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← Blog·Saúde21 de junho de 2026

Adrenomedulina: O Peptídeo Vasodilatador da Adrenal e seu Papel Crítico em Sepse e Pré-Eclâmpsia

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Equipe PeptídeosBio
Equipe Peptídeos Bio
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Adrenomedulina: Descoberta do Acidental ao Vital

Em 1993, pesquisadores japoneses liderados por Kitamura K isolaram um peptídeo vasodilatador de um feocromocitoma humano (tumor adrenal) enquanto procuravam substâncias que elevassem AMPc em plaquetas. O peptídeo foi nomeado adrenomedulina (AM) por sua origem na medula adrenal.

A descoberta revelou-se muito mais importante do que esperado: a AM não é apenas um peptídeo adrenal — é produzida por praticamente todos os tecidos, é fundamental para o desenvolvimento vascular no feto (knockout de AM é letal embrionário em camundongos) e é um dos mediadores mais importantes da resposta à sepse.

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Estrutura e Família

Adrenomedulina humana: 52 aminoácidos com:

  • Anel de 6 aa (Cys16-Cys21) via ponte dissulfeto — N-terminal
  • Amida no C-terminal (necessária para atividade)
  • Homologia estrutural com CGRP, amilina e calcitonina (~25-30%)

Pré-pro-AM → clivagem → AM matura (1-52) + Proregion N-terminal (PAMP — Proadrenomedullin N-terminal 20 peptide):

  • PAMP: Peptídeo de 20 aa com atividade vasodilatadora e simpaticolítica própria
  • MR-proADM (Mid-Regional pro-ADM): Região intermediária do precursor, mais estável no plasma → usado como biomarcador (a AM matura é instável)

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Receptores: CLR + RAMP2/3

A AM age em receptores formados pela combinação do CLR (Calcitonin Receptor-Like Receptor) com RAMP2 ou RAMP3:

  • CLR + RAMP2 = AM1 receptor (alta afinidade para AM, menos CGRP)
  • CLR + RAMP3 = AM2 receptor (afinidade similar para AM e CGRP)
  • CLR + RAMP1 = Receptor de CGRP (alta afinidade para CGRP, menos AM)

Sinalização:

  • Gαs → AMPc → PKA → eNOS → NO → vasodilatação
  • Também PI3K/AKT → sobrevivência endotelial + menos apoptose
  • β-arrestina → ERK1/2 → proliferação

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Ações Biológicas da Adrenomedulina

1. Cardiovascular — Vasodilatação

AM é um potente vasodilatador via múltiplos mecanismos:

  • Células endoteliais: AM → CLR/RAMP2 → Gαs → AMPc → PKA → eNOS → NO → difunde para músculo liso → cGMP → relaxamento
  • Músculo liso vascular: AM → CLR/RAMP2 → AMPc → PKA → hiperpolarização (abertura de Kca) → relaxamento direto
  • Sistêmico: AM infusão em humanos → redução de PA + redução de resistência vascular periférica

Produção em resposta a:

  • Hipóxia: AM fortemente upregulada → vasodilatação compensatória
  • Citoquinas inflamatórias (IL-1β, TNF-α): AM aumentada → parte da resposta adaptativa inflamatória
  • Angiotensina II: Paradoxalmente, Ang II estimula produção de AM (feedback negativo parcial)
  • Estresse de cisalhamento alto: AM aumentada → vasodilatação protetora do endotélio

2. Barreira Vascular — Prevenção de Edema

AM é fundamental para a integridade da barreira endotelial:

  • AM → CLR/RAMP2 nos endotélios → AMPc → PKA → Rac1 GTPase ativada → citoesqueleto de actina cortical → junções aderentes estabilizadas
  • Resultado: Menos extravasamento de fluido e proteínas do vaso → menos edema
  • Em ausência de AM: Edema massivo + aumento de permeabilidade vascular (como na sepse grave)

3. Imunológico — Anti-inflamatório

AM tem efeito anti-inflamatório:

  • Macrófagos: AM → AMPc → PKA → menos NF-κB → menos TNF-α, IL-12, IL-6
  • Endotélio: AM → menos ICAM-1 e VCAM-1 (menos adesão de leucócitos)

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Adrenomedulina na Sepse

A sepse é a principal indicação clínica de interesse em AM:

Fisiopatologia da sepse e AM:

