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← Blog·Oncologia de Precisão23 de junho de 2026

Alpelisibe (SOLAR-1): Inibidor de PI3Kα em Câncer de Mama HR+/HER2− com Mutação de PIK3CA

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Via PI3K-AKT-mTOR em câncer de mama: biologia e mutações de PIK3CA

A via PI3K em contexto normal: PI3K (phosphoinositide 3-kinase) é uma família de lipídio quinases heterodiméricas. A mais relevante em câncer: PI3Kα = heterodímero de p85α (subunidade regulatória) + p110α (subunidade catalítica, codificada por PIK3CA).

Ativação normal: receptor RTK ativado → recruta e ativa PI3K → PI3K fosforila PIP2 → PIP3 → recruta AKT (PDK1 fosforila Thr308, mTORC2 fosforila Ser473) → AKT ativa GSK3β, mTOR, FOXO1 → proliferação, sobrevivência.

PIK3CA — oncogene: PIK3CA é um dos oncogenes mais comuns em sólidos (~20% de todos). Em mama HR+: ~40% (maior frequência que qualquer outro câncer). Mutações quase sempre ativadoras (gainof-function):

  • Hotspots mais comuns: H1047R (domínio kinase, ~38% das mutações PIK3CA em mama), E545K/E542K (domínio helicoidal, ~30%), E726K, outros.
  • Todas ativas PI3Kα constitutivamente → downstream AKT/mTOR permanentemente ativado

PI3K e resistência ao bloqueio hormonal: ER (receptor de estrógeno) ativa PI3K diretamente (sinalização não-genômica). Quando IA ou fulvestranto inibem ER → células tumorais ativam PI3K como bypass → continuam crescendo. Círculo vicioso: ER suprimido → seleciona células PI3K-ativas → resistência ao bloqueio hormonal. Alpelisibe + fulvestranto (que suprime ER) fecha esse círculo.

Perda de PTEN: PTEN é fosfatase que desfaz o produto de PI3K (converte PIP3 → PIP2). Perda de PTEN = ativação de PI3K mesmo sem mutação de PIK3CA. ~12% de mama HR+. Alpelisibe pode beneficiar PTEN-perdidos, mas aprovação é somente para PIK3CA-mutados.

SOLAR-1: alpelisibe+fulvestranto em mama HR+/HER2− pós-IA e CDK4/6i

SOLAR-1 (André et al., NEJM 2019) — fase III: 572 pacientes com mama metastática HR+/HER2− que progrediram após IA (inibidor de aromatase). Stratificação por PIK3CA status (mutado vs. não-mutado em tecido por teste de NGS centralizado). Alpelisibe 300 mg QD + fulvestranto 500 mg D1+15 mes 1 → D1 q4sem vs. placebo + fulvestranto.

Resultados na coorte PIK3CA-mutada (n=341): SLP: 11,0 vs. 5,7 meses (HR 0,65; P<0,001). ORR: 35,7% vs. 16,2%. Coorte PIK3CA não-mutada (n=231): SLP: 7,4 vs. 5,6 meses (HR 0,85; NS). Sem benefício em não-mutadas.

Aprovação FDA: maio 2019 para mama metastática HR+/HER2− PIK3CA-mutada pós-IA (com fulvestranto).

Posicionamento no algoritmo (2025): 1ª linha: CDK4/6i+IA (palbociclibe/ribociclibe/abemaciclibe) — padrão global. 2ª linha pós-CDK4/6i:

  • PIK3CA-mutada + ESR1-wt: alpelisibe+fulvestranto OU elacestrant (SERD oral)
  • PIK3CA-mutada + ESR1-mutada: elacestrant (mais ativo em ESR1-mut), alpelisibe opcional
  • PIK3CA-wt + ESR1-mut: elacestrant
  • PIK3CA-wt + ESR1-wt: fulvestranto, everolimo+exemestano, ensaio

Teste de PIK3CA — pré-requisito: Tecido tumoral (NGS) OU ctDNA em plasma (liqbiópsia). FDA aprovou teste Therascreen PIK3CA (QIAGEN) em tecido e ctDNA. Sensibilidade: ~90% em tecido, ~50-70% em ctDNA (menor sensibilidade — negativo em ctDNA não exclui, precisa confirmar em tecido).

Toxicidades do alpelisibe: hiperglicemia grave e dermatite

Hiperglicemia — toxicidade classe de PI3Ki: PI3K regula metabolismo de glicose: PI3K → AKT → GSK3β inativa → aumenta síntese de glicogênio; PI3K → AKT → suprime gluconeogênese; PI3K → AS160 → GLUT4 translocação → captação de glicose.

Inibição de PI3Kα: resistência à insulina → hiperglicemia. SOLAR-1: hiperglicemia grau 3 em 36,6% vs. 0,7%. 10,3% de pacientes suspenderam definitivamente por hiperglicemia. É a toxicidade limitante principal.

