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Ferritina: o que mede, valores de referência e o que altera o resultado

Reserva de ferro do organismo: desempenho do corte de 30 µg/L, efeito da inflamação e fatores que mudam o resultado.

Conteúdo informativo: não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de um profissional de saúde.

Em resumo

  • A ferritina é a proteína que armazena ferro; o exame mostra quanto ferro o organismo tem guardado. Valor baixo indica reserva reduzida de ferro; valor alto tem várias causas, entre elas inflamação e doença do fígado.
  • Não existe um corte único: nos estudos de uma revisão Cochrane, os limiares propostos para deficiência de ferro foram de 12 a 200 µg/L. Com o corte de 30 µg/L, a sensibilidade foi de 79% e a especificidade de 98% em adultos que procuravam atendimento.
  • A ferritina é uma proteína de fase aguda: infecção, inflamação e obesidade a elevam e podem esconder uma deficiência de ferro.

O que o exame mede

A ferritina é uma proteína que se liga ao ferro e o armazena no organismo. A MedlinePlus explica que o ferro é necessário para fabricar glóbulos vermelhos saudáveis, que levam oxigênio dos pulmões ao resto do corpo, e que também é importante para os músculos, a medula óssea e os órgãos. O exame de ferritina mede a concentração dessa proteína no sangue e mostra quanto ferro está guardado, ao contrário do ferro sérico, que mede o ferro circulando no sangue.

A ferritina circula em pequena quantidade e reflete as reservas. A revisão Cochrane de 2021 resume que a ferritina baixa indica deficiência de ferro e que a ferritina elevada reflete risco de sobrecarga de ferro, mas lembra que ela também é uma proteína de fase aguda, com níveis aumentados na inflamação e na infecção (Garcia-Casal e colaboradores, 2021). Por isso a diretriz da Sociedade Britânica de Hematologia separa os dois lados: ferritina baixa indica sempre reserva reduzida de ferro, enquanto ferritina alta pode ter várias causas (Cullis e colaboradores, 2018).

Como o exame é usado nas diretrizes

A MedlinePlus lista os usos do exame: ajudar a diagnosticar ou descartar condições ligadas ao ferro, como a hemocromatose (excesso de ferro) e a anemia por falta de ferro; avaliar doenças do fígado, onde grande parte da ferritina fica armazenada; acompanhar doenças crônicas que podem alterar o ferro, como doença renal e doenças autoimunes; e verificar reservas baixas antes dos sintomas em quem tem risco aumentado, como pessoas com sangramento menstrual intenso, gestantes, pessoas abaixo do peso e quem absorve mal os alimentos. A ferritina pode vir junto de um grupo de exames de ferro, que inclui ferro sérico, transferrina e capacidade total de ligação do ferro, para que o conjunto seja interpretado em conjunto com os sintomas, a idade e o histórico.

A Organização Mundial da Saúde publicou em 2020 uma diretriz sobre o uso da ferritina para avaliar o estado do ferro em indivíduos e populações. No comunicado de divulgação, descreve a ferritina como indicador das reservas de ferro, baixa nas pessoas com deficiência de ferro e alta nas com sobrecarga, e afirma que a medida exata, junto com a avaliação clínica e laboratorial, orienta as intervenções. A revisão Cochrane conclui que, no corte de 30 µg/L, há evidência de baixa certeza de que a ferritina é razoavelmente sensível e muito específica para deficiência de ferro em pessoas que procuram atendimento, e que não há evidência suficiente sobre o desempenho do exame para rastrear pessoas sem sintomas (Garcia-Casal e colaboradores, 2021).

Valores de referência

Esta página não traz uma faixa de referência por sexo e idade: nenhuma das fontes lidas dá um intervalo geral, e cada laboratório informa o seu no laudo. O que a literatura permite mostrar é como o exame se comporta diante de cortes escolhidos pelos estudos.

Ferritina como teste de deficiência de ferro: resultados da revisão Cochrane de 2021
Grupo avaliadoCorte de ferritinaResultado
Adultos que procuravam atendimento médico (9 estudos, 512 participantes)30 µg/LSensibilidade de 79% (IC 95%: 58 a 91%) e especificidade de 98% (IC 95%: 91 a 100%); evidência de baixa certeza
Adultos que procuravam atendimento médico (63 estudos, 5.042 participantes)Cortes escolhidos por cada estudoLimiares propostos de 12 a 200 µg/L
Adultos da população geral, sem doença aparente (3 estudos)Corte ótimo de cada estudo, que variouSensibilidades de 63% a 100% e especificidades de 92% a 98%; confiança muito baixa

Fonte: Garcia-Casal e colaboradores, 2021 (revisão Cochrane, 108 estudos incluídos; referência: ferro na medula óssea). A ferritina em µg/L equivale a ng/mL. As faixas variam por laboratório e método; use a do seu laudo.