  1. LPS/patógenos → macrófagos → TNF-α, IL-1β, IL-6 massivos
  2. TNF-α → endotélio → menos VE-caderina → mais permeabilidade → edema + "leak syndrome"
  3. AM normalmente protege a barreira → mas na sepse muito grave, AM é insuficiente

AM como biomarcador de sepse:

  • AM plasmática (e mais estável MR-proADM): Elevada em sepse + correlaciona com gravidade
  • MR-proADM > 1,5 nmol/L: Preditor de mortalidade em sepse melhor que PCT isolada
  • PASS-1 Study e outros: MR-proADM melhora estratificação de risco em sepse na emergência

AM terapêutica em sepse:

  • HADMab (adrecizumab — anticorpo anti-AM): Paradoxalmente não bloqueia a AM biologicamente mas forma complexo AM-anticorpo que estabiliza AM na barreira endotelial
  • Estudo APCEPT: Adrecizumab em sepse — melhora de marcadores de permeabilidade vascular
  • Abordagem: "AM chaperona" → mais AM estabilizada → menos vazamento vascular

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Adrenomedulina e Pré-Eclâmpsia

A pré-eclâmpsia (hipertensão gestacional + proteinúria) afeta 5–8% das gestações e é principal causa de mortalidade materna em países desenvolvidos:

Papel da AM na gestação normal:

  • AM muito expressa na placenta + células deciduais + trofoblasto
  • AM fundamental para invasão do trofoblasto e remodelamento das artérias espiraladas (reduz resistência uteroplacentária)
  • AM vasodilatação das artérias maternas: Reduz PA sistêmica (ajuda a tolerar a gestação)

Na pré-eclâmpsia:

  • Invasão defeituosa do trofoblasto → artérias espiraladas não remodeiam adequadamente → alta resistência placentária → hipóxia placentária
  • AM reduzida: Menos vasodilatação → hipertensão + menos vasodilatação na interface materno-fetal
  • sFlt-1/PlGF desbalanceado: Além de AM, sFlt-1 elevado (anti-angiogênico) + PlGF reduzido (pró-angiogênico) = biomarcadores atuais de pré-eclâmpsia

Perspectiva terapêutica em pré-eclâmpsia:

  • AM exógena (baixa dose): Potencial para reduzir hipertensão + melhorar perfusão placentária — estudos em modelos animais
  • Nenhum análogo de AM aprovado para pré-eclâmpsia ainda

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MR-proADM: O Biomarcador Clínico

Como a AM matura é instável no plasma (degrada em ~20 min), o biomarcador clínico utilizado é:

MR-proADM (Mid-Regional pro-Adrenomedullin — resíduos 45-92 do precursor):

  • Estável no plasma por horas → mensurável com ELISA
  • Produzido equimolarmente com AM matura (1:1)
  • Reflete produção de AM tecidual indiretamente

Indicações de dosagem de MR-proADM:

  • Sepse: Estratificação de gravidade + monitoramento
  • Pneumonia: MR-proADM + PSI score → melhor decisão de internação/UTI
  • ICC aguda: Preditor de prognóstico hospitalar
  • Valores de referência: <0,5 nmol/L (normal); >1,5 nmol/L em sepse = alto risco

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Referências

  1. Kitamura K, et al. "Adrenomedullin: a novel hypotensive peptide isolated from human pheochromocytoma." *Biochem Biophys Res Commun.* 1993;192(2):553–560.
  2. Hinson JP, Kapas S, Smith DM. "Adrenomedullin, a multifunctional regulatory peptide." *Endocr Rev.* 2000;21(2):138–167.
  3. Beltowski J, Jamroz A. "Adrenomedullin — what do we know 10 years since its discovery?" *Pol J Pharmacol.* 2004;56(1):5–27.
  4. Müller B, et al. "Diagnostic and prognostic accuracy of procalcitonin, midregional proadrenomedullin, and midregional pro-atrial natriuretic peptide in patients with sepsis." *BMC Infect Dis.* 2007;7:66.
  5. Ushiyama A, et al. "Adrenomedullin in sepsis: basic clinical implications." *J Anesth.* 2012;26(5):754–760.
  6. Makris A, Thornton C, Hennessy A. "Uteroplacental ischemia and placental growth factor in pre-eclampsia." *Clin Exp Pharmacol Physiol.* 2007;34(9):857–863.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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