%, ICANS grau ≥3 10% — perfil de toxicidade mais favorável por fabricação mais controlada. Aprovação FDA: fevereiro 2021.

ZUMA-7 e TRANSFORM: CAR-T como 2ª linha substitui transplante em DLBCL

Paradigma histórico DLBCL r/r 2ª linha: Padrão até 2021: 1) recaída após R-CHOP → 2) quimioterapia de salvamento (ICE/DHAP) → 3) se resposta, ASCT → cura em ~50% dos que chegam ao transplante. 1/3 dos pacientes recaídos eram elegíveis a ASCT, 50% dos elegíveis respondiam à quimioterapia de salvamento, 50% desses eram curados = ~17% curado de todos que recaíam. Muito espaço para melhora.

ZUMA-7 (Locke et al., NEJM 2022) — axi-cel vs. ASCT em DLBCL r/r 2ª linha: 359 pacientes DLBCL r/r elegíveis a ASCT, 1ª recaída ou refratário primário. Axi-cel vs. quimio de salvamento → ASCT nos respondedores.

EFS (event-free survival) 24 meses: 41% vs. 16% (HR 0,40; P<0,001). ORR: 83% vs. 50%. CR: 65% vs. 32%.

Análise de SG (NEJM 2023 atualização): SG 4 anos: 54,6% vs. 46,0% (HR 0,73; P=0,03) — superioridade em SG.

Aprovação FDA: abril 2022 para axi-cel em DLBCL r/r 1ª recaída/refratário primário (não requer triagem de salvamento primeiro).

TRANSFORM (Kamdar et al., NEJM 2022) — liso-cel vs. ASCT em DLBCL r/r 2ª linha: 184 pacientes DLBCL r/r (similar a ZUMA-7). Liso-cel vs. quimio de salvamento → ASCT.

EFS: HR 0,35 (P<0,001). CR: 66% vs. 39%. SLP mediana: NR vs. 2,4 meses. Aprovação FDA: junho 2022 para liso-cel em DLBCL r/r 2ª linha.

Mensagem clínica: CAR-T cells (axi-cel, liso-cel) são SUPERIORES ao transplante autólogo para DLBCL r/r na 2ª linha — mudança fundamental. ASCT pode ainda ser reservado para pacientes sem acesso a CAR-T, ou após falha de CAR-T em situações selecionadas.

ELIANA: tisa-cel em LLA pediátrica — remissão em 81%

LLA pré-B em crianças/adultos jovens: Leucemia Linfoblástica Aguda (ALL) é o câncer mais comum na infância (30% dos cânceres pediátricos). LLA pré-B: 75% são curadas com quimioterapia de 2-3 anos (protocolos COG, AIEOP-BFM). Recaída/refratário: prognóstico grave. Transplante alogênico em LLA r/r: sobrevida ~30-40%. Necessidade de nova opção.

ELIANA (Maude et al., NEJM 2018) — tisa-cel em LLA pré-B r/r pediátrica e adultos jovens: 75 pacientes 3-25 anos, LLA pré-B r/r (≥2 recaídas ou refratário a quimio). Tisa-cel dose única.

Remissão (CR ou CRi — sem detecção mínima de doença residual): 81%. MRD negativa: 60% dentro dos respondedores. SRL 12 meses: 50% (incluindo os que foram a transplante após remissão). Sobrevida 1 ano: 76%.

Aprovação FDA: agosto 2017 — primeiro CAR-T aprovado nos EUA (para LLA pediátrica pré-B).

Síndrome de neurotoxicidade — ICANS em crianças: ICANS (Immune Effector Cell-Associated Neurotoxicity Syndrome) em LLA pediátrica com tisa-cel: menor que em adultos com DLBCL. ELIANA: ICANS qualquer grau em 13%, grau 3-4 em 13%. Inclui encefalopatia, convulsões (manejáveis com corticóides), raramente edema cerebral.

ELIANA vs. adultos: Tisa-cel para LLA em adultos (16-85 anos): estudo separado (JULIET II em andamento). Adultos com LLA: mais difícil de tratar, menos resposta. Era padrão: ASCT em RC1 quando disponível. CAR-T anti-CD19 em LLA adulto ainda sendo integrado — benefício selecionado.

CAR-T em LLA Philadelphia+ (BCR-ABL): Ph+ ALL (presente em ~25% dos adultos) — responde a TKIs + quimio. Em r/r Ph+ ALL: CAR-T + dasatinibe pode ser combinado. Estudos em andamento.

ICANS: diagnóstico e manejo da neurotoxicidade de CAR-T

ICANS — Immune Effector Cell-Associated Neurotoxicity Syndrome: Síndrome neurológica inflamatória que ocorre após infusão de CAR-T (e biespecíficos). Ocorre em 20-65% dos pacientes (axi-cel mais que tisa-cel). Tipicamente começa após CRS (dias 3-10) ou pode se sobrepor.

Manifestações clínicas: Progressão: confusão → desorientação → afasia → disfagia → tremor → convulsões → edema cerebral (raro mas fatal). A ICANS escala progressivamente.

Escala CARTOX-10 para grading: Avalia: orientação (ano, mês, cidade, hospital, presidente — 4 pontos), escrita de frase (1 ponto), nomeação de objetos (4 pontos), atenção (1 ponto). Máximo 10 pontos.