Inflamação e adiposidade em 811 mulheres de 20 a 49 anos (Marrocos)
Grupo pelo índice de massa corporalMulheres com inflamação (PCR acima de 2 mg/L)
Peso normal (IMC abaixo de 25)20,1%
Sobrepeso (IMC de 25 a menos de 30)37,6%
Obesidade (IMC de 30 ou mais)68,4%

Fonte: Gartner e colaboradores, 2013. A ferritina subiu a partir de PCR acima de 2 mg/L; com a correção pelo fator 0,65 derivado da amostra, a prevalência de deficiência de ferro (ferritina abaixo de 15 µg/L) foi de 45,2%, contra 37,2% sem correção. As faixas variam por laboratório e método; use a do seu laudo.

A MedlinePlus informa que o médico pode pedir jejum de 12 horas e que o exame costuma ser feito pela manhã; o ferro sérico varia ao longo do dia e pode ser mais alto de manhã, e em mulheres pode ser menor durante o ciclo menstrual.

Os intervalos de referência também variam com o método. Em um programa de avaliação externa com 38 laboratórios, as diferenças entre métodos passaram do viés aceitável para ferritina, TSH, T4 livre e vitamina B12, e os intervalos de referência diferiram entre procedimentos e até dentro do mesmo procedimento (Kristensen e colaboradores, 2016).

O que pode alterar o resultado

A ferritina reflete as reservas de ferro, mas sobe com situações que não têm relação com o ferro. O que as fontes registram:

  • Inflamação e infecção: a ferritina é uma proteína de fase aguda, com níveis aumentados na inflamação e na infecção (Garcia-Casal e colaboradores, 2021). A MedlinePlus cita infecção ou cirurgia entre as causas de aumento.
  • Obesidade: a inflamação ligada à adiposidade eleva a ferritina e pode fazer a deficiência de ferro passar despercebida. Em 811 mulheres, ignorar a correção subestimou a prevalência de deficiência de ferro (37,2% contra 45,2%), e a diferença cresceu com o grau de adiposidade (Gartner e colaboradores, 2013). A MedlinePlus lista a obesidade entre as condições que elevam a ferritina.
  • Doenças do fígado e dos rins, álcool e síndrome metabólica: a diretriz britânica lista a sobrecarga de ferro, a inflamação, a doença hepática ou renal, a neoplasia e a síndrome metabólica entre as causas de ferritina elevada (Cullis e colaboradores, 2018); a MedlinePlus cita também o transtorno por uso de álcool e o hipertireoidismo.
  • Medicamentos: a MedlinePlus informa que certos medicamentos podem reduzir ou aumentar a ferritina.
  • Método do laboratório: as diferenças entre métodos e entre intervalos de referência são documentadas para a ferritina (Kristensen e colaboradores, 2016).
  • Preparo: a MedlinePlus registra que o médico pode pedir jejum de 12 horas e coleta pela manhã.

Quando procurar um médico

A ferritina não faz diagnóstico sozinha: o médico a lê com a hemoglobina, a saturação da transferrina, os sintomas e o histórico. Segundo as fontes citadas, a avaliação médica é o caminho nestas situações:

  • Ferritina baixa: a diretriz britânica afirma que valores baixos indicam sempre reserva reduzida de ferro. Em adultos com anemia por falta de ferro, cerca de um terço dos homens e das mulheres após a menopausa tem uma anormalidade de base, na maioria das vezes no trato gastrointestinal, e por isso a diretriz trata o achado como indicação de investigação da causa (Snook e colaboradores, 2021).
  • Ferritina alta sem explicação: o exame considerado chave na investigação de uma ferritina alta inesperada é a saturação da transferrina, e a causa pode ser sobrecarga de ferro, inflamação, doença do fígado ou dos rins, entre outras (Cullis e colaboradores, 2018).
  • Sintomas descritos pela MedlinePlus: falta de ar, fraqueza ou cansaço, tontura, batimentos irregulares e pele pálida podem acompanhar o ferro baixo; fraqueza, dor nas articulações, dor abdominal e mudança na cor da pele (cinza, metálica ou bronzeada) podem acompanhar o ferro alto. Os sintomas variam e o ferro baixo pode não dar sintomas até ficar muito baixo.
  • Resultado fora da faixa do laudo: a MedlinePlus lembra que um resultado anormal nem sempre indica uma condição que precise de tratamento e que dúvidas sobre o resultado são tema para o profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Qual é o valor normal da ferritina?