Manejo: monitorar glicemia em jejum semanalmente × 1 mês, depois q2-4 semanas. Se GLI em jejum ≥160 mg/dL → iniciar metformina imediatamente (aumenta sensibilidade à insulina, contra-regula PI3K-resistência). Doses progressivas de metformina 500 mg BID → 1000 mg BID → 2000 mg/dia. Se refrátario → adicionar inibidor de SGLT-2 (empagliflozina). Dieta low-carb recomendada.

Em pacientes já diabéticos: ajustar glicêmicos ANTES de iniciar alpelisibe; considerar suspensão de insulina/sulfoniluréia excessiva que pode mascarar hipoglicemia posterior. Endocrinologista deve participar do acompanhamento.

Dermatite/Erupção cutânea: SOLAR-1: rash em 52% (grau 3: 9,9%). Geralmente erupção maculopapular, prurginosa, troco/face. Manejo: corticosteroide tópico (betametasona valeriato 0,1%), anti-histamínico oral (fexofenadina). Grau 3: prednisona oral 0,5 mg/kg × 7-10 dias. Persistência: redução de dose (300→250→200 mg).

Outras toxicidades: Náusea (58%, grau 3: 2,7%), diarreia (48%, grau 3: 6,7%), perda de apetite (36%), mucossite (30%), vômitos (26%). Manejo sintomático; raramente causam suspensão.

Contraindicação: Diabetes grave descontrolado (HbA1c>8% sem controle) é exclusão relativa — alpelisibe piorará. Controle glicêmico obrigatório antes de iniciar.

BYLieve e atualização: alpelisibe após CDK4/6i

BYLieve (Rugo et al., Nat Med 2021) — alpelisibe pós-CDK4/6i: SOLAR-1 usou população pós-IA (não selecionada por uso de CDK4/6i). BYLieve foi desenhado especificamente para pós-CDK4/6i.

Coorte A: alpelisibe+fulvestranto em PIK3CA-mutadas após CDK4/6i+IA (2ª linha). N=127. SLP mediana: 7,3 meses. Taxa de SLP6 (livre de progressão em 6 meses): 50,4% (prespecified primary endpoint). Aprovação FDA mantida — confirmou eficácia em pós-CDK4/6i especificamente.

Coorte B: alpelisibe+letrozol após CDK4/6i+fulvestranto (quem falhou em fulvestranto 1ª linha): SLP6 46,1%.

Quem realmente se beneficia mais: Análise post-hoc: maior benefício em pacientes com H1047R (maior ativação de PI3K) vs. mutações de domínio helicoidal (E545K). PIK3CA múltiplas mutações (>1): resposta similar. Amplificação de PIK3CA sem mutação: não responde (alpelisibe não é alvo de amplificação).

Resistência a alpelisibe:

  • Mutações in trans de PIK3CA (dupla mutação — raro)
  • Bypass via AKT1: mutações E17K de AKT1 → AKT constitutivamente ativo sem PI3K
  • Loss of function de PTEN com mutação de PIK3CA (já ativado por duas vias)

Inibidores de PI3Kα de próxima geração: Inavolisibe (GDC-0077) — fase III INAVO120: demonstrou SLP de 15,0 vs. 7,3 meses (vs. placebo+fulvestranto em pós-CDK4/6i PIK3CA-mutado). Approvação FDA esperada 2024. Menor hiperglicemia que alpelisibe (maior seletividade para PI3Kα vs. PI3Kβ reduz efeito metabólico).

Outros inibidores de PI3K aprovados: idelalisibe e copanlisibe em linfomas

PI3Kδ e PI3Kγ — isoformas hematopoéticas: PI3Kδ é expresso predominantemente em leucócitos. PI3Kγ em macrófagos e neutrófilos. Inibidores de PI3Kδ/γ são usados em neoplasias hematológicas (onde essas isoformas são as principais drivers), diferente de PI3Kα (mais relevante em tumores sólidos).

Idelalisibe (Zydelig®, CAL-101) — PI3Kδ seletivo: IC₅₀ PI3Kδ: 2,5 nM. Ativo em CLL (leucemia linfocítica crônica) e LBGDC (linfoma difuso de grandes células B).

Estudo CLL (Furman et al., NEJM 2014): idelalisibe+rituximabe vs. placebo+rituximabe em CLL relapso/refratário. SLP: NR vs. 5,5 meses (HR 0,15; P<0,001). ORR: 81% vs. 13%. Aprovação FDA: julho 2014 para CLL (com rituximabe) e LF (linfoma folicular) relapso 3L+.

