Glutamina: Por Que É Fundamental Para Atletas
Funções Biológicas da Glutamina
Glutamina (L-Gln) é o aminoácido mais abundante no organismo — 60% dos aminoácidos livres do músculo esquelético e 20% dos aminoácidos do plasma.
Funções críticas:
- Combustível de células de rápida divisão:
- Enterócitos (células intestinais): Glutamina = principal fonte de energia (não glicose) - Linfócitos T e B: Usam glutamina para proliferação → imunidade - Macrófagos: Glutamina para fagocitose e síntese de citocinas
- Barreira intestinal:
- Enterócitos com glutamina adequada → tight junctions intactas → barreira impermeável - Glutamina baixa → enterócitos morrem → tight junctions abertas → "leaky gut" → LPS passa → inflamação sistêmica
- Síntese proteica muscular:
- Não diretamente (não é BCAA), mas: Buffer de nitrogênio → amônia transportada como glutamina do músculo - Glutamina + BCAA → mTORC1 (leucina) amplificado
- pH e amônia:
- Rim: Glutamina → amônia + bicarbonato → neutraliza acidose metabólica (importante em exercício intenso)
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O Problema da Glutamina Livre (L-Gln)
Metabolismo de Primeira Passagem Intestinal
O que acontece com a L-Gln oral:
- Ingerida → chega ao intestino delgado
- Enterócitos oxidam 50-70% da L-Gln como COMBUSTÍVEL PRÓPRIO antes que ela entre na corrente sanguínea
- Apenas 30-50% da dose oral chega ao plasma
Estabilidade em solução:
- L-Gln em solução aquosa se converte espontaneamente em piroglutamato (inativo) a temperatura ambiente
- "Glutamina degradando no pó": A L-Gln pó é mais estável, mas em solução é instável
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Alanil-Glutamina (Ala-Gln / Dipeptídeo)
Por Que o Dipeptídeo É Superior
Alanil-glutamina = Alanina-Glutamina (dipeptídeo formado pela ligação peptídica entre as duas)
Absorção via PEPT1 (Peptide Transporter 1):
- PEPT1 é um transportador específico para di e tripeptídeos no intestino delgado
- Absorção via PEPT1: Mais rápida que amino ácidos livres (que competem pelo mesmo transportador)
- Crucialmente: Ala-Gln é absorvida INTACTA → entra na circulação como dipeptídeo → hidrolisada no fígado/músculo → glutamina + alanina disponíveis
Resultado:
- Biodisponibilidade de glutamina a partir de Ala-Gln: 2-3× maior que L-Gln livre
- Estabilidade em solução: Alta (dipeptídeo muito mais estável que L-Gln livre)
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Evidências Clínicas
Estudo 1: Ala-Gln vs. L-Gln em Atletas de Endurance
**Hoffman JR et al. (*J Int Soc Sports Nutr*, 2010)**:
- 8 atletas masculinos
- Ala-Gln vs. L-Gln vs. placebo após 1h de exercício intenso
- Resultado: Ala-Gln → maior concentração de glutamina plasmática que L-Gln em todas as medições pós-exercício
Estudo 2: Reposição de Fluidos com Ala-Gln
**Petry ER et al. (*Nutrients*, 2014)**:
- Ala-Gln adicionada a solução reidratante → melhor recuperação de performance e marcadores imunes vs. solução padrão
- Dano intestinal (I-FABP, marker de enterócitos lesados) menor com Ala-Gln
Dado de Síntese Proteica
Alanina é gluconeogênica (precursor de glicose) → fornecida com a glutamina → anticatabólico adicional no pós-treino
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Quando Usar e Doses
Para Atletas de Alta Intensidade
Dose recomendada de Ala-Gln:
- 3-6g/dia (fornece 2-4g de glutamina equivalente + 1-2g de alanina)
- Pós-treino: 3g diluídos em água ou shake proteico
- Antes de dormir: 2g para recuperação intestinal noturna
Versus L-Gln:
- Se usar L-Gln: 10-20g/dia (necessário dose maior por menor biodisponibilidade)
- Em pó seco (não misturado antecipadamente) para evitar degradação
Quem mais se beneficia:
- Atletas com intensidade > 2h/dia (glutamina plasmática cai 30-40% após exercício prolongado)
- Atletas com síntomas de overtraining: Infecções respiratórias frequentes (linfócitos precisam de glutamina)
- Atletas com problemas intestinais (leaky gut, síndrome do intestino irritável)
- Usuários de AINEs (ibuprofeno, diclofenaco): Danificam a barreira intestinal → glutamina repara
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Referências
- Hoffman JR, et al. "Examination of the efficacy of acute L-alanyl-L-glutamine ingestion during hydration stress in endurance exercise." *J Int Soc Sports Nutr.* 2010;7:8.
- Petry ER, et al. "Alanyl-glutamine and glutamine plus alanine supplements improve skeletal redox status in trained rats." *Nutrients.* 2014;6(1):1–8.
- Newsholme P, et al. "Glutamine and glutamate as vital metabolites." *Braz J Med Biol Res.* 2003;36(2):153–163.
- Antonio J, Street C. "Glutamine: a potentially useful supplement for athletes." *Can J Appl Physiol.* 1999;24(1):1–14.
- Cruzat V, et al. "Glutamine: Metabolism and Immune Function, Supplementation and Clinical Translation." *Nutrients.* 2018;10(11):1564.
- Grimble GK. "The significance of peptides in clinical nutrition." *Annu Rev Nutr.* 1994;14:419–447.