Não há um valor único. Os estudos de uma revisão Cochrane propuseram cortes de 12 a 200 µg/L para deficiência de ferro, e o corte de 30 µg/L teve sensibilidade de 79% e especificidade de 98% em adultos que procuravam atendimento médico (Garcia-Casal e colaboradores, 2021). O laudo traz a faixa do método do seu laboratório, e o médico interpreta o resultado.

Ferritina alta significa excesso de ferro?

Nem sempre. A ferritina é uma proteína de fase aguda e sobe na inflamação e na infecção; a MedlinePlus lista também obesidade, doença do fígado e uso de álcool entre as causas de ferritina alta, além do excesso de ferro. A diretriz britânica indica a saturação da transferrina como o exame-chave para investigar uma ferritina alta inesperada (Cullis e colaboradores, 2018).

A obesidade ou a inflamação mudam a ferritina?

Sim. Em um estudo com 811 mulheres, a inflamação (PCR acima de 2 mg/L) foi mais frequente com o aumento do IMC e elevou a ferritina; sem a correção, a deficiência de ferro foi subestimada, com a diferença crescendo conforme a adiposidade (Gartner e colaboradores, 2013). O médico pode combinar a ferritina com outros exames para interpretar esse efeito.

Referências

  1. Garcia-Casal MN, Pasricha SR, Martinez RX, Lopez-Perez L, Peña-Rosas JP. Serum or plasma ferritin concentration as an index of iron deficiency and overload. Cochrane Database Syst Rev. 2021;5(5):CD011817. doi:10.1002/14651858.CD011817.pub2 PubMed 34028001
  2. Cullis JO, Fitzsimons EJ, Griffiths WJ, Tsochatzis E, Thomas DW. Investigation and management of a raised serum ferritin. Br J Haematol. 2018;181(3):331-340. doi:10.1111/bjh.15166 PubMed 29672840
  3. Gartner A, Berger J, Bour A, et al. Assessment of iron deficiency in the context of the obesity epidemic: importance of correcting serum ferritin concentrations for inflammation. Am J Clin Nutr. 2013;98(3):821-826. doi:10.3945/ajcn.112.054551 PubMed 23885047
  4. Snook J, Bhala N, Beales ILP, et al. British Society of Gastroenterology guidelines for the management of iron deficiency anaemia in adults. Gut. 2021;70(11):2030-2051. doi:10.1136/gutjnl-2021-325210 PubMed 34497146
  5. Kristensen GB, Rustad P, Berg JP, Aakre KM. Analytical Bias Exceeding Desirable Quality Goal in 4 out of 5 Common Immunoassays: Results of a Native Single Serum Sample External Quality Assessment Program for Cobalamin, Folate, Ferritin, Thyroid-Stimulating Hormone, and Free T4 Analyses. Clin Chem. 2016;62(9):1255-1263. doi:10.1373/clinchem.2016.258962 PubMed 27384539

Fontes oficiais consultadas

  • MedlinePlus (NIH/NLM). Ferritin Blood Test (atualizada em 18/03/2025). Abrir a fonte (lida em 26/10/2026).
  • MedlinePlus (NIH/NLM). Iron Tests (atualizada em 10/04/2024). Abrir a fonte (lida em 26/10/2026).
  • Organização Mundial da Saúde. WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations (2020). Abrir a fonte (lida em 26/10/2026).

Outros exames

Conteúdo informativo, elaborado a partir das diretrizes e dos artigos científicos citados. Não é laudo, diagnóstico nem orientação de conduta. As faixas de referência variam por laboratório, método, idade e sexo: use sempre a faixa impressa no seu laudo. Quem interpreta o resultado é o médico que conhece o seu histórico. Não use este texto para iniciar, suspender ou ajustar tratamentos.

Texto elaborado pela equipe editorial a partir das fontes citadas, que foram conferidas em 26/10/2026; revisão clínica por profissional: pendente. Próxima revisão editorial prevista: 24/04/2027. Encontrou um erro? Use o link "Contato e correções" abaixo.