TOXICIDADES GRAVES: colite imunomediada (16-22% grau 3+), hepatite (18% grau 3+), pneumonite (3-4%), infecções oportunistas (pneumocystis, CMV) — requer profilaxia com SMX-TMP e antiviral em todos. Black Box Warning: hepatite fatal, colite, pneumonite, infecção grave. Uso muito restrito na prática por toxicidade.

Copanlisibe (Aliqopa®) — pan-PI3K + PI3Kα/δ: IV. Aprovado para LF relapso ≥2L (FDA 2017). ORR 59% em LF r/r. Mais hiperglicemia (PI3Kα) e hipertensão (transiente). Infusão IV, não oral.

Umbralisibe (TGR-1202) — PI3Kδ/CK1ε: Aprovação acelerada em MZL/LF r/r (2021) → retirada voluntária em 2022 após sinal de segurança (maior mortalidade por infecções/toxicidade em trials não-controlados).

Lição dos PI3K-i hematológicos: Toxicidade imunomediada grave (colite, hepatite) limita uso; menor imunotoxicidade com PI3Kα-seletivo (alpelisibe em sólidos), mais toxicidade metabólica.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é PIK3CA e por que minha médica pediu esse teste para o câncer de mama?+

PIK3CA é um gene que quando mutado (alterado) ativa permanentemente a via PI3K — um sistema de controle de crescimento celular. Está mutado em cerca de 40% dos cânceres de mama do tipo HR+/HER2- (que respondem a hormônios). Se a mutação estiver presente, alpelisibe (Piqray) combinado com fulvestranto pode prolongar o tempo até progressão do tumor vs. tratamento hormonal sozinho (11 vs. 5,7 meses no SOLAR-1). Por isso, o teste é feito em amostra de tumor ou no sangue (liqbiópsia) — para identificar quem pode se beneficiar desse tratamento específico. Sem a mutação, alpelisibe não tem benefício demonstrado.

Alpelisibe causa muito açúcar no sangue — o que fazer?+

Sim — hiperglicemia (açúcar alto no sangue) é o efeito colateral mais importante do alpelisibe, ocorrendo como grau grave em ~37% dos pacientes. Isso acontece porque a via PI3K regula a sensibilidade à insulina; inibir PI3K causa resistência à insulina. A estratégia de manejo: monitorar glicose em jejum toda semana no primeiro mês; se ≥160 mg/dL, iniciar metformina imediatamente (500 mg → aumentar gradualmente até 2000 mg/dia). Dieta com baixo carboidrato ajuda. Se não controlar, adicionar inibidor de SGLT-2. Se persistir em grau 3+, reduzir a dose de alpelisibe. Não suspenda o alpelisibe sem consultar a oncologista — a hiperglicemia é manejável na maioria dos casos.

Alpelisibe funciona no câncer de mama triplo negativo?+

Não foi aprovado para triplo negativo (TNBC). O SOLAR-1 foi feito exclusivamente em HR+/HER2-. TNBC tem PIK3CA mutado em ~7-10% (menor que HR+), e o crescimento é menos dependente de PI3K (outros drivers dominam, como BRCA, STAT3, EGFR). Estudos iniciais de alpelisibe em TNBC mostraram eficácia limitada. Para TNBC metastático, as opções são pembrolizumabe+quimio (PD-L1+), sacituzumabe govitecano (TROP2), olaparibe/talazoparibe (BRCA+) e quimio convencional. PIK3CA não é alvo clinicamente validado em TNBC.

O que é idelalisibe e por que é diferente do alpelisibe?+

Idelalisibe e alpelisibe inibem diferentes 'isoformas' (versões) da proteína PI3K: alpelisibe inibe PI3Kα — predominante em células tumorais de mama e outros sólidos; idelalisibe inibe PI3Kδ — predominante em linfócitos (células do sangue). Por isso, idelalisibe é usado em cânceres do sangue (como leucemia linfocítica crônica e linfoma folicular), e alpelisibe em câncer de mama sólido. Os efeitos colaterais também diferem: idelalisibe causa colite imunomediada e hepatite graves (por mexer com linfócitos), enquanto alpelisibe causa principalmente hiperglicemia (por PI3Kα regular metabolismo de glicose).

Preciso tomar fulvestranto junto com alpelisibe?+

Sim — a aprovação de alpelisibe é especificamente em combinação com fulvestranto, não como agente único. O fulvestranto é um antagonista de receptor de estrógeno (degradador de ER) — ele suprime a sinalização hormonal, enquanto o alpelisibe suprime o bypass de PI3K que resiste ao bloqueio hormonal. Sozinhos, cada um tem eficácia menor. A combinação é sinérgica: fecha dois caminhos que o tumor usa para crescer. Fulvestranto é dado como injeção intramuscular (500 mg) — no primeiro mês, são 3 injeções (dias 1, 15 e 29); depois, uma vez por mês. Alpelisibe é comprimido oral diário.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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