  • Grau 1: 7-9 pontos
  • Grau 2: 3-6 pontos
  • Grau 3: 0-2 pontos ou convulsão focal/agitação/papilledema
  • Grau 4: convulsão generalizada ou coma ou edema cerebral

Patofisiologia: IL-6 e outras citocinas → disfunção de barreira hematoencefálica → entrada de citocinas no SNC → neuroinflamação. Células T CAR podem também entrar diretamente no SNC.

Manejo de ICANS: Grau 1: monitoramento frequente (neurológico q4-8h). Grau 2: dexametasona 10 mg IV q6h + monitoramento. Grau 3: dexametasona 10-20 mg IV q6h. Se convulsão: levetiracetam. Grau 4: metilprednisolona 1-2 mg/kg/dia. UTI neurológica. Considerar siltuximabe (anti-IL-6) se refratário.

Nota importante: Tocilizumabe (anti-IL-6R) NÃO é indicado para ICANS isolada (pode piorar ICANS ao aumentar IL-6 CSF). Tocilizumabe é para CRS apenas. Para CRS + ICANS simultâneas: avaliar caso a caso.

Profilaxia: Levetiracetam profilático (500 mg 2×/dia) recomendado durante todo o período de risco (primeiros 30 dias). Evitar corticóides antes da infusão (podem reduzir expansão de CAR-T, diminuindo eficácia).

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

CAR-T anti-CD19 cura o linfoma difuso refratário?+

Para DLBCL (linfoma difuso de grandes células B) refratário a 2 ou mais tratamentos anteriores, os CAR-T anti-CD19 (axicabtagene/Yescarta, tisagenlecleucel/Kymriah, lisocabtagene/Breyanzi) alcançam remissão completa em 40-65% dos pacientes — e muitos mantêm essa remissão por longo prazo. Em estudos de seguimento de 3-5 anos, ~35-40% dos pacientes que receberam CAR-T permanecem sem doença. Isso representa uma cura funcional para uma parcela significativa de pacientes que antes tinham prognóstico muito sombrio. Os estudos ZUMA-7 e TRANSFORM mostraram que CAR-T é superior ao transplante autólogo na 2ª linha. Mas não funciona para todos — 30-40% têm recaída, frequentemente por escape do antígeno CD19.

Qual é a diferença entre axicabtagene, tisagenlecleucel e lisocabtagene?+

Todos são CAR-T anti-CD19 aprovados para linfoma, mas diferem no domínio de coestimulação: axicabtagene (Yescarta) usa CD28, que faz os T células se expandirem rapidamente e intensamente — isso é poderoso mas causa mais inflamação (mais síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade: ~11-28% grau grave). Tisagenlecleucel (Kymriah) e lisocabtagene (Breyanzi) usam 4-1BB — expansão mais controlada, menos toxicidade aguda, persistência mais longa. Lisocabtagene tem a formulação mais definida (proporção CD4:CD8 controlada) e mostrou o melhor perfil de segurança (CRS grave <5%, ICANS grave <10%). A escolha depende do centro, disponibilidade e perfil do paciente.

CAR-T funciona na leucemia em crianças?+

Sim — e foi para LLA pediátrica que o CAR-T foi primeiramente aprovado. Tisagenlecleucel (Kymriah) foi o primeiro CAR-T a receber aprovação do FDA, em agosto de 2017, especificamente para leucemia linfoblástica aguda (LLA) de células B em crianças e adultos jovens (até 25 anos) que não responderam a pelo menos 2 tratamentos. No estudo ELIANA, 81% das crianças entraram em remissão — algo notável para pacientes com LLA refratária. A maioria das remissões era MRD-negativa (sem células leucêmicas detectáveis por testes altamente sensíveis). Muitos foram para transplante alogênico depois, em remissão, aumentando as chances de cura permanente.

O que fazer se o linfoma voltar após CAR-T?+

Recaída pós-CAR-T é um desafio sério. As opções dependem da causa da recaída: se o tumor perdeu CD19 (escape antigênico — ocorre em ~30-40%): considerar CAR-T anti-CD22 ou CAR-T biespecífico CD19+CD22; se CD19 ainda é positivo: pode-se tentar um segundo CAR-T diferente (ex: tisa-cel após axi-cel) em centros especializados; transplante alogênico pode ser opção em pacientes jovens que recuperaram boa condição; anticorpos biespecíficos CD20×CD3 (glofitamabe, epcoritamabe) para DLBCL CD20+; loncastuximabe (ADC anti-CD19). O prognóstico após recaída pós-CAR-T é mais limitado, e a decisão deve ser tomada em centro especializado com experiência em CAR-T.

Quanto tempo dura o processo de fabricação do CAR-T e o que fazer enquanto espera?+

A fabricação de CAR-T autólogo demora tipicamente 3-4 semanas (leucaférese → envio ao fabricante → engenharia → controle de qualidade → envio de volta). Durante esse período, o paciente frequentemente precisa de terapia 'ponte' (bridging therapy) para controlar a doença enquanto aguarda: pode ser rituximabe, quimioterapia leve (gemcitabina, bendamustina) ou, em Hodgkin, nivolumabe/pembrolizumabe. Um desafio logístico real: pacientes com doença muito agressiva podem progredir rapidamente durante as 3-4 semanas. O hematologista escolhe a bridging therapy com base na histologia do linfoma, condição do paciente e ritmo da progressão. Após a infusão do CAR-T, os primeiros 14-30 dias são os de maior risco de CRS e ICANS — sempre feitos em hospital especializado.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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